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RESUMO

 

Entre o fim do período imperial e o início do republicano, Sorocaba desenvolvera intensa atividade escolar, consubstanciada pelo crescimento urbano e industrial que, nesse período, se instalara na cidade.

Convivendo em dois momentos de concepções ideológicas distintas, a construção da prática cotidiana da escola perpassa pela análise dos documentos produzidos pelos inspetores, diretores, professores e políticos, mas também pelos jornais que retratam em suas páginas as preocupações da sociedade com os seus caminhos e (des)caminhos.

São duas escolas de formatos completamente diferentes: a do Império, tendo como base sustentatória a escola isolada, de um só professor, com metodologia dividida entre o ensino lancasteriano e o intuitivo; e uma escola resultante do projeto republicano, representando como modalidade o Grupo Escolar, símbolo da nova ordem que se propunha estabelecer.

A par dessas escolas públicas, desprestigiadas pelo poder político, coexistiam as particulares de ensino leigo ou religioso. Estas, criadas para atender às necessidades da sociedade, recebem tanto a elite quanto as camadas empobrecidas da população, preenchendo, assim, o vazio deixado pelo poder estatal.

ABSTRACT

By the end of the imperial period and the beginnings of the republican, great scholastic activity was developed in Sorocaba due to the urban and industrial growth of the city at this time.

Stemming from two different periods, each one with its peculiar ideological concepts, the construction of school daily practice is analyzed not only in documents created by deans, principals, teachers and politicians, but also in the newspapers of the time which show society’s worries about its ways and byways.

They are two completely different schools: the Empire school had as its base the so-called “isolated school” where only one teacher worked swinging his teaching methods from Lancasterian to intuitive; the Republican project for a new school resulted in the so-called “Grupo Escolar” (Primary School) which became the symbol of the new order that was about to be established.

Beside the government belittled public schools, lay and religious private institutions were created to meet the needs of society. These new private schools received students from the upper classes to those from empoverished lower classes, thus bridging a gap left by the government.

 

INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é estudar a instrução escolarizada na cidade de Sorocaba no período compreendido entre 1870 e 1906. A escolha do título é proposital e tem como finalidade distingui-lo, por exemplo, da educação realizada pela família.        

     A delimitação também é intencional. Embora Sorocaba viesse de longa data experimentando certo crescimento econômico, especificamente na área comercial, em função das feiras tropeiras e da comercialização do algodão, seu principal produto agrícola, é no final do século XIX que a cidade vai experimentar maior desenvolvimento econômico devido, sobretudo, à implantação da indústria fabril.[1] A partir de 1882, com a inauguração da primeira fábrica têxtil, Sorocaba começa a conhecer rápido crescimento urbano, não apenas com a chegada dos migrantes rurais, mas também com a vinda dos primeiros imigrantes italianos e espanhóis que vieram para trabalhar na indústria.

       O aumento da população na cidade redefine o espaço urbano, rompendo os limites anteriores e empurrando para as suas fímbrias os menos aquinhoados econômica e socialmente. Com a industrialização aparecem, pela primeira vez, o cortiço e as vilas, ocupadas ou por desempregados ou por imigrantes empobrecidos. A antiga elite rural transfere para o núcleo urbano seus interesses econômicos e seus investimentos de capitais e, para gerir os negócios, fixa residência no centro da cidade, ocupando aí os espaços ainda  remanescentes.

       O crescimento populacional que a cidade conhece, intensifica-se, a partir de 1872, com uma taxa anual em torno de 1,6% e ganha contornos de explosão demográfica entre 1890 e 1920[2], com taxa em torno de 4,0% ao ano. Nesses mesmos períodos, a cidade de São Paulo cresce em 4,1% e 5,1%, respectivamente. Tal crescimento está intimamente relacionado à dinâmica urbana, que, já no início do século XX vai ganhando feições de modernidade: a água e o esgoto surgem, em 1902; o cinema, em 1906; o telefone, em 1907; o bonde, em 1915; o calçamento, em 1921.[3] Além desses benefícios, a cidade já contava com jardins, teatros, hospital, fábricas, casas comerciais, escolas, igrejas, palacetes, vilas operárias, cortiços, estalagens.

Se de um lado o crescimento populacional traz certa prosperidade, do outro gera grandes problemas, como a falta de equipamentos urbanos para atender às necessidades da população, acrescida, no final do século, pelo contingente de imigrantes e ex-escravos. A pobreza ganha visibilidade na cidade; as habitações coletivas abrigam precariamente tanto os trabalhadores das indústrias fabris e do comércio, quanto os desempregados e aqueles que se ocupam com serviços avulsos. A pobreza atinge uma população adulta, em grande parte analfabeta, e uma população infantil, que deveria estar na escola, mas que também faz parte do contingente de operários empregados na indústria têxtil. E os jornais produzem a imagem daquelas crianças que, não podendo freqüentar a escola, são tidas como vadias e difíceis de serem controladas, pois não foram treinadas na disciplina escolar. Na imprensa, as denúncias são contumazes, chegando-se a organizar campanhas contra as mesmas.

Nesse emaranhado de situações aparece a escola: a pública e a particular de ensino laico e religioso. A laica, de propriedade de professores forasteiro, sobreviveu pouco. A religiosa passou por três ciclos: de 1670 a 1805, com os padres beneditinos; de 1896 a 1898, novamente com os padres beneditinos; de 1900 a 1906, com os padres agostinianos e de 1906 até nossos dias, com as madres beneditinas, do Colégio Santa Escolástica.

O interesse pelo tema da pesquisa dá-se em função de minha origem. Nascido em Sorocaba, minha atenção esteve sempre voltada para temas relacionados à cidade. Na minha dissertação para o mestrado, analisei o mundo do trabalho na Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema, fundada em 1809. Tratava de entender o processo de interação ocorrido na fábrica, onde conviviam técnicos suecos e alemães, homens brancos livres, mulatos libertos, escravos negros e índios, e presos condenados. Consultando basicamente fontes documentais primárias do século XIX, procurei reconstruir o cotidiano daqueles trabalhadores em que se inserem a família, a escola, o lazer, o trabalho, a criminalidade.

Durante a pesquisa tive oportunidade de recolher material documental sobre as indústrias, o comércio e a urbanização em Sorocaba. Ao terminar a dissertação, pensei em trabalhar o material referente às indústrias fabris fundadas na cidade. O estudo da condição de vida dos operários revelou-se como uma temática de investigação, e os jornais representavam um material rico nessa direção. Mas, uma questão começou a aparecer mais fortemente nos editoriais e notícias publicados pela imprensa local: a educação. Comecei, então, a aprofundar as pesquisas, e logo algumas questões me preocuparam. Por exemplo: qual era a interação existente entre a escola e a cidade? O advento da escola contribuiu para a modernização da cidade? Quais eram as propostas da política local, para a educação? Essas indagações, que pretensamente defino como básicas, procuram identificar a educação fundamental dentro de uma esfera em que estavam em jogo as articulações políticas, sociais e econômicas intimamente relacionadas com a produção e disseminação dos códigos culturais hegemônicos. Produto de discursos políticos eivados de promessas de igualdade, a educação teria contribuído para a supressão ou a manutenção das desigualdades e injustiças sociais?

Identificado o tema, percebi que os estudos sobre a educação escolarizada, especialmente entre os século XIX e a primeira década do século XX, restringiam-se a alguns pesquisadores que, à luz de suas reflexões, tematizam sob diferentes óticas o período em que nossas escolas procuram a sua identificação.

Marta Carvalho, em A Escola e a República[4], realiza um percurso “pelo processo de redefinição do estatuto da escola na ordem republicana”. Seu estudo se detém na leitura da reforma de Caetano de Campos, no final do século XIX, para em seguida discutir a questão educacional no final da década de 10.

Jorge Nagle, em  Educação e Sociedade na Primeira República[5], trata de desvendar o relacionamento existente entre a educação e a sociedade. Procura construir “um retrato da sociedade brasileira, analisando os setores políticos, econômicos e sociais, bem como determinadas correntes de idéias e movimentos político-sociais” para, em seguida, “realizar um estudo sobre a educação (escolar), ressaltando o fenômeno do entusiasmo pela educação, as iniciativas e reformas dos governos federal, estadual e do Distrito Federal”.

Leonor Tanuri, em O Ensino Normal no Estado de São Paulo. 1890-1930[6], analisa a “estrutura didática da escola normal nas sucessivas reformas por que passou na Primeira República”, a posição desse curso na dimensão vertical do sistema, na duração, currículo, articulação com as demais modalidades de ensino, alcance de sua ação e desenvolvimento qualitativo.

Rosa Fátima, em  Templos de Civilização[7] estuda a história institucional dos primeiros grupos escolares criados no Estado de São Paulo, no período de 1890 a 1910. Seu olhar que se desloca da política e das reformas educacionais, passando pelos atores políticos e pelo pensamento educacional, demonstra como essa modalidade de escola primária consolidou-se no ensino público, quais as mudanças que introduziu e as práticas, os rituais e as tradições que gerou.

De Fernando de Azevedo, em A Cultura Brasileira[8]  ative-me à Parte Terceira, Capítulo II, que trata, especialmente, da origem das instituições escolares. Aqui o autor se atém a perscrutar as influências das idéias dos enciclopedistas, as primeiras escolas de ensino superior profissional, o Ato Adicional de 1834 e suas implicações, a ausência do ensino básico, a instrução popular e as primeiras escolas normais, o ensino secundário de tipo clássico e as tendências do pensamento pedagógico.

Ivan Manoel, em Igreja e Educação Feminina[9], utilizando-se da escola feminina das Irmãs de São José de Chamberry, procura articular uma visão das vinculações estabelecidas “entre o catolicismo conservador, monarquista, antiliberal, antifeminista não apenas com os segmentos aristocratizantes da oligarquia, mas fundamentalmente com os segmentos modernizantes, liberais e republicanos”, no período de abrangência de seu estudo.

Faria Filho, em  Dos Pardieiros aos Palácios[10], retrata a escola pública de Belo Horizonte, MG, no período compreendido entre 1906 e 1918. Utilizei-me de seu trabalho para traçar um paralelo com a escola pública de Sorocaba.

Carmem Moraes, em O Ideário Republicano e a Educação[11], refaz o percurso do Colégio “Culto à Ciência” de Campinas, fundado por um grupo de maçons republicanos que transportaram para a educação as suas aspirações políticas.

Maria Hilsdorf, em  Escolas Americanas de Confissão Protestante na Província de São Paulo[12], procura elucidar o “aparecimento de êxito de escolas americanas de confissão protestante no quadro de ensino paulista nas últimas décadas do século XIX”.

Estudado também foi João L. Rodrigues que, em Um Retrospecto. Alguns Subsídios para a História Pragmática do Ensino Público no Estado de São Paulo[13], trabalha com a educação no período compreendido entre 1875 e 1925. Utilizando-se de documentação própria coletada ao longo de sua vivência no ensino público de São Paulo, onde foi professor e Inspetor Geral da Instrução Pública, traça um perfil da educação desde os momentos enquanto aluno até a ocupação de cargo burocrático. O caminho por ele percorrido permite-lhe distinguir duas práticas bem distintas: a do professor em sala de aula, chamado para reproduzir as diretrizes do Estado, e a dos componentes dos gabinetes oficiais que, realizando ensaios sobre ensaios baseados no puro empirismo e sem conhecimento prévio das realidades locais, desconectam as relações entre escola e sociedade.

Já Irmã Leda Maria Pereira Rodrigues, em A Instrução Pública em São Paulo. Subsídios para sua História até a Proclamação da República[14], faz profundo estudo sobre a educação escolarizada da mulher. Seu minucioso trabalho trata das aulas das primeiras letras no ensino público, em que se admitiam mulheres, e do lento acesso que tiveram, tanto na Capital como no Interior do Estado. As regulamentações, reformas e os problemas pedagógicos surgidos são estudados com bastante profundidade intelectual e profusão de documentos. O ensino mantido pelos institutos católicos, como o Seminário das Educandas, o de Nossa Senhora da Glória e o de Itu, foram objetos de seus estudos. O mesmo aconteceu com as escolas e colégios particulares, sem esquecer a educação dada na própria casa, patrocinada pelas famílias mais aquinhoadas economicamente.

Esses estudos foram utilizados para uma melhor compreensão a respeito da educação no Brasil, no período de nosso interesse.

A proposta para se estudar o tema da Educação em Sorocaba envolveu algumas dificuldades no que se refere à localização das fontes. Em Sorocaba, encontrei-as nos jornais da época, existentes no arquivo do Gabinete de Leitura[15] e no Museu Histórico Sorocabano, que guarda algumas Atas da Municipalidade. Resume-se a esses dois lugares e a essas duas fontes o material encontrado na cidade. Já no Arquivo do Estado de São Paulo, encontrei vasta documentação bem conservada, guardada em latas.[16] São correspondências, relatórios tanto dos professores como dos Diretores e Inspetores.

    As dificuldades surgiram quando resolvi procurar os arquivos das instituições educacionais de Sorocaba. Embora a Igreja Presbiteriana tivesse, nesse período, uma escola na cidade, não encontrei em suas Atas qualquer referência a ela. Todo o material foi obtido nos jornais.

    Em relação à educação confessional católica, foram-me criados todos os empecilhos possíveis, de tal forma que não consegui ter acesso aos Arquivos da Escola Santa Escolástica, mantida pela irmãs beneditinas. As irmãs mostraram-se irredutíveis quanto à minha pretensão de pesquisar apenas e tão somente os fatos referentes à educação. Utilizei-me inclusive da influência de outros religiosos pertencentes a outras irmandades, mas, mesmo assim, foi-me negado o acesso aos seus Arquivos e Tombos.

    O Colégio Santa Escolástica, fundado em 1906, é uma instituição de ensino para meninas, e a impossibilidade de consulta aos seus arquivos prejudicou o levantamento do material sobre a mesma, que, juntamente com o Colégio Diocesano e o Colégio Nossa Senhora da Consolação, tiveram grande importância em Sorocaba. O primeiro surgiu em 1896, no mesmo ano da criação, no município, do primeiro Grupo Escolar, com o objetivo de abrigar a elite, já que oferecia um ensino de qualidade, acrescido dos preceitos da religião católica. No entanto, o levantamento de maiores dados sobre essa escola dirigida pela Ordem de São Bento, não pôde ser realizado, em virtude da irredutibilidade de seu provincial, domiciliado no Mosteiro de São Bento, sediado na Capital do Estado, em permitir o acesso aos seus Arquivos e Tombos, já que é ali que todo o material pertinente àquela escola é guardado. O mesmo aconteceu com o Colégio Nossa Senhora da Consolação, dirigido pelos padres agostinianos.

Levantei também todo o material produzido por Aluísio de Almeida, o cronista da cidade. Parte desse material percorre a presente pesquisa, pois o cronista deixou muitas informações sobre o ensino em Sorocaba. Contudo, como o material se revelasse volumoso e até o momento não foi objeto de nenhum trabalho de organização, pretendo reuni-lo em um Catálogo. São mais de 200 artigos sobre os mais variados assuntos, publicados em vários jornais e revistas,  que serão encadernados para facilitar a consulta e servir como ponto de referência para outros projetos de pesquisa.

O levantamento feito nos jornais locais propiciou-me material para o desenvolvimento de uma proposta de pesquisa e será também aproveitado para publicação de um Catálogo com o levantamento pormenorizado de todas as publicações escritas na cidade, desde a metade do século XIX até a atualidade. Vale ressaltar que, entre 1870 e 1920, foram editados mais de 150 periódicos entre jornais e revistas, isto em um meio majoritariamente analfabeto.

                Os principais jornais consultados foram:

                O Sorocabano. Fundado em 13 de fevereiro de 1870. Vendido ao preço de “8$000 ao anno na cidade e 9$000 fora”, tinha por princípio “pugnar pelo bem público, com especialidade pelos interesses do município. Dar voz a todas as reclamações justas e comedidas. Reproduzir os clamores da lavoura e do comércio. Abrir espaços a discussões de interesse geral”.[17] Era seu principal colaborador Ubaldino do Amaral que, em 1869, fundou, juntamente com um grupo de influentes sorocabanos, a Loja Maçônica Perseverança III. Em 01 de setembro de 1872, transformou-se em O Sorocaba, que teve em Júlio Ribeiro seu redator-chefe. Deixou de existir em 1883. Encontrei, em suas folhas, rico material sobre a Escola Presbiteriana.

               Ypanema. Com assinatura no valor de “8$000 por anno em Sorocaba e 9$000 fora”, foi editado pela primeira vez em 25 de abril de 1872. Publicado “6 vezez por mez”, o jornal se propunha a defender os “interesses morais e materiais do município e do Sul da província”. E procura “dar na parte litterária alguns bons artigos e vulgarisar os melhores escriptos de auctores nacionais”.[18] Seu editor e proprietário, foi Manoel Januário de Vasconcellos, sorocabano de nascimento e coronel da guarda nacional. Legalista, participou ativamente da campanha pela instalação, pelo Estado, da rede de esgoto na cidade.[19] Em 1880, transformado em diário, passou a chamar-se Diário de Sorocaba.[20] Esse jornal deu-me importantes informações sobre o Lyceu Municipal, escola mantida pela municipalidade sorocabana, e sobre a Escola Presbiteriana, mantida pela Igreja Protestante.   

                O 15 de Novembro. João José da Silva editou pela primeira vez, em 22 de fevereiro de 1891, O Alfinete, o qual, a partir da proclamação da república, e em homenagem ao evento, passou a chamar-se O 15 de Novembro. “Semanário político, noticioso, humorístico e literário”, transformou-se em bissemanário, e depois, em 1895, a diário. Sua assinatura anual era de “8$000 para Sorocaba e 10$000 fora”. O jornal era declaradamente republicano.[21] Servi-me do mesmo para tratar não só da Escola Nocturna mantida pela Loja Maçônica Perseverança III, mas também da escola pública.

            Cruzeiro do Sul. O primeiro número do Cruzeiro do Sul foi publicado em 12 de junho de 1903, pelo maçon Joaquim Firmino de Camargo Pires. Foi bissemanário, trissemanário, diário matutino, diário vespertino e novamente diário matutino. Forneceu-me importantes subsídios para a compreensão do processo envolvendo à escola em Sorocaba. Decididamente favorável a escola pública, o jornal lançou-se em várias campanhas, não só pela criação de novas escolas e novos cursos, mas também em benefício do professor.

O Operário. “Orgam de Defesa da Classe Operária” e com publicação quinzenal, O Operário circulou pela primeira vez em 18 de julho de 1909. Antes mesmo do seu aparecimento, já lhe atribuíam “origem mesquinha”, antevendo-se a sua atuação, que “visava um desideratum muito legítimo qual o de conseguir a união ou a solidariedade da família operária de Sorocaba”.[22] O jornal, em sua apresentação, alertava que não pretendia ter

ostensivamente qualquer ligação partidária no município, porque ... o fito é outro, teremos todavia, em occasiões opportunas, de lançar a público uma série de verdades orientadoras de conduta do operariado, cuja educação cívica precisa ser completada, nem tanto para o conhecimento lúcido de seus deveres para com a Pátria, quanto para a própria valorização individual de que resultará, íntegra e perfeita a concepção de seus direitos de espírito e de consciência.[23]

     Utilizei-me desse jornal para tratar do trabalhador analfabeto. O Operário era contumaz na denúncia contra o trabalho do mesmo e especialmente, o da criança que, empregada como mão-de-obra quase que gratuita, era obrigada a cumprir extensas horas de trabalho, que iam desde as primeiras horas da manhã até as últimas da noite, o que impedia o seu acesso à escola, qualquer que fosse o horário de seu funcionamento.

            Grande era o número de colaboradores do jornal, que assinavam sempre com pseudônimos como N. Coli, N. Lico, Misoko Fata, Vicentino. Era impresso na Rua Coronel Cavalheiros, 23, e cobrava $200 por assinatura mensal, mas exigia pagamento adiantado.

Para a realização desse estudo, fui em busca, ainda, das fontes documentais que se encontram no Arquivo do Estado. São inúmeros relatórios dos inspetores, diretores, professores, proprietários de escolas particulares e de vereadores da Câmara Municipal. Cumprindo ordens regulamentares, enviavam, mensalmente, semestralmente ou anualmente, dependendo do caso, relatórios circunstanciados, a respeito da instrução em Sorocaba. Aparecem, ainda, outros documentos como cartas, ofícios, circulares, despachos também importantes para a compreensão da dinâmica no que diz respeito a educação escolarizada.

Através desses documentos, foi possível conhecer outros agentes da educação sorocabana. Trabalhando com a totalidade dos envolvidos com a educação e não apenas com os mais conhecidos, apresentamos muitas das pessoas que mais produziram a educação escolar sorocabana, através de uma intensa atividade de apropriação das discussões e práticas pedagógicas que se produziram no Brasil e no exterior. Tornar público os discursos e as práticas pedagógicas constituíram-se em atividades comuns dos professores, diretores e inspetores.

Os relatórios são os instrumentos mais importante da atuação dos envolvidos com a educação, na produção da forma e cultura escolares e, ao mesmo tempo, um momento fundamental de realização da racionalidade escolar. Ao enviá-los ao Governo, permitiam aos seus ocupantes apropriarem-se desses relatórios, dando ou criando os seus próprios significados, mas ao mesmo tempo realizavam a tarefa de dar visibilidade as escolas através dos registros detalhados que permitiam, a um só tempo, controlar, as atividades docentes e discentes. Além disso, os relatórios não se esgotam nestes elementos, significando também uma maneira de estar organizando a escola, seja através das reclamações ou elogios a respeito dos professores, alunos e responsáveis, seja através das solicitações dirigidas ao Estado.

Constituem-se esses relatórios em uma abrangente reflexão acerca da produção da educação escolar e têm por objeto desde as finalidades da educação e da escola, passando pelo aprendizado dos alunos e trabalho dos professores, até as fontes mais adequadas de disciplinamento e de imposição da ordem escolar. Cada um, de acordo com suas idiossincrasias, utilizou os relatórios como um poderoso instrumento para moldar a escola, reivindicando para si a responsabilidade pelo presente e futuro da escolarização.

Por entendermos ser um procedimento de fundamental importância, tentamos ficar ao longo da pesquisa e da construção do texto, atentos às formas pelas quais as identidades de gênero são construídas e relacionar seus achados com as atividades historicamente situadas. Dentro desse aspecto, a questão de gênero perpassa, mesmo quando não explicitada pelo texto.

A atividade de relatar significa construir textos que registram e permitem ver, produzindo um novo entendimento da educação sorocabana. Isto nos possibilita, apesar de sua especificidades e lacunas, tratá-los como documentos plenos de sentido. Esse entendimento do texto e no texto expõe uma racionalidade, uma ordem que se quer construir, permitindo uma análise da escola a partir mesmo da leitura de uma das formas de seu fazer-se.

Se por um lado os relatórios e outros textos oriundos da administração pública estadual que nos serviram de fontes principais, de pesquisas, são produzidos em obediência à legislação em vigor, por outro lado significam a própria ordenação das relações socioculturais. Sob este último aspecto reside o fato dos relatórios serem normalmente utilizados como elementos importantes para que o Estado possa avaliar o quanto a lei estava sendo cumprida.

A natureza desses documentos, implica não apenas em referi-los no lugar onde são construídos, mas buscar entendê-los como um todo. Isso significa, por exemplo, entendermos os relatórios como elementos fundamentais da pesquisa; o fato de que, enquanto os relatórios dos professores eram inicialmente semestrais e depois mensais, os dos inspetores eram anuais e depois semestrais. A importância reside no fato de que obedecendo as dinâmicas e temporalidades, a utilização destes documentos como fontes não podem abstrair esta particular condição dos mesmos.

Esses documentos não trazem apenas relatos de uma prática ou descrição de uma realidade existente, mas uma nova prática produzida pelos sujeitos envolvidos com a educação sorocabana no período.

Cabe ressaltar que podemos perceber em nossos estudos que esses profissionais, sempre em interlocução com outros atores sociais, participaram ativamente da construção de uma nova escola em Sorocaba.

Outra fonte pesquisada foi a legislação que, nos diferentes níveis - federal, estadual, municipal - contemplou com maior ou menor ênfase a educação escolarizada no período abrangido por este estudo.

            Em todas essas fontes existe um interesse e um certo paralelismo em relação aos direitos civis. Dentro desse aspecto, a educação aparece como um direito. A Constituição Imperial de 1824 estabelecia em seu texto que é a “instrução primária gratuita e aberta a todos os cidadãos”.[24] Subentende-se que há aí a intenção de se promover a gratuidade da instrução primária em todo o império. Tal medida centralizadora, no entanto, é decepada quando em 1827, regulava-se a criação de escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do país. A descentralização ficava caracterizada pelo Ato Adicional de 1834, que transferia para as Províncias tal dever, sem, no entanto, destinar “um ceitil às Províncias para ajudá-las a cumprir a obrigação constitucional de oferecer educação básica gratuita a toda a população”.[25]

Essa descentralização deixava “principalmente às províncias a tarefa da educação popular, considerada de menor importância pela elite governante, apesar da retórica pedagógica acentuar o postulado da educação como fator de grandeza dos povos, tão enaltecido pelo liberalismo ilustrado”.[26]                     

Já a Constituição Federal de 1891 acolhia em seu texto os direitos civis, ao estabelecer a não intervenção sobre o indivíduo, a propriedade e o mercado. Ignorava completamente os negros recém libertados, os caboclos e os índios. Omitia-se completamente em relação à obrigatoriedade da educação e à gratuidade do ensino primário.

          Em relação à obrigatoriedade, Cury diz-nos que “a discussão ao voto do analfabeto implicou na explicitação da exigência do saber ler e escrever como condição de se tornar eleitor. Pressupunha-se que as ‘primeiras letras’ seriam uma espécie de motor atrativo a fim de que o indivíduo se esforçasse por conquistar a sua individualidade”.[27] Em relação à gratuidade, conjecturava-se que “seria de competência dos Estados em sua autonomia”.[28]

          A Reforma do ensino, em 1892, dividia o Estado em 30 distritos, sendo o 25º o de Sorocaba, que abrangia as cidades de Sorocaba, Pilar, Campo Largo, Piedade e Sarapuí.[29]

Com relação às Câmaras Municipais, o Decreto incumbe-as de “auxiliar os estabelecimentos particulares de ensino existentes no município” e “visitar, por meio de comissões especiais, as escolas  públicas, para o fim de prestarem às autoridades competentes informações que concorram para a prosperidade e desenvolvimento de tais escolas”.[30] Ao atribuir a inspeção aos Inspetores e às Câmaras Municipais, o Estado procurava assegurar-se de que suas medidas estavam sendo efetivamente colocadas em prática, ao mesmo tempo em que a vigilância era de fato exercida.

Em 1920, a nova reforma do ensino vem dar configuração à instrução.[31] As Câmaras Municipais deixam de atuar junto ao ensino e, em seu lugar, é criada a Delegacia de Ensino, cujo titular tinha, entre outras atribuições, “tornar efetivas, de acordo com as leis, a obrigatoriedade da inspeção primária, a assistência escolar e as disposições sobre o ensino particular”.[32]    

Subordinava, ainda, o Inspetor Escolar ao Delegado Regional, a quem deveria a cada ano dirigir “um relatório em que discrimine os seus trabalhos, discuta, segundo a sua experiência, a eficácia atual da organização escolar, e sugira os melhoramentos que julgar necessários”.[33]              

            A Lei nº 88 de 08 de setembro de 1892, diz em seu artigo 1º, parágrafo 2º, que “o ensino primário é obrigatório para ambos os sexos até a idade de 12 anos e começará aos 7”.[34] Divide o ensino em primário, secundário e superior. Mas é o Decreto nº 248, de 26 de setembro de 1894, que vai definir claramente a interação entre o tipo de escola e o centro urbano. Diz ele em seu artigo 81, que “nos logares em que, em virtude de densidade da população, houver mais de uma escola no raio fixado para a obrigatoriedade, o Conselho Superior poderá fazel-as funccionar em um só prédio para esse fim construído ou adaptado”. E, no parágrafo 1º, que “taes escolas terão a denominação de ‘Grupo Escolar’ com a sua respectiva designação numérica em cada localidade”.[35]

            Essas escolas serão recebidas com grande entusiasmo:

o ensino actualmente, maximé, o que se ministra em grupos escolares, é feito por anno, por séries, por classes. Cada anno consta de duas séries, as quaes por sua vez podem ser subdivididas em classes, conforme o número e adiantamento dos alumnos. Reunidos em pequenos grupos os meninos que tem mais ou menos o mesmo desenvolvimento intellectual, estes constituem as classes. A cada classe o professor explica todo o dia lectivo certo número de noções de qualquer das disciplinas que compõem o curso, mas explicação esta que é feita a toda a classe, de sorte que todos a assimilem e aprendam, ao mesmo tempo.[36]

    O primeiro grupo escolar de Sorocaba (Grupo Escolar Antonio Padilha) foi inaugurado em 1896, com grande festa popular: caminhada da Câmara Municipal até a escola, participação de banda de música e discursos inflamados. O Grupo Escolar, como previa o Regimento, foi criado com “quatro classes para cada sexo, correspondentes ao 1º, 2º, 3º e 4º annos do curso preliminar”[37], com 40 alunos em cada uma, perfazendo 320 crianças. Com uma população de mais de 17.000 pessoas[38]   e mais de 13.000 analfabetos, a escola estará longe de atingir os seus objetivos. Implantada para proporcionar escolarização qualitativa em massa, não conseguiu atingir resultados significativos em virtude da ausência de uma política educacional que contemplasse vilas, lugarejos e o ambiente rural. Para Rosa Fátima de Souza,

os republicanos deram um lugar de destaque, sendo o grupo escolar representante dessa política de valorização da escola pública; dessa forma eles conferiram a um só tempo; visibilidade à ação política do Estado e propaganda do novo regime republicano. Criar um grupo escolar tinha um significado simbólico muito maior que a criação de um escola isolada, cuja precariedade mais se assemelhava às condições da escola pública do passado imperial com a qual o novo regime queria romper. Em certo sentido, o grupo escolar, pela sua arquitetura, sua organização e suas finalidades aliava-se às grandes forças míticas que compunham o imaginário social naquele período, isto é, a crença no progresso, na ciência e na civilização. Não podendo universalizar o ensino primário, optou-se por privilegiar as escolas urbanas com maior visibilidade política e social.[39]

Assim, aos segmentos excluídos do olhar público resta pressionar o Estado para que retorne aos princípios norteadores do projeto e contemple-os democraticamente.

            Estas leituras e pesquisas me levaram a duas direções interagentes, embora aparentemente divergentes: a primeira, envolvendo-me progressivamente nas especificidades da escola local; a segunda onde eu procurava perceber que tais especificidades se concretizavam num movimento mais amplo de racionalização das relações sociais, no âmago mesmo do processo de estabelecimento do capitalismo. Possibilitou-me identificar o caráter essencialmente urbano e longinquamente urbano-industrial da escola existente nos documentos.

            Avançando nas pesquisas e nas reflexões, emergia uma escola que, ao produzir a sociedade sorocabana, produzia a si mesma. E que ao reproduzir as relações sociais, permitia simultaneamente aos agentes sociais apropriarem-se dos conhecimentos para produzirem a ação social conforme seus interesses; e também a escola, enquanto instituição, particularizava cada vez mais sua contribuição e a produção/reprodução do social que fortalecia e legitimava as práticas culturais urbanas, em detrimento àquelas do mundo rural.      

A sociedade sorocabana, até 1890, conheceu duas situações bem distintas: a daqueles que tinham acesso à escola, os filhos da elite, e a daqueles que não tinham nenhuma chance de freqüentar os bancos escolares, os filhos dos trabalhadores. Aos primeiros destinava-se uma escola voltada aos interesses imediatos, onde a formação pressupunha a continuidade do domínio do poder.

Com o objetivo de mudar esse quadro foi editada a Lei nº 88, de 08 de setembro de 1892, que reformou a Instrução Pública do Estado de São Paulo e criou os grupos escolares.[40] Para Rosa Fátima de Souza, nelas

encontra-se um processo de profundas transformações sofridas pelas escolas primárias: da existência de um conjunto de escolas sem uniformidade para um sistema mais ordenado, estandardizado e de caráter estatal; de uma escola de ler-escrever-contar para uma escola de educação integral com um programa enriquecido e enciclopédico; de uma escola de acesso irrestrito para uma de acesso obrigatório generalizado e universalizado.[41]

Embora fosse criada “para atender um grande número de alunos e cumprir os desígnios do ideal da educação popular”[42], em Sorocaba ela abrigou somente a elite, ficando as crianças pertencentes às camadas mais pobres da população restritas às escolas isoladas, isto é, às escolas de uma só classe, onde conviviam alunos com os mais variados graus de adiantamento e com idades igualmente díspares. Fortaleceu-se, dessa forma, a divisão sócio-político-econômica, que vinha de longo tempo atuando dentro da complexa sociedade sorocabana. Abandonada pelo poder público, a camada mais pobre constituída pela maior parte da população sorocabana, encontrou, na imprensa, o espaço necessário para manifestar-se, reivindicando o mesmo tipo de tratamento.

                        O advento da industrialização deu maior visibilidade a esse problema, ao mostrar que a maioria dos trabalhadores industriais era completamente analfabeta.

Sem dispor, até 1910, de nenhuma escola pública noturna, os trabalhadores contaram, por longo tempo, com o beneplácito da maçonaria que, em 1869, criou uma escola destinada aos seus filhos. Um outro fato relevante: enquanto a Igreja Católica, através de suas escolas, cobrava mensalidade e tinha como alunos apenas a elite católica, a loja maçônica oferecia curso gratuito aos menos favorecidos economicamente.

Foi diante desse espírito de competição que poucos conseguiram freqüentar os bancos escolares.

            Se, para o menino trabalhador, freqüentar a escola constituía-se um grande problema, para a menina era quase impossível o acesso ao conhecimento escolarizado. Foi o advento da industrialização que lhe abriu as portas da escola, sem, no entanto, garantir-lhe a freqüência, devido, sobretudo, aos compromissos caseiros que deveria assumir juntamente com o trabalho fabril. Caso freqüentasse as aulas, deveria dar ênfase aos trabalhos manuais ali aprendidos, para auxiliar nos afazeres domésticos.

            Em relação à situação do professor público, não havia nenhuma novidade. Premidos entre a pobreza e a miséria, entre o conhecimento e a ignorância, entre a gratificação e a não gratificação, esses agentes da transformação foram esquecidos  pelo Estado e pela sociedade. Confinados em anti-salas de aula, num espaço em que os alunos não se sentavam, mas se amontoavam, abafavam a ponto de desmaiarem, trabalhando com grupos de até 100 crianças, pois a legislação premiava aqueles que tinham mais alunos, com alunos dos mais variados níveis de adiantamento ou atraso, o professor, sob duras penas, amargava uma profissão desconsiderada por todos. Seu grau de culpa em nada se comparava com o das autoridades da Província, do Império e depois da República, que, adormecida para a realidade brasileira, voltava, a ela, vez por outra, sua atenção, e acenava com algum tipo de mudança.

            Em nível de municipalidade, com uma clientela empregada em estabelecimentos fabris e comerciais, a cidade viu-se na contingência de criar escolas noturnas, com legislação específica, mas que, na realidade, eram transcritas das já existentes. Com pequenas adaptações, como  supressão de algumas disciplinas, diminuição do horário de aula e redução, às vezes, até pela metade, dos anos de estudo, a escola pouca ou nenhuma atração exercia sobre a população, pois não a preparava para nada. A escola profissional, que poderia resolver parte do problema, era apenas um sonho ainda longe de se tornar realidade.[43] Deturpada em todos os sentidos, essa escola vai, ao longo do tempo, perdendo a sua importância até desaparecer completamente. Fica em seu lugar apenas o vazio. De nada adiantaram as críticas daqueles que pelejavam por uma escola voltada para os interesses da sociedade, ou seja, aquela que atendesse às expectativas geradas pela expansão do parque industrial e comercial.

            Este trabalho pretende, então, analisar a educação sorocabana entre o Império e a República, com um enfoque que privilegie a ação dos atores sociais, bem como as representações que estes fazem da mesma.

            O esforço realizado caminhou no sentido de mostrar a escola sorocabana e aqueles que a ajudaram a construí-la. Esse talvez seja o maior mérito deste trabalho.

Para estudar tal conjunto de elementos, que permitem perceber a problemática da escola de então, dividi este trabalho em três partes: a Parte I, A Educação em Sorocaba no Império, foi dividida em seis itens. No primeiro, Escolas Isoladas, meu interesse está voltado para a educação existente em Sorocaba na época imperial. Procuro analisar o sistema de ensino que, dissociado da realidade, não motivava o aluno nem mesmo a freqüentar a escola. O professor, subjugado pela legislação que exigia número mínimo de alunos em sala de aula, via-se constantemente em apuros para manter a sua escola funcionando. Também o salário do professor fazia parte de suas preocupações cotidianas. Invariavelmente insuficiente para satisfazer suas necessidades básicas, retirava dele parcela ponderável para prover a escola das condições mínimas indispensáveis ao seu funcionamento. Relegada a segundo plano pelo poder público, a escola, no entanto, vai sobreviver graças a alguns professores que conseguem atrair número razoável de alunos e mantê-los até o final do curso. No item 2, A mulher e a Educação Escolarizada, dedico-me ao estudo da educação feminina. Contumaz ausente da história, a mulher enfrentou ao longo do tempo inúmeras dificuldades para acessar a educação escolarizada. Privada do conhecimento intelectual, sua vida resumia—se a cuidar da faina caseira para a qual fora preparada durante a meninice e adolescência. As poucas escolas disponíveis tinham ensino sofrível em função, geralmente, dos limitadíssimos conhecimentos da mestra. A esse processo vem somar-se um outro também com o mesmo grau de importância: a família pouca ou nenhuma importância dava à educação da menina. Esses elementos constituíam-se nos fulcros que ditavam os rumos da escola feminina. Contando em seu currículo com disciplinas que procuravam atraí-las para as salas de aulas – trabalhos de agulhas, de meia, de bordar, de marcar, a branco, a matriz, a ouro, a prata, com cabelo, com miçanga, com froque, com vidrinho, com seda – a educação completava-se com algumas noções elementares de matemática e leitura. Com a inauguração da escola de magistério, modifica-se o perfil das professoras. Com conhecimentos mais aprimorados e com elementos pedagógicos e metodológicos mais bem definidos e aprendidos, a professora vai, progressivamente atraindo para a escola um olhar social mais significativo das reais potencialidades de que a mesma dispunha para modificar o cotidiano da mulher. No item 3, Escola Secundária, preocupo-me com a educação secundária. Essa escola, de ensino gratuito e reconhecidamente de ótima qualidade, surgiu no século XVIII. Destinava-se à elite e vai subsistir até a década de 1870, quando o Estado, procurando livrar-se da responsabilidade do ensino, transfere-a para a iniciativa privada. No item 4, A Escola de Forasteiros, trato das escolas de curta duração, de responsabilidade de pessoas que, sem nenhuma identidade com a cidade, abriam-nas, abrigavam um certo número de alunos para fecharem logo em seguida, retirando-se incontinente. No item 5, Escola Alemã, Procuro compreender  a escola como um local de preservação da cultura, construído pela colônia de imigrantes alemães que se estabeleceram em Sorocaba desde o início do século XIX.[44] No item 6,  Vigilantes do Saber, traço o perfil de um profissional do ensino cujo papel é fundamental para entendermos o mecanismo desenvolvido pelo Estado para ver a Educação.

            Na Parte II, A Educação em Sorocaba na República, analiso a implantação do Grupo Escolar na cidade. Sob o signo do projeto republicano de dar à sociedade uma educação popular, é propositadamente mitificada, constituindo-se na esperança de consolidação do novo regime. Essa escola, completamente diferente da sua antecessora, apresentava-se como uma nova forma de pensar a educação. Em Sorocaba, sua instalação estará subordinada aos interesses políticos hegemônicos.

            Na Parte III,  Algumas Considerações sobre a Escola Municipal e as Escolas Particulares em Sorocaba, estudo a escola municipal de ensino secundário e as particulares, tanto de ensino fundamental como secundário.

 

 

 

PARTE I

 

 

 

 

 

A EDUCAÇÃO EM SOROCABA NO IMPÉRIO

 

É sem dúvida uma vergonha para nós que a classe dos professores públicos tenha estado até hoje n’estas tristes circunstâncias. O homem que nos ensina a balbuciar as primeiras palavras da civilização, que nos dirige os primeiros passos da vida intellectual que nos alimenta a alma com o pão sagrado da instrucção, que nos abre as portas do templo das letras, esse homem é digno de todo o respeito e acatamento, e de todas as vantagens inherentes à sua espinhosa e elevada tarefa!

(O Professor Público. Jornal O Monitor.  1856)

 

1. ESCOLAS ISOLADAS EM SOROCABA

Desde os primórdios coloniais, até os primeiros anos da República, a educação escolarizada em Sorocaba sempre esteve submetida a uma visão pobre e estreita de sua importância cultural, em todos os níveis de ensino. A preparação para o convívio social do homem se fazia privativamente, independente e sob as instituições escolares. Somente os filhos das famílias pertencentes à camada privilegiada é que freqüentavam as escolas, mas para adquirirem o domínio das letras, que, como símbolo social, lhes proporcionava o status de pessoas cultas. Nem mesmo dentro desse estrato social a escola detinha a importância que lhe era devida, na preparação do homem enquanto elemento essencial na construção da teia social.

Era tímida a utilização da educação escolarizada. Até mesmo entre o círculo aristocrático, poucos precisavam da escola enquanto representante da transmissão das técnicas letradas e dos conhecimentos epistemológicos.[45] Tal situação alterou-se a partir dos últimos vinte anos do século XIX, com o crescimento da cidade, o início da industrialização, a democratização da política, a introdução de novos padrões de vida, a miscigenação da sociedade sorocabana. As mudanças ocorridas, entretanto, não foram suficientes para produzir transformações completas nos moldes da educação escolarizada vigente. O costume arraigado de montar sistemas educacionais para atender a uma parcela privilegiada da população, de origem nitidamente rural e interessada em eternizar os substratos tradicionalistas das formas de dominação, ocorreram de modo claro, mas também, às vezes, disfarçadamente.

Algumas questões, então, são pontuais para se entender as relações existentes entre o processo social e a escola que existia em Sorocaba. Quem a freqüentava? Que interação havia entre o ensino e a expectativa da sociedade? Os agentes sociais estavam comprometidos com ela?

A primeira escola de Sorocaba foi fundada em 1667, pelos padres beneditinos, com a finalidade de “dar aulas de latim e cantochão a todos os filhos dos moradores da vila que quisessem estudar uma e outra coisa”.[46] Mas, começou a funcionar somente “em algum ano anterior a 1728 e continuou até 1805, sendo o seu último professor frei Vicente Ferreira do Rosário”.[47]

Inconformada com o seu fechamento, a Câmara Municipal reage e pede “diretamente ao Príncipe Dom João, Regente, a escola masculina régia, oficialmente instalada em 1815”.[48] É a nossa primeira escola pública.

Em 1872, a população de Sorocaba era de 12.999 habitantes. Desta, 2.493 adultos sabiam ler e de 2.315 menores de 15 anos, apenas 63l freqüentavam a escola. Havia, para eles, 2 escolas públicas para o sexo masculino e 2 para o sexo feminino; 3 particulares para o sexo masculino e 2 para o sexo feminino e 1 escola noturna, particular, mantida pela Loja Perseverança III.[49]

Em 1876, o número de escolas públicas aumenta para 3 masculinas, permanecendo o mesmo número para a feminina.

Em 1890, para uma população de 17.068 habitantes, havia 13.976 analfabetos entre crianças e adultos.[50]

Em 1918, havia 2 grupos escolares com 36 classes; 4 escolas urbanas mistas; 4 escolas noturnas distritais; 7 distritais, 12 rurais, 10 municipais; 1 colégio particular (Santa Escolástica) e 2 cursos noturnos particulares (São Miguel e Perseverança).

Calculada a população urbana em 20.000 habitantes e dos bairros 20.600[51], verifica-se que há em Sorocaba, adaptado o coeficiente de 12,66%, 2.530 crianças na idade escolar; dessas, 53,2% apenas ou 1.348 freqüentam escolas; as restantes 1.182 não cursam escola alguma. Nos bairros para 2.606 em idade escolar e para as quais há 29 escolas, há 937 crianças freqüentando os cursos estaduais ou municipais (45,6%) e 1.669 que não se acham matriculadas.[52]

Até 1896 as escolas funcionavam em casas isoladamente. Esse costume de se estabelecerem escolas em casas vem das experiências colocadas em prática em Portugal no século XVIII. Em 1759, através de Alvará, o Rei ordena “que em cada um dos bairros da cidade de Lisboa se estabeleça logo um professor com classe aberta e gratuita”.[53] Essa determinação tinha algumas intenções subjacentes. Se de um lado permitia que em cada bairro pudesse criar-se uma classe, que deveria localizar-se em casa comum alugada, além de evitar a construção de prédios escolares, proporcionava importante economia para os cofres públicos. A casa, por outro lado, agilizava a criação de escolas, permitindo a sua disseminação pelos lugares onde havia maior número de alunos interessados em desenvolver sua educação escolarizada.

Transportado para o Brasil, encontrou aqui uma série de empecilhos, em virtude do “governo colonial, ao contrário dos governos coloniais de outros povos, como o da Espanha” ser “hostil ao desenvolvimento da instrução pública e – salvo raras exceções – sempre reprimir a expansão do espírito nacional”.[54]

Um outro ponto preocupante relacionava-se ao espaço inadequado devido ao elevado número de alunos em sala: “a casa em que funciona a escola é insufficiente para o número de alumnos. Dahi resultar inconvenientes tam palpaveis que fora cioso esclarecel-o”.[55] Entre esses embaraços, estava a preocupação com relação ao contágio por doenças infecto-contagiosas: “os professores ministrão o ensino em casas que para isso alugão a sua custa, as quais são bastantes acanhadas, mas apesar disto e da agglomeração de muitos meninos e meninas em salas estreitas não se tem manifestado enfermidades nas mesmas”.[56] Acrescente-se que tais existiam em função das constantes epidemias, principalmente de febre amarela e varíola, que ocorriam na cidade.[57]

A par desses fatos, aparece um outro, potencializado em sua magnitude. Sem dispor dos suportes materiais necessários para trabalhar, o professor, sustentando-se em preceitos legais, reivindicava: “certo do quanto procurão V.SS. promover o bom andamento da instrução primaria e na conformidade do paragrafo 4º do art. 25 da Lei Provincial nº 34 de 16 de março do corrente anno, junto remetto a V.SS, a relação dos utencilios para facilitar melhor os trabalhos desta 1ª Aula de 1ª Letras”.[58] E esclarece que, se algum material existia, devia-se ao fato de ter sido adquirido por ele: ”Illmos. Snrs., V.SS. são testemunhas que nesta Aula existem muitos utencilios a minha custa, como 15 quadros de madeira envernizados e envidraçados, 30 ditos lizos em que pregão exemplares quando he grande o número de alumnos, porções de premios, alem de outros utencilios como exemplares que continuadamente fornesso a Aula”. E aproveita para chamar a atenção do Estado para que cumpra com suas obrigações: “tão bem são testemunhas, V.SS. de que sou pobre e sustento oito filhos, e que por isso não me he possivel assistir com tudo quanto precizo apezar do desejo que tenho”.[59]

Em 1856, o Inspetor relata que “outras faltas ha, cuja responsabilidade são peso sobre o professor, refiro-me á ausencia dos preciosos moveis utensis de uma sala com as dimensões requeridas pelo assentado numero de meninos que n’ella vem estudar, e que estão pessimamente accomodados achando em seos assentos comprimidos uns pelos outros”.[60]

Os professores, a respeito desse quesito, deveriam persistir na paciência; caso contrário, corriam sérios riscos de verem-se enganados pelo Estado, como foi o caso da

Professora da primeira Cadeira do sexo feminino, D. Vicentina Adelaide de Vasconcellos, que conserva em sua eschola a antiga mobilia adquirida as expensas suas e que tivera ordem de V.Sa. para faser aquisição de nova mobilia, mas que não tinha cumprido essa ordem em consequencia de não precisar de novos trastes, não tendo mesmo lugar na eschola para accomodal-o.

