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Lutas de classes e lutas ideológicas: Sorocaba na década de 1930.

                                                 Desde 1852, com o malogrado ensaio de indústria têxtil de Manoel Lopes de Oliveira; ou mesmo em 1882 com a inauguração da primeira grande indústria sorocabana, a Fábrica Nossa Senhora da Ponte (de propriedade de Manuel José da Fonseca); até os dias atuais, Sorocaba não conheceu, talvez, período de maior destaque para sua industrialização na economia estadual do que a década de 1930[1], a despeito da Grande Depressão e suas conseqüências. Já no final dos anos 20, essa cidade perfazia cerca de 10,4% do capital industrial do Estado, tornando-se o maior pólo industrial do interior paulista até a década de 1940, quando paulatinamente vai perdendo esse espaço para cidades como Campinas, Ribeirão Preto e litoral.[2]

                                                 Essa importância como centro industrial paulista irá acentuar a luta de classes decorrente das relações do operariado com o patronato. A par disso, considere-se o elevado número de imigrantes, especialmente espanhóis e italianos[3], que trazem em suas bagagens as idéias que floresciam na Europa de então: o anarquismo e o comunismo. Apropriando-se desse cenário, as diversas ideologias (sejam de esquerda ou direita) permeiam as mentalidades dos personagens desse embate procurando cooptá-los.

                                                Adornando ainda mais o panorama, impõe-se, por força da economia, a ascensão de governos totalitários, facilitada pela crise mundial de 1929[4] (muito embora não somente em sua decorrência) que obriga os países de economia voltada ao mercado externo a rever sua política econômica[5]. A necessidade de um governo interventor e protecionista vai seduzir as massas a apostarem nas soluções propostas pelas correntes de extrema direita.

                                               Nesse contexto, a ideologia do dominador busca na legalidade e nos meios de comunicação (principalmente os jornais) a arma de combate à luta de classes que se instala. Com o agravamento da crise (chamada de Depressão) se investe na burguesia o temor da ascensão do comunismo. Assim, o operário e qualquer forma de organização sua é tratado como caso de polícia.

                                      Relatório da Polícia

                                      Consoante o extenso relatório que o senhor dr. João Cataldi Junior, delegado regional, endereçou á chefia de polícia, correspondente ao anno policial encerrado em Dezembro, o promptuario operário, desde a introdução dessa medida, subiu a 60.080 peças. No anno que se findou o movimento de matriculas declinou, descendo a 723. Pelo motivo da crise já não mais se faz matricula.

                                      O total do operariado fabril é de 7574 trabalhadores, distribuído esse número por todas as nossas fabricas.

                                       Durante o referido anno a acção preventiva da polícia foi exercida com rigor, graças ao que o cadastro policial não acusa acontecimentos de grande monta. O movimento geral da polícia, porém, cresceu bastante, como se verá por outros tópicos do relatório que iremos examinando.[6]

                                       Fundado no Brasil em 1922, o Partido Comunista em Sorocaba, ao que parece, só começará a se organizar a partir de 1933. Antes, os operários, grande parte deles espanhóis e italianos, se apoiavam no anarquismo e no anarco-sindicalismo. E havia mesmo aqueles que, mesmo não sendo operários, eram expressivos adeptos do anarquismo, como é o caso do italiano Vicente De Caria, em cuja Chácara (no bairro do Caputera) costumava receber intelectuais como José Oiticica e Edgard Rodrigues. Entretanto, o medo do comunismo já se fazia presente.

                                       Comunismo? Não queremos.

                                       Operários! Não vos deixeis arrastar pelas garras envenenadas do communismo ou anarchismo, porque isso seria desrespeitar os ideaes sacrosantos do patriotismo! Se não respeitardes os vossos governos, os vossos superiores, os vossos patrões, como podereis ser respeitados? A disciplina é a base fundamental do progresso e prosperidade da nossa grande e querida Pátria que é o Brasil. Estou certo de que o governo revolucionário assegurará a todos: a justiça, a ordem e o direito, mas para isso é preciso que vos compenetreis de que o trabalho é uma necessidade para todos, tanto o trabalho manual como o trabalho intellectual. É preciso que tenhaes amor ao trabalho, e respeitando os vossos superiores, assim como o soldado respeita o seu comandante.

