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A Onça Emplumada

 

                                    Não é de meu gosto contar as histórias que testemunhei com estas duas vistas apadrinhadas das bênçãos de Santa Luzia, porque, não são raras as vezes em que percebo nascer do canto da boca do ouvinte, como sol do fim da madrugada, fininho, dissimulado, um risinho de desconfiança da veracidade do caso. Culpa tenho se enfrento o mundo sem medo? Se arrebento no peito a porteira de ferro do casarão do desconhecido, do misterioso?  Agora, acovardam-se todos. Não saem de casa quando a lua sobe ao palco por medo de esbarrar em saci e lobisomem e não sei mais o quê. Não vêem nada, nada sabem. Não conhecem a gota do sereno da madrugada. Como podem duvidar, então, da palavra de um homem que desconhece o que seja o medo, que enfrenta tudo e qualquer canto onde se esconda o cão satanás e sua corja?

                                        A história é de caçada. ‘Cês conhecem as terras do capão do lado do ribeirão Vermelho? Pois é. Foi lá que eu me meti a caçar perdizes. Acompanhava-me na ocasião o Ruste, meu cachorro. Era tiro pro alto, perdiz no chão e o Ruste trazia entre os dentes a avezinha ainda resfolegando o último suspiro.

                                          O dia estava propício para o caçador. O céu forrado de pequenos pontos pretos que se movimentavam lentamente ao sabor da minha apontaria. E o chumbo comia tanta pena de ave que logo o chão ficou como se fosse um tapete macio. Resolvi até mesmo dar descanso às minhas pestanas que o uso causa o desgaste, já o dizia o meu falecido avô. Aliás, ele dizia bem assim: “Carmelino, meu neto. Saiba de uma verdade: o desuso causa atrofia e o muito uso causa desgaste”. Era o embaixador do comedimento. Tudo, na sua filosofia, deveria ser degustado com moderação. Prazer infindo? Não, o prazer não está em se lambuzar no pote de mel e sim adocicar a boca diariamente com uma gota do néctar. Eu, em minha desídia, preferia outra forma de agir e pensar. Sempre que oportuno lambuzo-me de mel, pois a carne é perecível e não tenho certeza de que apreciarei o odor da próxima primavera.

                                              Bom, como eu dizia, estava roncando debaixo de uma especialíssima sombra fabricada por uma frondosa árvore. Dormia qual num colchão: as penas faziam esse papel.

                                                Durmi não sei dizer o quanto. Sei que acordei assustado com o latido do Ruste, focinho apontado para o capão de mato. Nunca vira o Ruste daquele jeito, rosnando meio’que’com receio de avançar e medo de fugir. De inopino, algo se moveu detrás de uma moita. Engatilhei a espingarda e esperei. Silêncio absoluto, torturador. Era medonha demais da conta aquela espera. Os dedos tremiam, não de pavor, mas de ressalto. Sabem que o ressalto faz a gente acelerar a batida do coração e isso dá uma tremedeira maior que a de minhoca tirada à enxada.

                                                  Prendi a respiração. Esperei mais um momento. Aí foi o diabo: junto com o barulho das folhagens seguiu-se um bramido. Era uma onça!

                                                   – Peraí, num tem onça naquelas bandas, sô!

                                                   – Calma, home. Eu já termino o causo e cê faça o juízo despois. Como eu falava, era um urro de onça que esse eu conheço bem como a voz da minha finada mãe. Tem mais: conheço o miado da onça e o assovio do saci. Com esses eu não me equivoco. Pois a bicha ameaçava avançar e num só bote acabar com Carmelino e Ruste numa só bocada. Então foi que apontei para a moita e atirei. Um estrondo que fez voar toda a passarada do local. Novamente, silêncio. A onça já era, pensei. Qual nada. O barulho do mato voltou e o bramido também. Fui carregar a arma, mas cadê chumbo? Tinha acabado tudo com a caça das perdizes. O movimento das folhas do mato foi dando a impressão de que a onça se aproximava. E urrava brava, parecia que tinha se enfurecido com o tiro dado. Olhei o Ruste que encolhido se preparava para a retirada. Fui na mesma carreira. Abandonei até o ‘bornal com as perdizes. E a onça correndo, vindo, aproximando. Eu sabia porque a ouvia bem próximo a mim. De repente, ouvi como se a onça pulasse sobre mim. Era o meu fim. Joguei-me ao chão esperando o pior. A onça passou por mim e foi embora. Levantei-me, olhei para os lados. Ruste latia, apontando para o galho de uma árvore. Lá estava um papagaio que bramia imitando uma onça! ‘Cês imaginaram? O papagaio ouvia o bramido da onça e imitava o som. Não é fabuloso?

                                           – Me desculpe a franqueza, mas é fabuloso até demais. Se eu já tinha lhe dito que não existe onça naquelas paragens, como é que o papagaio ouvia o miado de uma para poder imitá-la?

                                            – Pois, é. Eu pensei o mesmo naquela hora. Por isso, fiz’que’fiz até capturei o bichinho e levei para o doutor Lourenço, o veterinário lá do zoológico. Queria que ele solucionasse o mistério. E não é que solucionou? Assim que cheguei no zoológico, percebi que o papagaio se remexia, todo incomodado. Quando viu o doutor foi logo falando: “Currupaco, lá vem o homem do avental”. Eram conhecidos de tempos. Não é que o danado do papagaio havia fugido do zoológico!

 

                                                

                                                            

                                 Carlos Carvalho Cavalheiro – 08.02.2002.

 

 

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