Na realidade, a recusa da professora soa como estratégia, pois objetivava receber o calote que o governo vinha lhe aplicando há algum tempo: “parece-me que aquela Professora quer ser indenisada mediante avalição previa do valor da mobilia que tem, e foi comprada com seo dinheiro cuja pretenção é, a meo ver muito legitima”.[61]

Sem banco para sentar-se, o jeito era fazer rodízio de alunos: “nota-se a falta de bancos, visto que os existentes não chegão para accomodar as alumnas que frequentão a escola, de modo que é necessario fazer a turma que escreve estar de pé e em quanto a turma que lê fica sentada – e assim  - alternadamente”.[62]

As denúncias contra o estado deplorável em que se encontrava a escola, era uma prática contumaz do professor, que, inconformado, denunciava:

nada tão facil como relatar o estado do material desta Cadeira, por isso que apresentando-a inteiramente desprovida de moveis e utensis, tem-se disto o essencial. Entretando, esse estado que dá um caracter ridiculo a eschola, que contrista os visitantes e que dificulta o emprego dos bons methodos, não é devido ao indefferentismo ou incuria do professor.

É visível a sua decepção para com o Estado:

em junho foi requerido o necessario para seu verdadeiro estabelecimento. Requerimento que o Dr. Presidente da Provincia remeteu ao Dr. Inspector Geral da Intrucção Publica para receber informações, que faria socegadamente entre a papelada, enquanto o Professor procura no meio das difficuldades substituir tudo quanto é proprio por inventar de ocasiões, os quaes nem sempre produzem os verdadeiros resultados.

Conscientemente creditava as dificuldades do aprendizado às péssimas condições em que se encontrava a escola: “a poderosa influencia que exercem um bom material no progresso dos alumnos, normalmente com o emprego do methodo intuitivo, portanto, ha necessidade de fornecer as cadeiras de tudo quanto é indispensavel e de considerar o auxilio do Governo uma realidade e não uma promessa regulamentar”. E farto do descaso do Estado debitava-lhe a responsabilidade pelas condições existentes: “essa falta deste e de outros compromissos que implanta-se as DESA-DENS, na marcha dos trabalhos escholares”.[63]

A negligência para com a escola pública vinha de longo tempo:

tenho a honra de levar ao conhecimento de V.Sa. que a 2ª Cadeira de Primeiras Lettras do sexo masculino desta cidade de Sorocaba, tem uma frequencia de noventa a cem alumnos, não possue os moveis e utencilios precizos para a boa ordem e regularidade do ensino. Tendo esta 2ª Cadeira sido provida de moveis talvez a mais de trinta annos, quando della foi Professor o finado Capitão Francisco Luiz de Abreu Medeiros, acha-se ate hoje inteiramente quazi desprovida.[64]

Se algumas escolas ficaram por longo tempo sem receber os materiais necessários, outras se encontravam em pior estado, mesmo porque, desde a sua criação, nunca tiveram qualquer tipo de material disponível:

as escolas dos Bairros da Capella do Cerrado e da Capella da Apparecida, bem como a 3ª Cadeira d’esta cidade e Jundiaquara, nunca tiverão movel ou utencilios algum, e ellas recentem-se muito d’essa falta. Rogo que tanto a V.Sa. que digne-se providenciar de modo que sejão fornecidos moveis e utencilios, a 3ª Cadeira do sexo feminino, desta cidade do mesmo sexo e do Bairro da Capella do Cerrado e que tambem, as do sexo masculino das Capellas do Cerrado e da Apparecida e do Bairro de Jundiaquara, conforme tem sido por veses requisitados pelos respectivos Professores.[65]

Mas para o Inspetor era “um tanto edificante ver-se os meninos e meninas assentados em tocos de pau, banquinhos de diversos tamanhos e modelos, com seus livros estudando”.[66]

 

1.1. ESCOLA DESPROVIDA: aventuras e desventuras do exercício   docente

O salário constituiu-se, ao longo do tempo, no principal problema do professor. Salvo raras exceções, como em 1887, quando subiu para 1.800$000 e permitiu certo crescimento do padrão de vida, o salário sempre esteve abaixo do mínimo exigido para a sobrevivência. Sem dispor de qualquer mecanismo de pressão para reverter o quadro caótico, o professor sujeitava-se à situação vigente, mancomunando-se com a pobreza de seus alunos.

Em 1852, o Inspetor Geral, dizia em seu relatório que “não é gratificando-se com mesquinhos vencimentos de 300$ a 400$000 anuais que poderemos atraí-los para o magistério, sobretudo numa região fértil de recursos como São Paulo, onde tão fácil é a vida e mais vantagens se colhem ensinando num colégio particular”.[67] Como comparação, no mesmo ano a assinatura de 20 exemplares do jornal O Defensor custava “1$200” e um exemplar da comédia “E o Pae e o Filho e o Caipira Logrado” custava “$500”.[68]

        Em 1878, o Presidente da Província, em seu arrazoado sobre o fechamento da Escola Normal, nos dá precioso panorama sobre o estado em que se encontrava a educação pública:

os professores públicos nem mesmo encontram o estímulo das vantagens materiais; pode-se dizer, sem exageração, que são eles os mendigos do funcionalismo. Seus vencimentos são fixados, ainda, conforme a categoria das localidades: cidades, 800$000 anuais; vilas, 750$000; freguezias e bairros, 650$000. Por exceção, os da Capital percebem 950$000. Os cofres públicos apenas concorrem com a mobília; todas as outras despesas da escola, inclusive casa, são pagas do bolso do professor. Custa compreender que, com tão escassos recursos, se possa manter um professor público; a maior parte dos seus vencimentos é absorvida pelo aluguel da casa e por isso não admira que as escolas sejam instaladas em casas pequenas e acanhadas, que não podem comportar os alunos que as freqüentam. Nestas condições, como estranhar que o ensino público não tenha degenerado em ofício? O homem de habilitações científicas, por muito pendor que sinta para o magistério, fugirá por certo de uma profissão que lhe acena com a perspectiva da miséria e irá procurar em qualquer outra carreira os recursos necessários para uma subsistência isenta de privações. É absolutamente impossível, com tão pouco dinheiro, encontrar-se para o magistério público pessoa idônea e que se recomende por todos os predicados que deve reunir o educador da infância.[69]

Acrescente-se que o salário dos professores normalistas era sempre superior ao dos professores que não tinham a mesma titulação. Além disso, eram escalonados de acodo com a divisão urbana. O salário das professoras também obedeciam a semelhante divisão, com a ressalva de que eram sempre menores que o dos professores. Os professores padres, que, geralmente, eram nomeados por influência do clero, eram colocados na questão dos salários, entre os professores titulados e não titulados. Por exemplo, em 1882,

o professor da 3ª cadeira, Manoel dos Reis, que é normalista, vence amnualmente 1.800$000; os Professores da 2ª cadeira, Pr. Antonio Augusto Lessa e o da cadeira do Cerrado, Pr. Joaquim Gonçalves Pacheco vencem cada um amnualmente a quantia de 1.500$000. O Professor da 1ª cadeira, Manoel Joaquim de S. Guerra vence 850$000 e o da Capella de Apparecida, José Pires de Lemos, vence 650$000. As Professoras da 2ª cadeira, D. Januaria de Oliveira Simas e a da 3ª cadeira, D. Gertrudes Pires de Almeida Mello vence cada uma 850$000 por anno e as Professoras da 1ª cadeira, D. Vicentina Adelaide de Vasconcellos e da cadeira de Jundiaquara, D. Zulmira Ferreira do Valle, vence cada uma, por anno 650$000.[70]

A guisa de comparação, em 1878 o “assucar branco refinado custava $480 o kilo”, um par de “botinhas inglezas para senhoras, meninas e meninos custava  de 2$000 a 5$000”. O médico – cirurgião dentista, “Dr. Frederico Koth, de passagem pela cidade” participava que “collocava dentes artiphiciaes de pressão á vulcanite de 6$000 para cima”. Assistir no “Theatro São Raphael a Companhia Hespanhola de Zazuela Lyrico-dramatica, no camarote”, custava “10$000”. A loja de Chico Barbeiro anunciava que chegara as “bichas hamburguesas” e que “continuava applical-as á 500 réis cada uma”. A Casa Meyer vendia “cerveja nacional superior de São Paulo á 320 réis a garrafa”. Em 1882 um “chapéu de cópa dura e alta, á Luiz XIV custava 4$000”; Samuel Coblentz anunciava “relogios de parede, afiançados por 2 annos a 25$000. Ditos de bolso de 10 a 500$000”. O médico “Jorge Sroborough Bornsley, especialista em molestias das vias urinarias, syphiles e de pelle” cobrava “para visitas na cidade 5$000. consultas no consultorio 2$000 e gratis para os pobres”.[71]

Com o salário, o professor, além de pagar o aluguel da casa onde a escola estava estabelecida, deveria custear outras despesas impostas pelo proprietário do imóvel, como ocorreu com a professora Maria Flora de Souza. Em seu relatório, o Inspetor dizia que “a caza é alugada mediante pagamento mensal de 14$000 r., além do onus de ter a inquilina consigo e sustentar a uma filha do proprietário. Esta despeza é grande desfalque nos vencimentos já tão reduzidos da Professora”.[72] Mais adiante, dizia “que esta Professora tem sido obrigada a se contentar com o modico ordenado que percebe. Nunca foi gratificada, por isso seria mister contar com 80 discipulos, o que nunca realizou-se”.[73]

Tal gratificação foi introduzida pela Lei de 15 de outubro de 1827 e destinava-se ao professor que não “interrompeo o magisterio e no exercicio d’elle se destinguio por sua prudencia, disvelos, grande numero (80) e aproveitamento de discipulos”.[74] O elevado número de alunos exigidos, especialmente do sexo feminino, impedia que as professoras das pequenas e médias cidades tivessem acesso à gratificação, aumentando ainda mais a “injustiça procedente da desigualdade dos ordenados”.[75]

Além desse tratamento parcial, aquela lei trouxe às escolas inúmeros problemas, com os quais tinham enormes dificuldades em trabalhar. Ao estabelecer um número mínino de alunos em sala de aula para que houvesse aumento salarial, possibilitou aos pais que, percebendo a situação de dependência em que se colocava o professor, impusessem seus interesses pessoais, intervindo, dessa forma, indevidamente na vida da escola. Tal situação é sintomática no relato do inspetor escolar:

aqui, como em outras localidades da Provincia queixão-se os Professores de que os paes de familias governão as escholas. Elles impoem sua vontade aos Mestres que se vem compellidos a subscrever as exigencias que lhes são deitadas às vezes com manifesta infração dos deveres do magisterio, por que a reluctancia á imposição dos paes traz immediata retirada dos filhos, e á Cadeira não convem o desfalque de um unico alumno, por ver gratificado na razão de seo numero. É este mais um inconveniente do actual systema de gratificação.[76]

Com um salário sempre defasado, o professor tinha sérias dificuldades para alimentar-se e pagar o aluguel da casa onde trabalhava. O relato de uma professora dá-nos a dramaticidade do quadro:

dirigindo-me n’este momento a V.Sa. tenho por fim representar à V.Sa., que a respeito do estado actual de Sorocaba, onde os generos de primeira necessidade tem subido a altos preços, é difficil e custoso a subsistencia e por essa rasão ouso rogar a V.Sa, que por seo intermedio, eu consiga do Exmo. Governo da Provincia uma consignação equitativa e rasoavel, destinada para alugar uma casa, em que posso residir e dar aulas. Ora, deduzindo-se de meu ordenado o importe que pago de aluguel de casa, o restante não é sufficiente para a subsistencia.[77]

O Inspetor, em seus relatórios, era testemunha da realidade vivida pelo professor:

cumpre-me observar aqui que os Professores lutão com serias difficuldades para obter casas em que possão conservar as escholas, pela escasses das mesmas e pelo alto preço a que tem chegado os alugueis, com tendencia para subirem, de maneira que se um Professor quiser morar em uma casa um pouco decente (o que é impossivel) tem de consumir todo o seo ordenado sem que nada lhe fique para alimentar-se.[78]

Em 1872, tem início a construção da ferrovia que unirá Sorocaba a São Paulo. Esse fato atrai para a cidade um contingente extra de trabalhadores que inflacionarão ainda mais o já restrito mercado imobiliário, devido especialmente à pequena oferta de casas para alugar. Com isso, o professor tem os seus problemas potencializados a ponto de afirmar “que de dia para dia se fazem mais urgentes o fornecimento de uma quota para aluguel de casa, pois que hoje é n’esta cidade um onus pesado aos professores em consequencia da via ferrea que tem vir até aqui os alugueis subirão de 20$ a 25$ mensais, as casas ordinarias”.[79]

Diante de seu estado de pobreza, o professor não titubeava em aproveitar todas as oportunidades que se lhe apresentavam para reclamar. A estada de D. Pedro II em Sorocaba é um bom exemplo. Diz o professor:

approveito a occasião para declarar a V.Sa., que S.M.I. veio visitar a minha escola, tendo eu declarado a S.M.I. que ganhava 70$833 mensal e que pagava aluguel de casa a minha custa, achou quase que impossivel eu poder viver d’esta maneira; então fallou ao Illmo. Exma. Senr. Presidente que se achava presente que levasse em consideração as necessidades que havião a qual espero na benevolencia do Illmo. e Exmo. Senr. Presidente que não se esquecerá de determinar suas ordens.[80]

O Governo Provincial sequer dignou-se a responder ao professor sobre o seu lembrete.

Destaque-se que o aluguel em 1871 variava entre 20 e 25$000[81]. Com o mesmo salário, em 1872  o professor comprava: 15 quilos de arroz por 1$600; 15 de feijão por 2$000; 15 de farinha de mandioca por 4$000; 15 de açúcar por 7$500; 15 de toucinho por 4$500 e uma dúzia de ovos por $160.[82]  Em 1875, o Inspetor “arbitrava o aluguel de casas em 35$000 réis mensais, pois é esta a menor quantia pela qual pode um professor ter n’esta cidade uma casa regular para escola”.[83] Nesse mesmo ano, o professor comprava: 15 quilos de arroz por 2$500; 15 de feijão por 3$000; 15 de farinha de mandioca por 4$000; 15 de açúcar por 5$600; 15 de toucinho por 7$000 e uma dúzia de ovos por $280.[84]

Além de não ter os salários reajustados, o professor era ainda vítima do descaso do Estado que, comumente, atrasava durante longo tempo os seus proventos. Beirando as fímbrias da pobreza, em seu sofrimento, recorre ao Inspector: “pedirão-me alguns professores deste districto, que me dirigissse a V.Sa., solicitando sua valiosa intervenção a fim de ver se podem elles receber seus ordemnados que ha quatro meses não recebem”. Continuando, chama a atenção para a qualidade dos ordenados: “levo tal pedido ao conhecimento de V.Sa., que zeloso como é, pelo serviço publico, attenderá a estes funcionarios que vivem de seus minguados ordenados”.[85] Um mês mais tarde, sem que o problema tivesse sido solucionado, agora o “Conselho da Instrucção Publica” resolve intervir, solicitando “de V.Sa. as providencias necessarias para que sejão pagos de seus vencimentos os Professores e Professoras que a cinco mezes ou mais não tem recebido os mesmos, e estão soffrendo serias privações”.[86]

 

1.2. ALUNOS

A enorme quantidade de alunos que abandonavam os estudos era debitada ao preconceito que a população fora adquirindo ao longo do tempo, contra a escola pública. Contribuíram para isso

a inaptidão do professor, que afugentava a freqüência da escola; a falta de professores; a desídia destes, a falta de instalações adequadas para o estabelecimento da escola; a ausência de mobílias; a falta de material didático e o completo desconhecimento dos professores destes.[87]

O Presidente da Província, em seu relatório, dizia que “por isso não raro se vê, ao lado da escola pública despovoada, a particular bem freqüentada”.[88] No entanto, João L. Rodrigues identificava

uma outra causa que desviava da escola pública bom número de crianças: era a baixa extração da sua clientela ordinária. Os colégios particulares, onde o ensino era remunerado, não estavam ao alcance de todos, e desse modo operava-se uma seleção: as crianças de família medianamente abastada iam para as escolas particulares da localidade ou quando elas não existiam, para internatos.

Desse modo, só iam para a “escola pública as crianças cujos pais eram totalmente indigentes, não só mal vestidas e descalças, mas muitas vezes desasseadas, destituídas daquele polimento que revela, a primeira vista uma boa educação de família”.[89] E para corroborar o seu diagnóstico, cita o depoimento de uma 'certa senhora' de suas relações que, tendo-lhe confiado dois de seus filhos, dizia sempre tê-los no colégio. A senhora justificava: “Não digo que meus filhos estão na escola porque para a escola, em regra geral, não vão senão as crianças da ralé social”.[90]

Já para o Inspetor Geral, a inferioridade do ensino público devia-se ao deficiente programa das escolas primárias, “que era modestíssimo, nada mais do que o programa de 1846, com acréscimo apenas do sistema métrico, sendo que alunos havia que, com um estágio de 3 anos, deixavam a escola mal sabendo ler”.[91]

Para os pais “o pouco adiantamento assinalado não tinha explicação, senão na desídia dos professores e mesmo na sua falta de escrúpulos”.[92]

A evasão dos alunos não passava, segundo a ótica dos professores, pelo processo pedagógico. A escola, com um programa, cujo conteúdo não se relacionava com as expectativas sociais, divorciada da realidade cotidiana, excludente, seja na ação punitiva, seja nas práticas voltadas para o ensino pedagógico, detinha um professor que, se não era totalmente desqualificado em conhecimento, era-o no conteúdo metodológico, aplicado ao magistério.

O trabalho em sala de aula tornava esse professor, autodidata no trato voltado diretamente ao ensino-aprendizado. Era obrigado, por força das legislações existentes, a conviver com uma clientela extremamente diversificada, onde coexistiam, na mesma classe e na mesma série, “alumnos, cujas idades variam entre 7 e 12 annos”.[93]

Essa diferença de idade, segundo os professores, era um dos motivos para as faltas e desistências dos alunos. A professora Annita Guilhermina Wilke relata que, sob a sua direção, “matricularam-se 24 alumnas, porem ja sahiram 7 d’ellas por serem muito velhas e grandes”.[94] Por outro lado, os professores da escola pública, equivocadamente, debitavam à escola particular a responsabilidade pela ausência de alunos. Reconhecendo o “número bem diminuto”, o professor defendia-se, dizendo que “existindo e funcionando, ao que me parece, sete escolas particulares nesta cidade, forçoso é que o numero de alunos nas aulas publicas não seja grande”.[95]

O ensino obrigatório era também reclamado como um agente capaz de ajudar no controle das ausências e desistências. O Inspetor dizia que “a falta de frequencia de alumnos é devida ao ensino não ser obrigatorio”. E reafirmava a sua convicção de que “foi esta sempre minha opinião”.[96] O professor também tinha o mesmo conceito: “Enquanto não ouver o ensino obrigatorio é quase impossivel por quanto eu e meus collegas lutarmos exuberantemente e nada ou quase nada podermos conseguir pela falta de assiduidade dos mesmos”.[97]

O castigo agia nas duas extremidades do problema. De um lado, para o professor, a pouca freqüência era devida a “falta de castigos, pois elles abusão do mestre e não frequentão a escola”.[98] Do outro lado, para o Inspetor, “muitas veses os paes retirão seus filhos da aula por um simples castigo moral feito pelos Professores, a bem da disciplina e adiantamento dos meninos”.[99]

Os pais arcavam com uma parcela ponderável da culpa pela freqüência irregular às aulas:

a instrucção publica n’este lugar não pode prosperar por causa da insubordinação dos meninos e por causa dos paes e tutores dos menores que descurão da educação. Muitos dos meninos entrão nas escholas e dahi a 15 dias sahem e voltão de modo passado às vezes dois annos para principiarem outra vez. Creia, V. Sa., que é uma lucta sem fim![100]

O desinteresse da sociedade pela educação é identificado como elemento desestimulador à freqüência. Segundo o Inspetor,

as causas que tem determinado a pouca frequencia das escholas, em relação a população d’este municipio, só pode ser attribuida ao pouco amor que o povo ainda consagra a instrucção, cujas vantagens certamente desconhece, e não sei qual seja outro motivo, pois que os professores cumprem com suas obrigações e são assiduos e zelosos pelo adiantamento de seos discipulos.[101]

Também o professor particular compartilha da mesma opinião. Para o professor J.P. Chagas, “o amor da instrucção n’esta cidade é pouco desenvolvido”. Justificando-se, dizia que deixava “de dar attestado dos allumnos que tem saido de minha aula por não terem completado sua educação literaria”.[102]

Para o mesmo Inspetor, anteriormente, ”as causas determinantes da falta de progresso pode ser attribuida a pouca constancia dos paes em conservarem seos filhos nas escholas por tempo sufficiente para completarem sua educação”. E mais adiante deixava clara a sua perplexidade, afirmando que “não se deve attribuir a defficiencia de população ao facto de não serem as escholas publicas e particulares deste districto frequentada por um numero de allumnos superiores aquelle que as frequentão, mas sim a pouca inclinação que em todo o Brasil se nota pela instrucção”.[103]

A mudança de horário das aulas constituía-se num outro motivo responsável pelo elevado número de faltas. Até 1869, as aulas do ensino fundamental eram distribuídas em dois períodos: de manhã, das 09h às 12h, e à tarde, das 14h às 17h. A partir de 1870, elas passam para um só período: das 09h às 14h, isto é, cinco horas e sem intervalo. O relato do professor é esclarecedor:

a alteração do horario das escolas, tem dado em resultado difficuldades que eu confesso não tenho meios de vencer. Declaro, sem medo de errar, que é humanamente impossivel conter um menino por 5 horas em um banco a ler e escrever. Si um homem difficilmente pode concentrar a atenção por tam longo espaço de tempo, o que sera de uma creança cheia de vivacidade, inquieta por natureza, ainda de impressões variadas?

A experiencia tem mostrado que hoje as faltas são mais numerosas e os menino tem verdadeiro horror as 5 horas de escola. Entre os frequentes, uns resistem bem ao cançaço (principalmente nos dias calmosos), outros desesperam inteiramente. Não me compete inquirir dos motivos por que foi alterado o antigo horario, alias mais incommodo aos professores; limito-me a relatar factos diariamente observados.[104]

Mas um dos motivos mais convincentes é o do professor João Dias Vieira:

neste Bairro como em nenhum outro deste municipio, ha muita pobreza, e por consequencia a maior parte dos meninos que aqui existem deixão de frequentar a escola por não terem livros e mais objetos que a mesma exige para o ensino, sendo, talvez esta a causa de se achar tão limitado o numero de alumnos matriculados deste anno.[105]

1.3. CURRÍCULO

A educação das primeiras letras em Sorocaba não diferia em sua metodologia da de outras localidades. Na abertura dos trabalhos da Constituinte de 1823, D. Pedro I, em sua primeira Fala do Trono, reconhecia a necessidade da criação de leis específicas referentes à educação e propunha que a Comissão de Instrução Pública desse pareceres que se encaminhassem para a elaboração de uma legislação própria. No projeto foram introduzidos três artigos que privilegiavam a educação:   

Art. 250 – Haverá no Império escolas primarias em cada termo, ginásio em cada Comarca e universidade nos mais apropriados locais.

Art. 251 – Leis regulamentares marcarão o número e constituição desses úteis estabelecimentos.

 Art. 252 - É livre, a cada cidadão, abrir aulas para o ensino público, contanto que responda pelos abusos.[106]

A discussão do anteprojeto constitucional, no entanto, não foi concluída, devido à dissolução da Assembléia, ordenada pelo monarca.

Com a dissolução da Assembléia, D. Pedro em 1824, outorgava a Carta Constitucional que em seu artigo 179, historicamente, determinava, no parágrafo XXXII, ser “a instrução primária gratuita a todos os cidadãos” e, no parágrafo XXXIII, que “a Constituição garante colégios e universidades, onde serão ensinados os elementos das ciências, belas letras e artes”.[107]

Ainda na primeira Fala do Trono, fica claro o interesse de D. Pedro pela educação, onde chega a detalhar o tipo de ensino que deveria ser praticado:

tenho promovido os estudos públicos quanto é possível, porém, necessita-se para isso, de uma legislação particular. Fez-se o seguinte: comprou-se, para engrandecimento da Biblioteca Pública, uma grande coleção de livros da melhor escolha; aumentou-se o número de escolas, e algum tanto o ordenado de seus mestres, permitindo-se, além disto, haver um sem número delas particulares; conhecendo a vantagem do ensino mútuo também fiz abrir uma escola pelo método lancasteriano.[108] 

Esse método, ao gosto do imperador, foi adotado inicialmente na Corte, devido sobretudo à “facilidade e precisão com que desenvolve o espírito e o preparo para a aquisição de novas e mais transcendentes idéias”.[109] Em 1825,

Sua Majestade, o Imperador, reconhecendo a grande utilidade que resulta aos seus súditos do estabelecimento de Escolas Públicas de Primeiras Letras pelo Método Lancasteriano que, achando-se geralmente admitidas em todas as Nações civilizadas têm a experiência mostrado serem muito próprias para imprimir na mocidade os primeiros conhecimentos.[110]

Mais tarde, a 15 de outubro de 1827, uma pretensiosa lei determinava o estabelecimento de “escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares populosos do Império”.[111] Dizia em seu artigo 6º que

os professores ensinarão a ler, escrever, as quatro operações de aritmética, prática de quebrados, decimais e proporções, as noções mais gerais de geometria prática, a gramática da língua nacional, e os princípios da moral cristã e da doutrina da religião católica e apostólica romana, proporcionando à compreensão dos meninos, preferindo para as leituras a Constituição do Império e a História do Brasil.[112]

Tal sistema de ensino foi adotado oficialmente até 1834, quando o Ato Adicional de 12 de agosto definiu novas estratégias. Em seu artigo 10, parágrafo 2º, instituía que competia às Assembléias Legislativas Provinciais legislar “sobre instrução pública e estabelecimentos próprios a promovê-la, não compreendendo as Faculdades de Medicina, os Cursos Jurídicos, Academias, atualmente existentes e outros quaisquer estabelecimentos de instrução que para o futuro forem criados por lei geral”.[113]

Em março de 1846, a Assembléia Provincial de São Paulo editava a Lei 34, regulamentada em 25 de setembro do mesmo ano, em que “o programa primário constava de leitura, escrita, aritmética até proporções, noções de geometria, prática, gramática e religião”[114] ela também “instituía as horas de abertura e encerramento das aulas, a divisão dos alunos em decuriões, a punição com a férula e os exames antes das férias”.[115]

No entanto, em Sorocaba, o ensino mútuo ou lancasteriano foi praticado até 1887.[116] Nesse sistema, a gramática da língua nacional era dada através de “cartas do A.B.C., cartas de sílabas, cartas de nomes e cartas de fora ou manuscritas, depois o silabatório português e a Gramática da coruja”. O método adotado “era o da soletração. O programa do ensino primário cifrava-se naquilo que os ingleses denominavam os três r: ler, escrever e contar. A doutrina Cristã, consistia na decoração da Cartilha que continha o primeiro catecismo”.[117] O aprendizado começava com a leitura das letras maiúsculas, a partir das chamadas ‘cartas de fora’, que eram cartas escritas pelos familiares ou vizinhos que sabiam ler e escrever e que os alunos levavam para a escola. Vinha, em seguida, a letra de forma que se alternava com a ‘letra de mão’. Por último, eram utilizados os livros escolares. Após o aprendizado das letras, iniciava-se o exercício da escrita. Segundo João L. Rodrigues, em relação às aulas de “Aritmética, os principiantes faziam os seus exercícios em ardósias, nas quais o mestre passava as contas, que deviam fazer em casa. Os mais adiantados tinham pequenos cadernos, onde o professor formulava problemas: eram questões de sistema métrico, juros e regras de sociedade”. Esses alunos constituíam, na escola, “uma espécie de aristocracia. Quando recebiam das mãos do mestre os cadernos de problemas, era de vêr os ares de importância que tomavam. Pareciam olharem com piedade para os grilas, obrigados a tortura da decoração da taboada”. Aos sábados, esse trabalho “tornava-se menos fastidioso, porque os exercícios eram cantados: os pequenos, colocados em semi-círculos em voz baixa, aditavam aos produtos certas piadas que lhes pareciam muito jocosas. Mas essa alegria não durava muito, porque à hora do argumento havia larga distribuição de palmateadas”.[118] Em qualquer uma das disciplinas, o processo era moroso e incompleto. Sustentados pela decoração, “os alunos tinham grandes dificuldades em chegar ao termo, pois se a memória falhasse durante o 'argumento ou a sabatina'[119] realizadas no final do dia ou da semana, o castigo era a palmatória”.[120]

Nesse sistema, os professores tinham grandes dificuldades de ascendência sobre a classe. As aulas transcorriam em completa confusão, com os alunos fazendo as leituras, todos ao mesmo tempo, em voz alta e em todos os sons. João L. Rodrigues relata que “era um vozear confuso, uma mescla de sons mais ou menos dissonantes, onde havia de tudo, trechos de leitura corrente, exercícios de soletração. A impressão que me dava era a de uma orquestra de batráchios a coaxar num brejo”.[121]

Organizada em grandes grupos e com grande número de alunos, incentivados no final do dia ou da semana a exporem o seu aprendizado, faziam-no de forma provocativa, gerando verdadeira guerra. O próprio João L. Rodrigues que, em sua meninice, foi aluno[122] do prof. Romão, descreve-nos  que

suas aulas corriam numa total anarquia e o que nelas se aprendia era quase nada. Os alunos eram divididos em dois partidos opostos, dois campos separados, ocupando cada um certo número de bancos. Estes dois partidos deviam lutar durante a semana para ver qual deles levava a primazia. A hora de tomar lição marcavam-se os erros dos alunos de um e outro campo e no fim da semana o mestre fazia a apuração: vencia o partido que tinha menor número de erros. Para tornar seu método mais consistente o Professor Romão estabelecera um emblema para indicar o campo vitorioso: era uma reles bandeira, feita dum lenço de chita de cores berrantes. Quando um dos partidos, até então vitorioso, vinha a ser desbancado, surgia quase sempre uma dificuldade: recusava-se a levar a bandeira ao campo vencedor, como mandava o protocolo, e só se resolvia a isso depois da intervenção, nem sempre eficaz, do professor. É fácil compreender a excitação que isso produzia: quando a aula terminava, havia na rua, cenas de pugilato, que nada tinham de edificantes.[123]

 

 

 

1.4. ESPAÇO DA ORDEM

A disciplina, motivo de tantas preocupações, tanto por parte dos governos, quanto dos professores, é permeada por inúmeras publicações, que têm por finalidade precípua delinear a sua aplicabilidade nas escolas públicas e particulares, mas também evitar os exageros da punição a que estavam sujeitos os alunos que, pelos mais variados, motivos não correspondiam aos ditames propostos pela organização escolar.

Existente há muito tempo, mas transformada durante o século XVII em instrumento de dominação, a disciplina escolar foi progressivamente ganhando novos métodos que visavam primordialmente ao corpo, mas que tinham como objetivo a coerção contumaz. Diferente de todas as outras formas de dominação (escravidão, servidão, domesticidade, vassalagem, ascetismo), a disciplina promove uma manipulação calculada sobre o corpo, seus elementos, seus componentes, seus gestos, sua fala. O corpo humano é tratado como uma máquina que compõe-recompõe, articula-desarticula, a fim de satisfazer o domínio que se quer estabelecer sobre o outro, para que faça o que se quer, do modo que se quer, quando se quer. Produto de um longo processo de enriquecimento da metodologia com procedimentos muitas vezes mínimos e de origem diversa e de locais múltiplos, encontra, na escola, fértil campo para o seu emprego.[124] Imposta para responder às exigências da contextualidade do momento, ganha contornos minuciosos e íntimos, que a definem como de conteúdo político. Esse por sua vez, será utilizado em sua plenitude nas escolas primárias, secundárias e profissionalizantes.

O tempo, como um dos componentes do disciplinamento, teve no ensino lancasteriano, e, por extensão, nos métodos que vieram substituí-lo, um profícuo campo de experimentação. Nele, a escola era disposta como um aparelho para intensificar a utilização do tempo; sua organização permitia desviar o caráter linear e sucessivo do ensino do mestre; regulava o contraponto de operações feitas, ao mesmo tempo, por diversos grupos de alunos sob a direção dos monitores e dos adjuntos, de maneira que cada instante que “passava era povoado de atividades múltiplas, mas ordenadas; e por outro lado o ritmo imposto por sinais, apitos, comandos impunha a todos normas temporais que deviam ao mesmo tempo acelerar o processo de aprendizagem e ensinar a rapidez como uma virtude”.[125]


       

 Fig. 03.  Prédio da Escola da Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema. 1910. Foto: Domingos Alves Fogaça. Acervo do Museu Histórico Sorocabano.

 

 


    Fig. 04. Alunos e alunas da Escola da Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema. 1884. Foto: Domingos Alves Fogaça. Acervo do Museu Histórico Sorocabano.

 

Em 1811, a Coroa Portuguesa, ao inaugurar a Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema, previa a organização de uma escola destinada aos filhos dos trabalhadores livres, libertos e escravos. O professor escolhido - o Capitão da Guarda da Fábrica, José Maria - devia realizar uma educação e instrução voltada para a formação profissional dos interessados. Findo o processo, os alunos “capazes de tomar os melhores conhecimentos práticos”[126] seriam aproveitados para exercerem as mais diversas atividades atinentes à produção fabril. Estabelecem-se aqui as relações corporativas, onde, professor e alunos interagem, trocando experiências: o professor dá seu saber e o aluno seu trabalho, ambos voltados para o mesmo fim.[127] A domesticação e a subordinação se misturavam a uma transferência de conhecimento. Na “Escola da Fábrica” os alunos aprendiam  “aritmética, geometria e alguma coisa de mecânica”[128] fora do período de trabalho. Destaque-se que, na Fábrica, as crianças com mais de 4 anos já faziam parte das forças produtivas.[129] A escola era dividida em duas classes: uma para aqueles que não detinham nenhum conhecimento de Matemática e eram iniciados em Aritmética através de exercícios; a outra para aqueles que possuíam algum conhecimento anterior e que começavam pela teoria em Geometria e prática em Mecânica, na Fábrica. O curso finalizava com os alunos mais ou menos habilidosos destinados aos respectivos lugares na produção. O principal objetivo da escola era formar mão-de-obra escrava qualificada, que deveria substituir a assalariada em todas as fases da produção, fato que realmente vem a ocorrer em 1820, quando da administração de Varnhagem.[130]

Nessa sistemática, os aspectos pedagógicos são relegados a um segundo plano, prevalecendo a apropriação do tempo e do trabalho como elementos primordiais para o aumento dos lucros. Na organização das aulas, já no final do século XIX, a disciplina é estabelecida através de atividades nas quais o tempo determina a organização das classes, onde os indivíduos são submetidos a atividades que vão aumentando gradativamente os graus de dificuldade. O aprendizado da leitura era dividido em várias etapas: começava com o conhecimento das letras (A,B,C...); depois passava para a soletração; em seguida, aprendia-se a juntar as letras. A etapa seguinte consistia em fazer a leitura das chamadas ‘cartas de fora’, que eram as correspondências recebidas pelo professor, especialmente as dos Inspetores Escolares, onde a escrita era manuscrita; ”a letra de forma vinha alterar com a letra de mão. Então entrava em cena os livros escolares. O primeiro era o silabário português. Após o silabário vinha a Cartilha da Doutrina Cristã que também era ilustrada”.[131]

A organização serial dos conteúdos possibilita um controle minucioso e uma ação direta em relação à dissimilitude, à correção, ao castigo e à eliminação. Os alunos são utilizados para atividades de acordo com as séries que freqüentam; tem-se como finalidade e de acordo com a sua capacidade, atingir os objetivos traçados inicialmente quando de sua inserção na escola.

A partir da adoção do método Lancaster em 1823, com a concepção complexa do ensino mútuo, a escola passa a destinar aos alunos mais velhos algumas tarefas como a de fiscalização, de controle do trabalho, e de ensino,  de maneira que o tempo todo o aluno estivesse ocupado, ou ensinando, ou aprendendo. A escola transforma-se num lugar de aprender, onde cada aluno, cada momento se combinam como deve ser, sendo permanentemente utilizados no processo geral  de ensino. Nessa escola, a grande ‘vantagem’ estava no fato de que um único professor conseguia controlar turmas de até 360 alunos. Em todo esse processo há envolta uma técnica disciplinar onde os alunos são treinados para obedecerem cegamente à ordem de comando com a maior docilidade possível. Ao sinal, realizado através de sino, palmas, gestos, batidas, olhar do professor, que deveria ser o único barulho a existir na sala, o aluno deveria realizar determinada tarefa.

O primeiro e principal uso do sinal é atrair de uma só vez todos os olhares dos escolares para o mestre e fazê-los ficarem atentos ao que ele lhes quer comunicar. Assim, toda vez que este quiser chamar a atenção das crianças e fazer parar qualquer exercício, baterá uma vez. Um bom escolar, toda vez que ouvir o ruído do sinal pensará ouvir a voz do mestre ou antes a voz de Deus mesmo que o chame pelo nome. Entrará então nos sentimentos do jovem Samuel, dizendo com ele no fundo de sua alma: Senhor eis-me aqui. O aluno deverá aprender o código dos sinais e atender automaticamente a cada um deles. Feita a oração, o mestre dará uma pancada de sinal, olhando a criança que quer mandar ler, lhe fará sinal de começar. Para fazer parar, o que está lendo, dará uma pancada de sinal. Para fazer sinal ao que está lendo de se corrigir, quando pronunciou mal uma letra, uma sílaba ou uma palavra, dará duas pancadas sucessivamente e seguidas. Se após se ter corrigido, ele não recomeçar na palavra que pronunciou mal, porque leu várias depois dela, o mestre dará três pancadas sucessivamente uma em seguida da outra para lhe fazer sinal de recuar de algumas palavras e continuará a fazer esse sinal, até o escolar chegar à silaba ou à palavra que pronunciou mal.[132]

Dessa forma, pouco a pouco o espaço escolar se amplia; a classe torna-se homogênea, ela agora é composta de elementos individuais que são colocados uns ao lado dos outros debaixo dos olhares do professor. A fila idealizada no século XVIII começa a definir a grande forma de repartir os alunos na ordem escolar: filas na sala, nos corredores, nos pátios; colocação atribuída a cada um em relação a cada tarefa e cada prova; classificação que se obtém de semana em semana, de mês em mês, de ano em ano; ordenamento das classes de acordo com idade, uma depois das outras; sucessão dos assuntos ensinados, das questões tratadas segundo uma ordem de dificuldades crescentes. E nesse conjunto de ordenamentos obrigatórios, cada aluno segundo sua idade, seu desempenho, seu comportamento, ocupando ora uma fila, ora outra, ele se movimenta o tempo todo numa série de lugares.

Com um sistema particular de micro-punição, a escola estabelece um ritual disciplinar que se inicia com a repreensão dos comportamentos. Momentos antes de começar a aula, os alunos, ao som da sineta, perfilam-se dois a dois, de mãos dadas com seu companheiro de lado e em fila indiana e ao comando do professor, do diretor ou do inspetor escolar, caminham em direção à sala de aula em absoluto silêncio. Ao adentrar na sala de aula, postam-se em pé ao lado de sua carteira e, em silêncio, aguardam a entrada do professor. E ainda em pé rezam, após o que, a um sinal convencionado sentam-se. O professor inicia, então, a chamada diária, que é feita nominalmente: o aluno, por sua vez, responde: ‘presente’. A um sinal do professor, colocam sobre a carteira o material indispensável e aguardam a distribuição dos livros e cadernos, que é feita por 1 ou 2 alunos, escolhidos pelo professor entre os ‘mais adiantados’. Terminada a distribuição, inicia-se propriamente a aula, com a leitura de um texto do livro, em voz alta, pelo aluno ‘mais adiantado’.

Delineada sob o ardor da palmatória e da vara de marmelo, a escola régia trabalhava com castigos bárbaros e vexatórios.[133] O menor desses castigos era ficar em pé a um canto da sala. Coisa muito pior “era o puxão de orelha, o coque, ficar de joelhos sobre o banco e por vezes de braços abertos, ficar de joelhos sobre o milho”.[134] Além dos castigos corporais, outros haviam como a prisão na hora do recreio os “doestos de estúpido, vadio, sem vergonha com que o mestre-sala mimoseava os retardatários da classe em dias de contrariedade e mau humor”.[135]  Nas escolas particulares, a “humilhação era maior; as orelhas de burro, o quarto escuro, a privação de alimentos, a exposição dos faltosos perante as classes reunidas, o amedrontar com o inferno”.[136] A indisciplina e mau comportamento junto aos outros alunos também eram motivos de castigos corporais que, não raro, levavam os pais a transferirem seus filhos para outro professor.[137] Por outro lado, “mães haviam que pediam, por favor, que sovassem os filhos, em regra porque elas, já não podiam mais com eles”.[138]

Os castigos utilizados contra os alunos eram previstos em lei, como a de 15 de outubro de 1827, que em seu artigo 15, dizia que eles deveriam ser praticados pelo método de Lancaster. Também o Regulamento de 25 de setembro de 1846 autorizava aplicá-los. No bojo de todo o sistema disciplinar trabalhava um micromecanismo penal, que consistia em punir determinados delitos específicos, tais como os relativos ao tempo (atrasos, ausências, interrupções de tarefas), às atitudes (desatenção, negligência, falta de zelo), à maneira de ser (grosseria, desobediência), aos discursos (tagarelice, insolência), ao corpo (atitudes incorretas, gestos não conformes), à sexualidade (imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo era utilizada, a título de punição, toda uma série de processos sutis, que iam do castigo físico leve a provações ligeiras e a pequenas humilhações. Tratava-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações mais tênues da conduta. Pela palavra punição deve-se compreender tudo o que era capaz de fazer as crianças sentirem a falta que cometeram, tudo o que era capaz de humilhá-las, de confundi-las. O castigo escrito era a punição mais honesta para um professor e a que mais agradava aos pais; pois permitia tirar dos próprios erros das crianças as maneiras mais adequadas de fazê-las progredir, corrigindo-lhes os defeitos. Castigar aqueles que não haviam escrito o que deveriam escrever ou não tivessem desempenhado bem suas atividades; ao contrário, recompensar os que respondiam positivamente, para que, no final, se pudesse ganhar o ‘coração das crianças’.

A sujeira, a falta de qualquer peça do uniforme, e até mesmo a falta de calçado podia ser punida com a proibição de assistir às aulas. Esse castigo tem como objetivo demonstrar que nada passa despercebido ao sistema e que a inobservância das regras disciplinares são passíveis de penalidade.

Trabalhando somente com aqueles que ‘querem aprender’, as crianças são conduzidas para as primeiras lições, que devem ser aprendidas para, depois, avançarem para outras de maior complexidade, evitando, desta forma, o perigo da não aprendizagem. Cada tarefa tem um cronograma a ser cumprido, findo o qual, aquele que apresentar dificuldades será colocado no final da sala, local dos ‘atrasados’. Esse ritual composto por regras, classificadas como naturais, tem por finalidade explicitar o regulamento e a ordem existente no corpo da escola.

Por outro lado, os privilégios servem para incentivar os alunos a não infringirem as regras disciplinares ou isentarem-se dos castigos aplicados. Têm eles a oportunidade de acumularem pontos que vão de zero a dez pela resposta correta das perguntas feitas em sala de aula, pela apresentação dos trabalhos passados para serem feitos em casa e entregues ao professor na aula seguinte, ou pelo bom comportamento, o que poderia, no final do mês, abonar o castigo aplicado, retirando-o, por exemplo, do banco dos atrasados e colocando-o no intermediário.

A adoção do sistema de classificação dentro de uma mesma série tinha, como finalidade, castigar e recompensar, segundo as aptidões individuais. Havia a classe dos ‘adiantados’, composta por aqueles que apresentavam denodadas facilidades para ‘aprenderem’ os conteúdos. Eram tratados com inúmeros privilégios, como por exemplo: a destinação da ‘melhor’ professora, da ‘melhor’ sala de aula (mais ensolarada, mais limpa, mais aparelhada didaticamente). Eram eles destacados para recepcionar e homenagear as autoridades visitantes. Havia ainda a classe dos alunos regulares e a classe dos alunos considerados como normais, em vista, de em seu meio não haver nenhum aluno que se destacasse dos demais. Dentro da mesma classe havia também toda uma série de classificação individual, com os alunos sendo recompensados com divisas de acordo com o seu andamento escolar: três divisas, para os mais ‘adiantados’, duas divisas para os ‘regulares’ e nenhuma divisa para os ‘normais’. Por mérito, de comportamento e rendimento do aprendizado, o aluno poderia ascender à primeira categoria, mas, em contrapartida, poderia descer para categorias inferiores, se relaxasse em suas atribuições. Essa classificação, que marcava inclusive socialmente, tinha como primeiro objetivo diferenciar os indivíduos uns dos outros e, no processo de comparação, induzi-los a aproximarem-se do ótimo.

A aplicação de castigos aos alunos constituía-se em uma das principais preocupações dos professores. A Lei nº 54, de 18 de março de 1836, modificara as anteriores, permitindo apenas “castigos moderados quando as penas morais fossem ineficazes”.[139] Discordando dessas determinações, algumas professoras apelaram para o Presidente da Província, solicitando permissão para a aplicação de castigos corporais, obtendo, como respostas, que deveriam abster-se, “ainda que a Lei o permitisse, visto tratar-se de escolas de meninas”.[140]

Sem dispor de conhecimentos pedagógicos para tratar os problemas referentes às faltas e às dificuldades da aprendizagem, o professor utilizava-se, como único recurso dos castigos corporais, naqueles mais reticentes. Uma vez proibidos, ficaram sem o seu mais sério e mais convincente mecanismo de persuasão. Perdidos dentro de seu processo de ensino, para eles “o castigo phisico não deveria ser abolido porque faz muita falta nas escholas”.[141] Professores havia, que, desesperados ante a inusitada situação, apelavam para os pais, na busca de sustentação para os seus argumentos e apoio ao retorno dos castigos. Chegavam a oficializar seus pedidos, como fez o professor Venâncio José Fontoura:

outro sim declaro a V. Sa. que tendo-me declarado a todos os Pais dos meus alumnos, que não é permittido castigar, porém elles pedem, exigem, que castigue ate com rigor, e em consequencia d’isso desejando saber de V.Sa. se me é permittido por essa maneira castigar alumnos os quaes não fasem caso algum de mim e ate abusam de minha pessoa por saberem que não é permittido castigar.[142]

Era antiga a reivindicação desse professor pela volta ao antigo costume. Em 1870, em seu relatório eivado de preconceitos em relação à classe social a que pertencia o aluno da escola pública, já dizia o professor:

a ideia humanitária e civilizadora que determinou a suppressão dos castigos phisicos nas escolas, parece-me prematura, pelo menos para as aulas publicas, frequentadas por meninos de uma educação quasi sempre descurada, sem estimulo insensiveis á emulação. Quem se lembrar que entre nós os meninos são mandados a escola por incorriveis, quando se tornam merecedores de severo castigo, reconhecera a importancia do professor diante de um menino que faz garbo de imprudencia. É triste este juiso, mas todos os professores publicos o confirmarão. Digo, professores publicos porque os alumnos das escolas particulares pertencem, ordinariamente a uma classe que tem a mór estima a educação domestica, essa que não compete aos mestres, si não aos paes.[143]

A par dos rigores dos professores, os alunos buscavam formas de suavizá-los ou mesmo de vingar-se, troçando com motes, como por exemplo, quando liam as lições tiradas das cartas dos ofícios “dirigidas ao professor, e em que algumas delas traziam a assinatura do Inspetor Geral. Quando os pequenos leitores chegavam ao nome de Diogo de  Mendonça, baixavam a voz, para acrescentar a guiza de estribilho: - cara de gato, focinho de onça”.[144]

 

 

 

 

 

 

2. A MULHER E A EDUCAÇÃO ESCOLARIZADA                          

As mulheres, até o século XVIII, não sabiam ler nem escrever.[145] Viviam no interior de suas casas, cuidando dos filhos, dos escravos e dedicando-se ao trabalho doméstico.

Nos primeiros tempos de nossa colonização, as mulheres brancas eram raras e os governadores e padres atribuíam a esse fato a crescente mestiçagem e desmoralização dos povoadores.     