                                       Abusar da liberdade que tivemos com a nova República, é também abusar da bondade do governo que nos dirige. Operários! O governo revolucionário está tratando dos interesses não só dos operários, como também de todos os brasileiros, pois deveis estar lembrados do que vos disse o grande dr. Assis Brasil, numa das janellas do Hotel Vicente, estando ao seu lado o general dos generaes: Isidoro Dias Lopes: Brasileiros! Combater o communismo é querer o bem estar dos nossos lares e assegurar a paz no Brasil.

                                                                                   M.M.·[7]

                                                                    O extenso histórico das greves dos operários sorocabanos, sobretudo na década em questão, demonstra que o nível de consciência dos trabalhadores acerca da sua exploração sempre foi uma realidade. Embora casos isolados como a “eleição” do diretor-gerente da Fábrica Santa Maria pelos operários para representá-los junto à Comissão de Sindicância Revolucionária[8], há vários outros momentos em que os operários se manifestam contra a exploração do capital, recorrendo a comícios, piquetes e greves. Isso fica nítido quando em 1933 na porta dessa mesma fábrica será assassinado Vitorino Domingues, anarco-sindicalista que estava em greve e, ao que consta, foi interpelado por policiais armados e pelo próprio patrão, também armado.[9]    Mais uma vez as palavras de Malatesta ecoam verdadeiras: Oprimem-se os homens de dois modos: diretamente, pela força brutal, pela violência física; ou indiretamente, subtraindo-lhes seus meios de subsistência e reduzindo-os, assim, à impotência.[10] Quando o operariado (e observe que utilizo aqui a palavra no seu coletivo) se presta a determinadas ações em prol do capitalista não significa de maneira alguma que está relegando a luta de classes e nem mesmo que se alienou dela. O que ocorre é que, em determinadas oportunidades, o operariado busca a sua sobrevivência. Nos dizeres de Karl Marx, “Mas o operário, do qual a única fonte de rendimentos é a venda da força de trabalho, não pode deixar toda a classe de compradores, isto é, a classe dos capitalistas sem renunciar à existência”.[11]

                                                                  Procurando afastar o proletariado dessas “nefastas” tendências anticlericais, a igreja católica se adianta na formação de uma das primeiras organizações (no “corte” temporal aqui proposto) ideológicas anticomunistas e antianarquistas: o Centro Operário Católico, fundado em 05 de maio de 1931, mas que havia sido concebido meses antes (no mínimo) conforme as várias notícias na imprensa escrita acerca das conferências realizadas pelo Cônego Francisco Cangro, seu principal idealizador.[12]

                                                                 Conferências para operários

                                                                 O revmo. Cônego Francisco Cangro, activo coadjutor da sé, teve em boa hora a lembrança de instituir uma série de conferencias para operários, versando os assumptos de ordem social intimamente ligados á fé religiosa, encarando-os ainda sob o ponto de vista geral. Essas conferencias terão o objectivo de informar o nosso operariado acerca dos princípios dissolventes que se procura insinuar nos meios operários sob apparencias enganosas, nada merecendo, comtudo, não só pelo conflicto que esses princípios estabelecem com a fé e a moral, como ainda pelas conseqüências desastrosas delles decorrentes para a vida social, conseqüências assas conhecidas e commentadas pela imprensa européa.

                                                                A primeira conferencia do cônego Cangro, só para homens, effectua-se hoje ás 16,15, na fabrica S. Antonio, abordando-se o thema “Da idea de Deus – do conceito da liberdade e responsabilidade”. Amanhã, á mesma hora e sobre o mesmo thema, o jovem sacerdote fallará aos trabalhadores da fábrica S. Rosália.[13]   

                                                                Existia também a Comissão de Syndicância Revolucionária, fruto da Revolução getulista, a qual, aparentemente, visava controlar o movimento operário, quer através de assistencialismo, quer através de controle efetivo, ou seja, a repressão. Essa Comissão funcionava junto ao 4º Distrito.

