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Contribuição para a história da participação dos imigrantes espanhóis nas lutas operárias de Sorocaba, na primeira metade do Século XX.

 

Adalberto Coutinho de Araújo Neto, 1997

 

 Primeiras Palavras

 

             Em Sorocaba, como nas demais cidades brasileiras, as primeiras organizações operárias partiram da iniciativa de estrangeiros, principalmente de origem italiana. Em Sorocaba podemos colocar como exemplo a “Societá Operáia Italiana Umberto I”, fundada em outubro de 1885. Porém, nesse período as sociedades operárias ainda eram frágeis e inoperantes, sendo muito mais uniões de caráter de nacionalidades, que propriamente classistas, pelo próprio fato do proletariado brasileiro ainda não estar completamente formado.

             Será a partir de 1897, que surgirão as primeiras sociedades operárias de caráter ideológico e realmente operantes em Sorocaba, desta vez com participação decisiva dos brasileiros. Contudo, não podemos deixar de notar a forte militância e influência dos ditos estrangeiros no início do movimento em Sorocaba. No período de predominância do anarquismo como ideologia norteadora principal do operariado organizado da cidade, italianos e espanhóis desempenham papéis relevantes na militância. Quanto aos últimos, pode ser destacada sua participação com traços bastante originais que lhes eram típicos tais como: espontaneidade; paixão e alegria. Sua participação nas fábricas seguia, em princípio a conveniência de localização, trabalhavam e, consequentemente militavam em grande quantidade e intensidade nas fábricas próximas de sua colônia, o Além Ponte.

 

Formação da Colônia e o Cotidiano Operário

 

            A ocupação dessa parte da cidade pelos espanhóis começa aproximadamente na última década do séc. XIX e prossegue por toda 1ª metade do séc. XX, tendo seus pontos mais altos no começo do século e na década de 30 em virtude da chegada das grandes levas que deixavam a Espanha em virtude das guerras no Norte da África (Marrocos - Guerra do Rif) e da Guerra Civil Espanhola, segundo o jornalista Sérgio Coelho:

           

“A imigração das famílias espanholas a Sorocaba segue em sua maioria, um clichê sem alterações: chegada a Santos, encaminhamento para sua fazenda de café [à qual eram designados] e êxodo para centros industriais, dando-se maior preferência a Sorocaba.”[1]

 

            As condições de trabalho nas grandes fazendas de café, para onde eram destinados inicialmente a maioria dos imigrantes europeus dos países do Sul da Europa, eram péssimas, não incentivando dessa forma a permanência desses contingentes de trabalhadores por muito tempo. Dentro do conjunto das más condições e relações de trabalho estão relacionadas: tensão nas relações entre trabalhadores e patrões; baixos salários anuais; obrigações tais como comprar os artigos para manutenção pessoal e da família em armazéns exclusivos dentro das fazendas; etc. Vencido o tempo de contrato; por demissões ou mesmo através do expediente das fugas, os trabalhadores e suas famílias abandonavam as fazendas e procuravam outras fazendas ou  centros urbanos maiores.

            Nos centros urbanos, era comum, de início, que parte das atividades econômicas das famílias fosse dedicada às práticas agrícolas ou comerciais e, outra, ao trabalho operário nas fábricas no caso de Sorocaba, têxteis.

            Como relata ainda o jornalista Sérgio Coelho:

 

“(...) sobreviveu [a colônia] plantando cebola, colhendo laranjas ou cultivando pequenas hortas no alto dos morros, na Caputera e em Brigadeiro Tobias para o sustento da família. A prática mais usual era o pai espanhol na lavoura ou no comércio de frutas e legumes, enquanto as mulheres e filhos já se encaminhavam para a indústria - Votorantim, Santa Maria ou Estamparia.”[2]

 

            Podemos notar a partir desse trecho, a proletarização da família imigrante em grande escala, pois em geral, dos muitos filhos, apenas um assumia a continuidade dos trabalhos agrícolas do pai, ou com maior freqüência, vendia a pequena propriedade e se dedicava a algum pequeno comércio (bares; quitandas; etc.). O restante da família e de seus descendentes continuavam como empregados assalariados nas indústrias e comércio da cidade.