As primeiras mulheres brancas que chegaram a Sorocaba foram Isabel de Proença, segunda mulher de Baltazar Fernandes, suas filhas e enteadas, em 1654.[146] Vieram com Baltazar Fernandes outras mulheres, que faziam parte dos “370 administrados índios”.[147]

Anteriormente, Nóbrega reclamara junto a El-Rei, “a falta que nesta terra há de mulheres. Com quem os homens casem e vivam em serviço de nosso Senhor, apartados dos pecados em que agora vivem”. E insistia para que enviassem mulheres, quaisquer que fossem os seus costumes.[148]

Tanto a mulher portuguesa quanto a mulher natural da colônia inseriam-se nas premissas importadas pelos colonos portugueses, aqui disseminadas através da reclusão familiar a que estavam sujeitas. Sua atividade consistia em viver “enclausurada em meio das mucamas, sentadas no seu estrado a coser, a lavrar, a fazer renda e a rezar as orações: os bons costumes em que se resume a sua educação”.[149]  

A tradicional organização familiar colonial sustentava-se sobre os resquícios das antigas organizações militares romanas, onde o chefe dispunha de ilimitados direitos sobre a mulher, filhos, escravos e todos que lhe estavam sujeitos. Treinada a acostumar-se à sujeição, a mulher não sentia nenhuma diferença entre a submissão devida ao pai ou ao marido, pois ambos a oprimiam em seus direitos, igualmente.[150]

Leda Maria Pereira Rodrigues, analisando essa situação, reflete:

nem a preocupação da defesa do lar, nem o transplante de reivindicações públicas à gerência doméstica são fatores exclusivos ou mais importantes para explicarem a condição social da mulher no Brasil. A influência de Portugal tal qual era, resguardando esposas e filhas, com zelo excessivo, e mesmo muitas vezes com severidade e ciúmes, é que, transportada para a colônia, adaptando-se às condições do meio, sem contudo perder nada de seu rigorismo, melhor condiciona a situação da mulher brasileira. Aliás, essa mentalidade constituía uma tradição generalizada na Europa certamente mais acentuada na Península Ibérica, onde infiltrações de costumes árabes se demoraram durante oito séculos, deformando o conceito da valorização da mulher introduzida pelas concepções cristãs.[151]

Assim como na Metrópole, a situação na Colônia não se diferenciava. A timidez e a incapacidade para determinada atitude assoberbava as mulheres. Saint-Hilaire, quando de suas andanças pelo Brasil, e de passagem por Sorocaba, foi hospedado por um dos “mais recomendáveis moradores da cidade - Rafael Tobias de Aguiar” e lamenta, singularmente, o costume da época:

eu travara conhecimento no Rio de Janeiro com, Rafael Tobias, e, quando me encontrava a pequena distância de Sorocaba, mandei um emissário preveni-lo de minha chegada. Teve ele a bondade de me arranjar uma bela casa, pela tarde enviou-me um excelente jantar e continuou a fazê-lo até o momento de minha partida da cidade. Eu teria ficado encantado, confesso-o, de tomar refeição em sua companhia; envergonhava-me de me aproveitar de uma hospitalidade tão amável, sem poder demonstrar a que ma concedia que eu não era indigno de tal favor; parecia-me encontrar-me na situação de quem come na hospedaria, sem pagar. Todos os dias, de resto, eu me esforçava, na forma do possível, para avistar meu excelente hospedeiro, e dentro em pouco soube o motivo pelo qual o mesmo não me admitia em sua mesa - tinha ele por costume tomar as refeições em companhia de sua mãe e suas irmãs, e como estas senhoras não queriam aparecer a estranhos, não poderia receber-me.[152]

A esse costume, vinculado a conceitos particulares de reclusão, acrescentava-se um outro também provindo da  metrópole, mas aqui potencializado, de que “não ficava bem o exercício das artes, da escrita e leitura para o sexo feminino”.[153]                  

Embora o Humanismo da Renascença houvesse se insurgido contra o descaso da educação feminina e tivesse tido algum sucesso na Itália, França e Inglaterra, o mesmo não ocorreu em Portugal. No Governo de D. Manoel, aparecem, pela primeira vez, os saraus com a participação restrita de pouquíssimas mulheres. Transpostas para a Colônia, as apresentações literárias contavam com a presença de algumas damas.

Coube ao mestre quinhentista Gonçalo Trancoso, reproduzir, através de sua obra, alguns conselhos da mentalidade portuguesa, em relação à ação da mulher:

afirmo que é bom aquele rifão que diz: a mulher honrada sempre deve ser calada. E algumas mestras de moças que são discretas, usam de manhã pelas ensinar bem, dando-lhes búsios formosos que levam na boca quando se vão para casa, dizendo-lhes que lhes fazem os dentes alvos, e cheirar bem o bafo; que os não tirem da boca até casa. E às vezes lhes dizem que qual lhes achar um alfinete na rua, que lhe darão três novos por ele; que lho busquem com os olhos no chão, quando se forem, porque o achado é bom para elas. O qual fazem por que as moças não falem, nem alcem do chão quando forem pela rua, e se ensinem a não tomar brio de ver a ser vistas - o que a mim me parece muito bem.[154]

É do mesmo mestre, ainda, o “Abecedário Social”, famoso na época, e escrito sob a forma de carta endereçada a uma dama:

Senhora. Agora me deram um recado da parte de Vossa Mercê, em que me pedia lhe mandasse um ABC feito de minha mão, que queria aprender a leer porque se acha triste quando vê senhoras de sua qualidade, que na igreja rezam por livros, e ela não. Folguo que deseje saber leer pera rezar por livros, que é bom; porém, já que não aprendeu na meninice em casa do senhor seu pai com suas irmãs, deve agora contentar-se com as contas (do rosário), pois não sabe leer, pois já é casada e passa de vinte anos de idade. Porém, se este conselho não lhe parece bom ou se a não satisfaz, por obedecer a seu rogo lhe mando aqui com esta um ABC que Vossa Mercê aprenda de cor; o qual é que: A - quero dizer que seja amiga de sua casa; B - benquista da vizinhança; C - caridosa para com os pobres; D - devota da Virgem; E - entendida do seu ofício; F - firme na fé; G - guardadeira de sua fazenda; H - humilde a seu marido; I - inimiga de mexerico; L - lial; M - mansa; N - nobre; O - onesta; P - prudente; Q - quieta; R - regrada; S - sizuda; T - trabalhadeira; V - virtuosa; X - xã (simples); Z - zelosa da honra. Quando tiver tudo isto anexo a si, que lhe fique próprio, creia que sabe mais letras que todos os filósofos. Confio em Vossa Mercê que o experimentará e achará certo.[155]

Na Província, devido à maioria absoluta dos homens permanecerem longos períodos no interior, as mulheres indígenas exerceram grande influência na formação da família, a ponto das “primevas matronas paulistas conservarem peculiar linguajar doméstico que mais as afastava da cultura”.[156]  O testemunho do Padre Vieira é significativo: “é certo que as famílias dos portuguezes e índios de São Paulo estão ligadas hoje huma às outras, que as mulheres e os filhos se criam mystica e domesticamente, e a língua que nas ditas famílias se fala he a dos índios, e a portugueza a vão os meninos aprender á eschola”.[157] O governador Artur de Sá e Meneses, em sua exposição, declarava que “a mayor parte daquella Gente se não explica em outro ydioma, e principalmente, o sexo feminino e todos os servos”.[158]

Em relatório de 1692, o governador Antônio Pais de Sande dizia que as mulheres paulistas eram “formosas e varonis e he costume alli deixarem seus maridos à sua disposição o governo das casas e fazenda” e que os “filhos primeiro sabem a língua do gentio do que a materna”[159], ou seja, a portuguesa.

As mulheres eram as mais suscetíveis às mudanças, pois, eram “mais  estreitamente vinculadas ao lar do que o homem, constituíam-se no elemento estabilizador e conservador por excelência, o grande custódio da tradição doméstica”.[160]

Sérgio Buarque de Holanda, descrevendo esse quadro, sustenta que

atraindo periodicamente para o sertão distante parte considerável da população masculina da capitania, o bandeirismo terá sido uma das causas indiretas do sistema quase matriarcal a que ficaram muitas vezes sujeitas as crianças antes da idade da doutrina e mesmo depois. Na rigorosa reclusão caseira, entre mulheres e serviçais, uns e outros igualmente ignorantes do idioma adventício, era o da terra que teria que constituir para elas o meio natural e mais ordinário de comunicação.[161]

Tanto nos inventários quanto nos documentos da época, a expressão “por ser mulher e não saber ler” é uma constante. Em nenhum dos documentos consultados por nós, referentes aos séculos XVII e XVIII, aparece a assinatura de qualquer mulher. No entanto, Aluísio de Almeida relata-nos que “em 1724, pouco mais ou menos, 'uma mulher de Sorocaba' esculpiu em madeira a imagem do Bom Jesus, que foi levada em canoa para Cuiabá” e que “no fim do século XVIII, senão antes, uma mulher anônima de Sorocaba esculpiu também em madeira o Senhor Morto”.[162] Eram versadas em arte, mas, “nenhuma sabia ler”.[163] 

Segundo Maria Odila, para as mulheres que “vivendo do próprio trabalho, sem meios decentes de sobrevivência”[164] “analfabetas, socialmente desqualificadas, pertencentes ao domínio dos espaços e papéis informais”[165], “assumindo papéis de homens”[166] para sobreviverem “nas duras condições do dia-a-dia”[167], a escola não fazia parte de suas preocupações.

Até o começo do século XIX, essa era a situação da mulher, que iria modificar-se positivamente com a chegada da família real ao Brasil. Se, inicialmente, a educação não atingira os objetivos desejados, aperfeiçoavam-se os requintes sociais, com algumas jovens e senhoras da elite participando de recepções e saraus, onde cantavam com arte e dançavam com graça.

Já em 18ll, havia o Educandário de Santa Clara, que recebia meninas pensionistas “que quisessem aprender as primeiras letras nacionais, de aritmética e de religião, bem como bordados e costuras”.[168]

Contrastando com a sociedade que caminhava, a bem da verdade, titubeante, rumo à escolarização da mulher, o atalho mais curto para a libertação na época colonial, o testemunho de estrangeiros, torna-se importante fonte para a análise da formação feminina dentro do restrito ambiente do lar. Se para Debret, John Mawe, Gustavo Beyer, von Spix e von Martius as mulheres eram “agradáveis, joviais, alegres com canto todo singelo e ingênuo”[169], para Saint-Hilaire a impressão era outra.

No entanto, nenhum dos nossos visitantes notou na mulher, especialmente a paulista, qualquer interesse pela aprendizagem da leitura e da escrita, o que nos leva a refletir que, a par dos quase inexistentes meios para instruir-se, consorciavam-se com os costumes da época, que tinham como inútil e até mesmo pernicioso o desenvolvimento intelectual do sexo feminino. Porém, cabe destacar que, se eram ignorantes e introvertidas, em contrapartida, muitas delas souberam gerir com competência e clareza os destinos econômicos de suas propriedades herdadas, e persistir com determinação na educação de seus filhos.[170]

Com a presença de D. João VI, no Brasil, intensifica-se e agiliza-se o processo de mudança social da Colônia. Até então, o ambiente provincial não favorecia o cultivo de hábitos mais refinados. A vida distante das fazendas, a urbanidade retraída e fechada dos habitantes, configurando-se nos ambientes familiares, determinavam a postura da sociedade. Aos poucos, a antiga senhora colonial vai transformando-se em dama de salão, ao cultivar “o gosto pelo convívio social, pelo contato mundano, pelas reuniões e partidas”.[171]

A educação feminina seguirá os passos das mudanças sociais e, com o passar do tempo, o ambiente mais polido, as transformações culturais, a formação intelectualizada exigirá da mulher o aprimoramento de suas maneiras e uma formação condizente com a importância de sua responsabilidade social.

A primeira escola feminina de Sorocaba, das 'primeiras letras', foi fundada em 1831, pela professora nomeada, Joaquina Rosa de Vasconcellos, que tinha “cinqüenta e nove matrículas, mas freqüência de vinte e oito”.[172] Anteriormente, entre 1808 e 1811, as irmãs “donas Manuela de Santa Clara e Rita de Santa Inês, filhas do alferes Francisco Xavier de Oliveira e Maria Custódia de Oliveira”, faziam gestões junto ao governo do Príncipe Regente, D. João VI, e obtinham o “beneplácido de S.M.R. do reconhecimento do Recolhimento de Santa Clara, que iniciara suas atividades em 18ll, com seis educandas”.[173] O Recolhimento, contrastando com o costume da época, era pago “fazendo-lhes seus pais as assistências necessárias, cuja assistência tem sido de 64$000 anualmente, por cada uma”.[174] Sem regras preestabelecidas, as educandas podiam sair “quando lhes conviesse sem embaraço algum” e era “regido segundo a vontade da Regente”. Do currículo constava as “primeiras Letras, doutrina Cristã e o trabalho em cozer e fiar”.[175] Em 1822, viviam no Recolhimento 20 pessoas: 4 entre 15 e 20 anos e as outras com mais de 40 anos. Todas “descendiam de famílias tradicionais e abastadas”.[176]

As alunas que freqüentavam as escolas públicas, geralmente, já tinham alguns conhecimentos de leitura e escrita adquiridos em casa.

A educação prodigalizada então às jovens, nos lares, ainda nos mais tradicionais e abastados, consistia no aprendizado das boas maneiras e no conhecimento das primeiras letras, ministrados por professor, o mais das vezes não diplomado, que vinha às fazendas, ou às vivendas da cidade, ensinar os meninos da família. As meninas aproveitavam essas primeiras lições. Quando aqueles estavam aptos para seguir aulas de latim, francês ou geometria, às jovens era dada por terminada a instrução. Além disso, algumas recebiam noções de música e aprendiam passos de dança e todas se esmeravam nas prendas domésticas.[177]

A preocupação centrava-se mais em dar às filhas

uma educação completa de 'dona de casa' propriamente do que os rudimentos da leitura e escrita. Compreende-se, pois assim cultivavam o gosto artístico, através do trabalho de bordados finos, da música, do canto e da dança; formavam o espírito de apreço ao lar; e, com vida mais recatada, alimentavam no aconchego das próprias casas, pelos serões e partidas, os divertimentos e distrações mais apreciados daquela época.[178]

Nas camadas mais baixas da população o pensamento não diferia muito. A Constituição de 1827, em seu artigo 32, atribuía ao Estado o dever de dar ensino gratuito à infância, “atingindo, assim, as camadas inferiores da sociedade, mesmo as mais pobres. Portanto, o meio de que provinham as alunas, sendo destituído de qualquer instrução, não valorizava a freqüência às aulas de primeiras letras, apreciando apenas o ensino de prendas domésticas, o que aliás, com justa razão, era considerado um ornamento para a cultura feminina”.[179]

Em seu relatório ao Inspetor, a professora Vicentina Adelaide de Vasconcellos “lastimava-se de que as alunas só freqüentavam a aulas nas horas em que se ensinavam os trabalhos de costuras e bordados”.[180] Por outro lado, “outras discípulas, apenas aprendidos os rudimentos de leitura e escrita, deixavam de freqüentá-las, visto as mães precisarem delas para os serviços caseiros e julgarem um luxo a jovem saber as quatro operações”.[181] Para os Inspetores, o problema estava diretamente relacionado à “desídia e à ignorância das mestras”.[182]

O ensino primário feminino mantinha, em 1853, o mesmo currículo de 1827. Para as escolas com mais de 40 alunas, abria-se uma segunda cadeira que adicionava as noções gerais de história, geografia e música. Em 1853, o Inspetor de Distrito, Joaquim José Loureiro de Almeida, insistia na “urgente necessidade da abertura de uma segunda cadeira de primeiras letras para o sexo feminino”. Essa segunda cadeira, criada pela Lei Provincial nº 10, de 14 de abril de 1853, foi provida pela professora Maria Flora de Souza, que, dentro em breve, participava ao Inspetor Geral:”não houveram exames no ano passado porque os pais de família desta cidade entendem que não devem completar a educação de suas filhas dizendo que as não querem para professora”.[183]

Esta escola, que se destinava a ministrar noções um pouco mais adiantadas, teve tão pouco desenvolvimento que, em 1856, na sua breve exposição sobre a instrução pública em Sorocaba, o Inspetor diz que

das duas aulas de primeiras letras para o sexo feminino, uma infelizmente em ruim ocasião, e no presente é unicamente a primeira cadeira regida por Vicentina Adelaide de Vasconcellos que verdadeiramente posso dizer que está funcionando'. Nenhuma aluna aprende história e geografia 'porque os pais não consentem e na segunda cadeira para leitura há apenas algumas cartas e traslados inçados de erros' e mesmo algumas meninas não aprendiam a escrever 'por que os pais se negaram à módica despesa de compra de papel'. Continuava como que empenhada a mentalidade da época em desvalorizar a instrução, principalmente em se tratando do ambiente mais modesto ao qual pertenciam as alunas das escolas públicas.[184]

Diante da insistente deficiência do ensino público, o Presidente da Província, Rafael Tobias de Aguiar,  remete às edilidades as obrigações dos mestres, conforme a Lei de 06 de novembro de 1772,  Provisão de 05 de abril de 1811 e Carta de Lei de 15 de outubro de 1827. Deveriam comprometer-se a ensinar a ler e escrever e a realizar pelo menos

as quatro espécies de Arithmetica simples, a Grammatica da Língua Nacional e os princípios da Moral Christam. Os que foram posteriormente, tanto mestres como mestras obrigar-se-iam a ensinar matérias 'constante do artigo 6º, sendo as horas de ensino duas de manhã e duas a tarde'. As férias ficaram estabelecidas do dia lº de dezembro até 06 de janeiro. Além disso, seriam dias feriados: 'de Domingo de Ramos até o dia dos Prazeres; quatro dias pelo entrudo; os que por Lei são de Festa Nacional a saber: 25 de março, 07 de abril, 03 de maio, 07 de setembro e 02 de dezembro e todas as quintas-feiras de cada semana, não havendo dias santos e feriados’.[185]         

Devido à falta de candidatas ao magistério, o Estado tomou a iniciativa de recrutar nos orfanatos as futuras professoras das primeiras letras. O Regulamento de 7 de setembro de 1845 estabelecia, em seu artigo 22,

que a órfã educanda que tivesse completado 18 anos e não tivesse sido solicitada para casamento nem tivesse querido sujeitar-se à servidão em casa de famílias honestas e capazes, seria provida na primeira cadeira de primeiras letras para o ensino de meninas, que se vagasse na Província, independentemente de exame estabelecido por lei para tais provimentos.[186]

Preconceituoso sob todas as formas, esse Regimento foi revogado dois anos depois, pela Lei nº 5, de 16 de fevereiro de 1847, e criava, no Seminário das Educandas, um Curso Normal destinado “tanto às educandas como às pessoas do mesmo sexo que desejassem ser professoras. As disciplinas eram as seguintes: Gramática da língua nacional; Aritmética teórica e prática, até as 4 operações; Princípios da doutrina Cristã, Língua francesa, Música vocal e instrumental. Deixava de constar as disciplinas relacionadas com a técnica de ensino, como se as mesmas não fossem importantes para as mulheres”.[187] Em 1856, a Lei nº 31, de 07 de maio, suprimiu a Escola Normal, que nunca existiu a não ser no papel e determinou que as educandas do Seminário que não servissem para o magistério “fossem empregadas como criadas graves em casas de família honesta, sob pena de aos 25 anos serem despedidas do Seminário”.[188] Em 1870, a Lei nº 71, de 10 de abril, “revogou a anterior, que obrigava as educandas a empregar-se como criadas em casa de família e mandou provê-las em escolas vagas”.[189]

Com a reestruturação do ensino, através da Lei nº 52, de 21 de abril de 1875, é introduzida na Escola Normal “uma seção de ensino para as moças. A mulher casada dispensava-se condições de idade, limitada ao mínimo de 18 anos”.[190] Até então, a procura pela Escola Normal sempre fora pequena por parte das mulheres, em função do desprestígio dos professores.

Primeiramente era o magistério a única e exclusiva carreira que se abria, além das pequeninas indústrias caseiras muito mal retribuídas. Por isso, muitas professoras, necessitando de ordenados mais elevados para a sua subsistência, pois provinham de classes sem recursos, aventuravam-se na regência de cadeiras, sem acentuada vocação pela profissão, desvirtuando o ideal de educar a mocidade em monótona rotina de transmissão de elementares conhecimentos mal assimilados. Além do mais, o pouco interesse que despertava o ensino para o sexo feminino certamente atingia as professoras que a ele se consagravam. O arraigado preconceito que induzia a ver um perigo na instrução da mulher, - e a esse motivo atribuía o inspetor a inferioridade do número de meninas que freqüentavam as escolas relativamente ao dos meninos - e a falta de compreensão das famílias, que não se compenetravam 'de quão profícua é a instrução elementar até na sua aplicação ao sexo feminino' certamente refletiam-se nas mestras, desmerecendo-as ainda mais no exercício de suas funções. Não valorizando a profissão, não valorizavam nem o indivíduo que a praticava, nem o seu padrão de vida. Quanto à baixa remuneração dos professores, vinha de longe o problema.[191]

O ensino particular das meninas que pertenciam a famílias mais abastadas era realizado, geralmente, por uma professora estrangeira e restringia-se ao ensino do alemão (a segunda língua estrangeira mais procurada na época) e do português. Independentemente, as primeiras escolas particulares que funcionaram em Sorocaba eram poucas, pequenas e modestas. Até 1845, reinava o mais completo caos no ensino particular. Com a finalidade de colocar alguma ordem no sistema, foi editada a Lei nº 34, de março de 1846, que restringia a autorização de “abertura de escolas particulares as condições do ensino das matérias previstas para as aulas públicas e que o impetrante apresentasse documento legal em que comprovasse bons costumes e, caso fosse estrangeiro, deveria pronunciar corretamente a língua nacional e provar que tinha conhecimento da gramática da mesma”.[192] Tais determinações seriam complementadas, mais tarde, subordinando as escolas particulares às mesmas diretrizes das escolas públicas, ficando o “professor constrangido a fechá-la quando lhe faltasse moralidade e aptidão para o ensino”.[193]  Entretanto, os dispositivos da lei nunca foram cumpridos, como atesta o relatório do Inspetor de Instrução, Diogo de Mendonça Pinto: “abre um indivíduo uma aula, não requer para isso prévia licença desta Repartição, não manifesta a ninguém sua idoneidade e não apresenta as relações trimestrais de alunos, nem por mera cerimônia dá aviso do fato ao Inspetor do Distrito e este, prefere cerrar os olhos e nos mapas não contempla tais aulas e escolas”.[194]

                      

 

Em 1862, a Inspetoria de Instrução exigia que, para prover as cadeiras das escolas particulares, os professores deveriam submeter-se a exames de suficiência.[195]

As escolas  particulares funcionavam

quase sempre na própria casa das professoras e mantinham algumas alunas internas. Nessa situação estava o Colégio de Nossa Senhora da Conceição, dirigido por Da. Guilhermina Glotilde da Cunha e Silva e instalado em 07 de janeiro de 1848, à rua das Flores, em Sorocaba. O prospecto dessa instituição era um bonito impresso, muito convidativo e apresentava a possibilidade de 3 tipos de classes de educandas: internas, externas e semi-internas. As internas pagavam por mês 15$000, sendo incluído 'almoço, jantar, merenda, roupa lavada e engomada'; e as semi-internas 8$000. Aquelas deveriam trazer: leito com colchão, roupa de cama, bacia, escovas de roupa, cabelo e dentes, pentes, bastidor, toalhas de mão, uma cadeira pequena e também um baú para guardar roupa. O programa se particularizava em espécies de trabalhos manuais: 'renda de agulha de meia, costura, marcar, bordar a branco, matiz, prata, cabelo, missanga, froque; fazer flores de lã, seda, vidrilho e a fazer pulseiras, colares, anéis do mesmo.' Depois dessa apresentação persuasiva de variedades de 'prendas domésticas', a Diretora mandava imprimir: 'As alunas também aprendem a ler, escrever e contar. ‘Havia aulas de francês e de piano, mas eram extraordinárias. As contribuições mensais pagas pelas alunas variavam de acordo com as aulas seguidas: costurar, marcar, ler, escrever e contar: 2$400; bordar a matiz, froque, ouro, prata, fazer flores, ler, escrever e contar: 3$000 e somente ler, escrever e contar: 1$000. Por aula diária de Francês e contribuição mensal de 4$000 e $500 por lição de piano. No mapa de freqüência enviado ao Inspetor, em abril de 1849, assinado por Da. Guilhermina Grotilde da Cunha e Silva, consta a relação de uma aluna interna, 25 externas e semi-internas, variando as idades de 5 a 10 anos. Tal Colégio fechou em 1853. Assim, como outra ‘Escola privada de Da. Zeferina do Coração de Jesus’, aberta em 1850.[196]

O Inspetor Distrital atribuía o fechamento daquelas escolas à abertura da 2ª cadeira, pois, “depois de diminuir muito o número de alunos, as escolas decaem”.[197]  Em 1868, em ofício ao Inspetor da Instrução Pública, a Professora de Primeiras Letras, Maria Flora de Souza, comunica que fora aberto um colégio de meninas instituído e dirigido por Da. Gertrudes de Almeida Pillar. O Professor de “Primeiras Letras e de Francês (aula extraordinária) era o Dr. Ubaldino do Amaral Fontoura” e suas irmãs, Da. Maria Gertrudes e Da. Narciza, “eram respectivamente as mestras de música, de prendas domésticas e dança; havia 11 alunas, sendo 5 internas e 6 externas e o estabelecimento se intitulava Colégio de Nossa Senhora Aparecida de Sorocaba”.[198]

Até os anos 80, as professoras que lecionavam na cidade  eram originárias de outras localidades e, assim como os professores, duravam pouco.

A primeira professora normalista de Sorocaba, foi Escolástica Rosa de Almeida, que formou-se em 1886, pela Escola Normal Caetano de Campos.  Em 1874, era fundado o Colégio União Sorocabano para ambos os sexos, mas já em 1875, continuou só com a seção feminina, dirigido pelas professoras norte-americanas, H. Wullul e Anna Wilk. Em 1874, a escola de primeiras letras e música  funcionava junto a escola presbiteriana, tomando conta das meninas, a senhora do ministro Antonio Pedro Cerqueira.[199]

Em 1883,

havia três cadeiras femininas, sendo titulares, dona Gertrudes P. de Almeida Melo, Zulmira Ferreira Vale e Adelia Carolina da Silva Abreu.[200]

Em 1886, funcionava o

Colégio Feminino Coração de Jesus, dirigido por uma professora baiana, dona Brasilia Dutra e Silva. Em 1887, Emilio Cilis, fazia saber pelos jornais que fundara o Colégio Teuto-Brasileiro, do qual constavam as seguintes matérias: português (gramática e conversação), alemão (idem), contas teóricas e práticas, caligrafia alemã e portuguesa, geografia e história e canto. Inseriu novas matérias: piano, trabalho de agulhas e francês (por uma professora). Em 1889 aparece a professora belga, dona Maria Emilia Jacob Neuberth, que coloca no jornal Diário de Sorocaba, de 28 de dezembro de 1890, um anúncio sobre a sua escola, o Colégio Neuberth. Este pequeno colégio acabou, creio, em 1892.[201]

 Em 01 de fevereiro de 1906, era inaugurado o internato das freiras Beneditinas Missionárias de Tulzig.

 

 

3. ESCOLA SECUNDÁRIA

A escola secundária aparece no Brasil formalizada pelo Alvará de 28 de junho de 1759, que modificou o ensino até então dado pelos jesuítas. Com o objetivo de retirar dos mesmos a responsabilidade pela educação escolarizada, aquela Lei previa, em seu artigo 11 o exercício do magistério por pessoas leigas desde que observados alguns critérios. A fim de evitar abusos é editado em 11 de janeiro de 1760, outro Alvará que estabelecia em seu artigo 4º, que “pelo que respeita aos exames dos que pretendem ensinar particularmente em suas casas ou nas das pessoas que a eles quiserem confiar a educação dos seus filhos, bastará que se façam por dois professores régios”.[202] Mais tarde, o Ato Adicional de 1834, em seu artigo 10, parágrafo 2º, destinou às Assembléias Legislativas o direito de cada província legislar sobre o ensino primário e secundário. A partir daquela data, o ensino secundário é tratado como ‘cadeira de latim’. José Ricardo destaca a sua importância, afirmando que existiam

em 1840, no Império, 59 cadeiras de latim – 01 das quais em Sorocaba – o que parecia um número consideravel, mas é bom recordar que nossos pais consideravam o estudo da língua latina como um complemento indispensável do Português. Pensavam com justa razão, como muitos espíritos cultos pensam ainda hoje, que, sem o latim, não há ortografia possível. Como não existe ainda entre nós instituição reguladora da língua nem da ortografia, à semelhança da Academia Francesa, por exemplo, é, pois, indispensável, a quem quer escrever o português sem erro, isto é, segundo suas verdadeiras etimologias, saber o latim. E por ter esquecido esta verdade é que caímos no caos ortográfico em que estamos, caos que cresce a cada dia permitindo ou tolerando que a mesma palavra seja escrita de duas ou três maneiras. Há até o próprio nome do país, Brasil, com duas ortografias; uns, mais sensatos, escrevem com s, seguindo nisto a etimologia, a forma latina e os trâmites dos fundadores do Império, tais como José Bonifácio de Andrade e Silva; e outros homens sábios da mesma época obstinam-se a escrever com z, letra grega, desconhecida do latim e contra qualquer razão etimológica. Só o estudo do latim, ao menos para os literatos e os homens das classes dirigentes, inclusive os jornalistas, pode remediar este deplorável estado de coisas.[203]

Era costume, no século XIX, legislar para o “município da capital, que servia de modelo as províncias” e se espalhava em poucos anos a todo o território do Império.[204] Assim, a Lei de 17 de setembro de 1851, regulamentada pelo Decreto de 17 de fevereiro de 1854, e pouco modificada ao longo do tempo, regeu até o final do século a instrução pública, tanto primária quanto secundária. Ainda, para Almeida,

o pensamento imperial tomou forma; as idéias principais, essenciais, realizadas pela nova lei, tanto para a instrução primária quanto para a instrução secundária podem se resumir deste modo: vulgarizar e difundir a instrução pública; dar ao corpo docente uma organização melhor, assegurando o presente e o futuro dos institutores e professores, mas também exigindo deles provas de real capacidade e zelo desejável na realização de seus deveres; formar bons professores e bons institutores; regulamentar e regularizar o ensino privado; enfim, criar um centro de inspeção encarregado, em nome do governo, de dirigir e supervisionar todos os estabelecimentos de instrução da capital. Isto tudo foi executado de maneira ampla no que se refere à instrução secundária.[205]

O Decreto de 17 de fevereiro de 1854 trazia em seu bojo instruções relativas ao ensino secundário. Com previsão de duração de sete anos, o programa constava de

Latim, Grego, Inglês, Francês, Alemão, Italiano, Filosofia Racional e Moral, Retórica e Poética, incluindo a Língua e Literatura Portuguesa, História, Geografia, Matemáticas Elementares, isto é, Aritmética. Álgebra, até equações de segundo grau, Geometria e Trigonometria Retilínea, as Ciências Naturais, Física, Química, Desenho, Música, Dança e Ginástica.[206]

Esse ensino, proporcionado pelo Estado, era gratuito, embora na Constituição do Império, artigo 179, parágrafo XXXII, estivesse previsto que apenas o ensino primário era gratuito.[207] O que gerou durante longos anos, acerbadas discussões sobre a sua pertinência ou não. Inúmeras críticas foram feitas e até mesmo comparações com outros países como os EUA, Inglaterra e França, em que a gratuidade também passou por processo de grandes discussões. O fato é que não só o ensino gratuito do primário foi estabelecido, assim como o do secundário. Fazendo-se porta-voz dos inconformados, Almeida diz que

a gratuidade traz consigo a indiferença do público e atenua muito a vigilância dos pais. O coração humano tem estas singularidades. O interesse que se tem pelas coisas está muitas vezes na razão direta dos sacrifícios que elas custam: nas coisas que parecem mais necessitadas esforça-se com mais calor e envolve-se menos quando se acredita que sejam menos necessárias. O governo fez esforços para criar escolas; as subscrições públicas vieram em ajuda do Estado; a municipalidade tem, direta ou indiretamente, imposto doações em favor da instrução pública aos que fazem com ela negócios ou que lhe solicitam alguma concessão.

                       É certo que havia neste movimento um motivo para despertar o ponto de honra, o amor próprio de cada um. Era tempo de fixar uma taxa escolar; os pais sentiriam certamente que, neste conjunto de esforços, o primeiro e mais natural deveria vir deles, e que, diante de tantas obrigações e sacrifícios, livremente consentidos, não poderiam declinar o que lhes impunham dos filhos. Disso devia nascer um certo escrúpulo de pagar a taxa escolar e, mais fosse pesada, mais o pai de família se mostraria feliz em saber em que medida seus filhos aproveitavam deste dinheiro, posto acima das diversões e necessidades.[208]

Clareando sua análise, coloca-se a favor da gratuidade apenas para a classe social mais desfavorecida:

a gratuidade poderia ser conservada para as classes mais desprovidas de recursos que, sem um enérgico esforço da comunidade, não sairiam jamais da abjeção em que se encontram. Deveria haver uma clientela paga pelo governo e pela municipalidade. Em todas estas combinações, ficaria sempre lugar reservado ao pagamento escolar devido pelas famílias, mas permaneceria constante para os pobres, que só seriam assistidos se eles se ajudassem a si próprios.[209]

Insistindo em suas críticas, afirma que

um outro inconveniente grave acompanha as escolas inteiramente gratuitas, sem falarmos da concorrência prejudicial que fazem às escola regulares. Limitar-nos-emos a dizer o que não pode ser desmentido por ninguém: que as famílias não se recusam a gastar 10.000, 15.000 ou 20.000 réis para satisfazer seus vãos caprichos, ir ao teatro, fumar cigarros caros, criar cachorros, etc – famílias, numa só palavra, que poderiam suportar o pagamento da escola, acham cômodo dispensar-se disto, enviando seus filhos à escola pública, que não as obriga a pagarem seus serviços. Um cálculo de economia as fazem esquecer os perigos da miscigenação de pessoas de tal modo que, sem aproveitar a totalidade dos admissíveis, estas escolas oferecem a um certo número de intrusos um pretexto para se eximir de um encargo. Este abuso é manifesto e de todos os lados verifica-se a existência de exemplos.[210]

Para Tanuri, a escola secundária tornava-se acessível, apenas “às camadas privilegiadas pela fortuna, graças à restrita função preparatória que o ensino secundário desempenhava relativamente ao superior. Além do mais, os estudos secundários, limitados às matérias do preparatório exigido para o ingresso às Faculdades, padeciam da ausência de sistematização e continuidade”.[211]

Independentemente dessas discussões, a escola secundária surgiu em Sorocaba em fins do século XVIII. Seus primeiros professores eram padres, geralmente escolhidos e indicados pelo bispo, que assinava o diploma de sua nomeação e eram instalados pelo Senado da Câmara.[212]

O primeiro professor da escola secundária foi o padre José Gonçalves de Godoi, sucedido pelo também padre José Norberto de Oliveira, que em 1837 tinha 30 alunos.[213]

Em 1843[214], assume a cadeira de Latim e Francês o professor Francisco de Paula Xavier de Toledo. Nomeado pelo governo da Província, aos dezenove anos de idade, permanece até 1858, quando se aposenta.[215]

Em 1856, sua escola é visitada pelo Inspetor Geral e constata que “29 são os alumnos matriculados d’esta aula”, mas que “acharão-se presentes 25 que sem duvida, é o numero dos effetivos freqüentes”. Destes, “passarão pelas provas dos exames 5 e todos obtiverão pela e merecida approvação. Dous que a contendo interão para as linguas Latim e Francez, themas que lhes dei, concluirão os estudos sendo julgados promptos e os 3 restantes tem de continual-os”. Bem impressionado com os resultados, diz que “uns e outros si se pode avaliar de todo o ensino pelos resultados que observei, meo juizo lhe é favorável”. E demonstrando surpresa, conclui que “juizo de mais corroborado pela circunstancia de recrutar tão avultado numero de discipulos, quando em geral na Provincia os Mestres de Latim e Francez dão-se por felizes quando vem sentados nos bancos meia duzia d’elles”.[216]

Convencido, com o que viu na escola, o mesmo Inspetor, em 1857, remete ao professor “novo systema para estudar a lingua Latina composta pelo Dr. Antonio da Costa Lopes, ordenando-lhe que o ponha em practica em sua aula, a não se der algum impedimento e communicando-me em Relatorio no fim do anno o resultado do ensaio para se providenciar a adaptação definitiva do Methodo em todas as Aulas, si assim o convir”. É desse tempo o costume de experimentar novos compêndios escolares, introduzindo-os em determinada aula numa espécie de classe ‘cobaia’. A justificativa era de que “o melhor meio de conhecer a bondade de um systema é subjeital-o a experiencia, salvo quando ella pode ser funesta. A de que tracto me parece não estar n’esse caso, que por ter sido tão elogiado nos jornaes da Corte”. Tentando legitimar a sua opção pela escola do professor Toledo, deixa claro que “preferi para a experiencia o Professor de Sorocaba por ser aquelle dos actualmente existentes de que tenho conhecimento pessoal, havendo eu no anno passado proximo presidido aos exames publicos d’aquella aula, nos quais, pelo adiantamento dos alumnos conheci que o Professor é apto e disvelado no cumprimento de seos deveres”.[217]

Mas, talvez, essa escolha preferencial estivesse embasada na péssima qualidade de ensino vivenciada ao longo do tempo, em outras escolas onde

a maioria dos alunos que se apresentam aos exames e que, depois dos certificados passados pelos seus professores deveriam ser considerados como suficientemente instruídos, ignoravam os mais elementares princípios da Gramática da língua nacional e não sabiam responder às mais simples questões de seus examinadores. As composições escritas de quase todos eles apresentavam uma reunião de palavras sem nenhum sentido, frases sem ligação e sem significação; parece que haviam preparado para seus exames apenas traduções que lhes surgiam infielmente na memória. A comissão de exame, usando mais indulgência que severidade, viu-se numa lamentável necessidade de reprovar trinta e oito alunos dos quarenta e oito examinados.[218]

Apesar de sua significativa importância, não só por ser a única escola a oferecer o ensino secundário gratuito na cidade, mas também pela qualidade do ensino oferecido, o que a diferenciava das demais, ela será fechada, em 1870 por absoluta falta de alunos. Por esta época havia “contra a escola publica um preconceito que será muito dificil extirpar completamente: ‘não se aprende nada’”.[219]

Contra o seu fechamento o Inspector de Distrito faz veemente protesto:

por deliberação da Presidencia de 10 de março do corrente anno, foi supprimida a Cadeira de Latim e Francez d’esta cidade em virtude do art. 36 da Lei nº 16 de 13 de Agosto de 1861. Ao respectivo Professor comuniquei imediatamente o acto da Presidencia significando lhe que podia escolher uma das Cadeiras vagas de primeiras lettras, cuja lista lhe remetti.

A supressão d’esta Cadeira, que contava mais de meio século d’existencia, e que havia dado a Provincia discipulos tão distintos, entre os quais alguns que tem occupado as primeiras posições sociaes no paiz, foi geralmente sentida n’esta localidade. Ao passo que a Cidade de Sorocaba era privada da única instituição d’ensino secundario que possuia, outros lugares mais felises com menos população erão dotados com a creação desta mesma Cadeira.

Hoje que, com todo a rasão tanto se preconisão as vantagens do derramento da instrução entendo que aquela Cadeira não devia ser supprimida, antes que se procurasse remover as causas que por ventura actuassem para que ella não fosse frequentada pelo mesmo número de alumnos que a Lei marca. Quando, porem o municipio de Sorocaba tiver a fortuna de possuir um representante seo entre os legisladores da Provincia, estou certo que a injustiça de que foi victima será devidamente reparada.[220]

O jornal O Sorocabano também “lastimava que este facto se desse tendo por causa a falta de alumnos em uma cidade populosa e importante como esta”.[221]

Dentre as causas que levaram ao fechamento daquela escola podemos destacar a concorrência que sofria da escola particular. Concorrência esta potencializada de acordo com o reconhecimento que o professor particular tinha da sociedade. O professor Toledo insere-se dentro desse contexto. Respeitadíssimo pelos sorocabanos, após a sua aposentadoria em 1858, abre uma escola secundária particular – o Colégio de São João do Lageado – em Campo Largo, hoje Araçoiaba da Serra. Quase toda a elite que freqüentava esse nível de ensino corre para a sua escola, restando à pública aqueles que não tinham condições de se deslocarem até a vizinha cidade. Desprestigiada, vai definhando ao longo do tempo e, melancolicamente, fecha definitivamente, deixando sem perspectiva de ascender na educação escolarizada a camada empobrecida da sociedade.

O fechamento desse tipo escola, em nível nacional, para Tanuri, deveu-se à aspiração do governo imperial em “disseminar em todo o país”, esse tipo de escola incrementado pelo “movimento já iniciado nas Províncias na década de sessenta, quando da ascensão do partido Liberal no poder” e que era favorável à

liberdade de ensino. Em virtude principalmente da insuficiência dos cofres provinciais, pretendia-se liberar o ensino privado quanto às condições estabelecidas para o exercício do magistério, quer quanto à fiscalização oficial a que estava legalmente submetido, com o que se esperava obter mais amplo desenvolvimento – não quantitativo, mas também qualitativo em função da concorrência que se estabeleceria com os estabelecimentos oficiais – mas já considerável contribuição da iniciativa privada.[222]

A confiaça depositada na iniciativa privada, pela Lei de 1868, foi além da liberdade de ensino, pois ao desoficializar totalmente o ensino secundário, predispondo-o à inicativa privada, induzia o fechamento das cadeiras públicas de ensino secundário – que por esta época era bastante inferior em número às particulares – tão logo vagassem as que estivessem providas, prejudicando a população mais carente.[223]

 

 

4. ESCOLAS DE FORASTEIROS

A descrença que a população tinha na escola pública, provocada pelos inúmeros problemas que a abatiam, especialmente a de que os professores eram incapazes e que era freqüentada por uma clientela pobre e dada à algazarra, levou uma parcela importante da sociedade a procurar a escola particular para educar seus filhos.

De tal fato aproveitaram-se algumas pessoas que se auto denominavam professores a abrirem escolas de primeiras letras para atender à nova clientela. Sem qualquer tipo de acompanhamento por parte do Estado, as escolas vão aparecendo ao longo do tempo. As três mais antigas, afora a escola dos padres beneditinos, são respectivamente a de 1848, “de dona Guilhermina Glotilde”[224], em 1856, a “do professor Antonio Justiniano de Souza” e, em 1859, a “do prof. Toledo”.[225]

 Antonio Justiniano de Souza, que se dizia professor, publica em 1856, no jornal O Monitor, o seguinte anúncio:

 

o abaixo assignado, tendo obtido do Dr. Inspector Geral da Instrucção Publica a necessaria autorização, pretende abrir nesta Cidade uma escola particular de primeiras lettras, na qual ensinará as seguintes materias: leitura, escripta, theoria e pratica das quatro operações de arithmetica, doutrina Christã, maximas e principios de moral.

     As lições desta escola começarão, sendo Deos servido, no dia 3 do futuro mez de Janeiro.

                       As Quintas-feiras serão feriados nas semanas em que não houver dia santo. Serão tambem feriados, com a denominação de ferias da Semana Santa, os oito dias que decorrem da Quarta-feira de Trevas á Quarta-feira da semana seguinte e com a denominação de ferias do Natal os dez dias que decorrem de 24 de Dezembro até 2 de janeiro inclusive.

                       Cada menino que se matricular nesta escola pagará 2$000 rs. mençaes e só poderão ser descontadas as faltas motivadas por molestias para mais de 8 dias; em todo o caso os Paes ou Chefes de familia participarão ao Mestre as faltas dos meninos e o motivo dellas.

                       Os livros e os apparelhos para a escrita serão fornecidos aos meninos pelos Paes ou Chefes de familia.

                       Aos Sabbados que não forem dias santificados, os meninos comparecerão na escola mais cedo que de ordinario para com o Mestre hirem assistir o Santo Sacrificio da Missa.

                       Não se admittirá mais de 20 alumnos.

                       O baixo assignado nutre a esperança de ser bem succedido na profição a que se vae dedicar; espera pois o acolhimento e protecção dos Senhores Paes e Chefes de familia, a quem seo limitado prestimo puder ser de alguma utilidade.

Para a matricula dos meninos pode se procurar desde já o abaixo assignado a qualquer hora na sua casa na rua da Cadêa.

                       Antonio Justiniano de Souza.[226]

 

Não há notícias posteriores desta escola.

Reconhecendo que não podia atender a todos os pedidos de criação de novas escolas públicas de primeiras letras, em 1862, o Estado editou a Lei nº 08, que permitia, nas localidade onde houvesse dificuldades para a abertura de escolas públicas, que se abrissem escolas particulares, subvencionadas por uma quantia que não ultrapassasse os vencimentos do professor da cadeira. Essas, ainda, estariam subordinadas às mesmas inspeções das públicas e deveriam ensinar, obrigatória e gratuitamente as crianças pobres.[227]

Essa lei, que atendia aos apelos do Inspetor Geral, Diogo de Mendonça Pinto, transferia do monopólio estatal para o monopólio particular o ensino das primeiras letras, sem no entanto, resolver a problemática existente.

Tentando minimizar as questões pendentes, em 1868, uma nova lei dizia que o ensino primário poderia ser exercido por professores particulares, desde que fornecessem os dados estatísticos indicados. Todos aqueles que quisessem ser professores continuavam a passar por um concurso para provimento, na presença de uma comissão composta por três membros, sob a presidência do Inspetor Geral.[228]

Assim, as escolas particulares vão se multiplicando.

Até mesmo Júlio Ribeiro, que também foi professor, quando chegou a Sorocaba, em fins de 1870, abriu uma escola. “Em 1869, quando de sua estada em São Paulo, é convertido ao presbiterianismo pelo Rev. G. W. Chamberlain, que aconselha-o a vir para cidade em virtude das perspectivas que esta oferecia, especialmente com a chegada da estrada de ferro que se avizinhava. Júlio Ribeiro que fora aluno do colégio católico de Baependi, Minas Gerais, e posteriormente do colégio militar, vai desempenhar, na cidade, várias atividades, entre elas a de professor.[229] Após o seu casamento, em 1871, com Sophia Bertholdo, de tradicional família, fixa moradia à rua Nova Constituição, nº 23 (hoje Cel. Cavalheiros) onde abre uma escola de primeiras letras incluindo o sistema métrico decimal de sua autoria[230] e de francês, latim, inglês e geografia. Essas aulas funcionavam das 09 às 13 horas, ao preço de três mil réis para as primeiras letras e de cinco mil réis para as línguas”.[231]

Em 1872, apareceu em um jornal da cidade um curioso anúncio que dizia, sem maiores detalhes, “que na rua São Paulo, existe uma escola particular de instrução primária, regida pelo preto João, escravo de Joaquim Antônio Cardoso”.[232] É possível que essa escola, que provavelmente cobrava uma pequena mensalidade, se destinasse aos alunos mais carentes, em virtude da dificuldade que tal camada pobre da população tinha em ascender ao ensino.[233]

O Colégio União Sorocaba aparece em 1874 e  “funcionava em regime de internato para os dois sexos. Era professor dos meninos, José Raimundo de Vasconcelos. O regime duro do internato levou, logo na metade do primeiro ano, metade dos alunos a fugirem. Os outros foram fugindo ao longo do ano. Em 1875, deixava de funcionar, por absoluta falta de alunos”.[234]

Uma outra escola, que aparece em 1874, é a de Eugênio Pilar França. Segundo Aluísio de Almeida, “era homem pobre a quem caiu a herança do riquíssimo Lázaro Freire. Em 1887, a primeira professora normalista de Sorocaba, Escolástica Rosa de Almeida, abria o seu externato, que durou pouco”.[235]

Em 1886, Benedicto Estevam Cordeiro abrira uma escola. Filho de pais pobres, “o popular alfaite, mestre Candido” freqüentou o “Collegio do Lageado com notavel aproveitamento”. Após completar os estudos foi “entender-se como pintor de paredes para ganhar alguns vintens”. Mas, “não lhe provindo d’alli o necessario para manter-se a si e a familia” resolveu “abrir uma modesta, mas acertadinha escola de primeira lettras, em um pitoresco cantinho da rua Boa Vista, onde conta com 20 meninos”.[236]

Ivan A. Manoel, ao explicar a vida desse tipo de escolas, em Itu, define-as como marcadas por duas características: a qualidade duvidosa e a sua curta duração. “Esses professores eram charlatães, sem condições mínimas para o exercício do magistério e, por não terem outro ofício, se aproveitavam da liberdade de ofício e profissões estabelecida pela Constituição de 1824, e peregrinavam, de cidade em cidade, abrindo escolas e ludibriando a fé das famílias”.[237]

Para Aluísio de Almeida, dentro do espírito de bondade e conciliação que lhe era peculiar, esses professores “chegavam, abriam o seu colégio, lutavam e iam-se embora. Sempre deixando a boa semente no campo das feiras e das indústrias”. Precisava-se “tirar o chapéu (se usarmos) a esses heróis e Aventureiros do Bem!”[238]

 

5. ESCOLAS DE ENSINO ALEMÃO

5.1. ESCOLA ALEMÃ

A Escóla Allemã é a primeira escola de ensino alemão de que se tem notícia em Sorocaba, e foi fundada em 1886 por uma associação de pessoas, entre elas Theodoro Kaysel, João Spänner e Julio Schultz, para dar aos interessados um ensino ligado às suas origens.

