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O samba caipira de Sorocaba

 

                        O saudoso professor e pesquisador do folclore Bene Cleto foi o primeiro a chamar a atenção para essa manifestação folclórica ocorrida em Sorocaba, através de um artigo seu publicado no jornal Cruzeiro do Sul do dia 08 de outubro de 1978. Nomeou, então, de samba da roça ou samba de negro, e informou a ocorrência da mesma manifestação na vizinha cidade de Araçoiaba da Serra, onde era dirigido pelo mestre José Antônio.

                         Em Sorocaba, o samba da roça era cantado e dançado no Bairro do Mato Dentro, zona rural do município. A família Bueno era a detentora do grupo de samba mais famoso do local. João Bueno, conhecido por João Coelho, era então o chefe do grupo. Sorocabano, nasceu no dia 24 de junho de 1913. Afirma Bene Cleto, baseado nos depoimentos dos sambeiros, que as rodas de samba se formavam em torno de uma fogueira, necessário para que o couro dos instrumentos se esticasse e produzisse o eficaz som. “A cantoria se fazia em circulo – uma turma cantava um verso (quadra, trova) e a outra respondia. Era uma espécie de desafio, semelhável ao da cana-verde”.

                         Ao conhecer esse artigo de Bene Cleto (“Sambeiros de Sorocaba”), não pude resistir ao desejo de procurar saber se algum resquício ainda existia do samba no Mato Dentro. Procurei, por isso, o amigo Ariovaldo Mateus de Carvalho, morador há muito daquelas paragens e um conhecedor sem par das histórias, da cultura e do povo da Aparecidinha, Mato Dentro e adjacências. Não foi difícil, com essa ajuda, encontrar o senhor Ataliba Soares, conhecido por Abílio, residente no Mato Dentro e, certamente, o último dos antigos sambeiros de Sorocaba. Antes, procuramos a família Bueno e descobrimos que o samba, sua memória, seus instrumentos... tudo foi perdido. As gerações mais novas nem o conheceram de nome.

                          É preciso lembrar que o samba paulista recebeu substancial atenção de Mário de Andrade, que publicou o livro “O samba-rural paulista”, em que observou o samba de Pirapora, formado por elementos de Sorocaba e de Botucatu. Também em Quadra, cidade próxima a Tatuí, existe um grupo de sambeiros registrado sonoramente por Adilene Ferreira Carvalho Cavalheiro no CD “Cantos da Terra”, por ela produzido com recursos da LINC (Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba). Com relação e esse último samba, publiquei, no jornal A Tribuna de Sorocaba o artigo “Samba-rural de Quadra”, no dia 21 de maio de 2001.

                          Entrevistamos o senhor Ataliba Soares, com 82 anos de idade, no dia 24 de fevereiro de 2002. Informou que os instrumentos utilizados no samba eram o guaiai (ou guaiá), espécie de chocalho feito com lata de óleo e pedaços de chumbo ou pedras dentro; o pandeiro grande, o bumbo e a caixa (bumbo menor). Feitos com couro de cabra, eram esquentados nas caieiras ou brasidões, fogueiras feitas com lenha. Evitava-se utilizar o couro de animais silvestres como veados na confecção dos instrumentos para não prejudicar o faro dos cachorros veadeiros.

                            O samba era cantado às carreiras, ou seja, alguém cantava um verso e outra pessoa respondia. Dividia-se assim em dois grupos de cantadores (sambeiros). Ataliba confere ao samba o nome “samba caipira”. As carreiras (versos, quadras) eram conhecidas também pelo nome de pontos.

 

 Tenho uma marrequinha

 que mora lá na lagoa

 contando pena por pena

 por isso que ela não voa

 

                          Esse modelo de carreira era decorado e cantado por muitos sambeiros. Ataliba Soares diz que esses versos decorados eram “dos antigos”, querendo assim dizer que os mais velhos sambeiros eram seus compositores. Como essas, decoradas, ele conhece várias outras:

 

Lê, lê,lê,lê, lá

Roseira branca

tira o galho do caminho

quero passar

 tenho medo do espinho.

 

                          Ou então:

 

Maria, minha Maria

Maria, minha muié

eu quero subir no céu

pra linha de carretér

 

Vou mandar fazer uma barca

da raiz do fedegoso

 pra tirar dentinho de ouro

da boca dos invejoso

 

                         E ainda:

 

A cidade de São Roque

é gostoso de abalar

tudo encanado de pedra

 quero ver o vento levar

 

                         Por fim:

 

 Alecrim tem doze folhas

manjerone[1] dezesseis

 me namore com firmeza

 ou me largue de uma vez.

 

                          No entanto, o comum no samba era o repente, fazer versos de improviso, “na hora, na idéia, não era treinado”, nas palavras do sambeiro Abílio.

                          Cantado em festas, excluindo os casamentos em que tocavam os sanfoneiros espanhóis, o samba era conhecido por samba de roça, samba caipira ou simplesmente samba. No samba, as mulheres participavam somente dançando, dança essa separada e não aos pares. Os sambeiros mais velhos eram conhecidos por “donos do samba” e eram responsáveis pelo divertimento da comunidade, eis que “aonde o samba estivesse acabava qualquer outro divertimento, porque a força do som que produz cala qualquer instrumento”, como afirmou o sambeiro Ataliba Soares, o Abílio do Mato Dentro.

 

                              Carlos Carvalho Cavalheiro.

                              09.02.2003.

 

                               


 

[1] Provavelmente, corruptela de manjerona.

 

 

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