            Quando a indústria começa a tomar vulto, irá simultaneamente a atrair para perto de si seus operários. Faz, através do uso de convencimentos, induções e mesmo obrigações, que seus operários morem em casas de sua propriedade construídas para esse fim, são as vilas operárias. Segundo a historiadora Maria Auxiliadora G. Decca: “Vilas operárias de propriedade de indústrias, que ofereciam algumas ‘vantagens’ maiores aos operários ali residentes (...), eram mais freqüentes no interior que na capital do Estado, até meados da década de 30”(Decca, 1987, p. 60):

           

“No interior paulista várias indústrias haviam sido construídas longe de povoações ou municípios, necessitando por isso erguer vilas operárias para moradia de seus trabalhadores. Com o fito de fixar o operariado junto à fábrica, os industriais (na maioria grandes industriais) ofereciam à força de trabalho algumas facilidades, para que ela permanecesse na produção e não optasse pelo caminho da capital.”

 

            Esta historiadora cita ainda o caso da Fábrica Votorantim, com sua enorme vila operária (que deu origem ao município hoje existente), “servida” até por uma linha férrea específica que ligava o distrito a Sorocaba e à Estrada de Ferro Sorocabana.

            Segundo um antigo contramestre da Fábrica Santa Maria, onde trabalhavam muitos estrangeiros e seus filhos:

 

“(...) Os operários moravam nas casinhas da Vila, construídas nas ruas Manoel Lopes e Campo Salles. Já os mais graduados (...), mestres de oficina e outros, moravam em casas na rua Santa Maria. Todos pagavam             aluguel.”[3]

 

            Como a vila citada ficava dentro da região onde localizava-se a colônia espanhola, podemos apreender alguns aspectos importantes da socialização pela qual passavam os operários da época, que terão presente uma relação direta com o capital, mesmo em suas horas de folga, pois muitos moravam em casas de seus patrões.

 

A Militância

 

            Será dentro das indústrias, em contato direto com as relações entre trabalho e capital, que uma parte pequena, porém expressiva, desse contingente populacional porá em uso dois outros itens que, em grande parte dos casos, imigraram junto com os espanhóis para o Brasil: o anarquismo e o anarcossindicalismo. “Ideologias e formas de organização trazidas nas ‘malas’ dos imigrantes,” são “semeadas por todos os núcleos, difundidas por todos os cantos.”(Carone, 1989, pp. 28-29).

            O anarquismo principiou penetrar na Espanha por volta da década de 70 do séc. XIX, através da militância de bakuninianos e proudhonianos que para lá foram, ou ainda através do contato que os espanhóis tiveram com anarquistas franceses e outros, nos grandes congressos operários que eram realizados com freqüência e entusiasmo por essa época. Inicialmente, esse conjunto de idéias correspondia aos anseios das massas de um país semi agrário, dominado por uma nobreza agrária e burguesia comercial altamente conservadora. A estagnação econômica interna do país; a estrutura rural e o desmantelamento final do império colonial espanhol que fornecia os poucos recursos econômicos que sustentavam a política econômica obsoleta do país, provocou um ciclo de crises que tornava difícil a vida das camadas empobrecidas da população. Tal situação gerou conflitos sociais graves e abriu um campo fértil para germinação de revoltas e aceitação de ideais revolucionários. Juntamente com esta situação interna caótica e uma nova tentativa colonialista no Norte da África, que resultou em combates sangrentos e custosos em vidas para a Espanha, incentivou a imigração para outros países.

            No Brasil, quando inseridos dentro das relações capitalistas de produção nas fábricas e em contato com outros militantes anarquistas brasileiros, espanhóis ou italianos, esses elementos deixam fluir os sentimentos que trouxeram de seus países. Os discursos, atos e “ensinamentos” desses militantes dentro do mundo do operário, bem como a experiência de vida objetiva no âmbito do trabalho fabril, ressoou como eco e ao mesmo tempo como força renovadora e fortalecedora no interior das mentes desses homens, mulheres e crianças. Ainda, além do anarquismo, irão entrar em contato com o anarcossindicalismo, que procurava organizar suas bases na cidade nos anos de 1909 - 12[4].

            Será  com a participação de operários e militantes  de origem estrangeira e, neste caso, também com a forte participação dos espanhóis, que surgirá um forte movimento anarcossindicalista e anarquista no seio do operariado sorocabano. Muitas greves foram deflagradas em praticamente todas as fábricas e oficinas da cidade, que nas duas primeiras décadas do século contavam mais de sete grandes e médias fábricas. Haviam diversos motivos para as greves, desde melhores salários, passando por motivos de desentendimentos entre operários e administração das empresas até por questões ideológicas, como no caso da fábrica Votorantim, onde um grupo de padres beneditinos que visitava o setor da produção da fábrica foi vaiado por operários anticlericais ocasionando demissões e uma malfadada greve na fábrica[5]. Mas, o grande objetivo do operariado em Sorocaba, como em todo o Brasil na época, era a conquista da jornada de trabalho de 8 horas diárias.   