A escola funcionava, inicialmente, no Largo do Rosário, em uma “casa collada á Pharmacia do sr. Rosa”[239] mudando-se posteriormente, para a rua de São Bento, nº 11.

Foi seu professor durante o primeiro ano de existência, Emílio Cillis.

“Ensinava em Portuguez e Allemão” e de seu currículo constavam “Portuguez, Allemão, Calligraphia em Portuguez e Allemão, Arithmetica theorica e pratica, Geographia, Historia e Canto”.

O professor, tentando traçar uma boa imagem da escola, deixava antever a dificuldade que tinha com a língua portuguesa: “o professor participa ao respeitável publico sorocabano, que o ensino tem logar em duas linguas ao mesmo tempo, na portugueza e allemã, applicando-se toda a attenção a ambas ellas; terão assim, os alumnos a dupla vantagem de apprender mais uma lingua”.

Sem nenhuma modéstia, dizia que “ha quatro mezes que dirige este Collegio e tem obtido os melhores successos, como provam os cadernos á vista dos honrados paes de familia”.

Aceitava meninos e meninas e garantia uma ordem exemplar.

E explicava os objetivos da escola: “a Escola Allemã tem por fim não só dar uma instrucção solida e valiosa na pratica da vida, como imnocular nos corações infantis a ideia de boa moral”.

As aulas começavam às 10 e terminavam às 14h30min. Lecionava-se às quintas-feiras, com mensalidade de 5$000.[240]

Em fevereiro de 1887, Emílio Cillis é desligado e a escola comunica que os cursos estariam “d’ora em diante sob a habil direcção do professor sr. Frederico de Montbé” e, que eram as disciplinas do

Curso Primario: Portuguez: leitura e calligrafia; Allemão: leitura e calligrafia; Arithmetica: as quatro operações; Lições de causas: explicações livres; Geographia: as primeiras noções e Gymnastica. Do curso secundário: Portuguez: leitura, grammatica, composição e calligrafia; Allemão: leitura, tradução, composição, grammatica e calligrafia; Arithmetica: fracções decimaes, systhema metrico, numeros complexos, razão, proporções, regra de três, falsa posição, porcentagem, desconto; Geographia: systhema planetario e Geographia universal, comprehendendo a physica e politica; Historia: universal, comprehendendo História antiga e edade Média e moderna; Historia Natural; Noções; Gymnastica.

Comunica-se, ainda, que as disciplinas Francês, Inglês, Geometria e Desenho deveriam ser pagas separadamente. Os interessados deveriam dirigir-se  a “Rua de São Bento, nº 11, das 10 horas da manhã até 3 da tarde”.[241]

Matriculam-se 13 alunos.

Em junho do mesmo ano a Escola faz publicar  a realização dos exames semestrais:

 

tiveram logar a 23 do corrente, como noticiamos, os exames dos alumnos da Escóla allemã, presididos pelo inspector litterario, sr. Arthur da Cunha Soares, sendo arguentes os srs. drs. Oliverio Pilar e Herculano Manuel Alves.

Começaram elles pelos cadernos de notas diarias dos alumnos, cuja calligraphia e orthographia muito agradaram ás pessoas presentes.

Passou-se em seguida a examinar os alumnos de primeira classe em grammatica portuguesa, sendo arguidos os meninos Augusto Bönner, Ricardo de Oliveira, Paulo Sprenger, Camilla Mücha, Theodoro Alme e Brasilico Petzoldt. Todos elles satisfizeram aos argumentos e ouvintes pelo lisongeiro estado de adeantamento em que se acham, exigindo a justiça que de façam salientes os nomes de Augusto Bönnes, Ricardo de Oliveira e Camilla Müche, sendo para notar-se que esta última é allemã, e que ha quatro mezes principiou a estudar o portuguez.

A primeira classe de geographia era composta dos alumnos já citados e dos meninos Antonio Petzoldt e Emilio Müche que como sua irmã pouco tempo tem de estudo de portuguez manifestaram grande aproveitamento de estudo e applicação, assim tambem os de 2ª classe de que fazem parte Waldomiro da Fonseca, Alfredo Schimming, Adelino Pereira, Ignacio e Luiz de Oliveira.

Em arithmetica muito se distinguiram os alumnos Augusto Bönner, Ricardo de Oliveira, Paulo Sprenger, Camilla Müche e A. Petzoldt.

A necessidade que tiveram de retirar-se os examinadores fez com que não fossem os alumnos arguidos em outras materias que fazem parte do programma d'aquella escóla, o que muito sentimos.

 

Na mesma publicação, o jornal destaca as qualidades da educação alemã, ressaltando que

 

é sabido que a Allemanha é o paiz que sabe melhor dar valor à instrucção tanto que um allemão que não sabe ler quasi toma as proporções de um phenomeno, e é devido a isso com certeza o espirito de ordem que entre elles reina. Alli, desde que os primeiros naturaes impulsos da razão se agitaram no cerebro de uma creança, trata-se logo de encaminhal-a para esse phanal da civilização – a instrucção, assim é que mesmo no extrangeiro não perdem aquella boa impressão que no berço receberam.

Á vista de taes consideracões é fácil adivinhar com que circunspecção, não procedam elles na escolha de professores e na orientação do ensino.[242]

 

Com limitado número de alunos, a escola não resiste aos problemas econômicos e, no dia 02 de agosto desse mesmo ano fecha as suas portas. Em seu lugar, o professor Frederico de Montbé faz comunicar que reabriria a escola alemã agora com o nome de Collegio Montbé.

 

5.2. COLLEGIO MONTBÉ

      Aberta nos mesmos moldes da anterior, a escola fazia anunciar que do seu programa curricular constavam, no curso primário: “Leitura, Calligraphia, Lições de cousas, Contar, Declaração, Geographia patria e Gymnastica” e, no curso secundário; “Grammatica Portugueza, Composição, Francez, Allemão, Arithemetica, Geographia Universal, História Universal, Historia Natural, Geometria Elementar, Desenho, Declamação e Gymnastica”. A mensalidade para o curso primário era de “5$000 e o secundario de 6$000”. Os interessados deveriam dirigir-se “nos dias úteis a rua São Bento nº 11, das dez as tres da tarde”.[243]

Em setembro desse ano, o mesmo jornal destaca que o colégio havia adquirido mobiliário novo, tendo encomendado em “S. João do Ypanema carteiras segundo as formas recommendadas pela pedagogia moderna e muito em uso nas escólas da União Americana”. Destacando as qualidades dessas carteiras, dizia que atendendo a todas as “necessidades e commodidades dos alumnos cada um d’estes tem o seu assento que lhe dá uma posição natural, e que não lhe permitte tornal-o viciosa, encontra logo á sua frente uma boa escrivaninha com logares apropriados para guardar os seus utensis de escripta e gaveta para livros e papeis”.

Outra novidade é a contratação de um professor para “reger a aula primeira, isto é, ensinar a ler, escrever e arithmetica até as quatro operações fundamentais e lições de cousas”. Funcionando esta aula em uma sala separada.[244]

Em dezembro são realizados os exames, de cuja banca participavam Arthur Soares, Alvaro Cesar da Cunha Soares, José Pereira Chagas e Manuel Januário de Vasconcellos. “Findos os exames foram distribuidos lindos e valiosos premios aos alumnos que mais se distinguiram”.

Fizeram os exames 22 alunos: Ricardo de Oliveira, Augusto Bönner, Antonio Petzoldt, Carlos Oetterer, Theodoro Alm, Jacob Sticha, Tarcilio de Arruda, Brasilico Petzoldt, Eurico Pereira, Emilio Müche, Luiz de Oliveira, Adelino Ignacio, Ricardo Villela, Oscar P. de Souza, Waldomiro de Fonseca, Juvenal P. de Souza, João Sticha, José de Castro, Silvio Pereira, Francisco Pereira, Horacio Villela e Oscar de Castro.[245]

Em janeiro de 1888, a escola introduz o “curso de preparatório”, onde se ensinava além das disciplinas do curso secundário, “desenho e música mediante a mensalidade de desenho 2$000 e música 3$000”.[246]

Não há mais notícias sobre o Collegio Montbé.

 

5.3. ESCOLA TEUTO-BRAZILEIRA

Após o seu desligamento da ‘Escola Alemã’,  Emilio Cillis apresenta-se como “ex-professor das Escolas Allemãs  d’esta cidade e de São Paulo”. Comunica pelo jornal “aos srs. chefes de familia que se fez independente da Escola Allemã e ensina em casa de sua residencia, rua das Flores, 11, seguindo o mesmo systema que dava até hoje tam bons resultados”. Como novidade e, “para satisfazer os desejos de muitos amigos ensinar-se-ha na ultima aula três novas materias – Francez, Piano e Trabalhos de agulha, crochet, etc, que ensinará uma professora. Aceitam-se Internos e garante-se bom tratamento, boa meza e educação moral.

Mensalidade – interno 30$000; externo 5$000”.[247]

Não há notícias de que essa escola tenha desenvolvido suas atividades.

 

5.4. COLLEGIO NEUBERTH

Ainda, em julho de 1888, uma outra escola alemã é anunciada. Trata-se do Collegio Neuberth, destinado às meninas e dirigido por “Mme. Maria Neuberth”.

Segundo anúncio, “neste estabelecimento que reune as melhores condições hygienicas, as alumnas são tratadas com o maior desvelo, recebem uma instrucção esmerada a par de uma carinhosa educacção de familia”.

As matérias

 

do ensino eram: Curso primario – Leitura, Calligraphia, Calculo Mental, Grammatica Portugueza, doutrina Christã. Curso secundario – Portuguez, Francez, Allemão, Geographia, Arithmetica, Historia Sagrada, Historia Patria, Historia Universal.

Ensina tambem toda sorte de trabalho de agulha.

Pensão por trimestre adeantado

Internas          90$000

Externas por mez

Curso primario             4$000

Curso secundario         8$000

A joia de entrada de 25$000 (paga por uma só vez) dará direito ao uso de uma cama, colxão e lavatório.

O collegio incumbe-se da lavagem de roupa mediante o pagamento de 5$000 por mez.

N.B. Recomenda-se particularmente o dito collegio pela facilidade com que as alumnas aprendem em pouco tempo não só a escrever e traduzir como falar correctamente – francez e allemão – em razão da grande pratica junto a boa theoria.

Rua do Hospital – n. 7.[248]

 

Não há também nesse caso, qualquer referência sobre seu funcionamento.

Segundo Fernando de Azevedo, o governo imperial, ao permitir o aparecimento do ensino particular, deu um passo importante no desenvolvimento da educação escolarizada.

A livre concorrência e a rivalidade que se estabeleceu entre os colégios, favorecendo o florescimento dos institutos particulares e fazendo saltar da nebulosa do ensino uma constelação de valores contribuíram, ainda, para introduzir no jogo da vida educacional, forças pedagógicas novas, acasteladas, como um pequeno reduto de reações, nos estabelecimentos leigos de ensino devidos á iniciativa privada.

Os movimentos de mudanças “partiram, de fato, dos colégios leigos mais progressistas e adiantados, quer sob a inspiração direta de seus fundadores, quer pela ação dos professores contratados na Europa ou recrutados entre os melhores elementos do magistério nacional e entre os homens mais cultos das ‘colônias’ estrangeiras”. Percebe-se  passar por esses colégios “estimulados por uma nobre emulação, um sopro renovador que traduz na abolição dos castigos corporais, no impulso dado aos estudos das líguas modernas e das ciências, na adoção de novas técnicas de ensino e no aparelhamento de seus laboratórios”.[249]

Em relação às “origens eclesiásticas da educação”, no Brasil de 1880, “que começava apenas a dividir-se em duas crenças religiosas, ambas cristãs, a Igreja Romana, estritamente ligada as origens de nossa formação social e histórica e unida ao Estado, mantinha distância, circunscrita a alguns círculos restritos, a influência do protestantismo, recém-vindo e ainda mal aclimado ao meio tradicionalmente católico”. No aspecto educacional, começavam a estabelecer-se

os primeiros combates as concepções escolares, correspondentes às duas crenças religiosas, ligadas a duas culturas, já diferenciadas, a européia e a norte americana: a pedagogia protestante, progressista e libertadora, que tende antes à emancipação do espírito do que a uma domesticação intelectual, e o ponto de vista católica mais conservador e autoritário.[250]

Em toda essa obra de ensino, que se desenvolve sob o ritmo da iniciativa privada, o governo imperial teve “um papel mais incentivador do que empreendedor, que apresentava qualquer coisa de patriarcal na assistência dada às instituições espirituais. Sem dúvida, Pedro II revelou sempre um extraordinário interesse pelas coisas do espírito e uma notável atração pela inteligência”.[251]

 

 

6. VIGILANTES DO SABER

Em fins de 1851, o Presidente da Província, identificava que a “decadência do ensino primário era uma conseqüência da falta de inspeção escolar”.[252] Diante dos fatos e, tendo como suporte os dispositivos das Leis nº 24 de 02 de julho de 1850 e nº 10 de 07 de março de 1851, expede

 

o Regulamento de 08 de novembro de 1851, criando a Inspetoria Geral da Instrução Pública para:

a) servir de centro de intermédio de toda a correspondência com o Governo Provincial;

b) manter a disciplina em todas as escolas da Província;

c) fazer observar nelas as leis, regulamentos e decisões do Governo.[253]

 

            Em função da precariedade do ensino uma série de outras leis, regulamentos e decretos foram elaborados a fim de minimizar os problemas advindos da má qualidade do ensino. A reforma de 1868 alargava a forma de inspeção a fim de permitir uma verificação mais pormenorizada das escolas. O sistema fica então composto pelo Presidente da Província, pelo Inspetor Geral da Instrução Pública, pelos Inspetores de Distritos e pelos Presidentes das Câmaras Municipais.[254] Tal fato acabou gerando freqüentes conflitos, já que esses dois últimos deveriam inspecionar escolas de outras cidades que pertenciam a sua jurisdição, o que acabava sendo interpretado como um interferência indevida em assuntos municipais. Então, em 1874, uma outra normatização recompõe a inspetoria criando um Conselho Municipal para inspecionar as escolas, sendo o mesmo composto por três pessoas. Essas pessoas, no entanto, sem serem professoras e, portanto, desconhecendo completamente os conceitos básicos de pedagogia e didática, não conseguiram desempenhar sua funções como fiscais do ensino.

            Com a República e com a nova reforma da instrução pública, o papel do inspetor será redefinido. O Decreto nº 144-B, de 30 de dezembro de 1892, contemplava-o com onze artigos, e trazia modificações importantes na constituição profissional do inspetor. Dizia que só poderiam ser nomeados inspetores de distrito professores públicos diplomados pelas escolas normais, que estivessem em efetivo exercício há mais de 5 anos e que tivessem mais de 30 anos de idade; que o cargo era incompatível com qualquer outro, remunerado ou não. As principais atribuições eram: visitar com freqüência todas as escolas do distrito; providenciar sobre os exames nas escolas públicas e presidi-los; propor ao Conselho Superior a localização mais conveniente das escolas; visar os títulos dos professores de ensino primário que fossem nomeados e providenciar sobre a abertura das respectivas escolas; remeter ao Conselho Superior, nas épocas pelo mesmo fixadas, relatório circunstanciado sobre o ensino do distrito, indicando as modificações que julgasse necessárias e dando conta do procedimento de cada professor; inquirir de cada professor as modificações que porventura conviesse introduzir no regime escolar do distrito; providenciar no sentido de fazer com que os professores realizassem conferências públicas sobre assuntos que contribuíssem para a educação do povo; entender-se com as municipalidades sobre os serviços de recenseamento escolar dos respectivos municípios; admoestar e repreender os professores por faltas e, em caso de reincidência, levá-las ao conhecimento do Conselho Superior; nomear e presidir comissões de exames para professores interinos de escolas provisórias; dar instruções aos professores públicos acerca do cumprimento de seus deveres, nos termos da lei e do regulamento; dar cumprimento aos atos do Presidente do Estado, do Secretario do Interior, do Conselho Superior e do Diretor Geral; participar a estes todas as ocorrências que puderem ser classificadas como delitos disciplinares excedentes à sua alçada nos limites de seu distrito.[255]

            Essa reforma, no que concerne aos Inspetores, gerou graves conflitos, tanto políticos quanto em relação ao trato com os professores.

            Os conflitos políticos são devidos às mudanças ocorridas no processo de escolha dos mesmos. Até 1892, a sua escolha era de competência da Câmara Municipal, que nomeava sempre um político correligionário, a fim de premiar com um cargo os membros integrantes do grupo que ocupava naquele momento o poder político. Essa demonstração de poder chegava até aos professores por vias diretas, pois a criação de novas escolas, a escolha do lugar dessas escolas e a escolha do professor para as mesmas, constituíam-se em atribuições do Inspetor, que, naturalmente, procurava privilegiar aqueles professores que professavam das mesmas idéias. A cidade de Sorocaba que tinha, nesse momento, duas correntes de pensamento político, um no poder, os republicanos da situação, e outro na oposição, os republicanos contrários, também tinha a classe dos professores dividida de acordo com a classe política. Esses fatos geravam certa tranqüilidade entre os professores, já que havia alternância no poder. Ocorre que com a reforma de 1892, a indicação do Inspetor passou a ser de competência do Governo do Estado, que escolhia sem consultar qualquer partido político. Essa mudança de atitude alterou completamente o equilíbrio político local, produzindo indisfarçável azedume em seu meio. Assim, para o cargo de Inspetor Distrital, em 1894, foi nomeado o professor normalista José Antonio Boanova, natural de São Paulo, que logo que tomou posse começou a enfrentar sérias dificuldades para desenvolver suas atividades. Entre tantas mazelas para demonstrarem seu descontentamento, os políticos utilizaram-se dos professores que participaram ativamente do processo.

            Por exemplo: um dos meios do Estado acompanhar o andamento das escolas estava no chamado ‘Mapa da Escola’, onde o professor deveria fazer constar filiação, moradia, inteligência, procedimento, época da inscrição, falta dos alunos, número de dias letivos, freqüência média, eliminações e grau de adiantamento em cada uma das disciplinas.[256] Esse mapa, depois de preenchido mensalmente pelo professor, deveria ser vistado pelo Inspetor, que o remetia para o Conselho Superior. Percebendo que o mesmo era um dos elementos estratégicos de que dispunha o Estado para acompanhar o processo escolar, e que, retardando ou mesmo não o confeccionando, poderia causar certo embaraço, o professor assim procedia. Por diversas vezes o Inspetor viu-se em apuros para cumprir as determinações do Conselho Superior. Em 1895, a professora Carlota de Padua Ferreira boicotou por diversos meses a feitura do referido mapa. Como o Conselho Superior pressionasse o Inspetor para que cobrasse da professora o referido instrumento de controle e esta sequer se dignasse a respondê-lo, escreve em seu relatório que a mesma deixava de cumprir com seu dever por ser relapsa. Sabedora do conteúdo do relatório, a professora Carlota faz publicar no jornal oposicionista A Voz do Povo, uma carta onde coloca em dúvida a seriedade  moral do Inspetor.[257] Esse jornal na mesma página, chamava a atenção dos leitores para o artigo da professora, reafirmando que “combateremos sempre toda e qualquer perseguição, parta ella d’onde partir, por isso não podemos deixar de chamar a attenção dos poderes competentes para a declaração da distincta professora, com o fim de pôr-se um paradeiro as vinganças pequenas que estão sendo postas em pratica nesta cidade”.[258] Em seu relatório o Inspetor mostra-se indignado com o procedimento da professora:

 

É incrivel! Está em jogo o prestigio, o valor moral do Governo Republicano do nosso Estado! Tenho cumprido do melhor modo possivel meus deveres e a mágua que neste momento domina-me é profunda! Como delegado do Governo do Estado é crivel que o delito, este e os demais em vosso poder, não tenham a justa repressão?!

            Nos factos de hoje, publicado no jornal opposicionista ‘A Voz do Povo’ vereis claramente até onde chega o desrespeito a autoridade no doloroso cumprimento de seus deveres! Tenho conversado por vezes com a sra. professora a que igualmente tenho officiado. Nada tenho conseguido com esses alvitres! Agora vem ella a imprensa, na seção livre de um jornal opposicionista, em linguagem impropria de uma senhora professora, insultando-me insolenemente, falsamente, attribuindo-me até, a priori, intenções inconfessaveis!

            É disso, é dificil, é inacreditavel o que está passando nesta cidade! Só presenciando fas-se uma idéia approximada da situação a que está reduzida a instrucção publica aqui, pelo proceder inqualificavel de dois professores: um bebado e outro simples e perverso; presumo que estes infelizes transviaram a professora D. Carlota comprometendo-se e comprometendo as auctoridades do Estado dos quaes sou humilde representante![259]

 

            O professor bêbado a que se refere o Inspetor é o professor Joaquim Izidoro Marins, que, pertencendo à ala oposicionista, provocou alguns problemas. Um deles ocorreu no dia em que a banda musical da Fábrica de Ferro de São João do Ipanema fazia uma retreta pelas ruas da cidade. Ao passar defronte à escola do professor, o mesmo teria saido à janela e em em altos brados teria dito algumas palavras ofensivas ao Inspetor. Presenciaram esse ato um vereador, o promotor e o proprietário do jornal O 15 de Novembro, todos pertencentes a ala política da situação.[260] Realizada a sindicância, nada foi comprovado contra o professor.

            O outro professor é Amaro Egydio de Oliveira, que faltara contumazmente, alegando que o prédio escolar estava em obra, não podendo, assim, ser descontados em seus salários os dias de ausência.[261]

            Anteriormente a esses fatos, um outro ocorrera, de certa gravidade.

            Atendendo à solicitação da cidade, o governo estadual autorizou a implantação, em 1895, de um Grupo Escolar. A Câmara Municipal alugou, então, um velho prédio. Para atender às exigências da nova escola, foi preciso reformá-lo, o que efetivamente começou em julho de 1895. Impacientes, os professores Amaro Egydeo de Oliveira, Joaquim Izidoro Marins,[262] José de Azevedo Antunes e Alvaro de Moraes Roza, em fins de agosto, resolvem ‘inaugurar’ o prédio, instalando ali suas classes. Essa ocupação ocorreu durante o período em que o Inspetor encontrava-se ausente da  cidade. Sabedor do fato o Conselho Superior, na seção de 30 de agosto, declarou ilegal a instalação do Grupo Escolar, por não ter o ato sido precedido das formalidades legais e ocorrer sem a prévia aprovação do Governo.[263]

           Tais fatos foram criando uma situação insustentável para o Inspetor, a tal ponto do Conselho Superior destituí-lo no início de 1896, nomeando-o professor da Escola Normal, colocando em seu lugar o professor José Manuel de França Junior, que é saudado por um jornal como “nomeado em boa hora” e possuidor de habilidade, de amor voltado à instrução e de boa vontade.[264]

Com o fim do Império, encerra-se o ciclo da escola isolada.

O advento da República, cria, já no início da década de 1890, um novo tipo de escola primária, representando uma das mais importantes inovações do ensino. Trata-se do gupo escolar, que será estudado, em seguida.

 

 

 

 

PARTE II

 

 

 

 

 

 

A EDUCAÇÃO EM SOROCABA NA REPÚBLICA

  

 

Este templo, ponto culminante de nossa architectônica, revela a altura em que a República collocou desde o seu início o problema da instrucção.

A sua nobreza demonstra que nós acreditamos que não há mais nobre profissão que aquella que se incumbe de preparar cidadãos para a sustentação, defesa e engrandecimento de uma patria livre!

A sua vastidão denota que o governo convida todas as aptidões, todas as fortunas, todas as edades, todos os sexos, todas as vocações para virem sagra-se aqui sacerdotes da religião do saber, em que nós democratas fundamos as nossas ardentes esperanças de prosperidade da pátria e de glória para a República.

(Cesário Motta)

 

 

 

1. ESCOLA GRADUADA

O período republicano configura-se como fase de mudanças. No ideário republicano, tanto em nível nacional quanto local, estava a presunção do estabelecimento de uma nova ordem, estratégia fundamental para colocarmo-nos rumo ao progresso. Entretanto, interesses individuais, sustentados por conluios mesquinhos e elaborados para a preservação dos grupos hegemônicos que dominavam a cidade entravavam e dificultavam a democratização do ensino no município. Na conjugação entre as correntes de idéias e os movimentos políticos, uma indagação a respeito da identificação de tais grupos se impõe. Também diante do quadro de mudanças vivenciado, aparecem outras questões que versam sobre a escola introduzida pela república. Quem eram seus alunos? Quem eram os profissionais do ensino? Que relação mantiveram com a sociedade, que se transformava de agrário-comercial em urbano-industrial-comercial? Que instrumentos foram utilizados pela sociedade para reivindicar sua inserção no quadro da educação escolarizada?

A sociedade sorocabana tomou ciência da proclamação da república somente no dia 17 de novembro, através do jornal Diário de Sorocaba, que estampou na primeira página, no meio da folha, as palavras ‘Viva a República’. No dia anterior, o chefe republicano Olivério José do Pilar, juntamente com o cel. Sousa Mursa, diretor administrativo da Fábrica de Ferro de São João do Ipanema, seguiram para São Paulo, a fim de assistir à posse do primeiro governo estadual republicano e receber a bandeira de 13 listras (desenhada por Júlio Ribeiro). Enquanto isso ocorria, o partido republicano sorocabano recebia do governo estadual a incumbência de ‘proclamar a república’ em Sorocaba. Ante esse fato, o partido decide que no dia seguinte (dia 17), às 12 horas, faria realizar uma reunião com a finalidade de referendar o ato. Nesse dia e nesse mesmo horário a comissão, que se dirigira a São Paulo, desembarca na estação ferroviária de Sorocaba, onde é recepcionada, ao som da Marselhesa, por um pequeno público. Organiza-se um cortejo que percorre as ruas do Hospital, da Penha, Municipal, Santa Clara, parando em frente da casa de Júlio Ribeiro, que discursa. Em seguida, o cortejo segue até a Câmara Municipal, onde os novos detentores do poder municipal, mas antigos chefes políticos, se revezam nos discursos.[265]

Assim, com dois dias de atraso e com festa popular, Sorocaba adentra o período republicano.

Alguns dias depois, em 29 de janeiro de 1890, o Governador do Estado, Jorge Tibiriçá, nomeia a primeira Intendência, composta por sete membros: Manoel Lopes Monteiro de Oliveira, Benedito Antonio Pires, José Loureiro de Almeida, José Alves Pimenta, Antonio de Mascarenhas Camelo, João Martins França e José Gabriel de Carvalho. Destes, apenas Manoel Lopes e Benedito Antonio tinham sido republicanos.[266]

Independentemente desse fato, tem início na cidade uma série de acontecimentos que irão marcar a sociedade sorocabana: o emplacamento da cidade (1890), a fundação da Orquestra Fhilotechica Sorocabana (1891), a luz elétrica chega às casas (1895), duas novas fábricas têxteis – Santa Maria e Santa Rosália - são inauguradas (1896), a água encanada e o esgoto chegam às casas (1903).

Por essa época, a sociedade sorocabana divertia-se assistindo aos circos de cavalinho, ouvindo o único fonógrafo (1893), o kinetoscópio ( 1895), o panorama-diorama (1897), o cosmorama (1898), o cinematógrafo (1903).

A inexistência de bares, cafés, bilhares, permitia outras formas de divertimentos, como as serenatas. A cidade, na virada do século, adormecia cedo. Ao toque do sino da catedral, às 21 horas, fechava o comércio de fazendas, calçados, armarinhos, padarias e todos os outros tipos de negócios.

A cidade envolvia-se, então em um silêncio absoluto. Somente, ao longe, alguma voz ou grupo de vozes (devidamente autorizadas pelo delegado de polícia) entoavam pela noite adentro, lânguidas e chorosas canções de amor a alguma donzela, dona de um coração apaixonado.

Uma outra forma de lazer era o jardim do Largo Frei Baraúna, ponto de encontro dos casais, assim como a Praça do Largo da Matriz, hoje, Praça Cel. Fernando Prestes, onde ocorriam, aos domingos, concertos musicais organizados por uma das três bandas existentes. A ponte sobre o rio Sorocaba era freqüentada pelas famílias e pelos casais de namorados, especialmente nas noites de lua  cheia.

Fazer o percurso de Sorocaba a Votorantim, de bonde, era o passeio dos domingos e feriados.

Os clubes (10), com seus bailes, eram freqüentados aos sábados à noite e nas tardes de domingo. O piquenique, especialmente quando organizados pelas fábricas, era outra atividade muito apreciada pela família.

Assim Sorocaba se divertia.

Quanto à escola...

O imaginário republicano destinava à escola a redenção da população urbana.

Fazendo parte do ‘projeto república’, a escola será dividida em 2 tipos bem distintos: a isolada e o Grupo Escolar. A primeira continuará com os mesmos problemas do Império.

Já o Grupo Escolar terá outro tratamento. Criado pelo Decreto nº 248, de 26 de julho de 1894, que dizia, em seu artigo 81: “nos logares em que, em virtude de densidade da população, houver mais de uma escola no raio fixado para a obrigatoriedade (2 km), o Conselho Superior poderá fazel-as funccionar em um só prédio para esse fim construído ou adaptado”.[267]

Imediatamente após a publicação desse Decreto, organiza-se um movimento envolvendo a maçonaria, os professores e os vereadores da Câmara Municipal, para reivindicar, junto ao Estado, a implantação desse tipo de escola na cidade.

Anteriormente, em 1893, a cidade já se mobilizara para avocar uma escola reunida. O Decreto nº 169, de 07 de agosto de 1893, diz no artigo 1º, parágrafo 3º, que “no Regimento interno das escolas, o Conselho Superior determinará como for mais conveniente, a distribuição do trabalho dos professores, regulando o caso da reunião de duas, três e de quatro escolas”. Diante disso, o Inspector Literário indica um prédio “situado no largo da egreja matriz, que reformado, no sentido da planta inclusa tornar-se-a optimo para o fim a que se destina”[268]. Concluindo sua carta, diz que a população aguardava ansiosa a realização da obra que tanto benefício traria ao ensino local.[269]

Com o Decreto de 1894, desaparecia a escola reunida e definia-se claramente o conceito de Grupo Escolar e, como o prédio indicado se mostrasse inadequado para a implantação da nova escola, que previa um mínimo de 8 salas de aula e mais outras para servirem de salas-ambiente e para a administração, um outro prédio é procurado. Acaba-se por escolher o prédio anteriormente ocupado pelo Colégio Sorocabano, localizado na rua do Theatro esquina com a das Flores, hoje, Brigadeiro Tobias e Monsenhor João Soares. Esse prédio passará por reforma durante o ano de 1895. Com algumas salas já prontas em outubro desse mesmo ano, e tendo o Inspetor Literário viajado, os professores da sessão masculina resolvem ocupá-lo, não esperando pela inauguração oficial. Com o retorno do Inspetor à cidade, os professores são desalojados.


Fig. 09.  Primeiro prédio ocupado pelo Grupo Escolar Antonio       Padilha, localizado entre as ruas do Theatro e das Flores, hoje, Brigadeiro Tobias e Monsenhor João Soares (1896-1905). Fonte da foto: Jornal A Voz do Padilha. Ano V, nº 03, out./nov. 1953, p. 04. Acervo do Museu Histórico Sorocabano.

   

     Finalmente, em 28 de março de 1896 o prédio é inaugurado com 8 salas de aula, sendo 4 destinadas aos meninos e 4 às meninas.

A criação do Grupo Escolar atraiu a atenção da sociedade sorocabana. Propagandeada como uma nova escola, reunindo os professores em um só lugar, com um só tipo de ensino – o intuitivo -, munida de material didático, com carteiras novas para todos os alunos, com funcionários para cuidar da limpeza, com diretor para administrar e sobretudo com um ensino graduado, surgia como um espaço organizado, capaz de resolver as questões que tinham permanecido pendentes durante o tempo passado.

Sobre essa escola, o jornal O 15 de Novembro, em um de seus editoriais, fazia rasgados elogios: “é com a maior ufania que vamos registrar em nossa columna de honra a consideração e o estímulo que o nosso grupo escholar – Antonio Padilha está merecendo do patriotico governo do Estado”. Reconhecia o esforço do poder público em abrir a escola à população em geral, apesar dos sérios problemas que enfrentava: “é a prova evidencial de que o governo, embora  arcado com tantos compromissos, esquecendo mesmo a rigidez da crise que atravessamos, quer e esforça-se para erguer a instrucção do povo a altura da dignidade dos paulistas”. E chamava a atenção para o fato de ter contribuído decisivamente para a implantação do grupo:

 

a iniciativa dessa obra portentosa coube ao nosso modesto jornal.

Caminhava a instrucção publica desta cidade, com o maior pyrrhonismo imaginavel, quando nós esquecidos dos sentimentos de solidariedade que guardavamos, fomos arrastados pela corrente caudalosa da nossa intuição patriótica a darmos brado, pedindo que se retardasse com a reforma das escholas, para que satisfizessem o seu designio.

 

Criticando a oposição, que trabalhava contra a instalação da escola, diz: “desgostos de toda qualidade nos assoberbaram. Lucta heroica e gigantesca promovida pela fragilidade de ideias inopportunas desabaram tremendas sobre os principios das doutrinas pureas, que então propagavamos. Fomos vencedores”.

E descrevendo a escola como o local mágico onde tudo podia ser realizado, diz: “em pouco tempo fundou-se o desejado Grupo Escholar; em pouco tempo edificou-se as columnatas de luzes, aclareando o roseo porvir; em pouco tempo formou-se uma phalange de bravos que nos exames de Dezembro conquistaram palmas e glorias”.[270]

Seus professores eram os mesmos que, anteriormente, tinham escolas num raio compreendido de 2 km para os meninos e 1 para as meninas. Eram eles:

do sexo masculino  - Amaro Egydio de Oliveira, professor normalista do primeiro anno; Joaquim Izidoro Marins, professor normalista do segundo anno; Alvaro de Moraes Roza, professor normalista, do terceiro anno; José de Azevedo Antunes, professor normalista, do quarto anno. Do sexo Feminino – Escolastica Rosa de Almeida, professora normalista do primeiro anno; Gertrudes P. de Almeida Mello, professora intermedia, do segundo anno; Carlota de P. Ferreira professora normalista do terceiro anno e Benedicta E. Prado professora normalista do quarto anno.[271]

Além dos professores normalistas, o grupo escolar contou em seu corpo docente com o professor adjunto. Esse tipo de profissional foi criado devido à contínua falta de docentes, pela Lei 88, e previa, em seu artigo 16, que o simples diploma das escolas complementares habilitaria o professor para o cargo de adjunto. Sem dispor em seu currículo das disciplinas Didática e Pedagogia, o curso tinha por finalidade incutir a cultura geral. A imprudência de se colocar em sala de aula um professor sem esses conhecimentos básicos acentua-se com a publicação da Lei de 3 de setembro de 1895, que, em seu artigo 1º, dizia: “os alumnos que concluírem o curso complementar e tiverem um anno de prática de ensino nas escolas modelo do Estado, poderão ser nomeados professores preliminares com as mesmas vantagens concedidas aos diplomados da Escola Normal”.[272] Esse artigo equiparava os alunos da escola complementar aos alunos da Escola Normal.

Em Sorocaba, a utilização do professor adjunto começou em maio de 1896, quando o Estado fez anunciar nos jornais que estavam abertas as inscrições “para os exames de todos as matérias do curso preliminar, no prédio do 'Grupo Escolar' dos opositores aos lugares de adjuntos das primeiras escolas do sexo masculino e feminino do mesmo grupo”. Deviam os professores maiores de 18 anos, apresentarem “folha corrida ou atestado de moralidade, prova de vacina, atestado médico e de não ter sido expulso da Escola Normal ou de cadeiras em que estivessem lecionado”.[273] Cabia ao adjunto ajudar o professor titular, na preparação das aulas e nas demais atividades, além de substituí-lo em caso de ausência. Essa equiparação impôs ao professor um regime de trabalho de 5 horas mais 3 horas de trabalhos domésticos, para a preparação das aulas, o que provocou reclamações, tanto dos professores, quanto dos diretores, contra os inconvenientes desse regime de trabalho. A insistência das reclamações levou o governo a editar o Decreto nº 2.025, de 29 de março de 1911, que transformou as antigas Escolas Normais em Escolas Normais Secundárias e as Escolas Complementares em Escolas Normais Primárias. Posteriormente, em 1920, os dois tipos de Escolas foram unificadas em Escolas Normais.[274]

Logo após a inauguração da escola, o prédio que a abrigava começou a apresentar problemas. O diretor denunciou:

o grupo, ainda este anno, continua a funcionar no predio arrendado pela nossa digna Camara Municipal. O predio offerecido pela edilidade para funccionamento da eschola, deixa de preencher as condições mais elementares da nossa hygiene escholar. As salas são acanhadas, não offerecendo commodidade nem ao grande numero de alumnos que concorreu neste instituto de instrucção e educação nem aos professores para sua organização disciplinar. Por conseguinte - a collocação da mobilia, as disposições das salas, não contribuem para melhorar a marcha do ensino e bem estatuir aos preceitos da pedagogia. Entretanto, como edificio construido para fim diverso, é um dos melhores existentes nesta cidade. É pois de necessidade edificarmos uma casa de ensino de accordo com os moldes exigidos pela pedagogia moderna. Inspirado em nosso patriotismo, desejamos ardentemente amparar sua elevação de vistas ao rasgos  eloquentes da intelligencia infantil, como base de um futuro promissor para nossa Patria.[275]

Ocorre que não havia na cidade prédio adequado para servir como escola. Os existentes e que, anteriormente, foram escolas não passavam de sobrados com inúmeros cômodos de porte médio, construídos para servirem de residência. Transformados em escola demonstravam toda a sua inaptabilidade.

Para o Inspetor da Escola o prédio deixava muito a desejar:

devido a insufficiencia de accomodações acham-se funccionando em uma só sala duas series ou turmas do 2º anno do sexo feminino, uma com 37 e outra com 33 alumnas.

A divisão que separa o 3º do 1º anno da mesma secção é de taboas e apenas de 2 metros de altura, de forma que o rumos que não pode ser evitado no 1º anno, pertuba enormemente os exercicios do 3º.

As tres series do 1º anno do sexo feminino com 151 alumnas funccionam em uma única sala de 7,50 × 6m!

Todas as salas são mobiliadas com carteiras Chandless e como estas são em número insufficientes sentam-se dous alumnas em cada carteira servindo-se de uma pequena taboa para unir e ampliar as cadeiras, o que deve constituir um supplicio.

 

Sugeria providências urgentes “afim de se obter nesta cidade outra casa onde passe a funccionar parte do grupo, sendo neste caso preferivel desdobrar as duas secções”.

Como havia um só acesso, obrigou o “director a modificar o modo de entrar dos alumnos evitando o encontro forçado que tinham na entrada alumno e alumna”.

Em relação à entrada dos alunos em sala de aula recomendou ao diretor “que peddisse autorização ao Governo para despender o necessario com a abertura de uma porta com o fim de evitar que os alumnos de uma classe passem por dentro da sala do outro o que já tem occasionado desordens”.

Finalizando seu relatório, dizia que em “seu modo de ver o grupo devia merecer as solicitudes do governo, devendo ser objecto de demoradas visitas de inspectores, afim de que no espaço de tempo chegue a almejada clareza”.[276]

A esse relatório, que denunciava irregularidades, somava-se mais um, de outro inspetor. Como o diretor, em seus relatórios, omitisse e até mesmo informasse que não havia ocorrência que merecesse atenção, o Estado solicitava que o mesmo se manifestasse a respeito das denúncias.

 A resposta dá-nos uma amostra de como o diretor entendia o papel da escola e até onde ia a sua submissão ao Estado:

Cumprindo vosso despacho sobre o relatorio do digno Inspector Escholar, cidadão Emilio Mario de Arantes, cabe-me levar ao vosso conhecimento que as afirmações nelle contidas são, em absoluto verdadeiras. Este instituto ressente-se, de facto, de faltas materiaes que, já reconhecidas por mim, não foram ainda apontadas ao Governo, em virtude de accôrdo para ser isso feito mais tarde (no anno vindouro), afim de não ser o governo sobrecarregado com altas despezas, além das que ja foram feitas este anno, com serviços de hygiene.

Penso que o desdobramento das classes, pode modifficar o resultado já obtido, em relação á disciplina.[277]

 

Se o diretor da escola estava preocupado em esconder os problemas enfrentados pela escola, a população, ao contrário estava atenta para estes e procurava o jornal para denunciar. Um leitor através do jornal Cruzeiro do Sul, define-o como velho, anti-higiênico, sem espaços para mais salas de aula.[278] E reclama também do desinteresse político, dizendo que não existia no Congresso Estadual um único representante da cidade e que nem na “municipalidade, homens que liguem importancia à instrucção”.[279]

Na identificação dos problemas, somava-se a falta de material escolar, que constituía-se no elo com a escola isolada. Logo após a inauguração do grupo, o diretor, “diante da urgente necessidade de acabar de prover o grupo escolar de todos os materiais necessários, que melhor lhe facilitem o desenvolvimento do ensino”, pedia ao Estado:

6 Mappas geographicos, 2 Barrilotes de tinta, 6 caixas de giz, 1 Museu para Historia Natural, Apparelhos para o ensino de physica e chimica, 2 Armarios para a sala da directoria, 4 mesas para as salas de aula, 12 cadeiras, 6 relogios de parede, 3000 Carabinas para exercicios militares, 2 Tambores, 2 Cornetas em si b, 500 Cadernos de calligraphia, 500 Cadernos para desenho e 500 Lapis de pedra.[280]

Em 1904, anuncia-se oficialmente que o Grupo Escolar iria mudar para a rua das Flores, hoje, Monsenhor João Soares. Novamente a sociedade se manifesta. Em carta endereçada ao jornal Cruzeiro do Sul, um outro leitor reclama que o prédio “comquanto seja de sobrado e se mostre na apparencia prestar-se ao fim desejado, não pode elle por mais escrupulosa alteração em seus commodos para adaptal-o em salas de aula, ter uma boa distribuição de luz e hygiene em todas ellas”.[281] Continuando com suas críticas, sugere que

a Câmara, que não ignora este facto devia reunir os seus esforços perante o governo para a obtenção de um edificio nas condições desejaveis, assim como outras localidades de menos importancia e menor população tem sido favorecidas com este melhoramento. As despesas não só feitas no grupo escolar e no que estão fazendo no novo edificio são despezas que em nada adiantam, a perfeição de uma necessidade palpitante que nos traria o edificio proprio e em lugar apropriado, são por conseguinte despezas inuteis que o povo vê com máos olhos de compaixão.[282]


Mesmo assim, o Grupo Escolar muda-se, em 1905, para o novo endereço, que também se mostra inadequado, fazendo com que a Municipalidade reforme o prédio em 1907.

Fig. 10. Segundo prédio ocupado pelo Grupo Escolar Antonio Padilha, localizado na rua das Flores, hoje, Monsenhor João Soares. Acervo do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba.

 

Finalmente, em 1910, o Estado inicia a construção do novo prédio, que é inaugurado em 1913, graças, segundo o jornal, às gestões realizadas junto ao Estado “primeiro – pelo nosso chefe dr. Campos Vergueiro, a quem devemos meias esse beneficio de inestimavel valor. Todos sabem o empenho e o esforço que elle empregou para tornar realidade essa justissima aspiração do povo sorocabano”. E segundo – “pelo nosso illustre e distincto amigo sr. Major Luiz de Campos, benemerito educador e incansavel diretor do grupo escolar, que empregou todos os meios para que as obras ficassem concluidas dentro do menor tempo possivel” e não olvidando “esforços para conseguir o melhor material escolar e o melhor mobiliario existente na secretaria do Interior”.[283]


Fig. 11.  Terceiro e definitivo prédio ocupado pelo Grupo Escolar Antonio Padilha, localizado na rua Cesário Motta. Inaugurado em 1913. Acervo do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba.

 

Inaugurado com discursos, bandas, passeatas, fogos de artifícios e muito elogio, será recebido como a solução para todos os problemas. Ao visitar o prédio a convite de seu diretor, o jornalista teve “agradabilíssima impressão”, sem poder definir sua “satisfação e indivisível contentamento”  ao observar como ali era ministrada a instrução “áquelas creanças em número superior a 600, rebentos promissores de uma geração nova, intelligente”. Dizia, sem nenhum constrangimento ou modéstia, que elas haveriam de “fazer da patria brasileira a nação mais culta, mais admirada e invejada de todo mundo”. Segundo sua concepção, a instrução era, antes de tudo, a principal base onde se assentava o progresso de uma criança, era a instrução a alavanca do progresso e da civilização; era pela instrução de um povo que se avaliava a sua força, o seu valor e o seu poder.  

É por isso que as nações cultas cuidavam, em primeiro lugar, de dar educação aos filhos, é por isso que tinham chegado ao apogeu, como era “o caso da Suíça” que, apesar de pequena, tinha significativa força, poder e valor. Mas, o “Brasil, ou antes o Estado de São Paulo” já olhava com verdadeiro interesse “as coisas da instrução” e tudo tinha feito para tornar os “representantes dos heroicos bandeirantes, um povo livre, instruido, sagaz e cultivado”, merecendo, por isso mesmo, “calorosos applausos o nosso governo que nos dá vida” fornecendo  os meios “de instruirmo-nos, de aprendermos, de sermos uteis à patria e à familia”.

Encontrando dificuldade para se expressar, não sabe o que mais salientar, “se o local magnifico onde se acha construido o majestoso predio, se o asseio, a hygiene a commodidade” que ali notava, “se o luxo do mobiliario, a ordem e a disposição em que foram collocadas as mobilias, se o methodo de ensino ali ministrado, se o carinho e a boa vontade dos professores para com os seus alumnos, se a competencia daquelles, se a disciplina de tais creanças e o respeito para com os seus mestres”. Na verdade, sentia-se embaraçado em descrever o que via, pois alguém poderia tomar como exageros, “mas a sinceridade das palavras obrigaria a calar-se qualquer pessimista”.

Sem qualquer pejo, declarava que “cidade alguma do interior poderia ter um estabelecimento de instrucção primaria tão bem installado”. Isto afirmava “sem vacillar”.

O entusiasmo vai crescendo ao visitar a seção feminina. Em todas as aulas notava a “mesma ordem, a mesma disciplina, era de ver-se a alegria, o contentamento daquellas creanças. Como sentiam-se satisfeitas e com que enthusiasmo entoavam os hynmnos infantis que lhes ensinaram os seus professores”.

As sala de aula eram “muito bem ventiladas”, com “mobiliario todo novo”, oferecendo um aspecto “agradabilissimo, magnifico e encantador”.

Tinha o prédio dezesseis salas, “todas numeradas com as mesmas dimensões e offerecendo toda a commodidade, todo o conforto possivel”. No centro existia uma área cimentada, nos lados, dois gabinetes, um para reuniões dos professores e outro para as crianças que, durante o “recreio preferiam por motivos justos ficar no predio”; nos fundos existiam dois “enormes e belissimos pavilhões para recreio em tempo de chuvas”; ao lado do prédio ficava o “enormissimo parque para o recreio dos alumnos”. Como o prédio estava em fase de acabamento, de um lado estavam “sendo edificadas varias avenidas com duzentas arvores, do outro estava sendo construido o campo para os exercicios athleticos e jogos – law-tennis, basket-bool, foot-boll, tamborins, cricket, etc”.

Na frente da escola um jardim ainda estava sendo formado.

Nos fundos localizavam-se “os mictorios e as privadas onde o asseio era rigorosissimo”, existindo um reservatório com “2.300 litros do precioso liquido”.