                                                                Interessa aos operários

                                                              A Commissão de Sydicancia Revolucionária, que funcciona no 4º districto, avisa que na Delegacia de Polícia se acha aberta uma lista para receber os nomes dos operários sem trabalho. Recebidos esses nomes, serão encaminhados ao Governo, que providenciará de modo a resolver a situação dessas pessoas.[14]

                                                                As condições de vida dos trabalhadores pioraram a medida em que a crise econômica se agravava. Muitos foram dispensados dos seus postos de trabalho. Indústrias várias encerraram as suas atividades por tempo indeterminado. Amortecendo os embates, o governo “revolucionário” procurava intervir sempre que possível.

                                                         Dispensa de trabalhadores

                                                        A Sorocabana fez hontem mais um corte no quadro de seus trabalhadores, sendo attingidos os da chamada conta capital, em numero de 114, entre pedreiros, pintores, etc., empregados nas officinas novas. Os operários; não se conformando com essa medida, que os collocam em sérias difficuldades, procuraram hoje o dr. Ferreira Braga, del. regional. Esta autoridade ouvio attentamente os operários, representados por uma commissão formada dos srs. Josué Paula Leite, Pedro Ferreira e Joaquim Gomes, obtendo estes que fossem recomendados ao sr. delegado de Ordem Social, a quem vão expor a situação dos desempregados pela Sorocabana.[15]

                                                         Resultante ao entusiasmo da “revolução” surgiu a Legião Revolucionária, uma organização nos moldes ideológicos fascistas, criada em 1931.[16]  É fato que entre os membros da Legião houve aqueles que se tornaram integralistas anos depois como Ireno Barisani Tienghi e Octavio Prestes. Aliás, o discurso da Legião é deveras parecido com o da Aliança Integralista Brasileira, invocando valores cívicos e apelando para a sensibilização através de frases feitas como “trabalhar para a grande obra: o engrandecimento da Pátria”, etc. É interessante o fato de que a ideologia fascista (em todas as suas cores) encontrou terreno fértil em Sorocaba. Embora tivesse ficado famosa a luta operária na cidade e a tendência anárquica ou comunista de suas organizações de classe, é bem verdade que o oposto, ou seja, as organizações anti-esquerdistas tiveram consideráveis adeptos em Sorocaba. E foram várias as organizações nesse molde.

                                                          Em tom intimatório (e intimidativo, também) a Legião Revolucionária convocava o povo a cerrar ombros na mesma fileira:

                                                           Legião Revolucionária

                                                          Ao Povo

                                                         Os abaixo assignados convidam a seus amigos para seguindo o exemplo de bom número de conterrâneos, se inscreverem na Legião Revolucionária, para, unidos, trabalharem pela grande obra pretendida pela revolução: o engrandecimento da Pátria.

                                                         Os fins da Legião são eminentemente patrióticos. Não se illuda o povo com a propaganda tendenciosa de adversários desleaes que tentam o desvirtuamento dos nobres ideaes que a guia. Move-os nessa campanha interesse opposto ao nosso alevantado propósito de batalhar pela grandeza do Brasil, inspirados nos sãos princípios que norteiam a revolução, os quaes, bem se verificou, de tal modo estavam na vontade popular que a levaram á surprehendente victoria.

                                                         Não apenas simples falsidade, mas é um crime dizer-se que a Legião é inimiga de S. Paulo. Como, se ella é formada justamente de verdadeiros paulistas, dos mais dedicados ao seu Estado berço? Como, se a Legião trabalha carinhosamente pelo bem estar e pelo progresso deste grande Estado? Não tem, pois, cabimento, a calumniosa insinuação.