            No início da década de 1930, as lideranças operárias partidárias do corporativismo de Estado tornam-se importantes, principalmente em relação aos ferroviários. Entretanto, os socialistas e comunistas logo assumem a dianteira, deixando num primeiro momento os trabalhistas, também conhecidos popularmente como “pelegos”, para trás. Em meados dos anos 30, ainda existiam expoentes anarquistas atuantes em Sorocaba, mas, sua atuação já estava superada pela militância socialista e comunista que aumentará enormemente na década de 40. As lutas continuaram e o proletariado organizou-se ainda mais.  Da organização anarcossindical e da lutas “puramente econômicas” e individuais, evoluiu-se para a organização político-partidária em conjunto com a organização sindical para a luta política e ocasionalmente eleitoral. Da mesma forma, os imigrantes e seus descendentes aderiram em grande quantidade essa linha de luta proletária mais moderna e organizada.

            Um grande exemplo, dentre muitos outros que não foi possível citar neste trabalho, é dona Salvadora Lopes, filha de imigrantes espanhóis e uma das maiores lideranças operárias na década de 40. À seguir um fragmento do relato de sua primeira participação em greves em Sorocaba:

 

“A fábrica Votorantim estava em greve [1931], sob o comando de Ângelo Vial. Vestindo uma camisa preta, ele estava postado na encosta do morro, ao lado da fábrica, de onde falava aos trabalhadores. Atrás dele, por ordem do comando da greve, reuniram-se crianças operárias, de 12 a 15 anos. A nossa ordem era responder com pedras a qualquer investida da polícia.”

 

            Existem ainda muitos relatos  desta senhora que lutou bravamente no movimento operário sorocabano, e enfrentou 2 prisões por isso.           

            Além da luta direta entre capital e trabalho, podemos citar várias formas com que estes imigrantes se utilizaram para instruir a classe operária por eles composta de acordo com os ideais que acreditavam e pregavam. Estas formas eram: escolas; festas típicas; apresentações de peças teatrais (amadoras) e monólogos tendo por temas questões sociais e políticas.

            Os imigrantes espanhóis e seus descendentes organizaram ainda algumas entidades políticas e pseudo filantrópicas com fins realmente políticos na década de 30. Uma dessas entidades foi o “Centro Republicano Hespanhol” que funcionava no centro da cidade e que foi fechado em dezembro de 1938. Este centro  contava com aproximadamente 300 participantes. No relatório a um jornal, um delegado de polícia afirmou ter apreendido “copioso material de propaganda do credo vermelho”(Martins, 1995, p. 36).

 

A Repressão Política

 

            Durante a ditadura do Estado Novo a repressão política se fez sentir fortemente. E para os estrangeiros residentes (imigrantes) isso representava um grande perigo.  Os regimes fascistas que governavam ditatorialmente Espanha e Itália costumavam condenar com pesadas sentenças penitenciarias e mesmo com execução os militantes e partidários da esquerda como socialistas, anarquistas e comunistas.  Quando estrangeiros eram presos por motivos de agitação política e se comprovavam suas ligações com organizações políticas consideradas de “esquerda”, poderiam ser expulsos do país. Haja visto, existir na época, legislação sobre o tema, como a Lei Adolfo Gordo[6]. Os espanhóis sabiam que se fossem expulsos do Brasil por esses motivos e caíssem nas mãos de autoridades franquistas, poderiam ser fuzilados sumariamente.      

            Um exemplo folclórico desse tempo de repressão foi a “prisão dos espanhóis por agitação política” :

           

“Foi uma besteira . Ninguém agitava, apenas se reuniam de fronte ao bar do Bimbo, na esquina da rua Cel. Nogueira Padilha com o Quinzinho de Barros para contar "causos" da Espanha e discutir política espanhola. Todos eram socialistas e contra Franco. (...) Falavam discutiam, blasfemavam como todo bom espanhol e depois cada um ia para sua casa. Um dia a polícia chegou e levou todos para a cadeia.”[7]

 

            Um dos chamados “revoltosos” que foi preso, Valera, recorda um fato pitoresco:

 

“No meio dos revoltosos estava Lúcio Cego. A polícia não percebeu isso, a não ser quando o grupo chegou na cadeia em São Paulo e o Lúcio andou dando cabeçadas no corredor das celas. Foi trazido de volta,             enquanto os outros chegavam a ficar até 30 dias presos e até ameaçados de deportação.”[8]