Junto ao gabinete do “director ficava o salão do museu escolar, creado pelo illustre amigo, sr. major Luiz de Campos e que já contava com uma infinidade de objectos curiosos e interessantes”.

O edifício ficava no lugar mais alto e aprazível da cidade onde se gozava do melhor clima. “Era todo ventilado com janellas de vidro altas e grandes com resposteiro”.

As salas de grandes dimensões “claras, com carteiras duplas, de estylos moderno e elegante, com lousas em toda a largura da sala”, possuíam “mappas, globos, cartas geographicas, retratos dos vultos proeminentes de nossa patria para o ensino de historia do Brasil, etc”.

A água filtrada vinha de “filtros especiais”.

O terreno, circundado por um muro, tinha na frente uma grade e duas entradas.

Para o reporter, “o ensino ministrado aos alumnos pelo methodo moderno era dos mais salutares e estava muito longe do que se usava não ha muito tempo nos grupos escolares”. As crianças “sentiam a maior facilidade na comprehensão das materias ensinadas tão esplendido, racional era methodo usado”. E, para receberem noções de agricultura, estava sendo construído por suas próprias mãos “um campo agricola onde dali a pouco germinarão o arroz, o trigo, o algodão, enfim todas as especies de cereaes e varias plantas de utilidade como alfafa, foragens diversas, etc”.

A escola possuía, ainda, jogos infantis para o “exercicio dos alumnos adquiridos por meio de uma subscripção”.

Terminada a visita ao “belissimo e magnificamente instalado estabelecimento, o amigo sr. Luiz de Campos e seu distincto filho, sr. prof. Aristides de Campos, ofereceu-nos num dos salões, um profuso copo de cerveja”.[284]

A descrição ufanista que o repórter faz do prédio é uma resposta do governo republicano à sociedade, que estava cansada da velha e tenebrosa escola do período anterior. “Como signo da instauração da nova ordem, a escola devia fazer ver”.[285] Para isto, os edifícios deveriam ser necessariamente imponentes, arejados, amplos, onde tudo se dispunha em permanente exposição. Todas as atividades docentes e discentes, a produtividade intelectual, o instrumental, o mobiliário precisavam compor a visão da escola que estava instaurando o Progresso.[286]

O prédio foi construído sob a direção do “construtor-architecto coronel José de Barros”. Nesse ano faziam parte do corpo docente da escola:

na secção feminina – d. Francisca de Almeida, d. Angelina Grohmann, d. Antonia Nogueira Padilha, d. Isoulaide Vieira Soares, d. Dinorah de Toledo, d. Maria José Loureiro, d. Escolastica Rosa de Almeida, d. Amelia Cezar, d. Benedicta Leite de Faria e d. Enygdia de Almeida. Na secção masculina – d. Maria Annunciação Almeida, d. Anna de Barros, D. Laudelina Rolim sr. Luiz Gonzaga Fleury, Sr. Salvador Santos, sr. Ozorio de Campos Maia, sr. Fernando Rios, sr. Florentino Bella, sr. Luiz Wagner e sr. Aristides de Campos.[287]

Para entendermos a escola sorocabana, torna-se necessário fazermos uma discussão mais abragente. A maneira mais correta de se estudar o processo educacional é comprender a relação existente entre o Estado e a escolarização.

No período imperial, o Ato Adicional, em seu artigo 10, parágrafo 2º, instituía que competia às Assembléias Legislativas Provinciais legislar “sobre instrucção publica e estabelecimentos proprios a promovel-a, não comprehendendo as Faculdades de Medicina, os Cursos Juridicos, Academias, actualmente existentes e outros quaisquer estabelecimentos de instrucção que para o fucturo forem criados por lei geral”.[288] A interpretação desse artigo foi de que cabia as Províncias cuidar da instrução primária, enquanto que a educação secundária e superior seria de competência do governo imperial.

Proclamada a República, o governo elabora a Constituição de 1891, na qual nada consta sobre a competência para se legislar sobre o ensino primário. Diante desse fato, permaneceu a mesma interpretação anterior. A permanência dessa doutrina pode ser entendida como de continuidade do processo, mesmo porque a sociedade brasileira, tanto do período monárquico quanto do republicano, continuava com as mesmas características. Tornava-se necessário apenas controlar as escolas formadoras da elite – secundária e superior - para a manutenção da “ordem social e a permanência dos quadros intelectuais existentes”.[289]

O predomínio político e econômico da aristocracia rural e urbana comercial estava intimamente relacionado com o controle sem competição do ensino secundário e superior, de onde deveriam sair os futuros membros das ‘classes dirigentes’ e, portanto, de indivíduos formados de acordo com a mesma mentalidade da “elite dominante”.[290]

Na prática,

pouco valeram as pregações dos propagandistas e idealizadores da República a respeito da instrução, pois, com essa passagem, permaneceram os mesmos princípios adotados no regime anterior, especialmente o descaso com relação à educação popular, que foi o aclamado instrumento para tornar possível o sufrágio universal, fundamento do novo regime.[291]

Também Tanuri compartilha das reflexões de Nagle. Diz-nos que

a instauração do regime republicano não inaugurou, no Brasil, uma nova corrente de idéias educacionais nem uma nova política de educação, tendo significado simplesmente o coroamento e, portanto, a continuidade do movimento de idéias que se iniciara no Império, mais propriamente no anos setenta.[292]

A autora reconhece que

apesar disso, especificamente para o Estado de São Paulo, a República assinalou um passo à frente no âmbito das realizações práticas, representando um significativo marco na organização da educação pública no setor do ensino primário e normal e assistindo ao desencadear de um processo de desenvolvimento na rede escolar que não pode ser subestimado.[293]

Marta Carvalho, discorrendo sobre esta última reflexão, argumenta que “proclamada a república a escola foi, no Estado de São Paulo o emblema da instauração da nova ordem, o sinal da diferença que se pretendia instituir entre um passado de trevas, obscurantismo e opressão e um futuro luminoso em que o saber e a cidadania se entrelaçavam trazendo Progresso”.[294]           

Nessa mesma linha de pensamento, situa-se Rosa Fátima. Para ela, os republicanos paulistas tinham os olhos voltados para os países europeus e, principalmente, para os Estado Unidos e “assistiam impressionados à constituição dos sistemas nacionais de ensino nestes países e os avanços educacionais”. No interior desse processo,

a escola primária foi (re)inventada: novas finalidades, outra concepção educacional e organização do ensino. O método individual cedeu lugar ao ensino simultâneo; a escola unitária foi, paulatinamente, substituída pela escola de várias classes e vários professores, o método tradicional dá lugar ao método intuitivo, a mulher encontrou no magistério primário uma profissão, os professores e professoras tornaram-se profissionais da educação.[295]

 

1.1. ALUNOS E ALUNAS NOS BANCOS ESCOLARES

O aluno que vai freqüentar a escola no período republicano não difere do anterior, no período monárquico. Sem nenhuma mudança na divisão social, as crianças pertencentes a classe social privilegiada, permanecerão ocupando os bancos escolares, enquanto aquelas localizadas nas fímbrias da sociedade serão naturalmente excluídas. O discurso republicano de que a escola era do povo perde seu sentido ao constatar-se que a maior parte das crianças estavam fora da escola por uma série de fatores.

O Grupo Escolar Antônio Padilha, já em sua inauguração, através de seu diretor, comunicava pela imprensa que as 8 classes, 4 de meninos e 4 de meninas, haviam preenchido totalmente suas vagas e que mais de 200 crianças não puderam ser atendidas. Comprometia-se, no entanto, a reivindicar junto ao Estado a abertura de mais salas de aula a fim de atender à demanda. Não há notícias se de fato estabeleceu contatos e, se estabeleceu, qual foi a resposta que obteve.

Pela relação de alunos matriculados percebe-se que  a maioria advinha de famílias com certo poder aquisitivo e que estavam relacionadas à Igreja e à Maçonaria.[296]

A concorrência por uma vaga no Grupo Escolar entre a classe abastada da população e a pobre vai permanecer por

 


Fig. 12. Alunos do Grupo Escolar Antonio Padilha nas escadarias da Igreja Matriz de Sorocaba. 1899. Foto: Domingos Alves Fogaça. Acervo do Museu Histórico Sorocabano.

 

longo tempo. Várias campanhas foram realizadas, envolvendo pais, educadores e jornalistas para a criação de um novo Grupo Escolar, como a realizada por João José da Silva, que “redigiu um artigo, logo mais transcrito pelo 'Estado de São Paulo' no qual, sob o título 'Novo Grupo', o velho jornalista encarecia a necessidade da criação de outro grupo escolar, em vista de faltar prédio grande para atender ao grande número de alunos. O doutor Dino Bueno, secretário da Instrução, verificou isso, aliás, quando visitou Sorocaba”.[297] Somente em 1914 é que seria criado o 2º Grupo Escolar, denominado Grupo Escolar Visconde de Porto Seguro.[298]  A situação seria amenizada com a inauguração, em 1919, do Grupo Escolar Senador Vergueiro, no bairro do Além Ponte, especialmente

para atender aquela população constituída em sua maioria por trabalhadores da indústria têxtil Santa Maria, ali localizada.


Fig. 13. Alunos do Grupo Escolar Antonio Padilha nas escadarias da Igreja Matriz de Sorocaba. Foto: Domingos Alves Fogaça. Acervo do Museu Histórico Sorocabano.

 

Para tentar diminuir a pressão social sobre o Grupo Escolar, o Estado, através do Decreto 1.239, de 30 de setembro de 1904, autoriza a criação de escolas isoladas no perímetro urbano. Aproveitando-se dessa oportunidade, são criadas duas escolas isoladas na cidade: uma da 4ª série, a do professor José de Azevedo Antunes, e uma outra da 2ª série, a do professor Joaquim Izidoro Marins, ambas no centro da cidade e próximas do Grupo Escolar. No entanto, o problema não é resolvido.

A criação de escolas isoladas também foi adotada em Belo Horizonte – MG, utilizando-se de processos semelhantes. Lá, como aqui, cabia à população realizar o “levantamento do número de crianças em idade escolar residentes na região e verificando número suficiente de meninos e meninas (45 para a região urbana), solicitasse a criação de uma cadeira de instrução primária para o local”.[299]

Observa-se, dessa forma, que, ao mesmo tempo em que o Estado procura propagandear a escola pública como fator de crescimento social, a sociedade responde positivamente, procurando acessá-la. Em Sorocaba, os seus freqüentadores serão constituídos, em sua maioria, por filhos de brasileiros naturais ou naturalizados. Somente 4% são filhos de estrangeiros. A pequena incidência deles deve-se, talvez, ao fato de existirem inúmeras escolas para estrangeiros, de ensino gratuito.

Com relação aos negros, não conseguimos avaliar a sua inserção na escola, em virtude da absoluta falta de dados. Onde estavam? É uma questão ainda pendente. Embora fossem essencialmente urbanos, em virtude do campo ter atividade pouco expressiva no quadro econômico sorocabano, e tivessem permanecido no meio urbano, eles foram pouco visíveis durante  esse período. Marginalizados no trabalho, a eles estavam destinadas as atividades de menor importância econômica, como por exemplo: carregadores, cocheiros, manutenção de estrada-de-ferro, cozinheiros. Foram também preteridos na educação escolarizada. Aparecem em pequeno número em algumas fotografias antigas.

Na vida cotidiana da escola freqüentavam-na,  crianças com as mais variadas idades. Na 1º série, havia alunos com idade entre 7 e 9 anos. Na quarta série, com até 16 anos. Esse fato ocorria em função dos pais mandarem seus filhos à escola, de acordo com seus interesses econômicos.

Além dessa questão, havia uma outra, que trazia igual preocupação: as faltas. Mostrando-se preocupado com o número exagerado de faltas de até 10 por mês, o jornal O 15 de Novembro comenta que “no fim do anno escolar o menino que podia ter aproveitado muito aprendendo toda a materia, terá perdido metade ou talvez tres quartas parte dellas”. Ressaltando a questão pedagógica como a mais prejudicada, sai em defesa do professor. Argumenta que

 

quanto aos mestres é ainda maior o damno produzido pela falta de assiduidade das creanças. Todo dia falham cinco, seis e mais alumnos de cada classe, de sorte que no fim de dous ou tres mezes precisa haver nova classificação; a somma das faltas tem como conseqüência atrazar-se o ensino, devido aos multiplos obstáculos que surgem na carreira lectiva.

O professor tem de multiplicar o número de classes e, por conseqüência, subdividir a sua actividade para poder fazer explicações a todas. Dahi resulta naturalmente a escassez de tempo que tem como corolário as lições diminutas além de não sufficientemente explicadas.

 

Questionando o porque desta situação o próprio jornal responde:

por causa da incuria dos chefes de família que ligam minima ou nenhuma importancia á freqüencia dos meninos, á escola; por causa, diga-se em bem da verdade, por causa de alguns pais que em muitas occasiões distrahem os seus filhos das aulas publicas, para empregal-os em affazeres e misteres domesticos.[300]

As faltas foram, por longo tempo, motivo de preocupação de todos os envolvidos com a prática escolar. Sem saber o que fazer para solucionar esse costume, o Estado incluíra, na reforma do ensino, punição para os faltosos. Nem assim conseguirá sensibilizar os pais a mandarem para a escola seus filhos. O Inspetor Justiniano Vianna chegou a apelar para “o patriotismo das municipalidades”, para ver a lei “executada e desta arte sanada esta difficuldade para o ensino”.[301]

Interessante notar que também em Belo Horizonte – MG, a baixa freqüência constitui-se em uma preocupação tanto dos diretores quanto dos inspetores. As causas são as mesmas: as crianças precisavam trabalhar para ajudarem no orçamento das famílias.[302]

 

1.1.1. O MENOR TRABALHADOR FORA DA ESCOLA

No século XIX os proprietários industriais recrutavam a sua mão-de-obra  não especializada nos juizados de menores, nas Casas de Caridades, entre os desempregados e nos orfanatos. Esses locais constituíam-se em fontes inesgotáveis de uma mão-de-obra muito barata e, por vezes, gratuita. Aqueles proprietários eram convertidos em benfeitores e filantropos. Ambos os papéis eram vistos com benevolência pela sociedade e conscientemente pelos empresários, mas que faziam parte de um processo que procurava resguardar a nascente indústria. Ante as dificuldades em recrutar mão-de-obra especializada

Joaquim Leme de Oliveira Cesar, proprietário de um pequeno estabelecimento typographico donde atualmente publica um jornal Gellonitor que tem por fim advogar os interesses moraes e materiaes deste Município e dos visinhos, que ante a falta absoluta de compositor ou de quem se queira dedicar a esta arte, rasão porque vem o supplicante ante V. Exa. supplicar que lhe conceda um educando do Seminário de Sancta Anna, mongerado em caso de se habilitar na arte typographica.[303]

          Intercedendo a este pedido, o Inspetor Geral responde que “a minha opinião é que os Educandos daquelle Seminário, tendo qualquer arranjo vantajoso e conveniente devem abraçar por ordem do Governo, para não ficarem adultos e sem préstimo n’aquelle Seminário; dando lugar a outros órfãos que necessitão deste socorro philantrópico”.[304]

A visão amplamente difundida da atuação social do empresário, ao empregar o menor, tinha grande receptividade na imprensa. O editor de um jornal, ao visitar uma tecelagem, observa que “nas machinas onde trabalham 350 fusos só operam creanças, meninos, ágeis” e “que é uma viva satisfação ver para alli ocupados, aproveitando santamente o tempo que outras malbaratam na ociosidade, na precocidade do vício”.[305] Mais adiante, no mesmo artigo, destaca que “os meninos de ambos os sexos são em número de 90. De novo, santa escola do trabalho! Vimol-os alli entretidos, diligentes, numa faina suave, que de maneira alguma lhes pode prejudicar as organizações débeis, em vista do diminuto dispêndio de forças que demanda”.[306]

Essa mão-de-obra era empregada com satisfação pelos empresários, que apostavam na formação de seu caráter e nos hábitos regulares, preparando-a para no futuro, empregá-la como força especializada de baixo custo e baixo salário.

Se a remuneração era sempre inferior à do adulto, a duração da jornada de trabalho era a mesma, variando apenas num mesmo momento de acordo com o setor industrial e de um para outro estabelecimento. No início do século, havia fábricas de tecidos que trabalhavam até quatorze horas com a mesma turma de operários. Em 1910, as Fábricas de Tecidos Santa Maria e Santa Rosália “trabalham das cinco até às oito e meia da noite!!! com quarenta e cinco minutos de interrupção para o almoço ... e na Nossa Senhora da Ponte, das cinco da manhã até às sete da noite”.[307] Nesse ano, a jornada de trabalho era de dez horas na construção civil, de nove e meia na indústria de chapéus, de nove à onze, nas fundições e oficinas mecânicas e de quatorze horas e meia na fábrica de tecidos. As horas extras eram realizadas a partir das horas regularmente trabalhadas e, geralmente, os trabalhadores, sob a ameaça de demissão, as faziam sem remuneração ou, excepcionalmente, havia um pequeno acréscimo.[308]

A imprensa operária chama a atenção para a exploração a que estavam sujeitos os trabalhadores, dizendo que o

nosso dever havemos que o cumprir, não hade ser os arreganhos dos que possuem ouro que nos fará retroceder da linha que traçamos. O operariado é victima dos mais torpes abusos, e das mais dolorosas ingratidões. Por exemplo: o horário demasiado de 15 horas por dia, um absurdo tão grande como o mundo inteiro. O operariado é um leão que dorme ... mais que um dia hade acordar lançando abaixo a bastilha dos exploradores.

                       Nós precisamos trabalhar, pois no trabalho nascemos e delle é que vivemos, mais o que não podemos tolerar, é os proprietários de fábricas obrigarem os seus míseros empregados a trabalharem 15 horas por dia, ganhando os mesmos uma miséria.

                       A nossa questão é nas Fábricas de tecidos, porque são nellas que labutam pela vida milhares de jovens expostos a tuberculose e as engrenagens das máquinas.

                       Por que é nellas que vivem essa immensidade de meninos pobres que necessitam da luz bendicta da instrucção, o guia abençoado do estudo da vida.[309]

 

Apesar de, nas reivindicações, sempre constar, em um de seus itens, a proibição do trabalho noturno do menor, era comum encontrar-se  “pela manhã de volta do trabalho de toda a noite algumas crianças que, tontas de cansaço caminham titubeantes em demanda de suas casas, onde vão repousar um pouco das longas fadigas de uma noite de insônia”.[310] Contra esse fato, foi editado o Regulamento Sanitário de 1911, que proibia o trabalho noturno para menores de 18 anos e as atividades para menores de 10 anos.[311]

          No entanto, a pobreza que permeava a família do trabalhador, que precisava do trabalho da criança para aumentar a renda familiar, configurada pelos baixos salários recebidos, pela restrição do mercado de trabalho, pela pequena ou nenhuma escolaridade, pela ausente qualificação profissional, permitia que o regulamento relativo ao trabalho do menor fosse constantemente burlado. Contraditoriamente, era essa mesma parcela social que reivindicava a diminuição da jornada de trabalho.    

O primeiro regulamento do trabalho do menor é de 1891 (Decreto nº 1313) e referia-se especificamente ao Distrito Federal. Nele há várias providências, com o intuito de disciplinar as condições de trabalho das crianças, nas fábricas. Instituía a fiscalização permanente a cargo de um inspetor geral, que deveria visitar periodicamente todos os estabelecimentos onde trabalhavam menores. A idade destes, para admissão, era de, no mínimo, doze anos. No entanto, abria a possibilidade de diminuir a idade entre oito e doze anos, no caso de aprendizes que tivessem o seu período de trabalho fixado em três horas diárias, para os menores entre oito e dez anos, e de quatro horas, para os de dez a doze anos, com um intervalo obrigatório de meia e uma hora respectivamente.       

O Decreto citado dividia a jornada de trabalho entre os sexos. Para o feminino, de doze a quinze anos, em sete horas diárias; para o masculino, com idades entre doze e quatorze anos, em sete horas e, de nove horas diárias, para os de idade compreendida entre quatorze e quinze anos.

O trabalho aos domingos e feriados era proibido, assim como o trabalho noturno era para os menores de quinze anos. Não se permitia o trabalho em atividades que exigissem esforços excessivos ou perigosos, tais como, a limpeza de máquinas em movimento e a manipulação de produtos químicos.

A primeira regulamentação do trabalho de menores em São Paulo é de 1894 e aparece no Código Sanitário. O Decreto nº 233, de 02 de março de 1894, estabelece em dois artigos a proibição do trabalho de crianças menores de doze anos, ficando sob a responsabilidade das autoridades competentes a autorização para o trabalho de menores entre dez e doze anos, em atividades pertinentes. Proibia, ainda, o trabalho noturno para crianças menores de quinze anos.[312]

O Regulamento do Serviço Sanitário de 1911 determinava que o trabalho noturno não poderia ser realizado por menores de dezoito anos e que o trabalho fabril poderia ser realizado a partir de dez anos. O menor entre dez e doze anos poderia ser empregado, desde que o fosse em atividades  consideradas leves.[313]

Em 1917, o Regulamento do Serviço Sanitário é revisto, sendo introduzidas algumas medidas que visavam aperfeiçoar a legislação referente, especialmente a proteção do menor trabalhador. A idade para sua admissão é elevada para doze anos; entre doze e quinze anos, o menor é proibido de trabalhar em fábricas de bebidas alcoólicas e em máquinas perigosas; em serviços que exigissem conhecimentos e atenção especiais; em transporte de cargas; em serviços de impressões tipográficas e litográficas e em indústrias perigosas e insalubres; a jornada ficava limitada à cinco horas diárias para as crianças entre doze e quinze anos, e somente poderia ser admitida a criança entre doze e quinze anos que apresentasse certificado de freqüência escolar e atestado de aptidão física para as atividades do trabalho.[314]                  

     Antevendo a escola como o elo capaz de levar mais rapidamente a liberdade através do conhecimento que proporcionava àqueles que a freqüentavam e considerando que era possível construir uma nova realidade baseada nos preceitos concernentes ao estudo escolarizado, a sociedade, reclamava o direito da criança freqüentar os bancos escolares:

escolas para operários é a coisa mais necessária e mais santa que se possa imaginar, porque se abre, é um cárcere que se fecha, é n’ella que se aprende a ver a luz, é n’ella que se reconhece o valor da liberdade.

Mais de uma vez temos dito: o homem analphabeto é um ente infeliz, nunca poderá passar de um escravo, porque elle não sabe usar de seus direitos.

Existem nessas Fábricas de tecidos uma enorme quantidade de creanças que estão na edade de freqüentarem escolas.

Coitados ... criam-se nas Fábricas, tornam-se homens nas mesmas, passam a quadra mais feliz da existência – a mocidade – n’esses antros de entorpecimento sem nunca lembrarem-se que com a instrução e a força de vontade poderiam melhorar essas suas sortes.[315]

 

Embora já existisse uma escola noturna – a da Loja Perseverança III – destinada ao menor trabalhador, havia sérias dificuldades para ser freqüentada, devido ao esquema das horas de trabalho organizado e imposto. As reclamações partiam tanto dos trabalhadores adultos e dos jovens quanto de suas famílias. Atendendo aos reclamos sociais, a Secretaria do Interior em 1910, autoriza o funcionamento de uma escola noturna, nomeando para seu professor Theodomiro de Barros.[316]

                Aliados nessa reivindicação, os jornais demonstravam preocupações; mas era na imprensa operária que o drama social era retratado com toda a sua crueza.  Em 1910, o jornal publicava que

as escolas noturnas, criadas e mantidas pelo Governo do Estado, segundo o regulamento, devem abrir-se às 6 horas da tarde, fechando-se às nove da noite. Eis aqui o ponto capital da nossa queixa; não do horário, pois não só o aprovamos como o achamos magnífico, mas da dificuldade que dai advem para os operarios as freqüentarem, devido ao adiantado da hora que largam do serviço. As Fabricas de Tecidos Santa Maria e Santa Rosalia trabalham até às oito e meia da noite(!!!), a da Nossa Senhora da Ponte, até às sete, a Fabrica de Chapéus até às cinco e meia da tarde. Diante de um horario tão comodo quanto rendoso para os patrões, nenhum operario poderá freqüentar as escolas noturnas do que resultará a sua nenhuma eficacia. De que modo e com que tempo um operario deixando o serviço às cinco e meia da tarde poderá ir até a sua casa, jantar, mudar de roupa, passar uma vista d'olhos na lição e achar-se na sala da escola às seis horas em ponto? É tão materialmente impossivel como tentar-se vencer uma legua de distancia a pé em dez minutos. Agora, quanto aos que deixam o trabalho às sete e oito e meia da noite? Torna-se tão impossivel que toda e qualquer comparação não passaria de ridicula e absurda”.

E concluía, sarcasticamente:

aconselhamos as fabricas a darem começo ao trabalho, às três horas da madrugada, fazendo-o cessar às cinco.[317]

O tom claramente de cunho trágico-denunciador com que se procura despertar a família para a realidade cotidiana das fábricas e o futuro de seus filhos é relativamente comum nos jornais operários da época. Em um artigo escrito por um dos leitores de O Operário, a escola aparece como elemento fundamental na estratégia dos trabalhadores, para lutar contra a opressão; é nela que se adquirem os preceitos essenciais para a reflexão sobre o entendimento do processo como um todo; é no banco escolar que a criança obtém conhecimentos para tornar as relações mais justas. Assim a família é convidada a reagir dentro de um projeto mais amplo que tem como fim  beneficiar todos indistintamente:

é triste para mim e outros que como eu se prezam em ser sorocabanos, é triste muito triste de ver, uma multidão de pequenos, completamente analphabetos, trabalharem numa escura fabrica, desde às 5 horas da manhã até ás 7 horas da noite ganhando 250 reis e 300 reis durante essas 14 horas! Pobres creanças! Que será dellas, assim ignorantes, por esse mundo de Deus? Criam-se brutos, pois ao passar pelo tempo da escola nem sequer se lhes ensina o a.b.c. O crime alem os espera e o vicio lhes sorri!

                Oh! Paes que tendes filhos, olhae por elles; olhaes tambem,  para os vossos, não os deixeis assim expostos a corrupção. Procurae a felicidade para vossos filhos, mandae-os instruir e no fim de vossa vida tereis delles a devida recompensa pelos vossos serviços. É verdade que sois obrigados a mandal-os trabalhar, sem que primeiro vejam a luz imaculada da instrução. Ah! mais por isso devemos trabalhar pela victoria de nossa causa, devemos luctar pelas 8 horas de trabalhos, pois, com a diminuição das horas nos seus trabalhos elles terão tempo para se instruir para aprender a distinguir o bem do mal.

                Pois bem companheiros, não poupemos esforços para luctar em prol das 8 horas, ellas serão uma mensagem divina que nos livrará deste captiveiro e nos dará tempo para nos instruir.

                Nunca devemos esperar pelos outros, tudo depende de nós mesmos. Mandar ensinar uma creança é a obra mais santa que podemos praticar na nossa vida, o operário preciza de instrucção para não ser tão explorado. Porque é que nos exploram os burguezes? Não é pela nossa falta de preparo para protestarmos?

                Os ricos querem a ignorancia porque ella reinando entre nós (os operarios) elles tem a machina inconsciente para trabalhar a sua vontade.

                Companheiros, meus irmãos de classe, quebrae essas algemas que prendem os vossos pulsos e gritae bem alto:

Queremos a nossa liberdade

e a

Instrucção para nossos filhos![318]

 

Sem obter do Estado respostas aos seus anseios em relação à educação escolarizada, o mesmo jornal anarquista, que se posicionava como o representante dos trabalhadores sorocabanos, tece, em 1910, após o fim de uma greve, fartos elogios à escola maçônica existente na cidade. Parece-nos que, ao fazê-lo, não percebia os traços ideológicos ali permeantes, objetivados por um modelo educativo voltado à formação ministrada pelo sistema capitalista. É possível, também que, embevecido pelo êxito alcançado pela greve, não tenha atentado para a realidade dos fatos, que o colocavam em situação contraditória ante seus princípios e os da maçonaria. O jornal assim se coloca:

apos novo horario das fabricas de tecidos desta cidade, graças ao movimento ultimamente realizado com grande exito para patrões e operarios reforçou-se o elemento escolar nas escolas nocturnas da Perseverança III.

Esse novo incremento para o nosso meio social é de grande vantagem por quanto elle representa o efeito da greve que teve por unico objetivo a instrucção da classe menos favorecida da sociedade.

O procedimento digno e correcto da benemerita loja Perseverança III, merece por todos os titulos os nossos melhores encomios e por essa razão, louvamos do melhor coração, o grande alcance dos dignos propugnadores do bem que constituem o elemento maçonico local.

Essa grande instituição, abrindo escolas para os miseros sedentos de luz, não faz mais do que abrir as portas do grandioso templo onde residem o absoluto que é Deus.[319]

Antecipando-se ao II Congresso Operário Brasileiro e ao publicar o seu manifesto em que consta “conseguir-se a instrucção primária obrigatória” até que se crie “legislação regulamentar sobre o trabalho das mulheres e dos menores nas fábricas e oficinas, tendendo a sua extinção”,[320] o jornal continua a insistir na necessidade de se criar novas leis protecionistas ao menor. Mas é somente a partir de 1932[321] que a legislação trabalhista, especialmente a referente ao menor, começará a ser mais ou menos cumprida. Até então, as leis existentes, apesar de não tocarem nos pontos principais da problemática que envolvia o trabalho do menor, foram desprezadas. Os industriais, em nenhum momento, respeitaram qualquer um de seus artigos, levando-as, depois de certo tempo, à sua completa banalização. Mas nem por isso qualquer um deles foi penalizado.

 

1.2. AS CONDIÇÕES DE TRABALHO DO MAGISTÉRIO

     O jornal Cruzeiro do Sul, em 1904, publicava que era

muito certo o prolóquio popular - o dia da ventura é véspera do da tristeza. A classe do professor que gozou de certo bem estar, passa agora o seu momento de amargura. Foi promulgado o decreto que reformou a instrução no Estado...os professores terão os seguintes vencimentos: professor ambulante, 1.800$; de escola de bairro ou distrito da paz, 2.400$; de escola isolada em município, 3.100$; de grupo escolar, escola modelo anexa e do jardim de Infância, 3.500$; diretor de grupo e inspetor do jardim de Infância, 4.000$000. Como se vê, é deprimir a nobre classe reduzindo-a a situação aflitiva. Que lucrará o Estado com isto? Fará economias para gastar em coisas menos úteis deixando o povo crescer na ignorância? Quem quererá, dora avante, estudar longos anos, tendo certeza que nulo está seu futuro?[322]

No mesmo ano, um “kilo de bacalhau de caixa, custava 1$100, da tina, 1$000, camarão em lata, 2$500”; “um cento de laranja da terra, $500, das Bahamas, 2$500, mas para pegar na chacara”; uma “garrafa de cerveja Antartica ou Bavaria custava 1$200”; uma garrafa de pimenta, 2$000; petit poi, 2$500 e um kilo de couve flor com o respectivo molho, 5$000”.[323]

  Ao irrisório salário, somavam-se outras formas para torná-lo, ainda, mais aviltante. Alegando dificuldades orçamentárias, o Estado, em 1891, estabelecia desconto de 15% na folha de pagamento do professor, o que se prolongou até 1912, quando estes, baseados nas novas normas instituídas pelo Congresso Constituinte, requereram a sua suspensão. O jornal Cruzeiro do Sul publicava

que diversos professores públicos vão requerer ao governo do Estado o pagamento integral de seus vencimentos, que desde 1891 estão sofrendo o desconto de 15 por cento, em virtude de uma disposição orçamentária. Esses profissionais, justificando o seu requerimento vão alegar uma circunstância que lhes parece um aumento dos mais valiosos. Como é sabido, o imposto de 15 por cento nos vencimentos do professorado está sendo cobrado em virtude de uma disposição transitória apensa ao projeto de orçamento de 1893, e não em conseqüência de uma lei especial. Essa disposição transitória foi mantida nos orçamentos posteriores e o desconto continua a ser feito até o ano atual. Acontece, porém, que o Congresso Constituinte, na sua última reunião suprimiu a parte da Constituição do Estado, que permitia as disposições transitórias nos projetos do orçamento. Sendo assim, não foi possível consignar no orçamento de l912 a disposição instituída em 1893, mandando cobrar o referido imposto. Baseados nessa supressão e por não haver lei especial que autorize tal cobrança, é que os professores vão requerer o pagamento integral de seus vencimentos.[324]

Porém os professores não são atendidos em suas reivindicações. Com as esperanças esvaecidas, vêem seu nível de vida atingir as orlas da miserabilidade. A sua degradação econômica é reconhecida por todos. Somente em 1919, as esperanças retornam com um possível reajuste salarial. O jornal noticia:

os professores públicos, que haviam quasi perdido as esperanças de ver seus parcos vencimentos augmentados, animam-se de novo e com ardor pleiteam a victória dos seus direitos.

A classe do professorado, desde o célebre corte de 15 por cento nos seus ordenados, vem soffrendo, mais do que qualquer outro empregado público, as conseqüências de uma vida de aperturas, vida que se tornou quasi de miséria para muitos que, com  família numerosa apenas contam com o producto do seu insano labor de mestres-escolas para a manutenção do lar.

É pois, de todo a opportunidade o augmento de vencimentos do professorado.[325]

 

 

 


Fig. 15. Professores do Grupo Escolar Antonio Padilha. 1910. Acervo do Museu Histórico Sorocabano.

 

Mas essa situação era compatível com o discurso ideológico propagandeado pelo Estado de ser o “magistério uma carreira modesta”, porém, “nobilíssima”. A compensação de seus serviços não vinha pelo dinheiro, mas pela “estima e apreço que merece pela gravidade melindrosa de seus affectuosos deveres”. Deveria conformar-se com os péssimos salários, porque o “magistério constituía-se um como sacerdócio da infância” que exigia a “vocação” e não podia “ser procurado como simples indústria lucrativa”. E se não fossem capazes, se não pudessem “levar essa vida de abnegação e sacrifícios, estudando e ensinando, ainda”, era “tempo de recuar”. Os descontentes podiam procurar emprego em outro lugar, já que “não escasseia no Brazil, e em nossa cara província, especialmente, onde se ganhe o pão e o nome”.[326] 

A adoção pela república dos termos “sacerdócio” e “vocação” tem várias conotações: em primeiro lugar, pregando o ensino laico e profano, observa-se que o discurso procura conservar a visão teológica da realidade. É possível supor que “a autoridade religiosa é substituída pela percepção profana do poder do Estado e que a fé na racionalidade ocupa o lugar da crença na providência”.[327]

Guardadas as devidas proporções, o professor passa a desempenhar o mesmo papel atribuído ao padre. O magistério é o apostolado e o professor o sacerdote. “O desprendimento material e a destinação apostólica são características entendidas como inerentes ao ofício de mestre”.[328]

 

1.3. O MAGISTÉRIO E A POLÍTICA

Existia na cidade uma divisão política entre dois grupos, o que, comumente, provocava explosões de ódio, que culminavam em provocações e até mesmo agressões de lado a lado. O professor pertencente à ala política da oposição tinha, por costume, levar para dentro da escola a prática de provocações que acabavam por influenciar até mesmo os alunos. Um desses incidentes, considerado mais grave, provocou, por parte das autoridades escolares, a abertura de sindicância com seus previstos resultados:

tendo ocorrido n’esta cidade em dias da semana passada, factos que se relacionam com a vida intima do Grupo Escolar ‘Antonio Padilha’, tratei de syndicar desses factos e cheguei ao comnhecimento do seguinte:

O professor Joaquim Izidoro Marins, a quem aliás nada si tem a increpar quanto ao cumprimento de seus deveres profissionaes, vive em completa desharmonia com todo o corpo docente deste Grupo.

A sua classe funcciona para dentro da sala onde lecciona o professor José de Azevedo Antunes de quem é inimigo figadal, tendo os seus alumnos ao entrar e sahir de passar por esta sala.

Em um dos dias da semana passada a classe do professor Antunes, na occasião de sahir foi alcançada pelo do professor Marins (contra a boa disciplina) que com ella misturou. Iam para o recreio. Lá o professor Antunes reprehendeu a classe de Marins.

Na rua, á sahida dos alumnos os do professor Marins vaiaram o professor Antunes.

Conhecido o facto pelo director, foram impostas penas de expulsão e suspensão aos alumnos.

O facto por si se reveste de gravidade, esta porem sobe de pronto si se chegar a evidenciar que Marins autorisou ou acoroçoou tal vaia, conforme depuseram alguns alumnos.

Do inquerito porem a que procedi isto não ficou provado; sim que os alumnos procederam de mótu próprio na certesa de que agradavam ao seu professor que é inimigo do outro.

Não havendo pois materia para denunciar nesta occurrencia me parece que a melhor medida será a justiça preventiva para casos futuros.

Ora, desse accordo está o professor Marins (que é incontestavelmente alli o pomo de discordia) que deseja a sua remoção para esta Capital para uma escola qualquer, o que vai requerer. Penso pois que o Governo facilitando a sua retirada, dá a melhor solução possivel á questão tratada.[329]

Aberto o inquérito, foram ouvidos, além dos dois professores envolvidos, os seus alunos e o diretor da escola. Ficou comprovado que as provocações tinham partido dos alunos que queriam agradar o professor, declinando de qualquer culpa o professor Joaquim Izidoro Marins.

A dissensão entre os dois professores, além de ser política, já que pertenciam a grupos diferentes, tinha cunho também religioso. Enquanto o professor Joaquim Izidoro Marins era católico fervoroso, o professsor José de Azevedo Antunes era maçon e protestante.

 

1.4. PROGRAMA E MÉTODO

O programa curricular da escola republicana, elaborado de modo racional e sistemático, exigia um novo professor, dotado de novos padrões de conhecimentos, onde a interação professor-aluno deveria estar na pauta diária das preocupações. Esperava-se um professor polivalente, possuidor de “uma sólida formação geral, não apenas sábio no entendimento do homem, do mundo e da sociedade, mas experto na arte de ensinar, ou seja, no domínio da metodologia de ensino”.[330]

No programa das escolas preliminares, procurava-se excluir o conflito entre a escola velha e a nova, redimensionando e valorizando as modernas concepções em voga. Conteúdo e Metodologia faziam parte do saber escolarizado.

No Grupo Escolar Antonio Padilha, a linguagem era a grande preocupação do ensino e se fazia “o possível para uma boa methodologia, acompanhando as instituições congêneres que servem de modelo”.[331]

Permitiam-se somente livros de leitura, destinados a lições de linguagem e, para os alunos dos últimos anos, o uso do dicionário. Os alunos do 1º ano eram divididos em grupos, de maneira que o professor cuidasse, no máximo, de 10 alunos de cada vez. O método era o da palavreação – primeiro as palavras e o seu significado, depois a forma gráfica e, finalmente, a leitura de pequenas sentenças diretamente relacionadas ao assunto tratado. No 2º ano: leitura com exercícios orais e exercícios de formação de sentenças. No 3º ano, exercícios orais e escritos em verso e prosa. E no 4º ano, tinha vez o ensino da gramática prática.

                        Na Aritmética, o livro adotado era o de Trajano, transposto do período imperial, mas que “era organizado conforme o sistema de um dos tratados mais populares dos Estados Unidos, escrito com clareza e desenvolvimento”.[332] As crianças aprendiam a contar, utilizando-se de tabuinhas ou esferas de um contador. No 2º ano, faziam cálculos mentais e a leitura de cartas de números e, no último ano, aprendiam as operações sobre números inteiros e decimais.

Em Ciências Naturais, utilizava-se o ensino intuitivo, com o aluno aprendendo a observar os objetos e depois descrevê-los.

O ensino de Geografia iniciava-se no 1º ano, com os alunos descrevendo oralmente a sua sala de aula, depois a disposição de sua própria escola e sua casa. No 2º ano identificavam o município e o Estado de São Paulo. No 3º ano, utilizando do globo terrestre, o professor mostrava a forma da Terra, os diferentes povos, o municípios e, no 4º, usava-se o livro com ilustrações.

Instrução Cívica e Moral: dava-se através da recitação de trechos de poesias e historietas, escolhidas com critério pelo professor, para evitar interpretações errôneas.

Ginástica e Exercícios Militares; deveriam incentivar o hábito da disciplina no aluno.  Aqueles que se destacavam fazia parte do ‘Batalhão Escolar’.

A introdução da Pedagogia na escola republicana tornou o ensino objeto de conhecimento. Para ser professor era preciso estudar, atualizar-se, ser dinâmico, ser profissional.

Mas, na prática, a execução do programa apresentava dificuldades, em virtude dos problemas humanos e materiais existentes. Três anos após a sua inauguração, os imprevistos pedagógicos e metodológicos alteravam a

marcha dos trabalhos escolares. Assim, em meio e fim do anno escolar, sendo certo que já no inicio dos trabalhos o facto se dera, foi necessário tractar da substituição de algumas professoras  que se viram forçadas a licenciar-se, em virtude de grave alteração de saúde. Como o podeis perfeitamente avaliar, as mudanças operadas nas diversas classes não podiam deixar de influir na marcha do ensino, retardando a evolução intellectual dos alumnos consideraddos em sua individualidade.[333]

Os inspetores começavam a constatar e identificar a falta de uniformidade do programa: “O Grupo Escolar Antonio Padilha não apresenta uniformidade nos methodos de ensino e há pouca disciplina entre os alumnos”. No mesmo relatório, o Inspetor reconhece que outras escolas encontravam-se em idêntica situação:

uma das questões para a qual chamo vossa especial attenção é a uniformização dos methodos de ensino nas escolas e nos grupos escolares do interior do Estado. Não raro observamos na mesma localidade, no mesmo estabelecimento e em professores de egual categoria, methodos de ensino tão differentes que nos induzem a crer que não obedecem a uma segura orientação pedagogica. Essa irregularidade ou melhor esse inconveniente traz como consequencia embaraços ao adeantamento da creança. Conceder um dia da semana para assistencia de aula nos bons grupos do interior seria uma medida que melhoraria este estado de cousas.[334]

 

1.5. A NOVA ORDEM

O espaço escolar, para os republicanos, constituiu-se num projeto cultural que tinha como finalidade civilizar e moralizar as crianças e seus familiares. No interior do mesmo encontra-se toda uma relação de inclusão e exclusão. A sala de aula é a sua expressão fundamental; há uma para cada ano do curso preliminar de cada seção, correspondendo cada uma delas a um grupo de alunos do mesmo grau de adiantamento e um professor, cabendo ao professor adjunto (professor auxiliar) a classe menos adiantada.

Os ideais de renovação colocam como princípio indutor a valorização da criança. No entanto, o modelo de sala de aula é uma sala retangular com um espaço mínimo para cada aluno, corporificando os princípios do racionalismo funcional e o critério de disciplina.

As carteiras, tidas como o material escolar mais importante para manter a disciplina, foram objeto de inúmeras discussões. Sem dúvida a individual tinha a preferência da maioria dos professores, pela vantagem de levar em relação a pedagogia, a moral e a higiene. No entanto, por economia de recursos as carteiras duplas foram as escolhidas. “Fixas ao solo e dispostas em filas, esses móveis fundamentais da sala de aula estabeleciam uma economia de corpos”.[335]

As classes são organizadas com os alunos dispostos em bancos duplos, visualizando, assim, toda a estrutura da disciplina anterior. A disciplina imposta cria espaços funcionais que permitem a circulação entre as fileiras. Mas fixa o lugar a ser ocupado, garantindo a obediência e economia de tempo e de gestos.

Limitada a quatro paredes, a sala de aula constitui-se em um mundo à parte, onde a

disposição dos objetos e dos corpos reforça a distância pessoais e sociais – distância aluno-aluno, aluno-professor, professor-professor. Nessa convivência do trabalho escolar, presa numa teia de deveres, exercícios e atividades, a liberdade encontrava-se fora da sala de aula, em outros espaços intersticiais como os corredores e o páteo. Não obstante, ir ao sanitário poderia consistir em um passaporte para o refúgio, um momento para gazear.[336]

Saindo da sala de aula em grupos de quatro a cinco, para tomar água ou mesmo conversar, os alunos produziam alguma algazarra. Também os professores formavam grupos para conversar no corredor, em hora que se destinava ao trabalho escolar. Esses fatos, produtos da escola republicana, serão combatidos, porém, sem muito sucesso.

No prédio inicialmente ocupado pelo Grupo Escolar, não existia pátio, o que prejudicava o recreio dos alunos, que era feito em sala de aula; assim como a entrada dos alunos, já que esperavam na rua pela abertura das portas da escola.

Com a inauguração do prédio próprio, onde há dois pátios destinados à permanência do aluno no interior da escola, o reordenamento já pode ser imposto.

O horário é um dos métodos disciplinares mais utilizados ao longo do tempo. Servia para impor a censura, obrigar a determinados trabalhos, delimitar o tempo para a realização de atividades, estabelecer os ciclos de repetição. Herdeiras das ordens monásticas, as escolas tornaram-se especialistas na sua aplicação. A vida seguia o ritmo de pêndulos que contavam as horas, minutos e segundos. Ao tanger da sineta, a vida regulamentava-se ante o assédio dos ponteiros que, implacáveis, mediam o tempo do labor e do descanso.

Sem atentar para a necessidade que as crianças tinham de extravasarem as energias reprimidas durante a primeira metade do período diurno de aula, nos intervalos, entre um e outro, eram impedidas de pular, xingar, brincar. Para aproveitar esse tempo, as crianças eram chamadas a praticarem exercícios físicos ou cantarem hinos pátrios. Tudo em nome dos princípios da boa ordem e disciplina. Afinal a escola deveria zelar pelos bons costumes sociais.

Os instituidores da escola republicana foram buscar fora do país modelos disciplinares que se adaptassem às concepções modernas que exigia a nova escola. Substituindo os castigos corporais, introduziram regras mais brandas, onde a disciplina deveria repousar na afeição do professor para com os alunos, de modo a serem estes dirigidos, não pelo temor, mas pelo conselho e persuasão amistosa. Como meio disciplinar secundário, era autorizada a aplicação de castigos e prêmios. Podiam ser admitidos como prêmios, além de outros que melhores parecessem aos professores, a passagem do aluno de lugar inferior para superior na mesma classe, o elogio perante a classe, o elogio solene perante as classes reunidas com a assistência do inspetor do distrito, a distribuição de cartões de boa nota, segundo o modelo que o professor adotasse, o lugar de distinção em assento especial e a inclusão do nome do aluno em um quadro denominado de honra.