                                                         Alistar-se na Legião Revolucionária é formar ao lado de São Paulo.

                                                         Sorocaba, 20 de abril de 1931.

Occario Borges

José Ribeiro Braga

Octavio Prestes

Ireno Tienghi

José Antunes Soares

Jugurtha Neves

Josias Ferraz de Camargo

João Mendes da Cunha Soares

Dr. F. Cioffi

Osmar Oliveira

Wilfrido Vieira Barbosa.[17]

                                                     Entre os estrangeiros, especialmente nas principais colônias, espanhola e italiana, também ocorrerá a polarização de tendências. Entre os espanhóis, por exemplo, durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), se formará dois grandes blocos: um de apoio à República espanhola e outro a favor do fascismo de Franco. Enquanto as Brigadas Internacionais arregimentavam voluntários para lutar em prol da Espanha republicana, se criaram em várias cidades os chamados Centro Republicano Espanhol. Em Sorocaba existiu um deles. Também em Santos. Contrapondo aos Centros Republicanos, as organizações franquistas eram conhecidas como Falange Nacionalista. Também existiu uma representação em Sorocaba.

                                                     O caráter internacional do conflito espanhol, simbolizado pela criação das Brigadas Internacionais, pôde ser sentido no Brasil não só pelo impulso daqueles cidadãos que, como voluntários saíram em defesa da causa espanhola, mas também pelo engajamento de uma parcela da comunidade espanhola do Estado de São Paulo que se mobilizou na defesa de ambos os lados conflitantes na Espanha.[18]  

                                                      Outrossim, fruto da acirrada perseguição promovida pelo Estado Novo, a todos os que não compactuavam com as suas diretrizes, em especial os anarquistas e comunistas, o Centro Republicano Espanhol será fechado pela polícia em Sorocaba e uma parte de seus sócios (conhecidos da Polícia de Ordem Política e Social) será presa.[19]  Foram presos: Indalécio Gomes, Julio Manzano, Ramom ou Francisco Ramon Sanches, Miguel Gavarron, Donatilio Anerges, Álvaro Lopes Luz, Manuel Lopes Cruz, Floriano Scentellas, Ramon De Pina, Guilherme Gracia y Gracia ou Guilherme Garcia, Penido Hernandez Martinez, Francisco Tegra ou Francisco Veiga, José Rodrigues, Mathias Portento, Ângelo Gonzalez, Pedro Fernandes ou Pedro Hernandez, Celestino Estrá Molineiro e Pompeu Lopes Alvarez ou Antonio Lopez. Os jornais noticiaram o fato enaltecendo a suposta ligação do Centro Republicano com a ideologia marxista: “Descoberta em Sorocaba uma cellula de propaganda communista – Centro Republicano Hespanhol”.[20]

                                                         Por seu turno a Falange Nacionalista publicava (ou fazia publicar) informes sobre a Guerra Civil sob seu prisma, bem como mensagens (muitas vezes em espanhol) aos que habitavam a cidade: “Aviso a la colônia española radicada en esta culta y hospitalaria ciudad y su distrito municipal”.[21]

                                                          Entre os italianos, já no começo da década estava fundada a seção local do “Fasci Italiani all’Estero”, organização fascista pró-Mussolini e que contava com o prestígio não só da colônia italiana, mas, sobretudo dos sorocabanos em geral, dado o destaque que merecia na imprensa as suas reuniões, pela presença de representantes da sociedade sorocabana, por seu privilegiado endereço (o palacete Scarpa) etc.

                                                          Festa do Fascio

                                                         Domingo passado a secção local dos “Fasci Italiani all’Estero”levou a effeito uma boa festa em regosijo pelo raid do general Ítalo Balbo. A reunião, muito concorrida, com a presença da banda “Carlos Gomes”e de um jazz, fez-se à noite, no aprazível salão dos fascistas (palacete Scarpa). Iniciados os trabalhos pelo sr. Nicolao Schettini, presidente do Circolo Italiano, o qual fôra convidado para a presidência, ouviram-se no salão dois optimos trabalhos de oratória sobre o motivo da reunião. Oradores foram os srs. Domingos Serafino e Pombal Ruggero, que tiveram applausos dos presentes. Á sessão cívica seguiu-se enthusiastico baile.