 

            As atividades políticas do operariado organizado diminuíram muito durante o período de vigência do Estado Novo, contudo, não cessaram totalmente, havendo sempre alguma militância secreta, e mesmo utilizando-se de uma certa conivência da parte de alguns trabalhistas e disfarçando-se dentro de partes desse grupo. Bastava que militantes menos destacados do movimento operário começassem a militar junto aos getulistas para conseguir espaço. Era relativamente fácil penetrar no meio dos getulistas ou adeptos do trabalhismo corporativista de Estado, pois estes procuravam sempre atrair o proletariado para o seu controle(14). Fica claro aí uma situação contraditória, pois os participantes verdadeiramente progressistas e revolucionários do operariado vão desconfiar  desses elementos; combatê-los, mas serão de uma forma ou de outra beneficiados pela atuação  desses  mesmos elementos. Quanto ao proletariado em geral, estes irão formar as mais variadas opiniões e reações: alguns irão entender a situação; outros, parte substancial dos integrantes “esclarecidos” dentro da classe operária, irão condenar essa atitude e considerá-la “peleguismo”. A maioria porém, irá ficar indiferente as causas e motivos, talvez por não compreender com exatidão as dimensões do problema e das variações políticas pelas quais o país passava; inclusive uma parte será cooptada pelo trabalhismo do governo. Advém daí, em parte, a pretensa unanimidade de apoio operário ao governo do “pai dos pobres”.

            Após as décadas de 1930 e 40 a militância destacada dos imigrantes, em especial dos italianos e espanhóis se dissolve em meio a grande massa dos trabalhadores nacionais. Isso ocorre por dois motivos básicos: 1) a diminuição da corrente imigratória ao país, fato que impede a renovação desses contingentes    e 2) o crescimento vegetativo do proletariado nacional, bem como a integração progressiva dos filhos e mesmo dos imigrantes que chegaram em tenra idade ao país.

            Dessa forma, entrou para a história nacional e, no caso específico desse trabalho, para a história sorocabana, a contribuição indispensável dos imigrantes, principalmente os de origem espanhola, no desenvolvimento da consciência operária e de suas conseqüentes lutas por melhores condições sociais e econômicas.

 

 

FONTES DE PESQUISA:

 

            Jornal “Gazeta do Além Ponte”- Sorocaba, editor responsável: Sérgio Coelho de Oliveira – Museu Histórico Sorocabano

            Jornal “O Operário”- Hemeroteca do Gabinete de Leitura Sorocabano.

            Entrevista com a ex-militante operária, senhora Salvadora Lopes.

 

BIBLIOGRAFIA DE APOIO:

 

            ALMEIDA, Aluísio. História de Sorocaba. Sorocaba: IHGGS, 1969.

 

            CARONE, Edgard. Classes Sociais e Movimento Operário. São Paulo: Ática, 1989.

 

            COSTA, Caio Túlio. O Que é Anarquismo? - S. Paulo: Brasiliense, 1981.

 

            DECCA, Maria Auxiliadora. A Vida Fora das Fábricas - Cotidiano Operário em S. Paulo, 1920-1934. R. de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

 

            _______________________.Cotidiano dos Trabalhadores na República. S. Paulo - 1889 - 1940. S. Paulo; Brasiliense, 1990.

           

            FERREIRA NETO, Edgard Leite. Os Partidos Políticos no Brasil . S. Paulo: Contexto, 2ª ed., 1989.

           

            MARTINS, Milton. Sindicalismo e Relações Trabalhistas. S. Paulo: Editora Ltr, 4.ª edição, 1995.

 

            SFERRA, Giuseppina. Anarquismo e Anarco Sindicalismo. S. Paulo: Ática, 1987. 

 


[1] Gazeta do Além Ponte 10/04/1992.

[2] Idem, ibd.

[3] Gazeta do Além Ponte, 01/05/1992.

[4] Para se poder uma idéia melhor da atuação dos anarco-sindicalistas em Sorocaba, consultar o jornal “O Operário”, existente na hemeroteca do Gabinete de Leitura Sorocabano.

[5] O Operário, 19/11/1911.

[6] Gazeta do Além Ponte 3/11/1991.

[7] Idem, ibd.

[8]“As tensões que antecederam a 1937 pareciam exigir uma manobra de Estado nesse sentido, a de procurar estabelecer a harmonia social não apenas pela polícia mas por medidas de efeito e cooptação política das lideranças trabalhadoras.” Edgard Leite FERREIRA NETO, Os Partidos Políticos no Brasil, p. 67.

 

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