Em relação aos castigos, eles compreendiam: admoestação particular, más notas nos boletins semanais, retirada de boas notas, provação de recreio, ficando os alunos punidos sob a vigilância do adjunto ou do professor na própria sala de aula ou no recreio, repreensão em comunidade, exclusão de prêmios escolares, exclusão do quadro de honra da escola e a retirada da escola por incorrigível.[337]

A disciplina escolar incide até mesmo sobre o ato de ensinar a escrever, que requer uma série de condições para melhorar a eficácia e aumentar a rapidez. A técnica de bem escrever elimina a ociosidade e forma um conjunto homogêneo com o corpo. Tanto La Salle quanto Rui Barbosa têm a mesma preocupação quanto à postura do aluno em seu habitáculo. Ele deve manter o corpo direito, levemente voltado para a esquerda, com a perna esquerda mais avançada que a direita a fim de evitar que o tronco fique prensado junto à carteira. As carteiras devem ser construídas de tal forma que a distância que separa a aresta anterior do assento, levando em consideração a altura entre a mesa e o banco e a inclinação da superfície da mesa, fossem adequados ao bom desenvolvimento do estudo.[338]

 

 

 

1.5.1. OS EXAMES DE AVALIAÇÃO

Até 1892, a metodologia aplicada em sala de aula baseava-se na utilização única do livro didático. As atividades dos alunos resumiam-se à leitura em voz alta

dos compêndios da época, organizados por perguntas e respostas que tendiam a agravar a situação das pobres crianças condenadas a manuseá-los: tinham de decorar páginas e páginas sem a menor explicação do professor quiça incapaz de dá-la. Quando a memória era difícil, os olhos da inteligência se lhes abriam, graças ao prestígio miraculoso da Santa Luzia: era um eufemismo muito conhecido da palmatória de cinco furos exposta em lugar bem visível na mesa do mestre-escola.[339]

Essa prática era utilizada até mesmo no aprendizado de Matemática. ”Com os alunos dispostos em semi círculo, a tabuada devia ser totalmente decorada, após a qual era tomada a lição”.[340]

Tal sistema sofrerá profundas modificações com  a Reforma de 1893, de Caetano de Campos. Segundo ele próprio,

consistia ela primordialmente na concepção do que seja ensinar. Dantes, enchia-se a cabeça do alumno com uma série interminável de definições por meio duma instrução imbuída na memória à força de repetições tantas vezes reproduzidas quantas eram necessárias para que o fato ali permanecesse. Desde que essa memória não fosse solicitada em todos os detalhes anteriormente  decorados, claro fica que toda essa instrução desaparecia, deixando patente a unanimidade de tais processos educativos. Modernamente o pedagogo pauta de outro modo. Coleciona previamente os fatos que devem ser explicados; coordena-os tacitamente em seu gabinete, numa sucessão lógica que é muitas vezes o segredo de todo o sucesso do ensino; apresenta-os depois à preciação do aluno - atendendo sempre à sua capacidade atual, à sua idade, à sua agudeza de espírito e outras condições psicológicas que ele professor, estuda em cada aluno. Modificar tudo o que se ensinava; tudo encaminhar nos diversos ramos de conhecimento para explicá-los por novos processos; sobretudo fazer perder o hábito de decorar, o que só se obterá escrevendo novos compêndios; adicionar às matérias que outrora se ensinavam muitas outras que completam a instrução indispensável que deve ter o professor - tal foi em poucas palavras o espírito da reforma.[341]

No entanto, sem compreender o princípio e a finalidade da Reforma, os professores fizeram a sua própria reforma “as lições marcadas no livro e decoradas eram substituídas pela exposição e explicação do professor no quadro negro. O livro era tolerado a princípio, mas mais tarde permitiu-se apenas o de leitura fundamental e o de leitura suplementar (leitura sobre Ciências, História, Moral etc)”.[342]

Para Escobar, “a abolição do livro - por causa do abuso da decoração, sem entender - foi desastrosa porque trouxe o uso e o abuso de coisa pior - o apontamento e o ditado”, pois afinal, “a instrução era feita em poucas escolas; no geral, o ensino era todo literário e verbalista. O quadro negro era a última palavra no ensino”.[343]

Aos poucos, as confusões foram sendo desfeitas e a Reforma de Caetano de Campo foi reconhecida como a “obra mais perfeita e acabada que ainda se fez em São Paulo para a organização do ensino público”.[344]

Mas, as provas demonstram, em 1896, que os alunos memorizavam e reproduziam as questões que os professores exigiam.

A Reforma proporcionou, ainda, a reorganização da Escola Normal, disseminando-a pelo Interior. O professor já tinha a possibilidade de rever sua prática, de adquirir novos conhecimentos e, com isto, satisfazer as ansiedades da sociedade, que depositava nele a esperança do acesso ao saber.

Se a metodologia era diferente, se o conteúdo estava mais enriquecido, se a escola recuperava o seu status de fonte de saber, se a escola democratizava-se, em função da elite ceder certo espaço para as camadas pertencentes aos estratos inferiores da sociedade, as vicissitudes da quantificação e qualificação da aprendizagem não mudava de procedimento: o exame continuava a ser realizado nos mesmos moldes anteriores.

Tinha como finalidade “combinar as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza e exercer um controle normatizante, uma vigilância, que permite classificar e punir”[345] de acordo com a sua aptidão. Realizado, semanalmente, exigia dos alunos permanente prontidão, pois o professor poderia, a qualquer momento, sabatiná-los sobre determinado assunto, sem qualquer aviso prévio. Estabelecia, dessa forma, sobre os indivíduos, uma visibilidade através da qual eram diferenciados e sancionados.

Ritualizado, nele vem reunir-se a cerimônia do poder e a forma da experiência, a demonstração da força e o estabelecimento da verdade. No coração dos processos de disciplina, ele manifesta a sujeição dos que são percebidos como objetos e a objetivação dos que se sujeitam. A superposição das relações de poder e das de saber assume no exame todo o seu brilho visível.[346]

Assim, a promoção de série só ocorria no final do ano. Até o final do século XIX, era o professor o encarregado de examinar os alunos.[347] A partir de 1893, serão examinados por uma comissão formada pelo Inspetor Literário e por mais 3 pessoas ‘notáveis’, que se distinguiam pelo seu poder. Geralmente, eram políticos, fazendeiros, comerciantes que se alternavam na comissão.

A escola transforma-se numa “espécie de aparelho de exame ininterrupto que acompanha, em todo o seu comprimento, a operação do ensino. Tratar-se-á cada vez menos daquelas justas em que os alunos defrontavam forças e, cada vez mais, de uma comparação perpétua de cada um com todos, que permite ao mesmo tempo medir e sancionar”.[348]

Os alunos, em sua esmagadora maioria, oriundos das famílias proeminentes da sociedade sorocabana, eram preparados para seguir o ritual com perfeição. No dia aprazado, eram colocados em uma sala especial e esperavam, perfilados, pela entrada dos examinadores, presididos pelo Inspetor Literário. Uma vez assentados, tinha início o espetáculo comandado pelo Inspetor.

As inquirições da banca examinadora eram intercaladas por apresentações individuais dos alunos. No programa dos exames dos alunos do sexo masculino do Grupo Escola Antonio Padilha, realizados em 1897, constava:

1- Hymno triumphal da Republica pelo distincto Maestro Elias Alvares Lobo, cantado pelos alumnos, acompanhados por piano e violinos (na entrada da commissão examinadora). 2- Gymnastica escholar ensinada pelo cidadão Inspector Litterario José Manuel de França Junior. 3- Lingua Materna, Leitura, exposição e analyse. 4- Dialogo Nº 5 pelos alumnos Totico[349] e José (ambos com 7 annos). 5- Canto coral. À carta, arranjo do Maestro Vicente Zeferino Sant’Anna. 6- Arithmetica, 4 operações, fracções. Systema Metrico e algebra. 7- Dialogo Nº 3 pelos alumnos Patrocinio e Armando. 8- Canto coral. Os tanoeiros, arranjo do Maestro Vicente Zeferino Sant’Anna. 9- Geographia; America, Cosmographia, a terra considerada como um astro. 10- Geometria, linhas, angulos, triangulos, quadrilateros e polygonos. 11- Dialogo Nº 2 pelos alumnos Bento e Renato. 12- Canto coral. Os passarinhos, arranjo do Maestro Vicente Zeferino de Sant’Anna. 13- Historia natural, sua divisão, Zoologia, Phytologia. 14- Dialogo Nº 8 pelos alumnos Totico e José. 15- Canto coral. Os lenhadores, arranjo do Maestro Vicente Zeferino Sant’Anna. 16- Mineralogia, sua divisão, Geologia, sua divisão. Muzica, divisão, claves e notas.  17- Dialogo Nº 7 pelos alumnos Padilha e Redondo. 18- Canto coral, Juvenis representantes, arranjo do Maestro Vicente Zeferino Sant’Anna. 19- Physica. Os tres estados do corpo, mistura. Chimica, qual a differrença entre mistura e combinação, exemplos. Ar athmospherico, agua. 20- Dialogo Nº 4 pelos alumnos Renato e Redondo; Nº 6 pelos alumnos Vicente e Patrocinio. 21- Canto coral. Os carpinteiros, arranjo do Maestro Vicente Zeferino Sant’Anna. 22- Educação civica, autoridades locaes, maximas moraes e instructivas (Marquez de Maricá). 23- Dialogo Nº 1 pelos alumnos José e Totico. 24- Canto coral, O café, arranjo do Maestro Vicente Zeferino Sant’Anna. 25- Historia do Brazil, seus primeiros habitantes. Anatomia, descripção do corpo humano. 26- Poesia, A caridade e a justiça (Guerra Junqueira) pelo Antonio Francisco Redondo. 27- Final, Canto coral, Hymno de S.Paulo, do immortal dr. Cezario Motta Junior.[350]

Já Aluísio de Almeida, descrevendo os exames do mesmo Grupo Escolar transcreve que o “médico Carvalho argüiu as meninas sobre Anatomia” e comenta: “Que tempos!”.[351]

Costumeiramente,

o poder é o que se vê, se mostra, se manifesta e, de maneira paradoxal, encontra o princípio de sua força no movimento com o qual a exibe. Aqueles sobre o qual ele é exercido podem ficar esquecidos; só recebem luz daquela parte do poder que lhes é concedida, ou do reflexo que mostram um instante. O poder disciplinar, ao contrário, se exerce tornando-se invisível: em compensação impõe aos que submete um princípio de visibilidade obrigatória. Na disciplina, são os súditos que têm que ser vistos. Sua iluminação assegura a garra do poder que se exerce sobre eles. É o fato de ser visto sem cessar, de sempre poder ser visto, que mantém sujeito o indivíduo disciplinar. E o Exame é a técnica pela qual o poder, em vez de emitir os sinais de seu poderio, em vez de impor sua marca a seus súditos, capta-os num mecanismo de objetivação. No espaço que domina, o poder disciplinar manifesta, para o essencial, seu poderio organizando os objetos. O exame vale como cerimônia dessa objetivação.[352]

Os alunos eram examinados oral e individualmente em meio aos outros, que aguardavam a sua vez, em absoluto silêncio. A classificação era publicada após completados os exames de todos os envolvidos. No ano de 1897, a classificação era a seguinte: “Na seção feminina, as 11 alunas do 4º ano obtiveram ‘Distinção com Louvor’; no 3º ano 8 obtiveram ‘Distinção’, 11 obtiveram ‘Plenamente’; no 2º ano as 30 alunas obtiveram ‘Plenamente’; no 1º ano as 15 alunas obtiveram ‘Plenamente’”. Na “seção masculina no 4º ano 12 obtiveram ‘Distinção com Louvor’, 05 ‘Distinção’ e 03 ‘Plenamente’; no 2º ano, 13 obtiveram ‘Distinção com Louvor’, 14 ‘Distinção’ e 10 ‘Plenamente’; no 1º ano, 03 obtiveram ‘Distinção’, 12 ‘Plenamente’ e 02 ‘Simplesmente’”.[353]

Segundo Foucault, “o exame é na escola uma verdadeira e constante troca de saberes: garante a passagem dos conhecimentos do mestre ao aluno, mas retira do aluno um saber destinado e reservado ao mestre. A escola torna-se o local de elaboração da pedagogia”.[354]

Aliando todos os pressupostos epistemológicos, os exames eram realizados durante dois dias, com duração mínima de 6 horas, com os alunos sendo observados constantemente.

Os exames eram públicos e assistidos por numerosa platéia, composta por pais, autoridades e demais convidados representantes da elite. Estes últimos eram, geralmente, agraciados, findo o processo avaliatório com os trabalhos realizados pelos alunos durante o ano letivo e, respectivamente, na disciplina.

A alumna Anna Rogich, 1 gorro de setim bordado a fita, offerecido por Augusta Grohmann á Alpheu Hemmel; 1 quadro de setim, bordado á missangas offerecido ao dr. Calixto de Paula Souza; a alumna Benedicta Pedrozo, um cobertor para album, um marcador e um porta-cartão offerecidos à exma. sra. d. Elisa Silva França.[355]

O ritual dos exames continuava com a entrega pública de ‘prêmios’ para aqueles que mais haviam se destacado. A imprensa assim noticiava:

 

Domingo ultimo, 14, realisou-se a annunciada festa de encerramento do anno lectivo do Grupo Escolar com a distribuição de premios aos alumnos respectivos que mais de distinguiram nos exames finaes.

Às onze horas da manhã, depois de fazer ouvir o hymno nacional executado pela Lyra Sorocabana, o Inspector do Districto Litterario, professor José Manoel de França Junior, abriu a sessão com palavras eloquentes e em estylo elevado.

Os alumnos então em coro entoaram o Hymno Trumphal da Republica, de bellissimo effeito, cantando de modo bastante correcto sendo muitissimo applaudidos.

Findo o hymno, teve a palavra o orador official, o professor Amaro Egydio de Oliveira, director do Grupo, que discorreu longa e brilhantemente sobre as vantagens da diffusão do ensino, recebendo ao terminar muitos applausos,

Em seguida falaram tambem sobre o assunpto, com elevação de vistas, merecendo salvas de palmas os srs. dr. Luiz Nogueira Martins, João Padilha, Joaquim Silva, Antonio F. de Proença, Arthur Gomes e Juvencio Itupá.

À uma hora da tarde passou-se à segunda parte do festival litterario, que devia ser preenchida por meninos e meninas do Grupo.

Fizeram discursos as alumnas do 4º anno: Anna Rogich, Olympia Silva, Olympia Ferreira, Etelvina Santos, Maria Carolina Marins e Ernestina Vieira da Cunha que em nome das suas collegas offereceu um lindo bouquet de flores naturaes ao professor José Manoel de França Junior, arrancando todas prolongados applausos ao auditorio.

Falou tambem com muito brilhantismo e correcção a alumna do 2º anno, que conta apenas 7 annos de idade, Conceição Fleury que foi applaudida com muitissimo enthusiasmo.

Da secção masculina usaram da palavra os alumnos João de Paula Santos, José Rizzo e Raul Silva, offerecendo este um lindo bouquet de flores naturaes ao professor Alvaro Rosa.

Houve tambem um bonito dialogo pelos interessantes meninos José e Totico, ambos de sete annos de idade, alumnos do 2º anno.

Recitaram poesias as alumnas Constancia Rogich, o Trabalho e a Caridade; Angelina Toscano Siegle, Angelina Grohmann, Siomara Cleis e Hortencia de Almeida, as Flores da Primavera; e os alumnos Francisco Rizzo e Graciliano de Almeida, a Suprema Visio; José Barbosa, o Pedro Ivo.

Ao dr. Guilherme Alvaro foi pela menina Olympia Silva, offerecido um quadro com pintura chineza como lembrança do Grupo Escolar.

Usaram ainda da palavra, para agradecerem os mimos que lhes foram feitos, o professor Alvaro Rosa, o dr. Guilherme Alvaro e o professor José Manoel de França Junior.

Seguiu-se a distribuição de premios que couberam:

À alumna Anna Rogich, um serviço completo de porcelana para café, offerecido pela redacção do O 15 de Novembro; ao alumno Pericles Pilar, um livro com encadernação de luxo, igualmente offerecido pelo redacção desta folha.

Ao menino Renato Sandoval, um bonito tratado de Physica, de Charbonel, offerecido pelo dr. Paula Souza, sendo este premio distribuido por sorteio entre os tres alumnos que mais de distinguiram em mathematicas.

Aos meninos José Rizzo e Joaquim Barbosa, dois premios, um livro e uma caixa de aquarella, offerecidos pelo professor Alvaro Rosa.

Os premios mandados distribuir pela Camara Municipal, couberam por sorteio aos alumnos das diversas classes, cujos nomes não nos foi possivel tomar nota, cabendo entretanto, o 1º á alumna Ernestina Vieira Cunha, o livro S.Paulo, de Gustavo Koenisgswald ricamente encadernado, o segundo, Martyres da Sciencia, de Tissandier, ao alumno Paulino Noronha.

O professor adjunto João Vieira Pinto offereceu um premio ao interessante menino Totico Marins.

O professor França accabada a entrega dos premios tomou a palavra e agradeceu a concorrencia àquela memoravel festa do ensino, declarando encerrados os trabalhos do anno lectivo.

Por ultimo fez-se ouvir o Hymno Nacional pela Lyra Sorocabana, sendo em seguida as pessoas presentes obsequiadas com um copo de cerveja.

Memoraveis. Simplesmente memoraveis, as festas escolares ultimamente realisadas; são ellas provas eloquentes de que a instrucção publica em Sorocaba, segue uma via franca de animação e prosperidade.

Ainda uma vez as nossas felicitações á Inspectoria do Districto Litterario, ao operoso corpo docente do Grupo Escolar e á Camara Municipal que não poupa sacrificios em prol do ensino popular.[356]

A escola proposta pelo imaginário republicano não conseguiu, em Sorocaba, pelo menos até 1906, diferenciar-se da herdada do regime anterior. Sua elite nenhuma mudança introduziu em sua forma de pensar, com discursos dispersivos e desarticulados pela própria vivência, no cotidiano urbano e, acostumada a examinar os problemas concretos sob o seu ponto de vista estreito, não estava preparada para resolver os grandes entraves da educação escolarizada. Distante da população empobrecida, não compreendia a necessidade e as questões essenciais locais, para poder enfrentá-las com vontade.

Envoltos em querelas políticas de interesses próprios, não conseguiu introduzir uma vigorosa obra de educação em escala municipal, que a cidade pedia para acompanhar o desenvolvimento econômico que atravessava.

Destituída de plasticidade natural que uma sociedade deve ter, plasmou-se sobre si mesma.

 

 

 

 

PARTE III

 

 

 

 

 

 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ESCOLA MUNICIPAL E AS ESCOLAS PARTICULARES EM SOROCABA

 

 

Necessariamente uma associação não pode visar um fim mais esplendidamente grandioso que a instrucção pública. Preparar o espírito dos homens equivale preparar a nação desde seus alicerces, conduzindo o homem ao conhecimento da própria existência.

(Jornal Diário de Sorocaba)

 

 

1. ESCOLAS: MUNICIPAl E PARTICULARES

O estudo da significância da escola municipal e das particulares em Sorocaba adquire maior importância ao constatarmos que surgem delineadas por interesse político-econômico-religiosos, que permeiam seus fundadores, num período marcado pela grande expansão urbana que atravessa a cidade.

Políticos, maçons, protestantes e católicos constituem-se nas figuras proeminentes da sociedade e marcadamente reconhecidas tanto no Império quanto na república, como forças sociais emergentes que tinham idéias claras a respeito da educação e da situação escolar da cidade, percepção que se coadunava com a posição social que desfrutavam e, por isso mesmo, de acordo com a visão que tinham do mundo.

Ante tal conjugação de fatores, algumas questões emergem: Que escolas eram essas? A quem se destinavam? A quem pertenciam? Que interesses influíram no estabelecimento delas? Que ligações mantiveram com a sociedade?

 

1.1. LYCEU MUNICIPAL: ESCOLA SECUNDÁRIA

Até o último quartel do século XIX, a sociedade sorocabana dividia-se em duas classes bem distintas: a abastada, formada pela elite rural, e a pobre, constituída pelos atores sociais desprovidos de qualquer recurso financeiro. Diante do dramático quadro social é que vamos encontrar a escola secundária, destinada que era a preparar o aluno para o ensino superior, existente até então, apenas em outras cidades. Com esses pressupostos sociais, essa escola será freqüentada por restrito número de alunos que, surrealisticamente, tentavam ascender na escala social despossuídos dos elementos instituidores das classes sociais.                      Surgida em fins do século XVIII e fechada em 1870, a escola secundária não resistiu ao tempo, por absoluta falta de alunos. A elite predispunha-se a enviar seus filhos, após concluído o primário, para as cidades que tradicionalmente abrigavam em seu seio as escolas secundárias e também as de bacharelado. Os filhos dos desfavorecidos permaneciam na cidade e, em número limitadíssimo, iniciavam-se no curso, para abandoná-lo em meio ao percurso, sem jamais concluí-lo. Um outro dado importante a ser considerado refere-se ao fato de que o ensino era, em sua maioria, ministrado por professores particulares, sendo, dessa forma, pago.

    Diante desses fatos, a Câmara Municipal resolve  criar em 1872, uma escola municipal de ensino secundário, gratuita e destinada ao sexo masculino. No entanto, problemas políticos não permitiram que a Comissão nomeada para estudar a sua implantação se reunisse. Mas, diante do aumento da pressão social, que reivindicava insistentemente uma escola de ensino secundário, a  Câmara Municipal, finalmente, em 1886, cria a escola que recebe o nome de Lyceu Municipal e a inaugura em 05 de novembro de 1887. Nesse dia, a Câmara se reuniu solenemente para ouvir “o presidente apresentando o seguinte Programma de ensino: Portuguez, Francez, Inglez e Latim”.[357] No ensino dessas matérias

mandou a Ilma. Camara que fossem adaptados os compendios, que servem no Curso Anexo á Faculdade de Direito de São Paulo, e são Grammatica Portugueza do Dr. Augusto Freire da Silva, Grammatica Franceza de Emile Sevène, Grammatica Ingleza de Philippe Maria da Motta d’Azevedo Corrêa, Grammatica Latina de Clintock.[358]

 

O método de ensino era

 

theorico-pratico, como poder-se-á ver nos programmas abaixo:             

    Programma do ensino do Portuguez. Grammatica de Freire, Leitura de prosa e verso, seguindo-se as Selectas de Caldas Aulete; dictado, Escripta de proverbios (maximas moraes, adagios, etc); Escripta de phases extrangeiras (em applicações das mesmas); Estudo de raizes gregas e latinas, que formam palavras portuguezas (em applicação destas); Escripta na pedra, analyse etymologica; Estudo das palavras de significação desconhecida pelos alumnos. Este programma tem sido seguido á risca pelo professor, que dá todas as explicações necessarias á boa intelligencia do que se estuda.

          Programma do ensino do Francez. Grammatrica de Sevène (com todos os exercicios de leitura, traducção e versão). Beautes de Chateaubriand (leitura, traducção e anallyse), Estudo pratico pelo methodo de David Nasmith. São dadas todas as explicações tendentes a facilitar a comprehensão dos alumnos. Nesta materia ha uma classe, que esta começando pelo Syllabaire et Primières Lectures de Beleze.

          Programma do ensino do Inglez. Grammatica de Motta (com todos os exercicios de leitura, traducção e versão). Além disto estuda-se o excellente methodo pratico de David Nasmith.

          Programma de ensino do Latim. Grammatica de Clintock (com todos os exercicios de leitura, traducção, versão e analyse). Seguindo-se tambem o Epitome Historia Sacra, que se deixou depois, em vista da difficuldade, que encontrava a maior parte dos alumnos.[359]

 

Em relação ao horário das aulas, elas eram assim contempladas: “Portuguez e latim em um dia, francez, inglez no dia immediato. As horas de ensino serão quatro em cada dia, sendo duas para cada materia, começão as des horas e finalisando as tres horas da tarde; havendo um intervallo de uma hora do meio dia a uma hora da tarde”. As suspensões das aulas ocorreriam nos “dias santificados, de grande galla e festa nacionaes, de entrada e de cinza, de Domingo de Ramos ao da Paschoa, de finados e de 8 (oito) de Dezembro a 6 (seis) de Janeiro”.[360]

Após a criação da escola, fazia-se necessário, agora, a nomeação do professor. Na época, o quadro profissional da escola secundária, cujo currículo era constituído por 4 disciplinas, era formado por apenas um professor encarregado de regê-las. Sua nomeação é digna de uma peça teatral burlesca. Inicialmente, a Câmara convidara o advogado Antonio José Ferreira Braga, que declina ao convite, alegando indisponibilidade de tempo, mas recomendando uma outra pessoa, Inácio de Azevedo Coutinho, lembrando ser ele “habilitado pela instrução pública da Corte”. Mas a indicação não é aceita. Resolve a Câmara abrir concurso público para a escolha do professor. É nomeada para examinar os concorrentes uma comissão composta “pelo drs. Piza e Almeida, Ferreira Braga, Uchôa Cavalcanti e José Zacarias de Miranda”.[361] Inscrevem-se para o concurso: Arthur Gomes e Evaristo Babo. Um terceiro candidato, Francisco Martins da Costa Passos tem a sua inscrição preterida pela comissão, em virtude de pretender “apenas leccionar o latim, francez e portuguez”, comprometendo-se a indicar um outro professor para “leccionar inglez”.[362]

Após examinar os candidatos, a comissão lavrou em ata o seguinte termo:

a commissão adaptando o programma dos exames geraes de preparatorios, organizado para o corrente anno, submetteo-os a uma hora de prova escripta e a vinte minutos de prova oral em que um argüía o outro. Colhidas, rubricadas, examinadas as provas escriptas e apreciadas as oraes, a Commissão, pelo merecimento de cada uma vem apresentar o seu veredictum. Em Portuguez, os candidatos fizéram provas bôas, ficando em 1º lugar Arthur Gomes, em 2º Ernesto Babo. Em Francez exibiram tambem bôas provas, ficando em 1º lugar Arthur Gomes, em 2º Ernesto Babo. Em Inglez, as provas foram soffriveis, ficando em 1º lugar Arthur Gomes, em 2º Ernesto Babo. Em Latim, porem, as provas exibidas foram más, sem classificação possível, pois a prova escripta de Gomes foi nulla, a de Babo foi má, e má a oral produzida por ambos, o que os inhabilita para o ensino desta matéria. A commissão com esta envia as duas provas escriptas.[363]

De posse do parecer da comissão, a Câmara divide-se entre os vereadores, que seguiam a orientação do presidente da mesma, “Tenente Coronel Fernando Martins França”, favoravel à nomeação de Arthur Comes, e aqueles que desejavam realizar um novo concurso para a escolha de um outro professor, que apresentasse os conhecimentos necessários para ocupar o cargo.

Contra a nomeação predispõe-se a imprensa que, através do jornal Diário de Sorocaba, a denuncia:

porque um ex-vereador e o actual presidente querem e pretendem a todo transe arrancar á Camara a nomeação de professor para offerecel-o de presente a um recommendado seu?!

Já é ter força de vontade!

     Alerta, Srs. Vereadores, nada de sinecuras!

          Não se trata da simples nomeação de porteiro. Trata-se da nomeação d’aquelle a quem vae ser confiada a educação de nossos filhos – do mestre.

     Ceder ao capricho de quem quer que seja, em aproveito da  mocidade – é muito, não póde ser. Desconsiderar o parecer da illustre Commissão encarregada de examinar e cuja palavra ainda não foi ouvida - é demais e nem estaria no habito da illustre Edilidade.

     Attribuir a qualquer dos dois moços que se apresentarão em concurso – a pretenção de uma nomeação seria negar-lhe o bom senso; taes forão, infelizmente, as provas que deram ambos, do pouco preparo que tem para o exercicio do magisterio a que se propunham.

     Abrir um novo concurso de provas isto sim – é dar ensejo a concorrencia de oppositores habilitados de gente que se possa servir desempenhando, como convém as obrigações do mestre; é corresponder a expectativa publica; é, finalmente, acoroçoar uma idéia feliz que foi a creação da escóla municipal. Eis ahi até onde chega a força de vontade dos apologistas da educação.

     Lembrae-vos que a Camara de Sorocaba para arrecadar annualmente, como arrecada – trinta e tantos contos de réis, precisava sobrecarregar, como de facto sobrecarregado tem, a seus municipes com o peso de impostos excessivos.

     E quando é certo que os contribuintes possam pelo sacrificio do pagamento – sem tugir nem mugir, é tambem certo que elles tem cada um por sua vez, o direito de intervir em nossas deliberações, sinão no recinto, ao menos na imprensa, que é a tribuna publica.

     Ha sessenta e tantos dias que espera-se pela nomeação do professor, affirmando-se dia a dia que esta incubação se faz para dar largas a proteção!

     Era o caso, srs. Vereadores para perguntar-vos: - mas a custa de quem?

     Contentamo-nos, porém – em dizer-vos ainda é tempo: provae que acima dos regulos de aldeia se assentam os mandatarios do povo e que, no exercicio de suas funcções e na pratica da justiça, elles conhecem e sabem, seguir a recta do dever, maximo quando como hoje, trata-se de providenciar materia de ensino.

      Sim, provae-o, declarando aberto o concurso de provas para provimento d'essa cadeira que parece explorada pela gente poderosa, e tereis folhado de vossa cadeira.[364]

 

Em sua defesa, diz Arthur Gomes, através do jornal Itapetininga, do qual era um dos articulistas:

contra a espectativa geral porque? contra o próprio parecer da commissão porque? contra a espectativa geral, eu lhe garanto que não foi, porque ouvi muita gente boa d’essa localidade, a melhor gente d’ahi, a melhor da sociedade sorocabana dizer que se outro que não eu fosse o nomeado isso seria uma injustiça clamorosa, em vista do exame que sofri. Contra o proprio parecer da commissão, tambem não foi totalmente, como diz o conceituado orgam; pela mesma excelentissima commissão fui classificado em primeiro logar em todas as materias, menos no latim, em que eu e o meu collega sr. Ernesto Babo, fomos julgados inhabilitados.

     Respeito muito o parecer da excellentissima commissão, achei-o mesmo justo, muito justo; mas não me considero inhabilitado a ensinar latim em seus principios. Em uma aula elevada eu não posso mesmo ensinal-o sem de antemão estudal-o; mas a quem começa, como deve ser ahi, eu o ensino sem receio.[365]

 

Em resposta o diretor do jornal Diário de Sorocaba, Manoel Januário de Vasconcellos, diz:

ora, sr. Arthur!... Porque não contra a espectativa geral? Contra o proprio parecer da commissão, porque não tambem?...Contra a espectativa geral eu lhe garanto que sim porque ouvi muita gente habilitada d’esta localidade, a gente mais habilitada d’aqui, a flor da gente habilitada de Sorocaba (como com certeza não é a sua ‘flor da sociedade sorocabana’) e por conseguinte a unica habilitada para formar opinião geral na materia, dizer que si qualquer dos dous concorrentes fosse nomeado, isso seria um clamoroso escandalo, em vista das provas que exhibiram em latim.

            Contra o parecer da commissão o mesmo sr. Arthur concorda em parte commigo com o seu totalmente, deve concordar tambem que no caso em questão não se pode admitir partes, mas o todo, isto é, ou o candidato é apto para reger todas as cadeiras e por isso deve ser nomeado, ou não o é para reger uma d’ellas e ipso facto para reger nenhuma, e não deve, portanto, ser nomeado; porquanto um relogio, desde que falte um ponteiro, já não se presta ao fim para que foi destinado.[366] 

 

Assim, o Lyceu Municipal, que fora criado com o princípio de proporcionar “aula elevada do ensino secundário” começa com um professor de latim que não sabia latim. Segundo Aluísio de Almeida, os conhecimentos do mesmo sobre essa língua restringia-se aos estudos preparatórios para fazer os exames de admissão à Faculdade de Direito. Ao saber da abertura de concurso para preenchimento de uma vaga para professor no Lyceu, Arthur Gomes abandona as aulas de Direito para concorrer à cadeira.[367]

            Diante da opinião manifesta, o professor, por diversas vezes, procurou reverter esse quadro, seja  aperfeiçoando-se no latim, seja através de relatórios onde destacava suas qualidades de professor: “neste ensino principalmente tem mostrado o professor a grande relação entre o Latim e o Portuguez, fazendo ver aos seus alumnos que a lingua portugueza, sobre todas as outras dictas neo-latinas, é a filha, que mais herdou as qualidades e defeitos de sua mãe, sendo, como ella, tão rica e excedendo-lhe mesmo em alguns pronctos”.[368] Suas qualidades de educador são destacadas com grande ênfase:

apezar de grande o adeantamento, pois que os alumnos entraram para o Lyceu muito mal preparados, não tem elle correspondido ás exigencias do professor que o quizera maior. Nota-se, entretanto, no Francez um progresso extraordinario. Pelo systema seguido pelo professor – estudar pouco e bem – conseguiram os alumnos, de 5 de Novembro de 1887 a esta data, estudar a etymologia portugueza 2 vezes, a franceza 2 vezes, a ingleza 3 vezes e 2 vezes a 1ª e a 2ª parte da Grammatica de Clintock. A razão disto é a diversidade de adeantamento dos alumnos.[369]

     Em relação ao salário, o oferecido ao professor era um dos maiores atrativos. Enquanto um professor provincial recebia 850$000 anuais[370] e deveria arcar com todas as despesas, inclusive com o aluguel do prédio ou da casa que seria transformada em escola, o municipal era contemplado com 200$000[371] mensais, apenas para lecionar, o que o tornava diferenciado não só em meio ao magistério, mas também socialmente, visto que a pobreza acolhia a todos indistintamente.

            Independentemente desses fatos, a política educacional, então vigente, e especialmente a referente ao grau secundário, era formalizada pela ambigüidade, tendendo ora para a formação do ‘rei-filósofo’, como em a ‘República’ de Platão, ora para a educação do ‘homem natural’ como em ‘Emílio’ de Rousseau. De qualquer maneira, ela, nos séculos XVIII e XIX, tinha como objetivo formar o aluno para ser doutor.[372]   

Dessa forma, reduzido número de pessoas queria e podia atingir tal finalidade, ou seja, somente a classe rica tinha acesso a ela. Toda a educação, do primário à faculdade era elitizante e injusta, porque excluía peremptoriamente a classe pobre, na qual localizava-se a maioria da população. Era a educação brasileira aristocrática, baseada não na capacidade intelectual dos alunos, mas na quantidade de dinheiro que cada um dispunha para nela inserir-se.

     Constituída para atender a minoria privilegiada, a escola secundária preparava somente para a Faculdade.[373] Não havia escolas profissionais ou escolas que preparassem para faculdades técnicas, que também não existiam. E se existiam, sua duração era efêmera, como ocorreu mais de uma vez. Essas que poderiam, pelos menos teoricamente, ser freqüentadas pelos despossuídos economicamente, não o eram em virtude do completo desconhecimento que tinham de seu valor, mas também porque não havia mercado para elas, além, é claro, de serem profissões estigmatizadas socialmente, o que provocava completo desprezo pelas mesmas.

             Com reduzido número de alunos e percebendo que o esvaziamento ocorria em função do distanciamento existente entre a escola e o interesse imediato da sociedade, a Câmara Municipal revitaliza o currículo das mesmas, introduzindo disciplinas, que se colocavam mais próximas da realidade e das expectativas das classes desfavorecidas, oportunizando-lhes, dessa forma, o ensino secundário.

             Assim, em 1890, a “Intendencia Municipal modifica o Lyceu, suprimindo a aula de inglez e creando as de Geographia e Arithmetica, compreendendo a 1ª cadeira e a 2ª cadeira. As quintas feiras há tambem uma aula de conhecimentos gerais. Esta foi posta em execução no mez de março. Todos os alunos estudam todas as materias menos latim”.[374]

            Essas mudanças provocaram manifestações positivas. Em editorial, o jornal Diário de Sorocaba se manifesta, dizendo que

um dos melhores legados que nos ficou de nossas antigas camaras municipaes, é incontestavelmente o do Lyceu, em boa hora confiado ao seu atual professor, o Sr. Arthur Gomes.

                       O seu programma inicial, porém, como por vezes fizemos sentir, era deficiente e uma cousa, por assim dizer, paradoxal. Consistia exclusivamente no ensino de linguas, o que de nenhuma sorte é aproveitavel para a maioria dos meninos que o podem frequentar.

                       E tanto é verdade o que dizemos que a frequencia áquelle estabelecimento era quasi nulla, ao ponto do zelozo professor ter proposto a suppressão do mesmo por ser inutil o dispendio á municipalidade, uma vez que era elle frequentado por meia duzia de alumnos, cujos paes tinham haveres sufficientes para fazel-os estudar aquellas materias fóra daqui.

                       De feito, dalli sahiriam os meninos sabendo recitar trechos de Horacio, de Fenélon, de Milton, estudariam alguma cousa da antiguidade classica e ficariam ignorando o que de mais precisam ao darem os primeiros passos na carreira da vida.

                       Não diremos que se proscreva o estudo de linguas, longe de nós tal idéias; porém, á excepção da portugueza, o estudo das outras deve ser facultativo, especialmente o da latina que só é de proveito aos que pretendem seguir estudos superiores.

 

Referindo-se “à má organisação dos programmas” e citando um “illustre escriptor” o qual não identifica, prossegue preconceituosamente o articulista:

a verdade é que todas as intelligencias não são egualmente apropriadas para receber com proveito a cultura classica. À educação idéal terá formas tam variadas, planos tam novéis, que permittam a todas as aptidões desenvolverem-se livremente; pelo contrario, quando submettemos ao mesmo regimen as intelligencias mais diversas, ha necessariamente forças mal dirigidas: nem isto é, forças perdidas’.

Tentando justificar a alteração da grade curricular, continuava:

bem comprehendendo estas verdades e que si um povo tem necessidade de litteratos, de historiadores, de eruditos, de legistadas, tem-na tambem de agricultores, de commerciantes e de manufactores, sufficientemente instruidos, a Intendencia reformou o programma, augmentando-lhe materias de mais utilidade na vida pratica e o sr. Arthur Gomes que habilmente dirige aquelle estabelecimento, ampliou-o ainda mais, ensinando outras que, não fazendo parte delle, são entretanto como que um complemento daquelle.

      Ainda mais: abriu em sua casa um curso nocturno de escripturação mercantil gratuito para os seus alumnos.

 

Preocupado com a permanência do professor, uma vez que a alteração curricular exigia mais empenho e mais estudos, o mesmo articulista aconselhava a Câmara Municipal a olhar com mais acuidade para o mestre[375]:

pois bem: agora que é geralmente reconhecida a necessidade, bem como os beneficios daquella instituição, convém que a municipalidade dispense-lhe maior attenção.

                       Aos seus dotes intellectuaes e moraes allia o sr. Arthur Gomes as qualidades indispensaveis a um preceptor: o gosto pelo ensino, excellente methodo na sua distribuição e applicação e accurado e scrupulo estudo dos progressos da pedagogia.

                       Urge, pois, que a municipalidade secunde os seus esforços, já autorisando-o a introduzir no Lyceu os melhoramentos que entender necessarios, já proporcionando-lhe melhor e mais condigna recompensa com os seus improbos labores, para que nos não vejamos um dia privados de um dos melhores motores da instrucção deste municipio.[376]

 

No entanto, parece que as mudanças  introduzidas não agradaram ao professor, levando-o a demitir-se em 31 de dezembro de 1892. Anteriormente, estivera ausente durante  todo o primeiro semestre de 1891, sem que a Câmara tomasse qualquer providência a respeito, levando “os paes dos alumnos, que frequentavam as aulas deste estabelecimento dirigirem á Intendencia Municipal uma representação, pedindo breve provimento da respectiva cadeira, a qual se acha vaga ha mezes, causando graves prejuizos á infancia que alli recebia educação intellectual”.[377]

Com relação à freqüência, em 1887, foram matriculados 39 alunos, dos quais 28 o freqüentaram. Em 1889 foram matriculados 17 alunos, tendo 12 desistido.[378] Segundo relatório do professor Arthur Gomes, “cursaram o Lyceu no semestre de Janeiro a Junho de 1891, posto não estivessem matriculados (não o foram por terem entrado fora de época de matricula) os seguintes alumnos: que perfazem o número de 38, que com o número dos matriculados(13) somma 51. Tinha, pois, o Lyceu cincoenta e um alumnos, dos quaes a maior parte o freqüentava”.[379] E em 1892 “cursaram o Lyceu, os alumnos já matriculados” e “no correr do anno alguns foram saindo. Não tomei nota, por não estarem matriculados”. E justifica-se: “o mez de matricula é junho e nesse mez estive ausente”.[380]

Oriundos das mais diversas escolas primárias, os alunos não diferiam muito no comportamento escolar. O grau de conhecimento desses alunos era relativo à idade. Enquanto que Alexandre dos Santos Flores, ao ser admitido em 1887, tinha em

Portuguez leitura regular, em Francez começava tudo e em Latim começava a gramática e fora alumno distincto tendo saido da escola em 18 de maio de 1889, Jorge de Barros tinha em Portuguez leitura irregular, Francez nada sabe e Inglez nada sabe, Latim nada sabe e retirou-se da escola em 30 de janeiro de 1890. Mas, Carlos Torres da Silva com 11 anos de idade tinha em Portuguez leitura boa, com alguma expressão e pontuação, Francez dá o melhor e sabia de cor as phrases, Inglez e Latim tinha começado a 2ª destas materias e retirou-se do Lyceu em dezembro de 1890 e, Joaquim Eugenio de Monteiro de Barros, 16 annos tinha em Portuguez boa leitura com algums erros, Francez + Chateabriam até La Revemphion, Inglez nada sabe, Latim começou as declinações.[381]

Os alunos com menor idade eram os mais freqüentes, mais assíduos e permaneciam maior número de anos na escola, talvez, devido à necessidade de adquirirem maior grau de conhecimentos e, para isso, levarem mais tempo. O Lyceu conviveu durante toda a sua existência com as mais variadas idades dos alunos: dos 39 alunos matriculados para o ano letivo de 1888, 02 tinham 9 anos, 08 tinham 12, 07 tinham 13, 06 tinham 14 e 01 tinha 18. Em 1889, dos 17 alunos matriculados, 01 tinha 9 anos, 04 tinham 14, 03 tinham 15 e 03 tinham 18 anos; e em 1890, para 11 matriculados, 01 tinha 8 anos de idade, 03 tinham 11, 04 tinham 12 e 03 tinham 13 anos.[382]

Aqueles com 08 e 09 anos de idade, devido ao pouco conhecimento que dispunham, não chegavam a freqüentar efetivamente a escola, abandonando, já nos primeiros dias, as aulas, como é o caso de Vidal Pilar, com 08 anos de idade, que matriculou-se em 07 de janeiro de 1890, tendo desistido em 31 de maio do mesmo ano.[383]

A avaliação dos alunos era realizada de forma a mais desarticulada possível. Constando no registro de matrícula, o desempenho do aluno pouco ou nada esclarecia sobre o aprendizado, no decorrer do tempo em que permanecera na escola:

Nome: Silvio Pellico Mascaranhas

Filiação: Major  Bernardo Mascaranhas Martins

Moradia: Rua da Ponte

Naturalidade: Campo Largo de Sorocaba

Idade: 15

Matrícula: 5 de novembro de 1887

Obs.: matrícula em Portuguez, Francez, Inglez e Latim

Adeantamento: Port.- má leitura, nada de grammatica, Francez – m. atrazado. Dava melhor de leitura, nada de gramatica. Inglez – nada sabe (Retirou-se do Inglez a 24 de fev. de 1887). Latim - nada sabe. Retirou-se do curso a 7 de março de 1889.[384]

 

O fechamento do Lyceu Municipal, em 1892, trouxe um vazio na educação secundária da cidade. Única escola pública a oferecer ensino gratuito, o seu desaparecimento priva parcela importante da população do acesso ao ensino superior. Embora, para a maioria da sociedade esse ensino estivesse muito distante, o fato de poder freqüentá-lo trazia certa expectativa de poder, em algum momento, ascender nos estudos, preceito fundamental para a ascensão social, política e econômica.

 

2. ESCOLAS PARTICULARES DE PRIMEIRAS LETRAS
2.1. ESCOLAS EFÊMERAS

A elite sorocabana freqüentou as escolas particulares até 1896, quando da inauguração do primeiro Grupo Escolar. Eram seus alunos:

Américo Brasiliense de Almeida Melo, que se tornaria governador de São Paulo, após fundar o partido Republicano, seguido de Américo Antonio Aires, que se bacharelou pela Faculdade de Direito de São Paulo, por Elias Aires do Amaral Junior, irmão daquele, ficou fazendeiro,  residindo aqui em Sorocaba. Alunos de famílias ricas como essas e mais José Francisco Correa Neto, filho do coronel João Batista Correa chefe político conservador e até de gente mediana e do povo como o Matias, filho do alemão Matias Hoff e José de Oliveira, filho de José Francisco de Oliveira.[385]

 Geralmente, tinham reduzido número de alunos, devido sobretudo ser a cidade constituída em sua maioria por trabalhadores da indústria e do comércio. Independentemente disso, os professores procuravam manter certo 'status', e, sempre que podiam, reafirmavam a importância da escola e a sua finalidade. Aluísio de Almeida nos faz um saboroso retrato da época: “Qualquer escola particular, mesmo de grau primário e apenas externato gostava de ser chamada de colégio. De modo que houve colégios grandes e pequenos, bons e sofríveis”.[386]

Vivendo com dificuldades, essas escolas, salvo raras exceções, abriam e fechavam rapidamente. É possível refletir que os responsáveis por elas estivessem à procura de uma atividade que lhes proporcionassem recursos financeiros sem muito investimento. Fácil era estabelecer uma escola; com pouco capital arrumava-se uma sala, que poderia ser uma das dependências da própria casa, alguns bancos e mesas, um pequeno quadro negro. A autorização do Inspetor nem sempre era requerida, já que a inspeção era bastante deficitária. O número de alunos ficava por conta da propaganda feita no jornal, onde os professores anunciavam-se como diplomados, e através de sua competência em arregimentar pelo convencimento pessoal. Como em geral eram pessoas desconhecidas e recentes na cidade, para a sua escola ocorria um limitadíssimo número de alunos, o que invialibizava a sua existência, de tal forma que, alguns meses depois ela deixava de existir. É provável também que algumas dessas pessoas jamais tenham sido professores, vindo a utilizar-se do título para, aventureiramente, ganharem durante um determinado tempo, algum dinheiro dos incautos.

Segundo Aluísio de Almeida, existiram ainda, em “1894 o externato Santa Clara, do casal Eugênio e Ângela de Morais, à rua Padre Luiz. Já se acabava, o colégio São João (1894) de Maria Gonçalves e Joana de Carvalho, à rua São Bento. E em 1898, dona Garibaldina Pinheiro Machado abriu o Colégio São Paulo, no Largo do Rosário”.[387]

As escolas que se fizeram anunciar durante os primeiros anos do século XX foram:

“Externato Vieira – acha-se estabelecido a rua Padre Luiz, nº 19. Mensalidades pela instrucção primaria será de julho em diante de 5$000 pagos adiantadamente”.[388] Encontramos referência a esta escola ainda em 1907.

“Externato Sagrada Família (para meninas). Dirigido pela irmã salesiana D. Othilia Colomna. Rua Padre Luiz, 37”.[389]

“Escola Particular – Para meninas. Rua do Rosário, nº 34. Preços módicos. Maria Bandeira”.[390]

“Escola Nocturna – rua do rosario, 30. Esta escola que deverá começar a funcionar em 01 de julho p.f. esta com a matrícula aberta, devendo os interessados procurar o abaixo assignado afim de tomarem as informações precisas. Oscar de Barros”.[391] Em outubro do mesmo ano, aparece um outro anúncio da mesma escola, agora com os preços dos cursos: “licções as segundas, quarta e sextas. Curso primario – 3$000, curso médio 5$000 e curso secundario 8$000”.[392]

“Externato ‘João de Deus’ – Rua da Matriz, 9. Este já bem conhecido estabelecimento de ensino preliminar de novo passa a funcionar nesta cidade, a rua da Matriz, 9, reabrindo as suas aulas no dia 18 do corrente mez. Recebem-se alumnos de ambos os sexos. Menores de 12 annos. Profa. Maria Martins Gouvea”.[393]

 “Escola – Maria José Loureiro, professora diplomada tendo aberto uma aula particular para alumnos de ambos os sexos, menores de 12 annos, propoe-se a leccionar as materias do curso preliminar, todos os dias úteis das 8 às dez horas da manhã. Para maiores informações dirigir-se à rua do Commercio nº 6 sobrado”.[394]  Esta professora lecionava também em Escola Isolada. 

“Curso Nocturno – o professor Florentino Bella acaba de abrir um curso nocturno a rua da Penha, 56”.[395]

“Escola Mixta Particular – Maria Eugenia Madureira, professora habilitada pelas irmãs de S. José aceita alumnos para o ensino primario e secundario, comprehendendo prestimos domesticos. Preços 3$ e 5$000 mensaes. Tratar-se a rua da Boa Vista, nº 212”.[396]

 

2.2. ESCOLAS ITALIANAS

Os imigrantes italianos que vieram para Sorocaba, tinham como objetivo trabalhar na indústria têxtil e nas oficinas da Estrada de Ferro Sorocabana. Fixaram residência na periferia da cidade, mais precisamente na região norte, pois as indústrias em sua maioria aí também se localizavam. Esta região por ser cortada pela estrada de ferro recebeu o nome de Além Linha.

Uma das primeiras atividades realizadas pelos imigrantes, quando aportaram em território brasileiro, foi a fundação de uma escola, tendo como objetivo preservar as tradições, os costumes e a língua de origem.

A mais antiga escola estabelecida pela colônia italiana em Sorocaba, é a Scola Italiana ‘Dante Alighieri’. Fundada pela Sociedade Operária de Mútuo Socorro em 1885, funcionava à rua do Hospital, nº 7, e destinava-se aos filhos dos associados. Freqüentavam-na cerca de 30 alunos. Em 1909, anunciava que

questa scuola, situata nella rua Mons. João Soares, nº 26 tiene per fine diamministrare alla gioventú studiosa, l’educazione morale ed intellettuale, secondo il programma governativo, ultimamente ricevuto; ed estinguere il numero degli analfabetisti, incoraggiando li ad intraprendere la via della virtú e del sapere.