                                                        Á mesma noite de domingo foi empossada a nova commissão directora do Fascio local, a qual se acha formada dos seguintes fascistas: Pombal Ruggero, “fiduciário”; Domingos Serafino 1º secret.; Antonio Matteis, 2º secret.; Modesto Carone, 1º thesoureiro; Pedro Ingravallo, 2º thesoureiro; conselheiros: Domingos Marrone, dr. Alfredo Santarini e Caetano Bernardi; director esportivo Miguel Micelli.[22]

                                                         Em meados da década de 30 ocorreu a Intentona Comunista. Em Sorocaba, o escritor e jornalista Hilário Correia foi preso em dezembro de 1935, acusado de participar da Intentona, permanecendo recolhido no presídio Maria Zélia, em São Paulo, por quatorze meses, oportunidade em que foi solto em virtude de ser “comprovada a nenhuma participação do estudante e jornalista sorocabano, sr. Hylario Corrêa, em qualquer movimento de caráter extremista tentado no Paiz”.[23] Por conta da Intentona, os comunistas foram sendo cada vez mais perseguidos e os integralistas ganhando mais espaço. A organização dos “camisas-verdes” era tal que em Sorocaba, dizia-se, ser comum, ao amanhecer a maior parte dos moradores acordarem surpreendidos com publicações integralistas deixadas debaixo de suas portas.

                                                         Integralismo

                                                            Realizou-se, na sede integralista, uma grande sessão de caracter doutrinário, á qual compareceram numerosos camisas verdes e sympathizantes, notando se também grande numero de senhs. Aberta a sessão pelo chefe sr. Ireno Tienghi, foram tomados os juramentos de 7 novos soldados do sigma. (...)

                                                            A seguir o chefe municipal leu trechos de um discurso do chefe nacional, em que este diz que está sendo tramada, ás ocultas, uma nova sublevação comunista e que os integralistas estivessem a postos, ao lado das autoridades na defesa da ordem.[24]

                                                            As relações entre os integralistas e os comunistas vão se acirrando. Houve mesmo um comício integralista que foi dissolvido, com uso de violência, pelos comunistas.

                                                           Comício Integralista

                                                          Com respeito á versão estampada pelo órgão integralista “A Acção”, em seu número de hoje, sobre o comício integralista hontem realisado em Sorocaba, versão essa que attribue violência e arbitrariedade á attitude tomada pela polícia local, com respeito ao Comício em questão, procuramos ouvir, hoje, o correcto delegado regional de polícia desta cidade, dr. Luiz Gonzaga Mendes de Almeida, o qual nos informou o seguinte a respeito: Tendo recebido sabbado ultimo, do Núcleo Integralista local, por intermédio do secretario municipal de propaganda desse partido, sr. Marciano Delgado, um offício communicando a realisação de um comício político a effectuar-se da sede, dessa entidade, á praça Cel. Fernando Prestes, deu ao mesmo o seguinte despacho: “Sim. O Comício poderá ser realisado na Praça Pedro de Toledo, antiga Carlos de Campos. Providencie-se o necessário policiamento, devendo ser dadas buscas pessoaes nas entradas das ruas que dão ingresso á praça. Dê-se sciencia ao commandante da guarda civil”.

                                                             Foi então que o portador do offício, posto ao par do despacho do dr. Mendes de Almeida, acrescentou o seguinte addendo áquelle:

                                                             “Sciente do despacho supra da autoridade, communico que o commicio se realisará dentro da própria sede, á praça Cel. Fernando Prestes. (a) Marciano Delgado”.

