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Nos passos da Folia de Reis

 

                                            O fato que intriga quem se dispõe a desvendar os mistérios do culto aos Reis Magos (ou Três Reis Santos, ou ainda Santos Reis) é o quanto essa devoção cresceu e se desenvolveu em torno de um relato parcimonioso de um dos quatro evangelistas, Mateus, a saber; o qual em poucos versículos conta a saga dos enigmáticos personagens. Como, com tão poucas informações, pode se criar um culto devocional de tamanhas proporções e de tão complexos ritos? Nenhum outro evangelista se dispôs a escrever sobre os Santos Reis. Isso até é explicável quando se recorda que o evangelho de Mateus tem por preferência de público os judeus (Mears, 1997). Assim, o relato da visita dos Reis Magos (os quais Mateus nomeia apenas de Magos do Oriente) acaba sendo uma inferência para o cumprimento da profecia descrita no Salmo 72:10-11[1] e assim provar aos judeus que Jesus Cristo era o esperado Messias das profecias. Como o escopo dos outros evangelhos era a conversão dos povos gentios, não havia a necessidade de se apegar ao cumprimento de profecias que diziam respeito apenas aos judeus. No entanto, uma narrativa que não encontra eco e nem respaldo em qualquer outro evangelho (e mesmo em todo o Novo Testamento) acabou por criar, no imaginário popular, uma das mais profusas venerações catolicistas.

                                              As lacunas deixadas pelo texto bíblico foram supridas pela tradição oral e os relatos apócrifos. A antiga Pérsia parece ser a procedência desses personagens, pois que os sacerdotes persas eram chamados de magos. Porém, a palavra oriente, naquela época, poderia significar tanto a Arábia, como a Mesopotâmia, a Babilônia ou a Pérsia. A tradição oral posterior ainda levantou a hipótese de que viessem da Grécia (Europa), da Índia (Ásia) e do Egito (África), representando os três continentes conhecidos.

                                              Uma antiga tradição diz que os Magos são provenientes de Tarsis (Melchior), Arábia (Gaspar) e Etiópia (Baltazar) e descendentes diretos de Job. "Devido à sucessão de gerações e como resultante da natural miscigenação, é que os Magos sendo parentes, mas que viveram em regiões diferentes, possuíam cor epidérmica diversa”.(Calafiori, 1993).

                                               Acredita-se que os Magos do Oriente eram três em número, devido ao número de presentes dados: ouro, incenso e mirra. Para os Padres da Igreja simbolizavam a realeza (o ouro), a divindade (o incenso) e a paixão (a mirra) de Cristo.  Quanto aos nomes, chegou-nos como sendo Gaspar, Melchior (ou Belchior) e Baltazar (ou Baltasar). O "Dicionário Enciclopédico da Bíblia" (op.cit.) diz que esses nomes são mencionados somente a partir do século VIII. As histórias orais dizem que os magos foram depois batizados por Tomé. Encontramos na obra do prof. Rosário Farâni Mansur Guérios [2] a etimologia dos supostos nomes dos magos: Gaspar, persa: Kandswar: "tesoureiro"? ; Baltazar, assírio-babil., "o deus Baal" projeta (shar) o rei (usur); e Melquior, hebr. Malkiur: "meu (i) rei (malk) é luz (ur)".

                                              A devoção aos "Santos Reis Magos" parece existir desde o cristianismo primitivo. Foram eles, segundo a própria Bíblia, quem primeiro adoraram ao Cristo, quem reconheceram a sua divindade. O padre Ricardo Dias Neto, doutor em Teologia, afirma que nas catacumbas romanas, local em que os cristãos primitivos fugiam das perseguições de Roma, existiam inscrições, representando os magos. Nessas gravuras os magos estariam representados com chapéu típico dos persas.[3]

                                             A Festa da Epifania (Revelação ou ainda amanhecer da luz do dia) realizada em 06 de janeiro era, originalmente, uma comemoração de vários fatos relativos a Cristo e, em especial, a revelação de sua divindade ao mundo pagão. Após, a data tornou-se especificamente como Festa de Reis Magos, pois estes foram, em tese, os primeiros a revelar a divindade de Cristo para o mundo.

                                           Baseando-se na tradição oral, mais uma vez, encontramos relatos sobre a descoberta, no século IV, dos ossos dos magos, transferidos para a Igreja de Santa Sofia, em Constantinopla. Posteriormente, para Milão e, no século XII, mais precisamente o ano de 1164, para a cidade de Colônia, por intermédio de Frederico Barbarossa, para serem depositados numa arca (relicário) de ouro, na Catedral de Colônia (Köln), Alemanha. Na própria Catedral, pode-se ver, outrossim, vitrais representando os reis magos, datados de 1310. Por questões óbvias, os Reis Magos foram eleitos patronos da cidade de Colônia[4].