                       Il programma consta delle seguenti materie, lingue: italiana, latina, francesa e portughesa; come pure musica, calligrafia, eritmetica, geometria, geografia, storia patria, ecclesiastica e naturale, notandosi ancora che i libri vengono distribuiti gratuitamente.

                       Orario dalle 11 antimeridianti alle 3 pomeridiane e dalle 7 pomeridiane alle 9 della sera.[397]

Era seu professor Luiz Bonito Netto.

Essa escola funcionava, ainda, em 1911.

Em 1888, a Societá Operaria Italiana Umberto I criava o Collegio ‘Umberto I’, de ensino diurno, para os filhos dos associados e tendo “annexa a esta um curso trisemanal para os adultos da colonia que queiram gosar d’esse beneficio”.[398] Essa escola funcionou até 1895, quando encerrou suas atividades

Nesse mesmo ano, Dimas Brunini adquire os materiais do Collegio ‘Umberto I’, mudando-se para a Rua Boa Vista, nº 40. Em anúncio, chamava a atenção dos “italiani: Non dimenticate che l’instrusione e il vero pane, e l’unico patrimonio che possiate lasciare ai vostri figli!”[399]

Em 1903, a professora Eugenia Coti anuncia que pretendia criar a ‘Scuola Serale’, destinada à colônia “italiana, na rua Monsenhor João Soares, nº 3”.[400]

Uma outra escola era a de Costabile Sergio que, com a Escola Colonial ‘Grabiele D’Annunzio’, oferecia cursos de primeiras letras, o secundario, e preparava “para a Escola Polytechnica de São Paulo, a Escola Technica, Commercial e Gymnasial”. Foi criada em 1908, e funcionava na travessa do Bom Jesus, nº 6.[401]      

Estas escolas sofriam a concorrência direta da escola pública, já que a população pertencente à colônia era constituída em sua maioria por trabalhadores pobres, o que dificultava ou mesmo impedia a sua freqüência.

 

2.3. ESCOLA NOCTURNA PERSEVERANÇA III                    

Laços de interesses recíprocos uniram desde os tempos mais remotos a maçonaria e o protestantismo presbiteriano. No bojo desses interesses estavam o regalismo imperial, o enfrentamento com a igreja católica e as relações políticas compartilhadas por ambos. Para Émile – G. Léonard, “durante muito tempo o protestantismo brasileiro não encontrou nenhuma dificuldade nesta aliança que algumas vezes se tornara verdadeira simbiose”.[402] Desde o início da pregação missionária pelo interior de São Paulo, esse fato já se verificava. Por exemplo: quando, nos idos de 1860, o desbravador missionário Ashbel G. Simonton, em viagem pioneira, esteve na região de Sorocaba, foi hospedado pelo maçon Antonio Paes de Barros[403], identificado por aquele missionário como católico liberal. Mais tarde, já na década de 90, o Rev. José Zacarias de Miranda chega a ser chamado de coronel Zacarias de Miranda[404], tratamento que o insere nas relações de poder da cidade liderada pela maçonaria, desde há muito tempo.

Mas é com a conversão do padre José Manuel da Conceição (1822-1873) que a cidade vai ganhar notoriedade nos meios religiosos e políticos. Nascido na cidade de São Paulo, filho de Manoel da Costa Santos, padeiro, e de sua mulher Cândida Flora de Oliveira Mascaranhas, Conceição foi levado, depois da morte de sua mãe, para Sorocaba, para ser criado por seu tio-avô, padre José Francisco de Mendonça, seu primeiro professor. Na escola leu a Constituição do Brasil e o catecismo janseniano de Montpelier. Com 17 anos começou a ler a Bíblia, o que lhe causou estranheza, em virtude das diferenças existentes entre o que ela continha e o que lhe era ensinado como católico. Mais tarde, ingressou no Seminário de São Paulo em 1842; terminados os estudos, foi mandado por seu tio-avô para a vila da Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema. Aí entrou em contato com o médico dinamarquês Dr. Theodor Johanis Langoard, que lhe ensinou alemão. Com Henrique Laemmert, editor do Rio de Janeiro, tomou conhecimento da teologia protestante e chegou a traduzir para o português algumas obras que foram publicadas no Brasil.[405]

Conceição é ordenado Presbítero em 28 de junho de 1845, e enviado a Limeira, São Paulo, onde o seu procedimento causa estranheza. Recusava-se a ouvir confissão e vivia apenas da côngrua paga pelo governo. Não aceitava pagamento pelos batizados, funerais e outras atividades religiosas. Chegou mesmo a ser conhecido como iconoclasta, quando sugeriu que quebrassem e enterrassem as velhas imagens que em sua igreja estavam sendo substituídas por outras mais novas. Seus sermões eram cheios de citações de autores clássicos alemães. Em 1863, após forte campanha liderada pelos colegas e paroquianos ortodoxos, pede ao bispo permissão para deixar a batina, o que lhe é negado pelo Bispo de São Paulo, D. Sebastião Pinto do Rego. Em fins de outubro de 1864, após encontrar-se com o Rev. Blackford, Conceição escreve ao Bispo abjurando a fé católica. No dia 16 de dezembro de 1865, é ordenado ministro da Igreja Presbiteriana. Em 29 de dezembro de 1866, é excomungado por D. Sebastião. Essa questão teve certa repercussão nacional e serviu para a retomada da discussão sobre a liberdade de culto, o casamento civil, o batismo e demais medidas pertinentes ao assunto.[406]

Um outro fato que se destaca no relacionamento entre a maçonaria e o presbiterianismo sorocabano diz respeito à transformação da Loja Perseverança III em “Q.G. da defesa do protestantismo neste Estado (de S.P.) por suas correspondências constantes com G.O. do Brasil e com os FF. dos diferentes setores do Estado onde os crentes eram ‘atrozmente’ perseguidos”.[407]

Essa interação entre ambos vai trazer à escola sérias conseqüências, que culminam no seu fechamento por absoluta falta de alunos, encerrando, dessa forma, a sua primeira fase (1869-1870).

Embora, um outro grupo da maçonaria, “os do chamado Apostolado, desprezassem os elementos essenciais para o proselitismo, a tal ponto que seus aderentes deveriam, de início, assumir solene compromisso de não ocupar cargos políticos, não lecionar em escolas superiores ou instituições congêneres, não colaborarem em jornais, e não auferir lucro pecuniários de seus escritos”[408], os demais grêmios sempre estiveram presentes na política, na economia, na educação, no jornalismo.

Em Sorocaba, participaram ativamente do processo político, chegando por inúmeras vezes a ocuparem várias cadeiras da Câmara Municipal, mormente no período compreendido entre o fim do Império e o início da República. E já nesse período, vários de seus membros, por diversos legislaturas, ocuparam a Prefeitura Municipal.

Na educação, foram os pioneiros no ensino primário particular gratuito, com a introdução da escola noturna, voltada especialmente aos analfabetos adultos e adolescentes que trabalhavam durante o dia, mas desejavam freqüentar os bancos escolares à noite.

No enfrentamento das dificuldades para manterem a escola aberta, não titubearam em buscar auxílio em determinado segmento da imprensa (aquela que pertencia a membros da maçonaria), da Câmara dos Vereadores e da Prefeitura, através da gestão dos vereadores, e do Governo Estadual, pelos deputados e pessoas ilustres que tinham acesso ao Governador.

A sua importância pode ser confundida, em determinado período, com o crescimento da educação na cidade, onde, a par de sua atuação na escola particular, foram a princípio os incentivadores da criação do primeiro grupo escolar de Sorocaba, que recebeu o nome de um de seus membros: Antonio Padilha. É bem verdade que a desinência criou, por longos anos, malefícios à expansão da educação; no entanto, a sua participação no ensino primário noturno não pode ser desprezada.

A Loja Maçônica Perseverança III de Sorocaba foi criada por um grupo de maçons discordantes da Loja Constância. Já de sua primeira reunião, realizada em 1869, constava que o ‘venerável’, em agradecimento pela sua escolha,  conclamava os demais membros a se congregarem em torno dos objetivos propostos, pois “unidos levaremos de vencida a bandeira que defraudamos - Liberdade e Instrução”, e prosseguia: “será um exemplo a seguir por outras Lojas e por agremiações profanas”.[409] Para levar a efeito esse princípio, na sessão de 07 de agosto de 1869, é aprovada a proposição de Ubaldino do Amaral Fontoura que, no seu 7º item, dizia que “serão criadas escolas para adultos e menores. As escolas serão nocturnas; mantidas pela oficina para o ensino gratuito das primeiras letras”.[410]

Segundo José Aleixo Irmão, a Loja Perseverança III de Sorocaba antecipou o projeto apresentado por Rui Barbosa para a oficina Grande Oriente Brasileiro, do vale dos Beneditinos, que, em seu artigo 3º, parágrafo 3º, trazia: “Ficam também, obrigadas todas as oficinas brasileiras a empregar todos os esforços possíveis dentro da esfera de seus recursos pecuniários, criando nos seus competentes vales escolas gratuitas de ensino primário, já nocturnas ou domingueiras para adultos de todas as classes, já diurnas para crianças de um e de outro sexo”.[411]

Na sessão de 28 de agosto ficou decidido que “comemorando a independência do Brasil, a 7 de setembro, nesse dia inaugure a escola nocturna que se propôs estabelecer”.[412] Na mesma sessão é apresentada a regulamentação sobre a escola noturna.[413] Alugada a casa que deveria abrigar tanto a Loja como a escola[414], e constituída a comissão fiscal que deveria acompanhar os seus trabalhos[415], a escola é “efetivamente inaugurada no Dia da Independência”.[416] Em seguida, Ubaldino do Amaral Fontoura propõe “que d’ora em diante sejam admitidos à matrícula na escola nocturna os escravos que para isso apresentassem licença dos seus senhores”.[417] Não tivemos acesso aos registros que confirmem se efetivamente os escravos freqüentaram as aulas. Mas a escola não era vista com bons olhos pela população. Em função de não constar em seu currículo nenhuma disciplina referente à religião, e de ser criada em meio majoritariamente católico, foi imediatamente rotulada de protestante. A dificuldade em manter-se aberta é atestada pelo seguinte relato:

matricularam-se desde 7 de setembro passado até 20 de julho d’este anno-

alunos  117

sahiram  65

ficaram  52

são freqüentes, termo médio     35

Dos que sahiram a maior parte foi pelas falas malevolamente espalhadas na população de ser a escola protestante; mas hoje reconhecendo que não há ali propaganda religiosa de espécie alguma, e são admitidas todas as crenças, tem voltado muitos dos que sahiram. Tem se notado grande aproveitamento nos alumnos; alguns que entraram sem conhecer o - A -, lêem corretamente manuscriptos e livros, fazem as 4 operações arithméticas, e exercitam em outras contas.

A officina Perseverança III dá aos alumnos: mestres, livros, papel, pennas, lápis, etc.[418]

Apesar de apresentar certo otimismo, a escola é fechada em julho de 1870, para ressurgir somente em 1896.

Com o seu fechamento, surge a Escola Nocturna da Loja Constância, criada em novembro de 1876,  que tinha como objetivo continuar a oferecer o ensino gratuito aos freqüentadores noturnos da antiga escola agora fechada. No entanto, sua vida foi efêmera.[419]

Outras apareceram e chegaram a ocupar as antigas instalações da Loja Perseverança III, como é o caso da Escola Nocturna do Prof. Francelino Barbosa (1876), a do Club Literário (1882) e a Escola Popular (1888). Com relação a esta última, José Aleixo Irmão assim a descreve:

 

em sessão de 16 de junho, o venerável Padilha comunica à loja haver cedido ‘a sala de entrada’ a uma associação que se formou visando manter aula noturna aos libertos.

Com a palavra, João José da Silva concitou a loja a apoiar referida associação cujo fim nobre, por si só, justificava a solidariedade maçônica, cuja associação aceitara  o ‘encargo de dar o pão do espírito àqueles que, além dos muitos trabalhos, permaneceram na mais crassa ignorância’ e terminou apelando para que a loja também, fornecesse a iluminação.

Essa entidade, sob o nome de ‘Escola Popular’, foi constituída pelos srs. Arthur Gomes, Adolfo Osse, Antonio Egídio Padilha, Benedito Cordeiro e João Padilha[420], sob o nome significativo de ‘Luz e Liberdade’. Visava ‘disseminar a instrucção pelas classes que não a podem obter por deficiência de recurso’.

Passou a funcionar a partir do dia 2 de julho, em sala da Perseverança III, estando matriculados 75 alunos nesse dia.[421]

 Segundo a Inspetoria, a escola destinava-se “ao ensino primário dos adultos e menores que, por suas ocupações não podiam freqüentar as aulas públicas”.[422] No entanto, algum tempo depois a escola, devido à falta de alunos, era obrigada a fechar. Os responsáveis pela mesma, em comunicado publicado pela imprensa, assim se justificam:

a sociedade Luz e Liberdade, por deliberação dos seus fundadores, resolveu suspender temporariamente as aulas noturnas que mantinha nesta cidade, a expensas suas e da Loja Perseverança 3ª, por causa do recrutamento que se esta procedendo neste município. Cumpre acrescentar que essas aulas estabelecidas para os libertos, operários e meninos que não pudessem freqüentar as diurnas, eram freqüentadas por grande numero dos mesmos, atingindo o número dos matriculados a cento e trinta e sete, e desde a noticia do recrutamento o número destes desceu a menos da quarta parte. Outrossim, a Escola popular conta três professores assíduos e esforçados que ensinam gratuitamente. Assim crê a sociedade haver dado ao público satisfatória razão ao repentino fechamento de sua escola.[423]

Em 05 de janeiro de 1889, a escola reabria suas portas com os mesmos objetivos anteriores, para fechar mais uma vez em dezembro do mesmo ano.

Com a inauguração pelo Estado, em 1896, do Grupo Escolar Antonio Padilha, ocorre uma grande transformação nos padrões escolares existentes na cidade. Atraindo para si a clientela elitizada, essa escola gratuita despreza importante parcela da sociedade, notadamente a constituída por trabalhadores adultos e adolescentes. Estes irão pressionar os poderes públicos, especialmente a Câmara Municipal, para também serem contemplados com um ensino gratuito instituído nos mesmos moldes daquela. Em função de alguns dos vereadores serem maçons e de ter a Loja Perseverança III experiência anterior no ensino noturno, dedicado aos trabalhadores, resolve a mesma reabrir a antiga escola.

A imprensa ligada à maçonaria exulta com a possibilidade da criação de uma nova escola:

a augusta e humanitaria loja Perseverança 3ª, desta cidade, fará no dia 15 do fluente, a inauguração de uma escola nocturna. Os dignos directores daquella sociedade, promovem os meios de dar maior solemnidade e brilhantismo ao acto inaugural, estando para isso, convidado o nosso illustre amigo dr. Carlos Reis, que representa papel saliente na maçonaria brazileira, para honral-o com a sua presença. Habituados a trabalhar em prol dos altos interesses sociaes, cremos firmemente, que, a maçonaria, procurando os meios de abrir escholas gratuitas aos operarios, que devido as occupações diurnas não conseguem frequentar institutos de educação, presta relevantissimo serviço a humanidade. Longe de imitar as pompas de outras sociedades que chamando para seu seio influencias politicas, andam de porta em porta recebendo as parcas economias do homem do trabalho; a loja maçonica, vem modestamente patentear o seu desinteresse pelas grandesas e opulencias do espirito humano, abrindo em uma das salas de seu templo uma eschola ‘uma officina de fabricar espiritos’ como disse Victor Hugo, destinada a esclarecer ao homem no designio de seu futuro. Portanto, fazemos votos para que a Loja Perseverança 3ª, caminhe desassombrada estabelecendo o salario preciso para a formação de espiritos emancipados, independentes e honrados. Em nome, pois dos necessitados de instrucção agradecemos a caridosa offerta que essa augusta loja deixa consignada.[424]

Em sessão de 23 de setembro, os membros escolhidos para formalizar o restabelecimento da mesma,[425] apresentam as seguintes cláusulas:

1) que devia funcionar na sala do prédio desta Loja; 2) que funcione diariamente com a exceção dos dias de trabalho da Loja; 3) que seja regida por um irmão ativo; 4) que o dito professor estabelecerá as horas de trabalho, com aprovação do irmão venerável devendo ser de duas e meia horas de serviço; 5) que os Irmãos se cotizem para pagamento de um professor que receberá seu ordenado todos os dias dez de cada mês, em que apresentar o movimento diário da mesma escola podendo o Irmão Venerável passar um atestado; 6) para dar execução a este projeto, será nomeada uma comissão com caráter definitivo composta de três membros sendo um diretor, outro procurador e outro mesário, que agirão por si mesmo no sentido de propor as reformas que achar melhor e finalmente; 7) no dia marcado para a instalação da aula, haja uma sessão solene para bem patentear os intuitos que animaram os Membros desta Oficina. Posto em discussão esta proposta falaram o 1º Vigilante opinando que a Loja é que deve pagar o professor no caso dela não possa não se deve criar a escola; está de acordo que o ensino não remunerado é um ensino duvidoso e não concorda com os rateios para este fim, falaram sobre a mesma proposta o Irmão Silva que concordando com o que diz o Irmão 1º Vigário diz mais que há Irmãos que podem, cada um por sua vez ajudar a esse desideratum e o Irmão Orador que explicou o motivo porque apresentou o projeto nestas condições - a vista do que, pelo Venerável foi nomeada uma comissão composta dos Irmãos 1º e 2º Vigários e Francisco Antonio de Marcos Silva para darem o seu parecer em Loja para ser posto em votação.[426] 

A imprensa volta a noticiar a criação da escola:

 

A eschola nocturna Perseverança III, será aberta no dia 10 de Janeiro de 1897.

Para esse fim estão dadas todas as providencias para sua completa organisação.

O capitão A. Sampaio, veneravel daquella loja, acha-se habilitado a tomar os nomes dos interessados que tiverem em condições de frequentar a referida eschola.[427]

No entanto, significativamente, a escola é “solemnemente inaugurada a 15 de novembro de 1896, e começa a funcionar a 15 de janeiro de 1897”.[428]

Com grandes dificuldades financeiras é acordado pedir ao “dr. Luiz Nogueira, Presidente da Câmara, um pequeno auxílio para a citada aula, conseguido o auxílio poder-se-á ter mais um professor, ficando assim, com duas sessões a Aula Nocturna, aceitando, assim maior número de alumnos”.[429] Com o auxílio concedido pela Câmara, é nomeado João Almeida para professor da 2ª sessão, que foi inaugurada “com simplicidade e sem música a fim de evitar despesas, em 24 de julho”.[430]

 


Fig. 23. Prédio ocupado pela Maçonaria e a Escola Nocturna Perseverança III, localizado entre as ruas da Ponte e do Comércio, hoje, 15 de Novembro e Barão do Rio Branco. Acervo do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba.

 

A escola contou, durante determinado tempo, com o auxílio oficial municipal (1904-1914) e estadual (1906-1914).[431] Outro tipo de ajuda financeira provinha de festas beneficentes e de espetáculos de teatro, como o realizado em 1906.

Por um grupo de amadores, desta cidade realizar-se-á sábado próximo, no salão do Club Aimorés, um atraente espetáculo, cujo produto será revestido em benefício das escolas Nocturnas da Loja Perseverança III.

Segundo informam, será levada à cena o importante drama em 3 atos ‘Fogo no Céu’, e a comédia de um ato ‘Sal na Moleira’.

Sendo este espetáculo para um fim tão nobre, qual o de proteger a instrucção em nosso meio social, esperamos que nosso público não deixará de concorrer com o seu valioso e necessário auxílio.[432]

Com o corte da subvenção estatal, em 1915, a Loja fecha definitivamente a “3ª classe permanecendo apenas as outras duas”.[433]

Em relação aos aspectos pedagógico-administrativos, a escola tinha certa autonomia na implantação das disciplinas, que deveriam estar voltadas diretamente para o tipo de clientela a que se destinava. No entanto, preocupava-se em ensinar apenas os rudimentos de algumas disciplinas, fato que ocasionava no início do ano, o retorno às salas de aulas daqueles alunos que estavam interessados em prosseguir nos estudos, em função da falta de uma escola em período noturno que os conduzisse no desenvolvimento dos estudos. Sem demonstrar qualquer interesse e até mesmo prejulgando a capacidade e interesse daqueles alunos, antepunha uma série de obstáculos intransponíveis:

João José como um dos membros da Comissão encarregada da fiscalização das Aulas Nocturnas declara que tendo recebido ordem de não mais acceitar alumnos que tivessem sido approvados nos exames, elle achou-se embaraçado no abrir a matrícula visto não ter um programa organisado afim de fazer sciente aos interessados quaes os motivos que o faziam assim proceder, e tendo combinado com os Professores das Aulas, adiou a abertura da matrícula para outro dia e trazer ao conhecimento da Loja afim de que ella resolva sobre o caso.

Usando da palavra,

o Venerável disse que a resolução tomada de não aceitar mais alumnos que tivessem sido approvados foi a seguinte. Ha muitos pedidos para a matricula, e para conservar-se alumnos por muito tempo frequentando as aulas, estudando cousas que não são muito necessarias, e tomando lugar de outros que desejem também aprender um pouco, foi essa a razão de assim resolver.

Para justificar sua posição, a Loja utiliza-se de argumentos insustentáveis para com a educação escolar:

o Irmão Secretario disse que quando se procedeu aos exames, os Irmãos examinadores França Junior e Arthur Gomes, disseram-lhe que era melhor supprimir lições de grammatica e arithmetica e ensinar apenas leitura, escripta, quatro operações fundamentaes, e algumas noções de desenho linear, isto tudo praticamente, pois que os meninos são empregados e não tem tempo para estudar theorias, sendo o ensino pratico mais proveitoso e dá menos trabalhos, o Irmão Arthur Gomes offereceu-se para organizar um programa facil e resumido, do que fosse mais necessario e mesmo dar alguns esclarecimentos que fossem precisos e cujo programa seria submetido a approvação da Loja. Assim sendo o Irmão Paulo Aquino com os Professores combinaram trazer isso ao conhecimento da Loja para que depois fosse approvado o programma, e os Professores possam declarar se os alunos estão ou não preparados de accordo com as matérias do mesmo, e si estiverem a Loja nomeará uma Comissão para proceder exames vagos e dispensar os alumnos approvados. O Irmão Arthur Gomes é de opinião de se imprimir uns diplomas para serem entregues aos alumnos approvados. Usou a palavra o Venerável e disse que nesse caso para não haver reclamações elle confere a comissão e aos Professores poderes para procederem de modo que ninguém fique prejudicado, attendendo sempre o que for de justiça; e contemporisar mais um pouco até que o nosso Irmão Arthur Gomes organise o programa.[434]

Na reorganização e em função de existir “entre os alunos a maior irregularidade de adiantamento”, a classe é dividida em “cinco series diferentes”.[435]

Do novo programa constam:

Portuguez – Noções grammaticaes, muito summarias, sem uso de compendio. Exercicios de leitura, declamação e redação; Arithmetica – Estudo pratico dos números até operações sobre juros; Geographia – Ideia geral sobre o mundo – noções de geographia do Brazil e de São Paulo; Historia Patria – Noções summarias – explicação das datas nacionaes – educação civica. Para a Primeira serie, além  das materias do programma geral, deve-se accrescentar noções de geometria e de sciencias naturaes, attendendo-se neste estudo, principalmente a parte pratica.[436]

Com aproximadamente 48 alunos matriculados em abril de 1899, e com “frequencia media” de 40 alunos, a escola funcionava “diariamente, á excepção dos dias feriados, domingos e segundas-feiras, das 6½ da tarde ás 9 hs. da noite”.[437] A idade média dos alunos era “de cerca de 19 annos, sendo os extremos 7 annos e 22 annos”.[438] Em relação à nacionalidade, havia “37 brazileiros, 9 italianos e 2 portugueses”.[439] 

Ao longo do tempo, no entanto, a escola foi adaptando-se ao programa elaborado oficialmente, embora continuasse interessada apenas nas primeiras letras, como atesta o relatório do inspetor escolar:

 

é ministrado o ensino da leitura pelos modernos métodos adotados pela Diretoria Geral da instituição pública de nosso Estado; método bastante combatido por alguns de nossos colegas, mas que felizmente vem ganhando terreno, provando o quanto são superiores aos anacrônicos então processados.

O ensino da caligrafia também obedece aos preceitos da pedagogia moderna sendo de notar que a ambidextria é o método mais em voga em nossos estabelecimentos de ensino e que convém ser adaptado, alternadamente com mais freqüência em nossas escolas. As outras matérias do programa, tais como Português e Aritmética são também lecionados com bastante esmero e real aproveitamento por parte dos alunos.[440]

O controle pedagógico-administrativo era exercido por uma comissão (que trabalhava sem remuneração) nomeada pela Loja e composta por 12 maçons (um para cada mês). Cabia-lhes relatar mensalmente, por escrito ou oralmente, os fatos ocorridos na escola. Tinha também por objetivo, sugerir o aumento ou diminuição das classes, de acordo com a demanda. Mas sua principal atividade consistia na “demonstração do movimento da escola” como o realizado em

 

 setembro de 1916:

           1ª sessão - prof. Fernando Rios

           Alunos matriculados        :  34

           Durante o mês              :   5

           Dias letivos               :  10

           Freqüência média           :  27

           Porcentagem                :  79%

           Comparecimentos            : 278

           Faltas                     :  62

 

           2ª sessão - prof. Florentino Bella

           Alunos matriculados        :  46

           Durante o mês              :   6

           Eliminados                 :   7

           Dias letivos               :  10

           Freqüência média           :  28

           Porcentagem                :  71%

           Faltas                     : 173[441]

 

Na década de 1920, diante do crescimento da escola a Loja vê-se na necessidade de ampliar o seu quadro pedagógico-administrativo, criando o cargo de diretor, “que deveria ser acumulado, sem prejuízo, com o de professor mediante a gratificação mensal de 40$000”.[442] Destaque-se que o salário do professor era de 83$000 mensal.[443]

Em relação aos aspectos disciplinares, o rigor era absoluto. O desinteresse e a falta de respeito eram punidos com a expulsão. Bastava o professor oficializar pedido nesse sentido, como fez o prof. Eugenio Pilar Franco, ao pedir permissão para “eliminar os que não se comportam bem e sem respeito” e obter como resposta que o pedido “é aprovado desde que os pais fossem comunicados do mau comportamento dos alunos, e caso não se emendassem, podiam ser eliminados”.[444]

A escola Perseverança III realizava seus exames nos moldes das escolas públicas. Relata-nos o jornal:

Realizaram-se na noite de 9 do fluente os exames da escola nocturna desta cidade. O exame foi presidido pelo cidadão inspector litterario, e versou sobre leitura, interpretação, analyse, arithmetica, exercicios de redacção, etc. Os alumnos que na sua totalidade são operarios, demonstraram bastante progresso e o resultado do exame foi o melhor possivel.[445]

Aqui também os alunos que mais se destacavam eram contemplados com presentes, mas diferentemente da escola pública, onde, para consubstanciar o ato, a sociedade era convocada; ali os alunos eram convidados para comparecem à casa do ‘Venerável’, onde receberiam, sem suntuosidade alguma, os seus ‘prêmios’:

 

hoje às 4 horas da tarde, serão distribuidos por conta da Loja Maçônica Perseverança 3ª, os premios destinados aos alumnos da 1ª classe que mais se distinguiram nos exames ultimamente havidos naquella escola.

Ficam convidados os srs. alumnos para hoje á hora citada comparecerem á casa do Veneravel da Loja, capitão João Cancio de Azevedo Sampaio, à rua de São Bento 44, para receberem os alludidos premios.[446]

 

Excepcionalmente e, em virtude do curso ser anual e da grande rotatividade, os alunos eram aceitos durante o ano todo sem que houvesse qualquer preocupação com o grau de conhecimento adquirido. No final do ano todos eram aprovados, para que seus lugares fossem ocupados por outros que procurassem a escola. O relatório atesta essa situação: “Pilar França, professor da Escola Nocturna pede autorização para encerrar o ano letivo sem os exames de costume porque a maior parte dos alunos que estavam adiantados sairam e seus lugares foram preenchidos por outros ainda atrasados”.[447]     

 

A Escola Nocturna Perseverança III irá funcionar nos mesmos moldes até 1950, quando, na sessão de 22 de maio,

o Orador Otto depois de historiar o papel desempenhado pelas nossas Escolas durante os seus oitenta anos de existência na luta contra o analfabetismo no paiz, propos à Oficina a sua extinção, por julgar estar finda essa nossa tarefa com a criação dos Cursos Supletivos, expondo ter conseguido a colocação dos atuais alunos, em número reduzido, em outro estabelecimento de ensino. O Irmão, 1º Vigário é pelo adiamento da votação para a próxima Sessão. O Irmão Delio Coragem está de acordo com o Irmão Orador desde que a escritura de compra nada prejudique. O Veneravel disse  ser o motivo de alegria para a Perseverança III pioneira da alfabetização de alunos no paiz, ter de fechar  suas escolas, por ter sido resolvido esse problema pelo Governo Federal. Posto em votação a proposta de adiamento formulada pelo Irmão 1º Vigario foi a mesma regeitada por maioria. A seguir o Veneravel pôs em votação a proposta de extinção formulada pelo Irmão Orador sendo a mesma aprovada por maioria.[448]

Durante a sua existência a Escola foi criticada por diversas vezes pelos mais variados motivos. Entre eles, o de fazer proselitismo, de ser atéia, de ser protestante, já que pertencia à Maçonaria.[449] No entanto, essa Escola permaneceu por longo tempo como a única disponível à classe menos favorecida da população que precisava trabalhar desde a mais tenra idade. Não oferecia, é bem verdade, um ensino de continuidade, onde os alunos pudessem alcançar níveis mais elevados como o secundário que os possibilitaria, ainda que remotamente, a almejar o nível superior. Porém a escola, dentro da precariedade em que estava constituída, permitia o acesso a um saber pequeno, mas concreto.

 

2.4. EDUCAÇÃO PROTESTANTE

Um dos motivos que levou a Igreja Presbiteriana a abrir escolas no Brasil vem da fé que os missionários tinham na educação, como elemento transformador da sociedade. Para ajudar nessa transformação, os primeiro pastores que aqui chegaram - todos de origem norte-americana - fundaram um pequeno Seminário no Rio de Janeiro em 1869. Essa escola, que formava missionários, durou até 1870. Com seu fechamento, os seminaristas passam a ser “instruídos pelos próprios missionários que os tomam aos seus cuidados”.[450] São esses dois Seminários que irão formar os primeiros missionários nacionais, encarregados de prosseguir a obra de evangelização dos estadunidenses, pelo interior do país. 

No Seminário do Rio de Janeiro, os futuros pastores deveriam estudar durante quatro anos: Álgebra, Aritmética, Geometria, Física, Astronomia, Português, Latim, Grego, Francês, Inglês, Geografia, História Universal, História Eclesiástica, Teologia e Bíblia.[451] Havia quatro alunos: Antonio Pedro Cerqueira Leite, Modesto Perestrello de Barros e Carvalhosa, Antonio Bandeira Trajano e Miguel Gonçalves Torres.[452]

“As aulas no Rio se encerram em 1870. Somente Trajano e Modesto concluíram o curso. Na reunião de 22.8.1870 o Presbitério os examinou, aprovou, e deu-lhes a situação de ‘licenciados’: autorizados a pregar, mas não a ministrar sacramentos, e ainda não admitidos como membros do Presbitério. São ‘candidatos em prova para o santo ministério’; vão trabalhar no campo de escolha presbiteriano, trabalhando, demonstrar que poderão ser ordenados pastores. Modesto foi ordenado em 20.7.1871. Miguel foi licenciado na véspera, em 19.7.1871, e ordenado, juntamente com Trajano, em 2 de agosto de 1875. Antonio Pedro deixou os estudos. Voltou em 1872, estudando em São Paulo com Vanorden e Chamberlain, já em regime preceptorial”.[453]

Antonio Pedro, enquanto estuda com o Rev. Emmanuel Vanorden como preceptor, leciona na Escola Americana e namora Palmyra, também professora, nessa escola. Em 10 de agosto de 1873, o Presbitério licencia-o.[454] É enviado para Sorocaba para adquirir experiência e para dar continuidade ao trabalho do Rev. Blackford, que fundara por volta de 1860 uma igreja presbiteriana, na cidade. Ao chegar, acompanhado de Palmyra[455] e de sua sobrinha Maria Luíza, uma das primeiras atividades a desenvolver foi o estabelecimento de uma escola,[456] na qual os três atuariam como professores.

A escola, como as demais em todo o país, tinha como objetivo atender aos alunos que sofriam, nas escolas públicas, coações, em função da intolerância religiosa e política que atingia por essa época aqueles que professavam outra religião que não a católica e que, politicamente, se mostravam favoráveis à mudança do sistema político então vigente.[457]

A escola presbiteriana, em Sorocaba, estabelecida junto à igreja, localizada à Rua das Flores, hoje Monsenhor João Soares, introduzia o método estadunidense de estudo, isto é, o costume da leitura em voz alta e da decoração é substituído pelo sistema intuitivo e pela leitura silenciosa; o programa de ensino baseava-se em compêndios próprios “como as gramáticas de Júlio Ribeiro e de Eduardo Carlos Pereira, a aritmética de Antônio Trajano, as obras de Otoniel Mota e os livros de leitura de Erasmo Braga”;[458] o calendário escolar, com 190 dias letivos e com aulas de 2ª a 6ª feira, sendo o sábado livre; a introdução da sala de aula para ambos os sexos; a proibição de qualquer tipo de castigo físico. Embora constasse de seus princípios estar aberta a todas as tendências políticas e credos religiosos e à indistinção de cor e raça, a escola era freqüentada somente por protestantes que propagandeavam a república, por elementos brancos como portugueses, alemães e suíços e por aqueles que detinham certo poder aquisitivo, já que a escola era paga. Freqüentavam a escola, ainda, os filhos dos maçons, em função da grande interação existente entre eles.

A escola de ensino das primeiras letras, criada no início de 1874, com o nome de Escola Americana, numa clara alusão a sua homônima de São Paulo, era dirigida por Antonio Pedro Cerqueira Leite e por sua esposa Palmyra Cerqueira Leite. Em 1877, do programa inicial constava: “leitura, calligraphia, arithmetica, systema metrico, grammatica portugueza e geografia”. A escola cobrava “5$000 mensais pagos adiantados”. Se houvesse interesse, “Francez e música seriam pagos separadamente”.[459] Este programa seria modificado em 1883, quando se ensinava: “leitura, calligraphia, arithmetica, grammatica portugueza e noções gerais de geographia e de historia patria”.[460]

Realizando exames em períodos de 6 meses, a escola era tida como de excelente qualidade, despertando a atenção da sociedade. Segundo o Rev. Brackford, a importância desta escola é a mesma da cidade, “centro pioneiro” e “centro natural de um vasto campo” para a irradiação do presbiterianismo na região.[461] O jornal também não perdia a oportunidade de elogiá-la, destacando a introdução das novidades pedagógicas, como sendo um dos fatores responsáveis pelo seu sucesso e pela elevação do número de alunos para a época:

Effetuaram-se no dia 24 do corrente os exames d’este externato dirigido pela illustrada professora Exma. Sra. D. Palmyra de Cerqueira Leite. Estiveram presentes varias familias e paes de alguns examinados e o sr. inspector da instrucção publica do districto. Si bem que os primeiros exames realizados em Dezembro nos dessem auras para acreditar que os de agora não podiam ser-lhes inferiores, todavia não nos deixou de surprehender o notavel adeantamento dos alumnos, que attestam a proficiencia, habilitações e dedicação de sua inexecedivel preceptora. A par dos progressos que tem feito a pedagogia adaptando os melhores methodos, os quaes sabe conscientemente applicar, a Exma. Sra. D. Palmyra provê os seus discipulos dos elementos indispensaveis para constituir-se a base da bem entendida e solida educação, conduzindo-os por um caminho, que com louvaveis esforços torna atrahente, seguro e certo á realisação de tam sublime desideratum. Abstendo-nos de dizer mais, visto como um cavalheiro que, como nós teve a satisfação de assistir a esse brilhante torneio da intelligencia, prometteu-nos escrever sobre o assumpto, não concluiremos esta ligeira noticia sem dirigir ainda uma vez como sempre os nossos prolfaças á distincta preceptora, digna por muitos titulos de toda a consideração e aos srs. paes de seus alumnos que proporcionaram a seus filhos um legado imperecivel.[462]

Nesse mesmo ano, a escola envolve-se em uma polêmica. O pai de uma das alunas envia a um jornal sorocabano um longo artigo escrito pela aluna N.F.[463], onde se descreve a evolução da imprensa escrita, desde a sua criação. Ao publicar o artigo, o jornal, num momento de emoção, diz que

nós que vivemos em uma cidade em que se nega todo o auxilio intellectual a imprensa, ao ponto de não encontramos ao menos pessoas que nos forneçam apontamentos e informações, apesar de as instarmos para isso, não podemos deixar de louvar o intento da illustrada directora da Escola Americana, que procura implantar no espirito de seus alumnos o gosto pelos trabalhos litterarios.[464]

No dia 17 do mesmo mês, o jornal recebe uma carta de um de seus leitores, em que acusa de plágio o referido artigo:

Illmo. Sr. redator do Diario de Sorocaba.  Participo  a V.S. que o Sr. Hilario Ribeiro, no seu 4º livro de leitura, cap. XXV, publicado em Pelotas, reclama a paternidade do ellegante trecho histórico philosophico que V.S. publicou na parte editorial de sua folha de 12 do corrente, o qual escripto decerto mui innocentemente lhe entregaram como da lavra de uma das alumnas do ‘Externato Americano’.[465]

Em resposta a acusação, a professora Palmyra defende-se, argumentando que exigia de seus alunos

de grammatica themas semanaes, indicando-lhes eu o assumpto e os pontos principaes.

                       Entre os exercicios grammaticaes versou um sobre a typographia. Sendo um assumpto interessante, a discipula cingiu-se quasi que textualmente ás ideias de Hilario Ribeiro, como authoridade superior, de quem aprendera esse facto historico.

                       De modo que ella apenas collaborou no final do artigo em que expandia-se sobre a typographia, deixando simplesmente de por as aspas nos logares necessarios. Quem pode escrever o final do artigo de modo a faser-se comprehender, tambem tinha certa aptidão para o seu todo, si não se embellezasse pelas theorias de Hilario Riberio.

                       Na mesma biografia de Guttemberg por Hilario Ribeiro encontram-se varias citações de outros authores. Será elle plagiario?

                       É preciso reffletir-se que foi um simples exercicio escolar e não um artigo elaborado por mestre.

                       Vindo à minha casa um amigo mostrei-lhe o exercicio, e elle gostando do assumpto levou-o à typograpfia e assim foi publicado.

                       Não seria capaz de constranger uma discipula ao disfarce e ao extratagema como me accusa o zeloso articulista.

 

E, apelando para a emoção, acredita

ter explicado o facto. Serve-me isto de aviso de que tenho n’esta cidade um inimigo gratuito, que parece querer arrancar o pão da bocca de seis orphãozinhos.

                       Minha posição de senhora não me permitte continuar qualquer discussão impertinente escrevendo apenas este artigo em attenção aos paes de familias que me têm confiado suas filhas.[466]

 

Assim como as demais escolas, esta também enfrentava problemas com a freqüência e irregularidade das matrículas. Por exemplo, no início de 1883, tinha “l2 alumnos sendo 6 do sexo masculino e 6 do sexo feminino que cursavam, todos, as primeiras letras”[467] para, no final do mesmo ano, ter “40 alumnos, sendo 24 do sexo feminino e 16 do sexo masculino”.[468]

Com a morte de Antonio Pedro Cerqueira Leite, em 1883,[469] Palmyra permaneceu à frente da escola até o final de 1884, quando deixou a cidade.

Anteriormente, em 1883, com o objetivo de substituir a Antonio Pedro, chega à cidade José Zacarias de Miranda, que vai assumir a direção da escola a partir de 1885. Mudando o nome para ‘Collegio Sorocabano’, será “uma escola de instrucção primaria e secundaria para alumnos de ambos os sexos”. Constava de seu programa no

Curso Primario: Leitura Rudimentar de Grammatica portugueza comprehendendo analise syntatica e exercicios ortographicos, Calligraphia, Rudimentos de arithmetica comprehendendo systema metrico e Geographia phisica. Curso Secundario: Grammatica portugueza, Exercicios de composição, Historia patria, Geographia phisica, politica e cosmographia, Arithmentica (curso complementar), Algebra Francez, Inglez e Latim.

A escola funcionava “todos os dias  uteis, excepto aos sabbados, das 9½ da manhã às 2½ da tarde”.[470]

Enfrentando grandes dificuldades para encontrar um espaço físico adequado, em virtude dos apertos econômicos que sobrepunham à igreja presbiteriana, o que impedia a construção de um prédio apropriado para abrigar a escola, a mesma vai mudar-se constantemente de endereço, especialmente no período em que José Zacarias de Miranda esteve na sua direção. Em 1885, localiza-se “na casa nº 60 da rua do Rozario”.[471] No início de 1892, localiza-se “à rua da Ponte nº 33”[472], mudando, em junho do mesmo ano, para o “nº 24 da rua das Flores”.[473] Em 1894, “passa a funcionar no predio nº 9, sito à rua das Flores, onde dispõe de excellentes e vastas accomodações, tanto para o externato como para o internato”.[474]

O ‘Collegio Sorocabano’ publicava em 1892, no jornal, as “condições para  matricula: Curso primario – 15$000 por trimestre; idem secundario 30$000 por trimestre; meio pensionista 100$000 por trimestre; Pensionista 150$000 por trimestre” e deixa claro que “os pagamentos serão invariavelmente adiantados e sempre por trimestre. O trimestre uma vez começado será considerado vencido; não se descontam as faltas”. E, incisivo, não deixava espaço para qualquer tipo de negociação: “não faremos outrossim desconto algum seja qual for o numero de alumnos que venham da mesma familia, visto que fizemos o preço da mensalidade muito baixo. Fomos obrigados a alterar um pouco o preço das mensalidades dos internos, attenta a alta dos viveres; mas em compensação cortamos a jóia da entrada”.

Tentando organizar as matrículas, pedia

aos paes dos alumnos já matriculados a fineza de nos comnunicarem com maxima brevidade, para nosso governo si os seus filhos continuam no próximo anno. Para melhor organisação e andamento das classes resolvemos só receber alumnos nos primeiros 15 dias de cada semestre. Portanto, abrir-se-á a matricula no dia 2 de janeiro e fechar-se-á no dia 18 do mesmo, e d’esse dia em deante, até junho não daremos ingresso a mais alumno algum.[475]

Com a substituição do Reverendo José Zacarias de Miranda[476], em 1899, desaparece a escola presbiteriana em Sorocaba.

A partir de então, a comunidade presbiteriana passa a enviar seus filhos para “São Paulo, afim de continuar os estudos”. Um exemplo é “Eugenio Nogueira Padilha, alumno do Mackenzie College, em 1905”.[477]

     Se de início havia certa reticência para a implantação de escolas, passado algum tempo, o êxito das mesmas levou o Board presbiteriano de Nova York a acreditar nos resultados e no seu sucesso, a ponto de ajudá-las não só com o envio de professores estadunidenses, mas também com recursos financeiros que aliados às doações dos adeptos brasileiros, proporcionaram as condições necessárias para a sua manutenção. [478] Com relação a Sorocaba, no orçamento do biênio 1884-85 e em 1891, da Brazil Mission[479] consta a destinação de 400$000 para gastos com o pagamento de salário dos professores, assim como para outras despesas relativas somente à escola. No entanto, não foram suficientes para mantê-las em Sorocaba.

Se a instalação de escolas era elemento importante, a formação do professor colocava-se acima dessas preocupações. O Rev. Chamberlain assim afirmava:

o problema mais difícil de solver na administração de um colégio não é o alcance de grande número de alunos, nem a escolha dos melhores compêndios, nem a aquisição de edifícios adequados, nem tão pouco a formação de um curso lógico e atrativo, mas sim obter e conservar um corpo magistral que se dedique com amor ao ensino. A importância e proficidade duma escola estão na razão direta do valor pessoal do professor. Tal mestre, tal escola. Nada valerão as escolas sem bons mestres; a personalidade do mestre e como o que passa para a escola e vê-se refletida em cada aluno como um semblante reproduzido em espelho facetado. Os mais belos programas e previdentes instruções se inutilizam e tornam-se ineficazes; os mais engenhosos métodos se desnaturam e viçosas esperanças se esvanecem, se o mestre não for o que cumpre ser.[480]

Maria Hilsdorf, em seus estudos sobre as escolas americanas de confissão protestante – Colégio Internacional (1869), Escola Americana (1870 e Colégio Piracicabano (1881) – observou que

não foi apenas no aspecto das condições materiais que os colégios protestantes americanos se apresentaram como inovadores no panorama do ensino paulista dos fins do Império. Mais do que sua aparelhagem moderna, foram os procedimentos metodológicos, os novos objetivos, as transformações curriculares exibidos por colégios que lhes permitiram oferecer um ensino atualizado e eficiente, bem de encontro às reivindicações das vanguardas provinciais. Currículo seriado e diversificado, com inclusão de matérias científicas ou profissionalizantes ministradas em lições curtas mas graduadas e integradas, fins estabelecidos segundo uma orientação prática e progressiva, emprego do ‘método intuitivo’, entendido na época como a observação correta de objetivos reais, uso de coleções de espécimes, etc, são aspectos desse ensino renovado a nortear as suas atividades.[481]

 

2.5. ESCOLA DA SOCIEDADE SÃO VICENTE DE PAULO

A Sociedade São Vicente de Paulo fazia espalhar pela cidade, em 1899, um panfleto convidando as pessoas interessadas em se alfabetizarem a procurá-la.

Dizia o comunicado:

Ao Público.

A Sociedade de São Vicente de Paulo, visando especialmente o bem moral e intelectual dos povos, resolveu abrir no dia 1º de fevereiro p.f. uma aula nocturna para creanças e adultos a qual ficará a cargo do professor Eugênio de Moraes; para ser alumno desta eschola é preciso ser reconhecidamente pobre, pois ela é fundada exclusivamente para os desprovidos da sorte e que por seus affazeres diurnos não podem freqüentar o grupo escholar. A matricula é feita na casa do Presidente da Sociedade Luiz de Coimbra, à Rua Floriano Peixoto, nº 45.

Sorocaba, 20 de janeiro de 1899.

A sociedade[482]

Não há notícias de que a escola tenha funcionado.

2.6. COLÉGIO SANTA ESCOLÁSTICA[483]

A educação confessional católica, em Sorocaba, abrange três fases distintas: a primeira, de 1669 a 1805, foi dada pelos monges beneditinos e destinava-se aos meninos[484]; a segunda ocorreu em dois momentos: de 1897 a 1898, com o Colégio Diocesano e de responsabilidade também dos monges[485], e de 1900 a 1906, com a abertura do Colégio Nossa Senhora da Consolação, pelos padres agostinianos espanhóis[486], destinados ambos os colégios aos meninos; e a terceira fase em 1906, com a fundação do Colégio Santa Escolástica, pelas Irmãs beneditinas e destinada às meninas[487].

A primeira fase, que perdurou por quase um século e meio, ocorreu em função de ser a única escola existente.

Como agentes das reformas exigidas pela política ultramontana, os monges planejaram uma vasta programação de atuação, sendo a educação o seu principal veículo para atuarem junto à sociedade. Esse projeto, cuja gênese situava-se no entendimento entre Roma e São Paulo, resultou, primeiro, na criação dos dois colégios de educação masculina e, posteriormente, envolvendo a Abadia de Beuron, Alemanha, na criação do Colégio Santa Escolástica, de educação feminina.

A efemeridade do ensino masculino pode ser debitada a causas acidentais, excluindo de responsabilidade os padres. Já o ensino feminino foi auxiliado por uma série de fatores sócio-político-econômicos.

O catolicismo conservador partia do princípio de que as leis divinas e naturais haviam reservado às mulheres as tarefas domésticas e as atividades sociais e cívicas seriam de domínio masculino, preponderando estas sobre aquelas. Assim, toda tentativa de concessão de direitos às mulheres entendia-se como contrária às leis divinas, o que poderia provocar o desmoronamento da sociedade civil.