                                                              Estabelecido assim, claramente, que o comício teria lugar “no interior”, e não “do interior” da séde do Núcleo Integralista de Sorocaba, como contra as ordens expressas das autoridades locaes foi tentado pelos oradores do Sigma, que pretenderam fazer-se ouvir da grande multidão que habitualmente locupleta a praça Cel. Fernando Prestes, aos domingos, e no intuito ainda de evitar perturbações da ordem, que se prenunciavam, em virtude de parte dessa multidão, indignada com os discursos dos partidários do sr. Plínio Salgado, ter ameaçado invadir a séde integralista, viu-se obrigado o dr. Mendes Almeida a intervir, ordenando aos guardas civis que fizesse encerrar a janella de onde os oradores peroravam.

                                                               Ficam assim desfeitas as insinuações menos verdadeiras estampadas pela “A Acção”, e cujo autor, evidentemente, foi mal informado sobre os factos que determinaram a nota daquella folha paulistana, sobre o comício integralista hontem realisado aqui. [25]

                                                            Opondo-se à Aliança Integralista Brasileira (e a onda de violência e agressões físicas aos seus opositores por ela promovida), fundam-se os Centro Cívicos Pró-Democracia, aglomerando os sindicalistas, os comunistas, os socialistas, os operários e intelectuais e os anarquistas. Em Sorocaba, o Centro Cívico festejou a soltura de Hilário Correia, quando este retornou para a cidade.

                                                            Covarde agressão

                                                            Emílio Bramante, 31, operário, residente na Rua dos Pinheiros, porteiro de “uma organisação partidária (...) que tem por objetivo combater a doutrina do Sigma.. foi, depois de distribuir boletins contra o integralismo, perseguido por integralistas chefiados por Francisco Morón Fernandes. ... Às 22h30 foi agredido por quatro desconhecidos...[26] 

                                                            As lutas ideológicas continuaram até o sopro do Estado Novo. Ainda que, num primeiro momento, tenha recebido apoio dos adeptos do Sigma[27], depois da Intentona Integralista (maio de 1938) passou a rechaçá-los. Com a ditadura implantada por Vargas não haverá mais espaço para outras doutrinas filosóficas e políticas, sendo até mesmo a Maçonaria proibida de exercer suas reuniões até o ano de 1940.[28] 

 

 

                                                                Carlos Carvalho Cavalheiro.         


 

[1] “Nas vésperas da Segunda Guerra (1939-1945) e no seu decorrer, intensificou-se a industrialização, aumentando a exploração de caieiras e olarias e estabeleceu-se ali a grande indústria do cimento”. – Santos, Elina O. – A INDUSTRIALIZAÇÃO DE SOROCABA – FFLCH / USP – SP – 1999 – pág. 168.

[2] Zimmermann, Gustavo – A REGIÃO ADMINISTRATIVA DE SOROCABA in SÃO PAULO NO LIMIAR DO SÉCULO XXI - Governo do Estado de São Paulo / Fundação Seade – 1992 – vol. 08 – págs. 148 a 151.

[3] Em 1931 existiam em Sorocaba cerca de 3000 italianos e 12000 espanhóis. As cinco maiores indústrias sorocabanas empregavam juntas cerca de 891 estrangeiros, a saber: Fábrica Votorantim (432), Fábrica Santa Maria (113), Fábrica Santa Rosália (94), Fábrica Santo Antônio (132), Fábrica São Paulo (34) e Fábrica Nossa Senhora da Ponte (86).

[4] “A crise mundial desencadeada em outubro do ano anterior, repercutirá gravemente no Brasil. O valor dos produtos fundamentais em que se assentava a sua vida econômica (em particular o café), cai brusca e consideravelmente. As exportações sofrem em conseqüência grande redução”. – Prado Júnior, Caio. – HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL – Ed. Brasiliense – SP – 42ª ed. – 1995 – pág. 291.