                                                     Câmara Cascudo ("Dicionário do Folclore Brasileiro") diz que no século XVI "inicia-se a dramatização com canto e dança, recebendo contribuição dos cantos populares e a produção literária anônima em louvação ao Divino Natal".

                                                   O certo é que a figura dos Reis Magos acompanha o Brasil desde sua colonização: o Forte dos Reis Magos, em Natal (RN), foi fundado em 06 de janeiro de 1598. Além disso, é óbvio que a catequização dos índios pelos jesuítas tinha melhores resultados quando estes utilizavam os recursos da imagem. Como melhor explicar, então, para os índios sobre o nascimento de Jesus do que utilizando o presépio? E no presépio está implícita a figura dos Reis Magos.

                                                  A devoção foi uma conseqüência. Com o nome de Folia existe no Brasil um grande número de grupos devocionais dos santos católicos: São Benedito, São José, Divino Espírito Santo e Santos Reis. Em Portugal, segundo Câmara Cascudo, folia era uma dança rápida ao som do pandeiro ou adufe. Com o passar do tempo foi se modificando e hoje tem características próprias.

                                                   Geralmente as Folias cantam em devoção aos santos, louvando e pedindo auxílio para a Festa do padroeiro. Folia de Reis, portanto, é um grupo de pessoas que tem devoção aos Santos Reis (os Reis Magos que visitaram o Menino Jesus) e saem durante o período do Natal cantando nas casas e pedindo ofertas para a realização da Festa de Santos Reis no dia 06 de janeiro.

                                                     Cada Folia tem a sua tradição, de acordo com a região, com os ensinamentos passados de geração para geração, com a forma de entendimento de cada mestre ou embaixador (aquele que lidera uma Folia). Portanto, não se pode afirmar que uma Folia de Reis tem que ter um exato número de foliões, de instrumentos musicais, de cor de roupas ou bandeiras, que deve saber declamar um verso específico etc... Cada Folia tem a sua peculiaridade.

                                                      A de Sorocaba, por exemplo, costuma apresentar-se como Companhia de Santos Reis, evitando o nome folia, termo que hoje em dia, pela semântica, é associado à farra, baderna. Outras regiões utilizam nomes como Terno de Folia de Reis, Reisado, Folia de Santos Reis, Terno de Reis entre outros.

                                                        A Companhia de Santos Reis de Sorocaba é formada basicamente por migrantes paranaenses e mineiros, muito embora haja também paulistas. As Folias carregam a bandeira que é o símbolo de sua devoção, sua guia. A bandeira segue a frente do grupo. Os instrumentos musicais da Companhia de Santos Reis de Sorocaba são os seguintes: violas, violões, pandeiros, caixas. As violas e violões são enfeitados com fitas coloridas.

                                                         Em Sorocaba, a Companhia de Santos Reis varia de 15 a 20 componentes. Alguns estão desde a fundação como o senhor José Coppi, Eva Borges de Andrade, José Pedro da Fonseca (Zé Mineiro), Maria Cândida da Fonseca, Carmelino de Oliveira, Ercílio Nazário, Izaltino Alves Moreira. Outros são componentes variantes que participam um ou mais anos e acabam abandonando a Companhia. A maioria das vezes em que isso ocorre deve-se ao fato do trabalho ser incompatível com as funções na Companhia.

                                                          A Companhia está assim dividida:

Embaixador (em outras companhias recebe também o nome de Mestre, Capitão, Gerente ou Chefe) – é quem puxa as cantorias e lidera o grupo. O embaixador deve conhecer as tradições e toadas de Folias de Reis. Existem ocasiões que exigem do embaixador esses conhecimentos. O senhor José Coppi, embaixador da Companhia de Sorocaba, conta sempre que houve situações em que a energia ambiental de uma casa era tão negativa que os instrumentos musicais da Folia se desafinavam sozinhos. Quando saiam daquele local os instrumentos voltavam à afinação. A Companhia conseguiu cantar graças aos conhecimentos do embaixador, o qual cantou uma toada especial para “quebrar” a sintonia daquele negativismo.

Contra-mestre – é a segunda voz, acompanhando a do embaixador.

Bandeireira – é quem carrega a bandeira, a guia da Companhia.