[5] “Uma situação muito semelhante – a recusa dos trabalhadores organizados em aceitar os cortes da Depressão – levou ao colapso do governo parlamentar e finalmente à nomeação de Hitler como chefe de governo da Alemanha, mas na Grã-Bretanha apenas à mudança de um governo trabalhista para um “Governo Nacional” (conservador)...” (...) “Só na América Latina, onde as finanças dos governos dependiam, em sua maior parte, das exportações de um ou dois produtos primários, cujos preços despencaram de repente e dramaticamente, a Depressão provocou a queda quase imediata de quaisquer governos existentes, sobretudo por golpes militares”. – Hobsbawn, Eric – ERA DOS EXTREMOS – Companhia das Letras – SP – 2ª ed. – 1998 – pág. 140.

[6] Jornal Cruzeiro do Sul – 05.02.1930 – página 04.

[7] “Cruzeiro do Sul”, sábado, 22 de novembro de 1930 – nº 7159 – 1ª página.

[8] “Cruzeiro do Sul”, quarta-feira, 19 de novembro de 1930 – nº 7156 – 1ª página.

[9] Rodrigues, Edgar – OS COMPANHEIROS – Rio de Janeiro – 1994.

[10] Malatesta, Errico. – A ANARQUIA – Editora Imaginário / Nu Sol – SP – 1999 – pág. 22.

[11] Marx, Karl. – TRABALHO ASSALARIADO E CAPITAL – Editora Acadêmica – SP – 1987 – pág. 27.

[12] Cavalheiro, Carlos Carvalho. – SALVADORA! – Linc – 2001 – pág.55.

[13] “Cruzeiro do Sul”, quarta-feira, 25 de fevereiro de 1931 – nº 7233 – 1ª página.

[14] “Cruzeiro do Sul”, 17 de novembro de 1930 – nº 7154 – 1ª página. No dia 20 de novembro de 1930 a Comissão publicou a sua estatística: Sorocaba possuía 310 desempregados.

[15] “Cruzeiro do Sul”, quinta-feira, 11 de dezembro de 1930 – nº 7173 – pág. 4.

[16] Maffei, Eduardo – A MORTE DO SAPATEIRO – Ed. Brasiliense – SP – 1982 – pág. 19.

[17] “Cruzeiro do Sul”, quarta-feira, 22 de abril de 1931 – nº 7277 – 1ª pág.

[18] Souza, Ismara Izepe de. – REPÚBLICA ESPANHOLA: UM MODELO A SER EVITADO – Imesp / Arquivo do Estado – SP – 1ª ed. – 2001 – pág. 39.

[19] Cavalheiro, Carlos Carvalho. – SALVADORA! – Linc – 2001 – pág. 99.

[20] “Cruzeiro do Sul”, 19 de dezembro de 1937 – nº 9208 – 1ª pág.

[21] “Cruzeiro do Sul”, 18 de novembro de 1937 – 2ª página. Em 26 de fevereiro de 1937 a Falange Nacionalista de Sorocaba publicou também uma nota no mesmo jornal.

[22] “Cruzeiro do Sul”, sexta-feira, 30 de janeiro de 1931 – nº 7212 – pág.4. No dia 22 de março de 1933, o mesmo jornal publicou (nº 7831 – 1ª pág. - quarta-feira) a notícia da visita de autoridades consulares italianas ao Fascio de Sorocaba: “Le autorità italiane visitano il Fascio di Sorocaba”.

[23] Cavalheiro, Carlos Carvalho. – SALVADORA! – Linc – 2001 – pág. 97.

[24] Cruzeiro do Sul, 27 de dezembro de 1935 – nº 8637 – 1ª página. A matéria noticia que entre os integralistas sorocabanos faziam parte o operário João Pedroso, o acadêmico Jayme Martins Pessoa e o acadêmico Manuel Nogueira Soares.

[25] “Cruzeiro do Sul”, segunda-feira, 12 de julho de 1937 – nº 9081 – 1ª página.

[26] “Cruzeiro do Sul”, 06 de agosto de 1937 – nº 9100 – 1ª pág.

[27] Integralistas

[28] Cavalheiro, Carlos Carvalho. – SALVADORA! – Linc – 2001 – pág. 100.

 

 

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