Bastião (chamados em outras folias de palhaços, alferes, mascarados, Mateus, Morongo, Marengo, Pastorinhos, Malungos) – são os mascarados, vestidos com roupas coloridas e segurando em suas mãos a espada (confeccionada em madeira). Há muitas histórias que explicam o surgimento desses personagens. A mais comum é a que eram espias de Herodes que seguiram os Magos para encontrar o Menino Jesus e matá-lo. Ao encontrarem o Menino acabaram se convertendo. Com receio de serem mortos por Herodes, vestiram uma máscara e viajaram com os Santos Reis. Iam à frente, fazendo graça e micagens para que Herodes não desconfiasse que eram soldados. Na Companhia de Sorocaba há dois ou três desses personagens, dependendo do ano. É o Bastião quem recolhe as ofertas, anuncia a chegada da bandeira nas casas, pergunta se o dono da casa aceita a visita, descobre as ofertas escondidas, “quebra os atrapalhos” (gestos ou cerimoniais tradicionais feitos por quem conhece a tradição com intuito de testar os conhecimentos da Companhia ou mesmo segura-la por mais tempo na sua presença. Um exemplo é o cruzeiro de rosas, confeccionado no chão, em frente à porta de entrada. A Companhia não pode entrar no local sem que o Bastião pronuncie alguns versos “secretos” para quebrar aquele encanto. Se o Bastião não souber os versos, cabe ao embaixador essa tarefa). No site da UNICAMP (www.unicamp.br/folclore) há a informação de que os “palhaços” representariam o mal. “Segundo explicação dos próprios foliões, os mascarados representam o mal, sendo a concretização dos soldados de Herodes ou do próprio demônio.   Com essa vinculação ao mal, os palhaços seriam impedidos de tocar a bandeira sagrada da Folia, nunca podendo ficar à sua frente no cortejo.   Há outras interdições para os palhaços, como a impossibilidade de se aproximarem do presépio ou, em alguns casos, de só entrarem na casa visitada após os cantos finais, ainda assim retirando as máscaras”. Apesar da Companhia de Reis de Sorocaba também reconhecer que exista uma estreita relação entre o Bastião e a representação do mal, esse personagem tem papel fundamental no grupo, não existindo para ele as restrições acima observadas (não se aproximar do presépio, não tocar a bandeira etc...). Ao contrário, a louvação ao presépio, em forma de profecia recitada, cabe, na maioria das vezes, justamente ao Bastião.  

Apontador de prendas – anota todas as ofertas recebidas em um caderno.

Foliões – o restante da Companhia, dividido por vozes (quinta, contra-tala, tala, requinta...) e instrumentos musicais.

                                                  Ao contrário de algumas outras Companhias, a de Sorocaba tem em seu corpo a presença, cada vez mais marcante, de mulheres. Em outras regiões brasileiras é comum nas Folias a presença de pessoas caracterizadas de Reis Magos como personagens do grupo.   

                                                  Não encontramos registros históricos acerca da existência de outras Folias de Reis em Sorocaba. Parece ser um costume não muito comum na cidade. Entretanto, a data de 06 de janeiro sempre foi comemorada, como a data da Epifania ou mesmo como comemoração ao dia de São Benedito pela sua Irmandade.

                                               Na década de 1930 encontramos notícia da existência de um grupo de “Pastorinhas” em Sorocaba que se apresentaram no dia 05 e 06 janeiro. As Pastorinhas são grupos femininos, geralmente de meninas (muito embora haja grupos de jovens e de senhoras adultas), e que cantam o nascimento de Jesus em casas de famílias.

                                               O jornal Cruzeiro do Sul noticiou assim:

 

Santos Reis

Com esse nome, e também com o de Epiphania, a Igreja offerece aos fiéis, amanhã, a primeira das grandes festas do anno christão, iniciado no Natal. Três manifestações do Filho de Deus são marcadas nesta data: no baptismo, nas bodas de Caná e aos magos.

O dia é santificado de guarda, havendo missas consoante o horário dos domingos. No evangelho (Math. II), narra-se que uma grande estrella conduziu os reis Gaspar, Balthasar e Melchior ao presepe, onde acharam o Menino com sua mãe Maria, e o adoraram.

“As Pastorinhas”

Sob a direção do sr. Heitor Nunes e esposa d. Cassilda Nunes exhibe-se hoje, ás 20 horas, na Liga Catholica, o grupo das pastorinhas, engraçado conjunto infantil que reproduz interessantes costumes do Natal no norte brasileiro. A entrada é franca.

(Cruzeiro do Sul - quinta-feira, 05.01.1933 – exemplar nº 7771 – 1ª página.).

 

Duas edições posteriores, na de número 7773, primeira página, no dia 09 de janeiro de 1933, o Cruzeiro do Sul voltou a noticiar sobre o grupo de Pastorinhas da cidade de Sorocaba. Foi esta a matéria que encontramos publicada:

 

“As Pastorinhas”

 

Reproduziu-se com muito agrado, na véspera de Reis, na Liga Cathólica, onde se achavam muitas famílias, a exhibição das pastorinhas, engraçado grupo typico infantil, á moda dos que se apresentam no norte do paiz nos dias de festa de fim de anno. Como da primeira vez, o conjunto estava bem ordenado e ensaiado pelo sr. Heitor Nunes e esposa d. Cassilda Nunes, a quem devemos o bello espectáculo. As pastorinhas eram Jean Worthington (anjo), Walter Carneiro (pastor), Clarisse Lobo (pastora mestra), Mercedes Carneiro (florista); Lady Mestre (Saloia), Nilza Carneiro (cigana), Lourdes Argento (religião), Iracema Leite (cabocla), Maurício Affonso e Rosalina Rosa (galegos), Annita e Affonso (zabumba), além de muitas pastoras comparsas. Os números estavam bem musicados, sob a regência do sr. Antonio Domingues dos Santos.

Houve variedade final.

            

                                                    A origem da Companhia de Santos Reis de Vila Formosa, em Sorocaba, é recente. Começou em 1990, quando o senhor José Coppi, embaixador (mestre) da Companhia, recebeu uma carta convite do senhor Benedito Parisi e do senhor Tarcísio Amaro para organizarem aqui nesta cidade uma Companhia de Reis.

                                                    O convite foi logo aceito. Organizou-se então a Companhia de Santos Reis[5] de Vila Formosa. O senhor José Coppi, nessa época, já não mais residia na Vila Formosa e sim na Vila Angélica. Entretanto, como a maioria dos foliões reside na Vila Formosa e por ser ali a sede da Festa de Chegada de Reis, convencionou-se a denominar, aliás, com muita propriedade, Companhia de Santos Reis de Vila Formosa.

                                                   José Coppi, folião desde 1965, anteriormente embaixador no Paraná, utilizou mais uma vez a sua experiência para conduzir em Sorocaba / SP a nova Companhia que estava se formando.

                                                   Os personagens da Companhia são: o embaixador ou mestre (aquele que puxa a cantoria), o contra-mestre, a bandeireira (que carrega o estandarte), o apontador de prendas, os Bastião (conhecidos por palhaços, personagens cômicos que utilizam máscara), e os foliões divididos por vozes (tala, requinta, contra-tala, contra-tipe, baixão...) e instrumentos. A Companhia de Santos Reis de Vila Formosa é composta por cerca de 15 pessoas, divididos em um grupo de oito a seis vozes (nem todos na Companhia cantam).

                                                     Os instrumentos musicais utilizados pelos foliões são: 2 caixas, 1 viola, 3 violões e 1 pandeiro. Os instrumentos de corda são afinados em sol maior.

                                                      A viola e violões são enfeitados com fitas coloridas. Cada fita pode ter um simbolismo. Geralmente as cores que se utilizam são: amarela, cor-de-rosa, azul (que podem simbolizar a Virgem Maria, sendo que a cor-de-rosa também tem por signo os doze apóstolos de Cristo) e branca (o Divino Espírito Santo).

                                                     A bandeira, de pano comum, de cor verde, também é enfeitada com flores de papel crepom e fitas coloridas. Nela está a imagem dos Três Reis Magos e de Nossa Senhora com São José. É costume da população amarrar fitas na bandeira como sinal de devoção ou de cumprimento de promessa. A bandeira fica, assim, mais enfeitada. Os enfeites aumentam mais quando populares prendem na bandeira os ex-votos (fotos, fita, blusinhas ou outros objetos).   

                                                      Esses ex-votos acompanham a bandeira em toda a sua jornada. Ao término desta, então são tirados e jogados em água corrente ou levados até a Aparecida do Norte. Não se pode jogar esses ex-votos em água parada, queimá-los ou guardá-los na casa dos foliões.

                                                        Indubitavelmente os personagens que despertam maior curiosidade são os Bastião. A máscara dele, de couro e pano, imitando barba é realmente inusitado para quem desconhece as folias de Reis. O senhor José Coppi explicou-nos sobre o porquê da máscara dos Bastião: "Eles usa para esconder o rosto para não ser reconhecido. Porque o Herodi saiu e não foi reconhecido. Ele saiu para defender o Deus-Menino, mas... para chegar até onde estava o Deus-Menino ele escondeu o rosto..." "Os Bastião era o Herodi que ia defender o Menino-Deus dos judeus, para livrar da matança”.

                                                     Os Bastião sempre usam uma espada ou facão de madeira. É com ele que defendem a bandeira. Se houver um encontro de bandeiras o Bastião deve defendê-la, então os Bastiões dos dois grupos "cruzam espada, sem dó...".

                                                       Quanto às toadas, as completas (nascimento e padecimento de Cristo) possuem 25 versos, as simples, apenas de louvação e pedido de ofertas para a bandeira são menores, de dez versos e de duração de seis minutos. A forma de cantar as toadas varia de acordo com a sua procedência. A Companhia realiza basicamente três tipos de toadas: a paulista, a baiana e a mineira. A paulista é mais simples, podendo ser realizada com quatro vozes (o embaixador e o contra-mestre, mais duas vozes que respondem em coro), não havendo aquele grito característico de prolongamento de final de verso cantado em resposta. Na baiana e mineira já se faz necessário a equipe completa (mínimo de oito vozes), sendo característica marcante o grito da voz contratala (na Companhia de Santos Reis de Vila Formosa essa voz é feita pela dona Maria Cândida da Fonseca que sustem o grito por cerca de 15 segundos!).

                                                         Há um complexo conjunto de tradições, rituais e místicas que se inserem no universo das Folias de Reis. Reminiscências de culturas cristãs primitivas, pagãs e até mesmo de rituais ameríndios aculturados são mantidos pelos foliões, consciente ou inconscientemente. Muitas dessas tradições são reforçadas pelas histórias orais e interpretações populares (ou complementos) de textos bíblicos.

                                                         Os foliões chamam esse universo de “profecias”. Quando explicam algo, é comum dizerem: “Faz parte das profecias”. Com esse nome designam as passagens da Bíblia (ou de textos que a ela se referem) em versos e aproveitadas nas toadas ou declamações (louvação ao presépio, nascimento de Cristo, fuga para o Egito etc...).

                                                          Exemplo de “profecia” declamada diante do presépio:

 

                            “Ao vinte e cinco de dezembro

                             Tudo isso aconteceu

                             Naquele dia nasceu

                             o nosso Menino Deus

                             Os Três Reis Santos quando soube

                             viajaram sem parar

                             cada um trouxe um presente

                             Pro Deus Menino louvar

                             Os Três Reis Santos viajaram

                              Dia e noite, noite e dia

                              para ver o Deus Menino

                              Filho da Virge Maria

                              Naquele instante estava lá

                              Todos os animais que se via

                              também estava a vaquinha

                              e o camelo que chegava

                              E o galo que cantava

                              e a estrela que brilhava

                              que todo mundo se via

                              o meu amado Menino

                              ouvia sempre a dizer

                              que de uma Virge Imaculada

                              Jesus havia de nascer

                              Pois eu quero adorar meu Deus

                              com meus joelhos no chão

                              Pedir a Divina benção

                              dos meus pecados, perdão

                              Bendito seja o Menino

                              que nessa terra nasceu

                              o mundo inteiro alegrou

                              quando aquela estrela apareceu

                              pois eu vim com meus Três Reis

                              fazendo o que me disseram:

                              Façam no Oriente

                              o que em Belém fizeram

                              Os Três Reis lá em Belém

                              o menino visitaram

                              voltando para o Oriente

                              seu presépinho eles formaram

                              Mostrando como se deu

                              na hora que eles voltaram

                              a visita dos quatorze hinos

                              que eles cantaram

                              Pura Virgem, Pura Nossa

                              Mãe do Nosso sul do Bem

                              seja na terra ou no céu

                              Glória para sempre, amém “.

                                                (Do CD “Cantadores – o folclore de Sorocaba e região” – Folia de Reis de Sorocaba/SP – produzido por Carlos Carvalho Cavalheiro).

                                                  Algumas Companhias de Reis utilizam toalhas em torno do pescoço de seus foliões. A Companhia de Santos Reis de Vila Formosa (Sorocaba) começou a utilizar esse apetrecho no ano de 2002. O embaixador José Coppi informa que a toalha, para todos os foliões, não tem um significado especial. Para o embaixador, no entanto, serve de elemento que o distingue dos outros elementos da Companhia. Nesse caso, a toalha deve ser branca.[6]

                                                As máscaras dos Bastiões são outra curiosidade que chama a atenção. Diz-se que os Bastiões usam as máscaras para esconder os seus rostos, eis que eram espias do rei Herodes e que se converteram ao encontrar o Menino Jesus. Resolveram, assim, acompanhar os Três Reis Magos. Para tanto confeccionaram máscaras para que Herodes ou seus soldados não os reconhecessem. Essa é mais uma das tradições das Folias de Reis.

                                                         Outrossim, é corrente a história de que os Santos Reis receberam de presente da Virgem Maria um manto, em agradecimento a visita ao Menino Jesus. Quando se afastaram, já na viagem de retorno ao Oriente, abriram o manto (que estava dobrado) e viram nele a cena da visitação bordada, com os Santos Reis, a Sagrada Família, os animais e os pastores. Então, fizeram do manto uma bandeira e formaram a primeira Companhia de Reis, anunciando ao mundo o nascimento de Jesus.

                                                         Com relação à bandeira há ainda a crença de que a mesma deve ficar guardada quando não for a época da jornada. Porém, deve permanecer sempre enfeitada para não quebrar o seu encanto.

                                                         As fitas coloridas que enfeitam a Bandeira devem ser costuradas e nunca amarradas com nó cego, sob pena de “amarrar” a Companhia, ou seja, atrapalhar o desenvolvimento natural da jornada. Alfinetes, fitas amarradas ou qualquer outra coisa estranha que possa “amarrar” a Companhia é cuidadosamente vistoriada pela bandeireira Eva Borges de Andrade toda a vez que inicia uma jornada e que a Bandeira sai de seu pouso.

                                                         Por fim, as tradições relacionadas com o Bastião. Chamado também de Alferes, Mateus, Palhaço, Pastorinho, Morongo, Marengo, Malungo... esse personagem é cômico e, ao mesmo tempo, responsável pela coleta de ofertas. É ele quem pede as ofertas. É comum, na zona rural principalmente, fazer o Bastião “sofrer” antes de obter a oferta. Às vezes o dono da casa se esconde e o surpreende, à traição, e trava uma luta corporal de agarramento, sem agressão física (socos, pontapés, etc...). Se o Bastião se sair bem, recebe a oferta[7].

                                                        Em outros locais, solta-se um porco ensebado para que o Bastião o recolha. O palhaço corre atrás do porco, mas quando agarra, este lhe escapa das mãos[8]. Esconder ofertas para que o Bastião procure e encontre é outra prática comum. 

                                                      O Cruzeiro de Flor é outra tradição antiqüíssima e que acompanha a Folia de Reis. Trata-se de uma cruz “desenhada” no chão com flores. Ao deparar com o Cruzeiro o Bastião (e somente ele, segundo dona Eva Borges de Andrade[9]) deve recitar “profecias”, palavras especiais. O cruzeiro é formado por quatro braços. Para cada um deles o Bastião deve recitar uma “profecia” decorada e tradicional. Conforme encerra uma profecia, o Bastião desmancha um dos braços do cruzeiro com a ponta do seu facão, até desfazê-lo ao todo. Somente depois disso é que a Companhia pode adentrar no recinto e cantar as toadas. Ao contrário das toadas cantadas pelo embaixador, que são de improviso, as “palavras” ou “profecias” ditas pelo Bastião são decoradas.

                                        

                                                Antes de haver o Dilúvio

                                                o mundo todo era certo

                                               quando Cristo veio à Terra

                                               deixou tudo descoberto

                                               para todas devoção

                                               deixou um caminho aberto

                                               Deus te salve a Santa Cruz

                                               onde Cristo foi pregado

                                               que morreu por nosso amor

                                               e depois foi ressuscitado

                                               tirando um braço da cruz

                                               fica um esquadro dobrado

                                               Enquanto São José

                                               trabalhava preocupado

                                               tirando outro braço da cruz

                                               fica um poste contínuo

                                               Na casa de São Vicente

                                               e na capela do Divino

                                               Vendo o Cruzeiro desmanchado

                                               nós podemos chegar até Belém

                                               encontrar com Deus Menino

                                               que a Virgem Maria tem[10].

                                                      

                                                   Além das declamações (chamadas de louvações) muitos ainda pedem aos Bastiões que façam o corta-jaca, espécie de brincadeira e dança, restrita aos palhaços, e que serve como pagamento pela oferta recebida. O devoto de Santos Reis oferece a esmola, mas exige como paga que os Bastiões realizem a corta-jaca. Eles dançam, pulam, simulam batalha entre si... e está paga a oferta.

                                                   É de responsabilidade do Bastião, ainda, não permitir que lhe roubem a máscara ou a espada, afim de que a bandeira não fique “presa”. Para desprender a bandeira, o Bastião (ou o embaixador) deve dizer umas “palavras secretas”[11]. Dizendo-as, a bandeira estará livre para prosseguir a jornada.

                                                   Os devotos de Santos Reis costumam pendurar ex-votos (fotos, objetos, fitas...) na Bandeira como agradecimento por graça alcançada. Esses ex-votos não podem, ao final da jornada, permanecer na bandeira e nem mesmo serem jogados no lixo ou queimados. Devem ser jogados em água corrente ou levados a um centro de peregrinação como a cidade de Aparecida, no estado de São Paulo.

                                                     Outra crença difundida entre os foliões é a de que todo folião tem um antecedente histórico na família: um pai, avô, bisavô...folião. Participar de uma Folia de Reis, para os devotos, é uma questão “hereditária”.

                                                     Compõe ainda o universo das Folias de Reis as toadas, ou seja, os cantos de devoção entoados durante a jornada, nas visitas às casas e igrejas, bem como em qualquer outra ocasião especial.[12] As toadas, em relação à música, possuem sempre as mesmas melodias, sendo que do repertório existe pouco menos de uma dezena de variações. Quanto à letra, é de improviso e composta pelo embaixador. Há uma segunda voz, a do contra-mestre, que procura repetir ou apenas trautear os versos cantados pelo embaixador. Depois, a Companhia toda repete os mesmos versos.  Geralmente, os versos são repetidos, ou seja, cantados duas vezes. Assim, numa composição de quatro versos por estrofe, os dois últimos versos (sendo o último a repetição do penúltimo) irão rimar com os dois últimos versos da estrofe seguinte. Mas isso não é regra geral em todas as Companhias de Reis. Aliás, como aqui já foi dito, nada pode ser considerado como definitivo e genérico para todas os grupos de Folias de Reis, com exceção a devoção que todos prestam aos Santos Reis. Há toadas que não seguem essa forma. No norte de Minas Gerais há toadas que seguem o esquema de rimas ABCCDDCC[13].Um exemplo de toada da Companhia de Santos Reis de Vila Formosa em Sorocaba:

                           

                        Segurou nossa Bandeira

                        Ai, meu Deus

                        Segurou nossa Bandeira

                        Ai, meu Deus

                        Com prazer e alegria oi la la lai

                        Ai, com prazer e alegria

                        Ôôôooooo...

                        Deve ser abençoado

                        Ai, meu Deus

                        Deve ser abençoado

                        Ai, meu Deus

                        Com a Sagrada Família oi la la lai

                        Ai, com a Sagrada Família

                        Ôôôooooo...

                        Pra cumprir sua promessa

                        Ai, meu Deus

                        pra cumprir sua promessa

                        Ai, meu Deus

                        Que ele tem por devoção oi la la lai

                        Ai, que ele tem por devoção

                        Ôôôooooo...

                        Nóis agora se despede

                        Ai, meu Deus

                        Nóis agora se despede

                        Ai, meu Deus

                        Pra voltar no outro ano oi la la lai

                        Ai, pra voltar no outro ano

                        Ôôooooo...

                        Quem tiver sodade dele

                        Ai, meu Deus

                        Quem tiver sodade dele

                        Ai, meu Deus

                        Vai ao terço do seu dia oi la la lai

                        Ai, vai ao terço do seu dia

                        Ôôooooo...

 

                   Outro exemplo de toada:

 

  Toada de visita a uma casa

                     

    Quando nessa casa entrei

    Quando nessa casa entrei

    Reparei nos quatro cantos

    ‘parei nos quatro cantos.

 

    Avistei esta senhora

    Avistei esta senhora

    E os seus quadros de santos

   Os seus quadros de santos.

 

   Também pede a sua oferta

   Também pede a sua oferta

    Do alcance da senhora

    Do alcance da senhora.

 

   Vamos lá pra agradecer

   Vamos lá pra agradecer

   A oferta da bandeira

    A oferta da bandeira

 

   Santos Reis que lhe abençoa

   Santos Reis que lhe abençoa

   No correr da vida inteira

   No correr da vida inteira

 

   Ela agora lhes convida

   Ela agora lhes convida

   Pra senhora e pra família

   Pra senhora e pra família

 

   Pra ajudar a rezar o terço

   Pra ajudar a rezar o terço

   Dia seis de janeiro

   Dia seis de janeiro.

 

                                                       Os versos das toadas são criados de acordo com o momento. Por exemplo: se numa casa o embaixador avistar uma imagem de santo, certamente construirá seus versos baseados nesse evento. De acordo com a reação das pessoas que recebem a visita da bandeira (comoção, choro, alegria etc...) o embaixador também pode criar seus versos. Entretanto, sempre é enaltecida a faceta religiosa da jornada. E é essa o aspecto funcional da Companhia de Santos Reis, sua própria razão de existência.

                                            

                                                       Carlos Carvalho Cavalheiro*

 

 

* Licenciado em História pela Uniso. Sócio-efetivo da Comissão Paulista de Folclore (IBECC/UNESCO).

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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SOUZA, Maria Eremita De. - UMA FOLIA DE REIS NO VELHO SERRO - material publicado na página FOLCLORE ART da Internet.

                                                                             


 

[1] “Paguem-lhe tributo os reis de Társis e das ilhas; os reis de Sabá e de Seba ofereçam-lhe dons. Todos os reis se prostrem perante ele; todas as nações o sirvam”.

[2] "Nomes e Sobrenomes" - Editora Ave Maria - SP - 4ª edição revista - 1994.

[3] O padre Ricardo Dias Neto, pároco da Igreja de Santa Rosália, em Sorocaba/SP, forneceu-me tais informações no dia 30.12.1998, via telefone. Disse-me ainda que acreditava que os nomes atribuídos aos magos estavam relacionados aos presentes ofertados ao menino Jesus.

[4] Folha de São Paulo - caderno de Turismo - 8 -11 - Segunda-feira, 02 de Novembro de 1998. Matéria assinada por Ana Maria Guariglia : "Catedral realiza sonho de alcançar o céu". Também, Dicionário Enciclopédico da Bíblia (op.cit.); Boyer, O.S. - "Pequena Enciclopédia Bíblica” - 25ª impressão - Editora Vida - SP - 1997; Material enviado pelo Centro de Turismo Alemão, São Paulo/SP.

[5] Os componentes não denominam o seu evento de Folia de Reis. Esse termo, para eles, é utilizado pelos leigos, ou seja, àqueles que não participam ou não têm afinidade com a tradição do louvor aos Santos Reis. Autodenominam-se, portanto, de Companhia de Santos Reis.

[6] Entrevista com senhor José Coppi realizada no dia 04.10.2002.

[7] Ouvida em Minas Gerais, na cidade de Dores do Indaiá.

[8] Prática comum no norte do Paraná, segundo informações de José Esmerindo dos Santos, ex-Bastião da Companhia de Santos Reis da Vila Formosa.

[9] A despeito dessa informação, acompanhei no dia do início da jornada de Santos Reis, sábado, 26 de outubro de 2002, a ocorrência de cruzeiro de flor na porta de uma casa, sendo que o embaixador cantou uma toada perguntando se aquele cruzeiro era para o embaixador ou para o Bastião (desmanchar). Daí se entende que, caso o embaixador seja o escolhido, deve ele desfazer o cruzeiro.

[10] “Palavra” ou profecia dita por Izaltino Alves Moreira, “Bastião” da Companhia de Santos Reis de Vila Formosa (antes foi violeiro da mesma Companhia), no dia 26 de outubro de 2002, na saída da Folia para a jornada daquele ano. Essas “palavras” foram ditas para desmanchar o cruzeiro de flores, no chão, próximo a porta de entrada da casa visitada.

[11] Conforme depoimento dos próprios foliões. Aparenta ser mais uma “profecia”.

[12] Muitos, desconhecendo o valor religioso que a jornada representa para os foliões, têm convidado a Companhia de Santos Reis de Vila Formosa para apresentações diversas, como se fosse um simples espetáculo. Nessas ocasiões, por não conseguir discernir uma apresentação lúdica e “profana” de uma visita religiosa (eis que esta é uma obrigação), a Companhia mantém a mesma estrutura de cantos e de tradições. 

[13] Dona Dedé, figureira e foliona de Santos Reis, nascida em Minas Gerais, residente em Itu/SP tem registrado em áudio, no CD “Cantadores”, produzido em 2000 por Carlos Carvalho Cavalheiro (através da LINC de Sorocaba), os seguintes versos de Folia de Reis: “Deu de casa / Deu de fora / Ê, Maria vai vê quem é / Maria vai vê quem é / É uns cantadô de Reis / É uns cantadô de Reis / Quem mandô é São José / Quem mandô é São José”.

 

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