A diferença na educação dos dois sexos, “era fundamental para a garantia da estabilidade moral e social”.[488] Para a Igreja ultramontana, o chamado método da co-educação era baseado numa deplorável confusão de idéias, que confundia e legitimava a convivência humana com a promiscuidade e igualdade niveladora. Deus ordenara e dispusera a convivência perfeita dos dois sexos somente na unidade do matrinômio. Além disso, não havia na própria natureza nenhum argumento favorável para que pudesse haver promiscuidade e muito menos igualdade na formação dos dois sexos.[489]

Tal concepcão atendia às necessidade da oligarquia sorocabana que, naquele momento, não desejava ceder às exigências da modernidade, preferindo entregar suas filhas à educação católica conservadora.

Do projeto educacional ultramontano fazia parte a educação das meninas que, posteriormente, seriam educadoras de seus filhos e de toda a sociedade, de acordo com as determinações da doutrina católica conservadora.

A estratégia de preparar agentes sociais, capazes de prepararem outros, num movimento de crescimento sem fim, faz parte de concepções pedagógicas que abarcam outras religiões, como a protestante.

Introduzida pelas Irmãs, mas sob a égide dos monges beneditinos, a proposta pedagógica não foi um evento produto de coincidências ou de forças a-históricas, mas de planos elaborados ao longo dos anos e colocados em prática em escala mundial.

     Tratava-se, para a Igreja, de um processo em desenvolvimento para recuperar um lugar central na sociedade, de modo a evitar o perigo de sua destruição institucional, como fora tentado na França na época da Revolução Francesa. Utilizava-se, para isso, como linha de frente, os seus membros mais preparados e, talvez por isso, os mais conservadores.[490]

Os monges do Colégio Diocesano, os agostinianos do Colégio Nossa Senhora da Consolação e as Irmãs beneditinas do Colégio Santa Escolástica constituíram-se em partes hegemônicas do mesmo processo de introdução do catolicismo ultramontano em Sorocaba, por meio da preparação intelectual dos alunos e alunas ou até mesmo por meio da doutrinação popular.

A fórmula preferida para o estabelecimento da escola feminina foi o internato, embora a escola tenha se iniciado como externato e depois como semi-internato.

O internato, ao contrário do que pode parecer, não substitui o externato e o semi-internato, apenas configura o caráter elitista e conservador. Enquanto o externato e semi-internato permitem receber alunas de todas as classes sociais, o internato só recebia educandas da classe mais rica.

Com relação ao aspecto físico da escola, os altos muros tinham como significado não permitir nem a saída das alunas nem a entrada do mundo exterior, seja de pessoas não autorizadas, seja de outras formas de invasão.

Nesse recinto, as alunas, colocadas em contato com os preceitos da doutrina católica, viam entrelaçar o cotidiano exterior com o interior, onde uma sucessão de fatos e convenções religiosas construía o seu tecido cultural, tendo como referência devoções diferentes das que estavam habituadas pela religiosidade brasileira e portuguesa. Eram agora festividades do Sagrado Coração de Jesus, da Imaculada Conceição, de São José, da Anunciação, da Primeira Comunhão.

Assim, retiradas de seu meio social familiar, as alunas estavam sujeitas a um conjunto de normas e preceitos educativos planejados pelo ultramontanismo, consolidando o projeto estabelecido para a construção de uma base religiosa sobre a qual se levantaria, segundo os princípios da Igreja conservadora, uma sociedade católica obediente aos ditames da moralidade e do conservadorismo.

Dentro desse espírito, o projeto educacional do Abade do Mosteiro de São Bento, D. Miguel Kruse, alimentado por uma visão de mundo provinciana, antiliberal e antimoderna se mostrava pertinente às conveniências da sociedade.

Com o advento da industrialização, a cidade adentra na modernidade. O comércio, a agricultura, os serviços se expandem extraordinariamente, transformando o homem urbano no centro das atenções. Não basta educar somente os filhos, educar as filhas passava a ser uma necessidade.         

Mas, uma questão fundamental se interpunha a essa necessidade. Como educar as mulheres, dentro da modernidade, sem corromper-lhes os costumes?

A essa questão responde a Igreja com o projeto dos monges que, através das Irmãs, montavam o Colégio Santa Escolástica.

Com uma educação baseada solidamente nos preceitos católicos, a escola passava a ser uma alternativa à educação leiga oferecida pelo Estado.

O Colégio Santa Escolásticas, hoje Instituto Santa Escolástica, foi fundado pelas Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing. Sua vinda para Sorocaba está intimamente relacionada a fatos ocorridos em Olinda, Pernambuco.

Na última década do século XIX, a ordem Beneditina, no Brasil, estava para se extinguir, tendo o último Abade Geral da Ordem, D. Domingos da Transfiguração Machado, solicitado à Abadia de Beuron, na Alemanha, auxílio para restaurar a decadente instituição. A Abadia enviou para o Brasil D. Geraldo von Coloën e mais 16 monges, em 1895. Reorganizada e revitalizada, a ordem iniciou a evangelização do território do Rio Branco (Roraima), tendo encontrado dificuldades, devido ao número insuficiente de missionários. Em virtude desse fato, D. Geraldo pediu, em 1900, à Congregação das Beneditinas Missionárias, Irmãs para essa missão; em 1903 chegaram a Olinda as primeiras. Era plano dos monges fundar um núcleo que tivesse como base Quixadá. Daí, as Irmãs seriam, enviadas para outras localidades. Para a consolidação desse projeto vieram em 1905, da Casa Mãe, na Alemanha, oito Irmãs. Mas ao chegarem a Olinda, encontraram sérias restrições para a sua fixação, em virtude dos escassos meios de subsistência existentes, o que tornava impossível o aumento da comunidade. Após algumas ponderações, encontrou-se uma solução: de comum acordo, o já Arquiabade D. Geraldo von Coloën e D. Miguel Kruse, Superior e mais tarde Abade do Mosteiro de São Paulo, ofereceram por 3 anos, à então Prioresa Geral, Madre Birgitta Korff, “o Mosteirinho, que ficava nas dependências do Mosteiro da então pequena cidade industrial de Sorocaba”.[491] Esse Mosteiro, desde o falecimento do último monge beneditino, Frei Baraúna, estava desabitado e entregue aos cuidados do capelão das Irmãs Enclausuradas da Congregação de Santa Clara, Pe. Luiz Augusto Scicluna. “Aproveitavam, desta solução para cumprir com a promessa feita pelos Monges Beneditinos de Sant’Ana do Parnaíba a Baltazar Fernandes, a de que os beneditinos dariam assistência religiosa e cultural a nascente cidade”.[492]

Para formar a primeira comunidade em Sorocaba, foram escolhidas as “Ir. Alfonsa Kellenberger (Superiora), Ir. Ermentrudis Helman, Ir. Anastacia Tepest, Ir. Menodora Veser, Ir. Regina Eiselle, Ir. Lioba Schledorn. Madre Prioresa Geral Birgitta, Ir. Alfonsa e Ir. Lioba chegaram a Sorocaba, no dia 28 de setembro de 1905”.[493]         

Aqui chegadas, enfrentaram uma série de dificuldades. A primeira delas foi com relação à comunicação. Apesar de algumas já estarem no Brasil desde 1903, o domínio da língua portuguesa era precário. Para resolver em parte o problema, tiveram como professora uma “senhora alemã-portuguesa que aqui residia”.[494] Aliado a essa fato, os costumes da nova terra e a epidemia de tifo de 1905 atingiram as Irmãs, mal-acostumadas ao clima subtropical.

Entretanto, é provável que o maior problema tenha sido com relação à subsistência.

     Enquanto se preparavam para abrir a escola, “plantavam os primeiros legumes para a cozinha, bordavam os paramentos e confeccionavam a roupa da Igreja para os beneditinos de São Paulo e do Rio. Algumas Irmãs davam aulas particulares”.[495]  Outras

faziam trabalhos de costura e consertavam roupas para os quais a M. Afonsa tinha um jeito especial; e desta forma chegavam muitas encomendas. Às vezes uma ou outra trabalhavam de 17 à 19 horas por dia. Um pequeno semi-interno, viu um dia, que as Irmãs compravam, na portaria, 2 garrafas de leite. O pai desse menino era médico e tinha em casa algumas vacas; então o menino pediu à mãe para mandar diariamente 2 garrafas de leite, até que um dia, o pai deu de presente às Irmãs uma vaca com o seu bezerrinho.[496]

Após a inauguração, logo percebeu-se que o local não comportava uma escola. “D. Miguel pressentira o crescimento da escola e sentiu a impossibilidade do local em que se encontrava”.[497]  Procurou então, D. Duarte, Arcebispo de S. Paulo, para tratar de uma grande casa pertencente à Cúria. Era o antigo solar dos Lopes de Oliveira, localizado no Largo do Rosário, e que fora Colégio Diocesano. Em 1900, transformou-se em hospital, atendendo ao grande surto da febre amarela. Mais tarde, com os padres Agostinianos, tornara-se Colégio Nossa Senhora da Consolação. A Arquidiocese de S. Paulo também a ocupara como casa de férias dos Seminaristas.

Com o consentimento de venda de D. Duarte e com o auxílio de D. Miguel, as Irmãs adquiriram, em 1907, o prédio e a Igreja do Rosário por 30 contos de réis[498], tendo a transferência das propriedades se efetivado em 18 de janeiro de 1908.

No mesmo ano de 1907, iniciaram-se as reformas, que iriam transformar o solar em escola capaz de abrigar alunos em regime de semi-internato e internato, além de acolher as próprias Irmãs, já que esse espaço passava a ser o local de sua residência. A reforma prolongou-se até 4 de julho, quando fez-se a mudança definitiva. No entanto, devido às profundas mudanças realizadas no prédio, os custos acabaram pesando “extraordinariamente sobre a comunidade, situação que se prolongaria até 1910”.[499]

Nesse ano, uma grande surpresa aguardava as Irmãs.

 Em agosto a Revda. Superiora Madre Brígida(Birgitta) anunciou a visitação de Olinda e Sorocaba pela madre Subprioresa da Casa Mãe, a M. Melânia, que chegou a 13 de setembro. M. Melânia assustou-se com as grandes dívidas. Por isso julgou ser do seu dever fechar a casa de Sorocaba. Decidiu que as Irmãs deveriam vender o prédio, todo o material, os utensilios e partir[500] para Botucatu.

D. Miguel, que era contrário ao fechamento do colégio, “considerou uma injustiça para com a Santa Igreja abandonar a grande tarefa missionária”[501] e interferiu junto à “M. Geral Madre Brígida(Birgitta), oferecendo auxílio para a manutenção do colégio”[502], o que foi aceito. Assim puderam as Irmãs continuar com a sua atividade em Sorocaba.[503]

Foi com o apoio financeiro, logístico e institucional oferecido pelo clero, que a escola conseguiu sobreviver. Mas não podemos descartar que a população também colaborou nesse mister. Observamos que famílias como Costa, Machado, Rogick, Oliveira, Salerno, Carvalho, Stabile, Arens, Kenworthy, Silveira, Figueiredo, Grillo, Bauer, Lichtenfels[504], todas pertencentes à oligarquia, mantinham suas filhas na escola, e podem ter interferido diretamente no processo de sustentação do projeto educacional ultramontano.

 

 


Fig. 24. Igreja do Rosário e prédio ocupado pelo Colégio Diocesano (1896-1898), Colégio Nossa Senhora da Consolação (1900-1906) e Colégio Santa Escolástica (1906 -  ). Foto: Domingos Alves Fogaça. Acervo do Museu Histórico Sorocabano.

                      

O Colégio Santa Escolástica iniciou suas atividades em 1º de agosto de 1906, com 10 alunas “das melhores familias” matriculadas no curso primário, terminando o ano com 15.[505] Nesse mesmo ano

chegou o primeiro piano oferecendo o Colégio aulas de música e de trabalhos manuais. A 1º de fevereiro de 1907 iniciaram-se as aulas com 18 meninas e 5 garotos divididos em 3 classes. Neste ano iniciava-se também o semi-internato e em 1908 o internato. Em março deste mesmo ano começaram as aulas de Francês. O ano escolar de 1908 iniciou com 3 boas classes de meninas e 1 de meninos.[506]

No final de 1908, as Irmãs anunciam no jornal que o Colégio era um internato destinado às “meninas” e que, situado em uma das “mais salubres cidades do sul do Estado” tinha por fim “ministrar à juventude feminina educação religiosa, scientifica e litteraria, segundo os sãos principios catholicos”.

Contendo “habilitado corpo docente e provido de todas as condições materiaes necessarias a um estabelecimento de ensino”, pois funcionava em “vastissimo predio rigorosamente adaptado ao fim a que ora se destina, este collegio offerece reaes vantagens aos senhores chefes de familia que desejam proporcionar as suas filhas uma solida educação”.

Do currículo constavam “Doutrina Christã, Leitura, Calligraphia, Arthimetica, Geometria, Algebra, Historia Natural, Historia Patria e Universal, Phisica e Chimica, Linguas Portugueza, Franceza, Ingleza e Allemã, Gymnastica, Desenho, Pintura, Trabalho de agulha e Musica (canto, piano e violino)”. Não aceitava para o internato “alumnas maiores de 13 annos”.

A anuidade era de “600$000 pagos em duas prestações  e a joia da entrada 40$000”.

O ensino das matérias “facultativas (piano, violino e inglez” deveria ser pago à parte.

E dava como referência o “Mosteiro de São Bento-SP”.[507]

Em 1910, o Curso de Música,

estruturado oferecia muito bom ensino. Em 1912, embora, ainda, a situação financeira fosse um tanto precária, fundava-se o Externato S. Miguel, noturno para domésticas e operárias, totalmente gratuito e que começou com 35 alunas, em 1913 estendia-se essa atividade também para as meninas pobres.[508]

A educação católica feminina tinha como estratégia a divisão do ensino em dois segmentos: o instrumental e o educacional. O instrumental introduzia a educanda no mundo do conhecimento e da descoberta do saber, intimamente relacionado ao lado humano. O educacional tinha por tarefa moldar o caráter da aluna conforme os preceitos e valores morais católicos, levando-a a absorver esses preceitos através da prática da virtude, da leitura das sagradas escrituras e dos exemplos positivos da vida dos heróis da história.

Essa prática tinha por objetivo formar crianças cultas, sociáveis, respeitosas, mas principalmente, católicas convictas, que transmitissem à família e à sociedade os valores propugnados pelo catolicismo conservador.

O ensino pago, segundo as Irmãs, seguia “a recomendação de S. Bento, na Regra Beneditina: que o mal da avareza não se introduza nos preços”. Segundo Afonso Celso,

era baratinho. Era barato mas o valor do dinheiro naquele tempo era muito grande, então era difícil pagar qualquer coisa. Era uma pobreza enorme. A gente levava lanche para comer no intervalo. Tinha um menino do sítio, um menino muito retraído, quietinho, sabe? eu me lembro, ele sentava num banquinho dele, abria uma lata, dessa lata de manteiga e comia um viradinho de feijão que ele levava. Era o lanche dele. Era virado de feijão. Eu levava um pedação de pão, sabe com que que ía? Com óleo. Óleo de algodão, que era o que naquele tempo, o que se comia. A gordura da gente era o óleo. Era a comida do pobre, mesmo. A carne, o toucinho, tudo já era coisa cara, né? Então, principalmente a gordura era o óleo de algodão que Sorocaba fabricava perto de nós, ali mesmo. Em frente à Sorocabana, ainda tem à fábrica antiga. A gente ouvia o apito da fábrica e se baseava por horário.[509]

No início, a escola funcionava “das 11h às 15h30min. Por muitos anos até 1943 as aulas eram em período integral: 6h30min ginástica; em sala de aula: das 7 às 11h e das 12 às 15h30min; o semi-internato iniciava as atividades às 08h. Com o aumento da clientela estabeleceu-se dois turnos diurnos e um noturno”.[510]

O corpo docente era formado, até 1910, por Irmãs alemãs, depois vieram as francesas e por último, as brasileiras.[511]

As professoras se revezavam no ensino. Com as classes formadas por duas séries ao mesmo tempo, 1ª e 2ª séries, 3ª e 4ª séries, havia professora para a Língua Portuguesa, para o Alemão, para o Francês, para a Música e, excepcionalmente, para as aulas de Religião, algum padre ou monge.

Com os alunos sentados em carteiras duplas, as aulas com duração de uma hora cada, corriam através da decoração das lições, que eram tomadas semanalmente. O ensino da leitura seguia o método analítico, semelhante ao da escola pública. O aluno chamado à leitura ficava em pé, enquanto os outros acompanhavam atentos, pois, a qualquer momento, a professora poderia pedir a qualquer um que continuasse a ler, a partir do ponto em que o outro tinha sido interrompido.

A gente ficava lendo a lição ali e seguindo. E ai daquele que não seguisse, porque de repente passa de um para outro: ‘Continue!’ Ela apontava com o dedo ou perto ou outro distante. Então aquela pessoa tinha que levantar e continuar lendo aquela lição, geralmente uma história qualquer ou coisa assim, do livro de leitura.[512]

O livro didático era utilizado em quase todas as disciplinas: Português, História Natural, História do Brasil, Geografia, Alemão, Francês, Aritmética, Geometria. Não havia livro para Química, Física, Desenho, Canto. As aulas de Caligrafia eram feitas em caderno pautado.

As provas eram também mensais e o exame era anual, com a própria professora realizando-os.

Havia a separação por sexo em todas as atividades com exceção das “festividades e nas épocas dos diplomas” quando “havia o congraçamento”.[513] Os meninos ocupavam espaços diferenciados, separados por grandes distâncias. “Perto da igreja que ficava na esquina, que descia para a estação de Votorantim, a igreja ficava na esquina, a par ficava a parte masculina, toda a parte masculina. Agora, a entrada feminina ficava do lado de lá, mais para lá. Então era bem separado a nossa parte”.[514]

A organização do tempo era estabelecida pela sineta. “Nós entrávamos pelo portão da frente e ficava aquela algazarra. De repente vinha a madre com o sino, já sabe: todo mundo tinha que correr e formar fila, né? e cada classe tinha a sua fila”.[515]       

Nos espaços de tempo que separavam um período de aula do outro, os alunos dedicavam-se a brincadeiras e folguedos, e as Irmãs participavam deles, para espanto das crianças: “agora interessante é que tinha a nossa madre alemã, era muito engraçada também – todas elas - brincavam com a gente – aquele saião e brincando com a gente – era muito interessante”.[516] Esse tipo de atividade exercido pelas Irmãs era uma das formas utilizadas para controlar as brincadeiras do alunos, nos intervalos de aula.

Os peraltas e incorrigíveis, como Gualberto Moreira, eram punidos com a sala escura, puxões de orelhas e algumas palavras mais duras para chamar a atenção.[517]

 

3. ESCOLAS PARTICULARES SECUNDÁRIAS

3.1. LICEU SOROCABANO

Em 1892, é fechado o Liceu Municipal, mantido pela Câmara Municipal e tido como de excelente qualidade pela memória sorocabana. Privados da única escola de ensino secundário que permitia o acesso ao ensino superior, os alunos vêem-se obrigados a deslocarem-se para outras cidades – Itapetininga, Itu e São Paulo – para darem continuidade aos seus estudos. Inconformada com tal fato, a Loja Maçônica Perseverança III resolve criar, nove anos depois, uma escola nos mesmos moldes do Liceu então fechado e que recebe o nome de Liceu Sorocabano.

     Assim, em sessão de 09 de maio de 1901, “o irmão Ruggero” pede que seja reaberto o antigo Liceu, “ficando o mesmo por conta da Loja”[518] e oferecendo-se para lecionar gratuitamente. Constituída a comissão para cuidar das formalidades para a reabertura e obtidos, da Câmara Municipal, por empréstimo, as carteiras e demais  apetrechos, a escola é inaugurada em 15 de julho. O Jornal O 15 de Novembro assim noticia o evento:

 

Commo noticiamos, vai ser reaberto nesta cidade o Liceu que aqui sustentou por algum tempo a municipalidade.

O Liceu, como dissemos, sera mantido pela Loja Maçonica Perseverança III, benemerita instituição que tão bem compreende como se deve trabalhar pelo levantamento da sociedade.

No proximo numero desta folha sera publicado o programa das matérias exigidas para o exame de admissão no novo estabelecimento, devendo ser brevemente abertas as matrículas.

As materias que constituirão o programa de ensino, serão regidas pelos cidadãos Arthur Gomes, João Padilha, J.R. Carvalho Braga, J.M. França Junior, Amaro Egidio de Oliveira, José A. Antunes e Joaquim Silva, que gratuitamente prestarão seus serviços à nova instituição.

Nossos votos são para que os melhores resultados coroem os esforços daquela associação, que tão eficazmente colabora na obra do engrandecimento local.[519]

 

Constavam de seu programa

as seguintes cadeiras com suas respectivas disciplinas: 1ª cadeira, Portuguez e Latim(aplicado ao estudo do Portuguez); 2ª cadeira, Francez e Inglez; 3ª cadeira, Arithmética e Geometria; 4ª cadeira, Álgebra e Trigonometria (como complemento da 3ª cadeira); 5ª cadeira, Historia; 6ª cadeira, elementos de Ciencias Naturais(Historia Natural, Física e Química); 7ª cadeira, Escripturação Mercantil; 8ª cadeira, Geographia e Cosmographia; 9ª cadeira, Educação Moral e Civica, comprehendendo o estudo das Constituições Federal e Estadual, e conhecimentos prácticos do Direicto Patrio.[520]                   

Durante o período de existência da escola, os professores que trabalharam na Escola fizeram-no gratuitamente; ora porque, pertencendo à entidade mantenedora, eram convocados pelo Venerável; ora porque, como alegava constantemente o mesmo, sendo a Loja pobre e por isso mesmo sem dinheiro, e ainda mais, oferecendo ensino gratuito, não havia como arcar com as despesas para manter a escola funcionando e, ao mesmo tempo, remunerar o professor. Pressionados por todos esses fatores, acabavam oferecendo-se para trabalharem sem qualquer tipo de salário.[521]

A escola, ao longo do tempo, vai enfrentar uma série de problemas. O mais grave deles é a persistente falta de dinheiro. A ameaça de fechamento cotiza toda a comunidade maçônica e leva a imprensa a publicar longo artigo a respeito do problema:

Daqui a tres mezes finda o anno de 1903 e daqui a tres mezes quem sabe!? o nosso Liceu Sorocabano feche as portas.

Quando se fundou esta instituição de ensino ideal do sempre bom cidadão serviçal á Patria, o sr. Arthur Gomes, coadjuvado por outros professores, a Perseverança III dava um passo a mais para firmar seu amor e zelo pela Humanidade.

No fim do primeiro anno, o enthusiasmo crescera entre os rapazes pela sede do saber, e os mestres, fatigados embora, sentiram-se animados a prosseguir na lucta sagrada de um dever de civismo que havia de lhes guardar os nomes na memória dos cidadãos a quem Sorocaba muito deve.

Dois annos de ensino já é uma prova de esforço enorme no amor pelo adiantamento das lettras nesta terra que, seja dita a verdade, precisava de escolas de largos horizontes para cultivo das intelligencias que se perdem.

Dois annos de lucta cerrada em que os illustres professores se mantiveram heroicamente no posto sagrado do dever que se impuzeram de levar, até o cabo, até os últimos esforços o fardo pesadíssimo do cumprimento da promessa.

Nós nos recordamos ainda quando, reunido o povo numa sala do Lyceu, para o fechamento solenne e festivo do primeiro anno de ensino os oradores animavam os mestres afim de que não abandonassem a mocidade, de quem a pátria e Sorocaba muito esperava.

E os anima se voltarem para o representante político e pediu-se interceder junto ao Governo afim de que esta terra industriosa, antiga  pudesse contar em seu seio com uma casa de ensino para satisfazer o desejo da mocidade que quer, depois de seus trabalhos, alcançar o diploma-patente de seu aproveitamento.

No entanto, desvaneceram-se as esperanças; parte dos alumnos sentiram-se magoados; deixaram os livros, deixaram a penna e agora poucos restam, aquelles que souberam corresponder os esforços dos mestres.

Muitos collegios e externatos foram comparados ao Gymnasio do Estado, até mesmo o collegio de Ytu, mas Sorocaba, não sente a influência do Governo na parte mais útil para o progresso de nossa pátria - o ensino, as letras.

É com grande magua que já antevemos no fim deste anno, o cerramento das portas sagradas do Lyceu Sorocabano, que deixará como o Collegio do Lageado, quem sabe homens que um dia, apparecerão na politica, como patriotas e entre os seus patrícios como mestres.

Assim, a providência não permittisse que o Lyceu desapparecesse!

Afinal, numa terra como esta onde a politica não se nivella aos interesses sociaes e beneficios para o povo, toda a planta  rodeada de cuidados há de morrer porque o civismo, o patriotismo desappareceram de braços dados com a politiquice.[522]

No entanto, foram inúteis as manifestações  realizadas pelos meios de comunicação, pela Loja e pelos alunos. Sem dispor de maiores recursos, a escola foi rapidamente perdendo alunos até que, na sessão de 12 de fevereiro de 1904, o “venerável, com pesar, comunica: por falta de alumnos o Lyceu deixará de funcionar”.[523]

 

3.2. O GINÁSIO SOROCABANO                    

A reforma do ensino realizada pela República não contemplou a cidade com o curso ginasial público, em função de uma série de problemas políticos que envolviam os oligarcas de plantão.  

Coube, então, à iniciativa privada a criação desse tipo de curso, único caminho a ser percorrido por aqueles que desejavam ter acesso ao nível superior. Várias tentativas para a sua montagem foram realizadas.

Uma delas foi em 1909, com o surgimento do Ginásio Sorocabano, de propriedade de Cesar Lacerda Vergueiro, que faz anunciar no Cruzeiro do Sul:

A diretoria deste estabelecimento de instrução secundária, equiparado ao Ginásio Nacional, por decreto de 29 de março de 1909, comunica aos srs. interessados estar aberta até 17 do corrente, a inscrição para os exames de admissão ao curso ginasial, encerrando-se também nessa data a matrícula para o curso preliminar. Os referidos exames de admissão começarão a 19 do corrente.

           Preços:

     - curso preliminar       20$000

           - 1 e 2 anos ginasiais   25$000

           - 3 e 4 anos ginasiais   30$000

                     

           Internatos (semestre)

     - curso preliminar               400$000

     - 1 e 2 anos ginasiais         450$000

           - 3 e 4 anos ginasiais   500$000

Os alunos matriculados durante o presente ano ficam dispensados do pagamento de jóia. Os requerimentos  para admissão devem ser apresentados ao dr. Diretor até o dia 17 de corrente e acompanhados dos seguintes documentos:

a) certidão de idade ou documento equivalente;

b) certidão de vacina ou revacinação;

c) certidão de não sofrer o candidato de moléstia contagiosa ou infecto-contagiosa.

Os diplomas de bacharel em ciências e letras, conferidos pelo Ginásio Sorocabano dão direito à matrícula em qualquer dos cursos superiores da República, como sejam os de Direito, Medicina, da Escola Politécnica, Farmácia e Odontologia, etc. Para mais informação, com o dr. Antonio Augusto Covello, no Ginásio Sorocabano, a rua do Commércio, 40, antigo Club União.[524]

A escola começou com 26 alunos matriculados no 1º ano, 14 no 2º e 06 no 3º.

Compunham o currículo as seguintes disciplinas, com os respectivos professores:

 

1º anno – Portuguez – Zulmiro de Campos; Francez – Zulmiro de Campos; Arithmetica – Jose Rizzo; Desenho – Eugenio Joel e Geographia – Zulmiro de Campos.

2º anno – Portuguez – Jose Rizzo; Francez – França Junior; Arithmetica – Jose Rizzo; Desenho – Eugenio Joel; Geographia – Luiz Vergueiro; Inglez – Luiz Vergueiro e Algebra – França Junior.

3º anno – Portuguez – Arthur Gomes; Francez – França Junior; Inglez – Arthur Gomes; Latim – Arthur Gomes; Chosmographia – Luiz Vergueiro; Desenho – Eugenio Joel; Algebra – França Junior e Geometria - A. A. Covello.[525]

Numa tentativa de empolgar o aluno e ao mesmo tempo atrair outros, a escola faz publicar, em agosto de 1909, o jornal O Estudante, oficialmente um “sympatico orgam literário humorístico e noticioso do Gymnasio Sorocabano”. Era redigido pelo “intelligente alumno do 3º anno, sr. João Areosa Mendonça Cortez e contando com uma collaboração selecta, quer em prosa, quer em verso”.[526]

Para Heloisa de Faria Cruz, os jornais de escola

resultando em sua maioria, do trabalho de alguns professores e com uns poucos alunos, assumem uma feição literária tradicional, publicando poemas, pequenos artigos ufanistas sobre as datas pátrias e princípios de moral e civismo, crônicas de autoria dos alunos e professores. O jornalismo é transformado em gênero e fazer jornal escolar passa a constituir um exercício de aprimoramento das formas escritas. O jornal escolar é proposto como um estímulo aos jovens no campeonato da imprensa e em instrumento de exercício das lides do jornalismo.[527]

Os exames eram realizados no final do ano letivo. Os alunos interessados em fazê-los deveriam pedir “por meio de um requerimento selado com uma estampilha federal de 300 réis contendo as seguintes informações: nome do candidato, naturalidade, edade, filiação, anno em que está matriculado, materias, cujo exame pretende prestar”.[528]

Constavam os exames de uma prova escrita e várias provas orais. A prova escrita, no ano de 1909, foi realizada no dia 01 de dezembro e as provas orais nos dias 06, 07, 09, 10, 11, 13, e 14 do mesmo mês.

Os exames orais eram realizados por uma banca de três professores da própria escola: das 08h às 10h, depois, das 12h às 14h e das 15h às 16h, divididos por ano e disciplinas. O resultado era publicado no jornal, constando o nome do aluno, a disciplina e a nota obtida.

Ao final do ano letivo de 1909, a escola fez realizar a festa de encerramento, assim descrita pelo jornal:

 

Ás 9 horas da noite, presentes a directoria, o corpo docente, o corpo de alumnos, os paes dos alumnos, imnumeras e exmas. familias e estimados cavalheiros da nossa melhor sociedade, deu-se começo os trabalhos que foram seguidos de uma sessão literaria usando da palavra os seguintes alumnos: Armando Rizzo, Napoleão Baddine, senhorita Anna Zizina de Arruda, Salvador Quevedo e João Areosa Mendonça Cortez.

Em seguida usaram da palavra os lentes prof. França Junior e corl. Zulmiro de Campos. Ambos, com a competencia e eloquencia que lhes são peculiares chamaram sobre sua palavra cheia de ensinamentos a attenção do selecto auditorio.

Uma salva de prolongadas palmas abafou as ultimas palavras dos distinctos oradores. Não havendo quem mais usasse da palavra o sr. dr. Cezar Lacerda de Vergueiro mandou ler a acta dos trabalhos, dando por encerrada a sessão depois de convidar as pessoas presentes, não para uma festa, mas para acompanhar ao Gymnasio na intima satisfação que nelle reinava no momento, pelo facto de tão brilhantemente ter encerrado o seu primeiro anno lectivo.

Durante os trabalhos tocou a banda ‘Lyra Sorocabana’ que havia comparecido, e estando presente a ‘Orchestra de Repentinos’ deu-se começo a uma animadissima soirée que se prolongou ate pela madrugada.

O serviço de buffet e buvette esteve completo, nada deixando a desejar.

Pelas 2 horas da manhã as exmas. familias se retiram levando gratas recordações.

Ao terminarmos esta noticia, seja-nos licito consignar que a boa impressão que nos causaram os exames do Gymnasio, recentemente  feitos.

E essa optima impressão temos prazer em confessar, não foi isolada, particularissima. Todas as pessoas que assistiram a taes provas de adiantamento, sahiram satisfeitas com o bom resultado obtidos.

Do proprio fiscal do governo federal, sr. dr. Saturnino da Veiga, ouvimos as mais lisongeiras  apreciações sobre o ensino do Gymnasio Sorocabano dizendo-nos aquelle senhor ter excedido de sua expectativa o alto gráo de adiantamento notado em todos os alumnos, por occasião das provas.

A nós, entretanto, que vimos acompanhando ab anitio todo o movimento daquella importante casa de ensino; a nós que conhecemos de perto a competencia, o zelo, e a desmedida dedicação da digna directoria e illustre corpo docente do Gymnasio, tal exito muito longe de nos surprehender, vem apenas confirmar as nossas previsões.

E não era licito esperarmos differentes resultados sob os cuidados de seu fundador e proprietario o distintissimo moço sr. dr. Cezar Lacerda de Vergueiro, sob a direcção do estimado moço dr. Augusto Antonio Covello, cujas qualidades moraes e intelectuaes já são de todos os sorocabanos conhecidas e admiradas, e tendo o seu corpo docente constituido de pessoas de alta capacidade para tal fim como sejam os srs. major Arthur Gomes, prof. França Junior, corl. Zulmiro de Campos, prof. Jose A. Rizzo, Eugenio Joel, João Vieira de Campos e dr. Luiz Pereira de Campos Vergueiro – o Gymnasio Sorocabano ha de ser sempre um estabelecimento honroso sobre modo para o ensino secundario do Estado de São Paulo.

E quem tem mais razão para rejubilar-se com esse facto se não somos nós, se não é a imprensa local que deve ver com bons olhos o movimento do nosso progresso, que seja elle material, moral ou intellectual?

Sorocaba, cidade de tradições, uma joia do Estado de São Paulo, ha muito que se recentia de um estabelecimento de ensino secundario. Ella ahi o tem agora com um pouco de sacrificio da municipalidade, é certo, e nem podia deixar de ser assim, dadas as condições e a categoria do estabelecimento, ella ahi o tem de modo a disseminar o ensino util e proveitoso por entre a mocidade ruidosa do nosso centro offerecendo a toda zona sul paulista servida pela ‘Sorocabana’ vantagens de um Gymnasio equiparado ao Gymnasio Nacional.

Resta agora, tão somente, que o nosso povo, assim como os da circunvisinhança, saiba comprehender a utilidade do tal emprehendimento, levado a effeito com toda a probabilidade do mais satisfactorio exito.

A directoria, ao corpo docente e ao corpo de alumnos do Gymnasio, ao apresentarmos as nossas calorosas felicitações pelo resultado das provas de 1º epoca, fazemos votos para que tantos e tão dignos esforços sejam sempre coroados dos mais brilhantes resultados.[529]  

Os esforços da Prefeitura de que fala o jornal referem-se à Lei nº 83, editada para subvencionar a escola. Dizia a lei:

Artigo 1º - Fica concedido ao Gymnasio Sorocabano, dirigido pelo Dr. Cesar Lacerda Vergueiro uma subvenção pelo praso de dez annos, sendo que nos 5 primeiros annos essa subvenção sejão de R$ 7.200,00 annual e paga em quotas mensaes de R$ 600,00 de 1 a 5 de cada mez; no sexto anno a subvenção sera de R$ 6.000,00 e pagas em quotas de R$ 500,00 mensaes de 1 a 5 de cada mez; do sétimo ao décimo anno, a subvenção será de R$ 3.600,00 em mensalidade de R$ 300,00 de 1 a 5 de cada mez.

Parágrafo 1º - Esse pagamento mensal começa a vigorar desde o dia 1º de janeiro do corrente anno, nomeando-se por conseguinte essa data para a contagem dos dez annos.

Artigo 2º - O Gymnasio fica dispensado pelo dito praso de 10 annos de todos os impostos cabiveis do fisco, inclusive a taxa de agua e esgosto.

Caso não seja equiparado ao Gymnasio, findos os dois primeiros anos regulamentares ou si for cassado por qualquer motivo, após esse praso, o Gymanasio perdera o direicto dessa subvenção da forma do artigo 1º.

Artigo 3º - O Gymnasio comprometter-se-hão a ter durante os 10 annos gratuitamente 6 alumnos externos reconhecidamente pobres, indicados pela Prefeitura.[530]

O interesse da Prefeitura Municipal em ajudar essa escola particular explica-se pelo fato do Prefeito, cap. João Clímaco de Camargo Pires, pertencer à mesma oligarquia de seu proprietário.

Apesar do entusiasmo do jornal para com a escola, ela vai encerrar suas atividades em 1911, por falta de alunos[531] e envolvida em um incidente que abalou a cidade.

Passemos aos fatos:

A cidade de Sorocaba, pelos idos de 1910, estava politicamente dividida em dois grupos: de um lado a família Vergueiro, juntamente com Levy de Almeida, Achilles de Almeida, João Climaco de Camargo Pires, Elias Lopes de Oliveira; do outro, Ferreira Braga, Antonio de Oliveira, Francisco Loureiro, João Padilha, Melo Pedro. Disputando a hegemonia política local, as provocações corriam soltas de lado a lado e sob as mais variadas formas, principalmente através de artigos ou editoriais nos jornais representantes dos dois grupos, respectivamente, o Cruzeiro do Sul, que representava o primeiro grupo e A Cidade de Sorocaba, o segundo.

Um artigo publicado pelo jornal A Cidade de Sorocaba e atribuído a Antonio de Oliveira ofendera sobremaneira o advogado Augusto Antonio Cavello, que também era professor do Gymnasio Sorocabano, de propriedade de Cezar Lacerda de Vergueiro.

Na manhã do dia 20 de junho de 1910, fora Antonio de Oliveira, que era fiscal federal, ao Gymnasio Sorocabano tratar de uma questão envolvendo um aluno que, por influência do governo federal, pretendia ali estudar como interno, gratuitamente. No momento em que, sentado, conversava com o vice-diretor Zulmiro de Campos, adentra abruptamente a sala, Augusto Antonio Covello e agride a Antonio de Oliveira com um soco. Em meio à confusão estabelecida, Covello foge para a sua residência e ali permanece escondido.

Acalmados os ânimos, o vice-diretor manifesta-se “incommodadissimo ante o occorrido devido a factos estranhos ao funcionamento do Gymnasio”.

A partir desse momento, os acontecimentos vão se avolumando.

A agressão no interior da escola geraria uma reação potencializada em sua plenitude.

Na tarde do mesmo dia é “proffusamente espalhado” um boletim com o título de Ao Povo, assinado pela Junta Republicana[532], convidando os “correligionarios, os amigos e os sorocabanos que presam o seu brio e dignidade offendida por um forasteiro na pessoa do digno filho desta terra” para uma reunião a ser realizada, às 20 horas, no Largo da Matriz. O delegado de polícia é avisado.

Reunida “a enorme multidão”, são realizados vários discursos. Relata o jornal:

logo depois, formava-se um préstito compacto, extraordinario, cujos brados de enthusiasmo vivavam os chefes do nosso partido, vibrando de indignação contra o auctor da covardia da manhã e dos que o apoiavam no acto miseravel.

O préstito tomou a direcção da rua Padre Luiz onde, chegado a residencia do sr. Antonio de Oliveira, foi este objectivado pelos protestos do povo sorocabano mediante a palavra eloquentemente indignada do dr. Ferreira Braga, respondendo o manifestado com a narração de todo o occorrido e com o seu fervoroso agradecimento á prova de sympathia e de solidariedade de que era alvo.

Em seguida o préstito popular tomou a direcção da rua da Penha, por onde desceu, entrando na rua Monsenhor João Soares. Ao attingir a ultima casa aquem do predio, da redacção do orgam pasquim do municipio, a força policial, que desde a tarde, estivera alli postada, saiu da sua posição em frente á casa, desenvolvendo-se em ala para prohibir e obstar a passagem na rua. Ao sargento commandante da força, seis ou sete soldados armados de carabinas e com surpresa de todos levados ao hombro em alvo, os nossos chefes dr. Ferreira Braga e Francisco Loureiro, explicaram que queriam apenas passar, sem qualquer intenção de assalto e que não lhes podia ser vedada a passagem. Accrescia que ao nosso distincto chefe tinha sido notificado que o dr. Covello, o covarde aggressor, tinha ido para a casa de residencia do dr. delegado continuando lá. Como poderiam ter os manifestantes a intenção de atacal-o naquella redacção?

A muito custo, desdobrada a força novamente em frente ao predio em questão o povo passou rente ao lado direito da rua. Tinham todos passado já assim e attingiam a esquina da travessa do Theatro quando o primeiro tiro partiu da sacada do sobrado, onde se achavam armados de carabina Levy de Almeida, Achilles de Almeida e outros, achando-se em baixo à porta aberta propositalmente, armados igualmente de carabina e alvejando, o sr. João Climaco de Camargo Pires, Elias Lopes de Oliveira e outros capangas atrás, e as detonações nas costas do povo, succederam-se, batendo grande numero de balas nas paredes das casas da esquina referida. Ouviram-se incontinente gritos de feridos e de companheiros que anunciavam morte.

Na travessa Brigadeiro Tobias ou do Theatro, juncto à calçada, os assassinos do povo tinham preparado um fio electrico que descido na altura do homem, colhia os manifestantes, derrubando-os na atrapalhação da corrida.[533]

Foram feridas várias pessoas e três morreram: Lino Gonçalves, casado, com filhos menores de idade, operário da fábrica de chapéus Souza Pereira & Cia; Gastão de Almeida, solteiro, alfaiate e, Belmiro de Oliveira, solteiro, operário da Sorocabana Railway.

A cidade ficou envolta por forte comoção popular. O Estado destinou um delegado e trinta soldados, que chegaram em trem especial. Por vários dias a cidade viveu um clima de apreensão, ante os acontecimentos que poderiam ainda advir.

O Gymnasio Sorocabano, envolvido nesse emaranhado de situações, acabou fechando suas portas em 1911, por falta de alunos.

 

4. A IMPRENSA E A ESCOLA   

 

Embora a maioria da sociedade fosse constituída por analfabetos, a ação da imprensa era significativa entre os sorocabanos, devido à influência exercida não só sobre o comportamento da sociedade, mas também individuamente. A escola tem papel fundamental aqui.

Segundo Heloisa de Faria Cruz, “através da significativa expansão dos estabelecimentos de ensino particular, religioso e leigo e da instrução pública, cresce o processo de letramento da população, ampliando a rede potencial de leitores”.[534] O mesmo processo de expansão das escolas que ocorreu em São Paulo – a autora trata em seus estudos da sociedade paulista – ocorreu em Sorocaba.

Entre 1870 e 1910, a principal preocupação da imprensa é o fato político, que ocorre “em área restrita ocupada pelos políticos, por aqueles que estão ligados ao problema do poder. Assim, nessa dimensão reduzida, as questões são pessoais, giram em torno de atos, pensamentos ou decisões de indivíduos, os indivíduos que protagonizam o fato político”.[535]

Na cidade, as forças políticas, divididas em dois grupos - no Império com o grupo liberal e o republicano e na República com a situação e a oposição far-se-ão representar pela imprensa, o veículo mais adequado para a propagação das idéias. Utilizando-se da educação para atingirem os seus objetivos políticos, aqueles grupos procuravam, nos seus respectivos jornais, publicar quase que quotidianamente artigos e reportagens elogiando, criticando, reclamando, reivindicando, enfim, chamando a atenção para o estado em que se encontrava a escola.

Fundado em 1872, o jornal Ipanema publicava, em seu primeiro número, que queria “para si um logar no sol de Deus e dos homens bons uma palavra amiga” e que não “quebrava lanças por facção alguma dos que alternam-se no doce martyrio do poder ou da forçada abstinencia do desfavor”.[536] No entanto, seu proprietário, Manoel de Vasconcellos, “sorocabano de nascimento, era maçon, republicano e coronel da guarda nacional”.[537]

Crítico contumaz da política imperial, o jornal combatia o estado da escola na cidade, dizendo que “si alguém visitar as escolas públicas d'esta cidade, e vir que os meninos abafam em umas estufas, que não há bancos suficientes, nem mesas, nem livros, nem modelos; quem observar o descontentamento do professor e a tristeza do alumno, pensará que só aqui o ensino vae de rastos”. Comparando o ensino brasileiro com outros países, fazia acerbada crítica à elite, preocupada em manter as representações religiosas mais próximas de seus interesses, dizendo:

em 1850, existiam em Constantinopla, 400 escolas sustentadas por doações e legados dos particulares. E no Brazil, onde se deixa tanto dinheiro para capellas, irmandades, missas e foguetes, não consta que uma alma generosa se inspirasse no exemplo, não digo dos Estados Unidos, christão, mas da Turquia musulmana, para legar uns contos de réis á melhor obra pia que se conhece, á escola. A Turquia adaptou o systhema local e decretou o ensino obrigatório.

     Se não havia preocupação por parte da sociedade letrada em prover a escola de condições mínimas para o aprendizado também não havia, por parte do Estado, nenhum interesse para com o ensino público dirigido às camadas mais pobres.

A Província de São Paulo rejeitou no anno da graça de 1872, um projecto de ensino livre e apprendisagem obrigatória, porque alguns deputados entendiam que havia communismo, socialismo e não sei se christianismo, também, no a.b.c. sem licença do presidente da província; na taboada, sem o visto do inspector geral, e no bastardinho, sem fiscalisação do inspector de districto. Em vez de se occuparem com futilidades, como o ensino público, as Câmaras divertem-se em felicitar os ministros e presidentes da província, e em dar pêsames ao Papa.

     Sem poupar as forças políticas, acusava-as de fazerem uma leitura incorreta a respeito do significado da educação escolarizada:

as assembléias provinciais lêem pela mesma cartilha, e o que prova que vivemos no melhor dos mundos possíveis é a tocante uniformidade com que resolvem a mesma questão a assembléia unânime do partido liberal, e a assembléia unânime do partido conservador. É o mesmo sagrado horror pelo a.b.c. sem a licença, sem o regulamento, sem o imposto, sem o relatório. É a mesma previsão de que os meninos se filiarão a Internacional em detrimento das instituições juradas.

E viva o Brazil, que quer o progresso mais reflectido e moderado do que a Turquia.

A nossa escola vae de par com o nosso carro de bois, e como o manjolo, cuja invenção é disputada entre os portuguezes e os bugres.[538]

 

Mais tarde, o mesmo jornal publica outros editoriais, dando um panorama sombrio da escola pública sorocabana. Inicia o primeiro deles reclamando contra o número insuficiente de escolas:

é lamentável o estado em que conserva o nosso exemplar governo a instrucção pública do paiz, com especialidade nos logares mais centraes.

N’este município, sem dúvida um dos mais importantes do sul da província, onde há uma população superior a 13.000 habitantes, existem unicamente tres escólas primárias para o sexo masculino e duas para o feminino.

  E não é isso por falta de rogativas aos poderes competentes.

Nós, por mais de uma vez, temos tractado em nossas columnas d’esse importante assumpto; mas infelizmente, foram palavras soltas ao vento, tudo em pura perda.

À assembléia legislativa têm por vezes subido petições pedindo a creação de escólas em alguns bairros d’este município, inclusive uma no Sarapuhy do Salto, distante mais de seis léguas d’esta cidade e outra na Capella do Apparecido, onde existe número superior á 30 meninos no caso de freqüentar escóla. Para estas a assembleia, depois de continuos pedidos accedeu; porem, ate hoje ainda esta ella sem professor.

Nesta cidade, em principio do corrente anno, abriu-se a 3a. cadeira. Mandou o governo que fossem orçados e comprados alguns moveis indispensáveis para ella. O professor tem a ingenuidade de os comprar, e até hoje esta para ser embolsado d’essa miserável quantia!

  Será porque elle não tenha envidado exforços para seu reembolso?

  Não por certo. É o inveterado systhema do papelório usado em todas as secretarias d’este nosso malfadado paiz, o principal motor de todas estas cousas.

  Há dias parámos abysmados ante o espectaculo que se nos apresentou á vista em uma das escólas d’esta cidade.

  Afigura-se uma sala, que quanto muito terá 12 metros de quadrados, com alguns poucos e inmundos bancos de páu, onde se agrupavam cerca de 60 creanças, as quaes por não poderem estar todas assentadas, se conservavam em grande parte de pé.

E essas creanças poderão porventura aprender satisfactoriamente em um logar onde lhes falta as principaes cousas, isto é, o ar, o aceio, a commodidade, etc?  

       Mas como não ser assim, si o professor tem de tirar de seu minguado ordenado (cerca de 80$000) o aluguel da casa que não será menor de 24$000?

Ainda é bom quando esse pingue ordenado é ponctualmente pago.

  Ouvimos, não ha ainda muitos dias, de pessoa, aliás habilitadíssima que os pagamentos eram geralmente feitos de seis em seis mezes, e isto mesmo na capital vendo-se por isso o pobre professor na dura contingência de ahi construir um procurador, a quem tem de pagar pelas continuas idas ao thesouro, uma porcentagem.

  Seis mezes de atraso para quem muitas vezes, sem outros recursos de que lançar mão ao chegar o último dia do mez, vê sahir de sua magra gaveta o seu último vintém!

 

Criticando a autoridade máxima do país, que, ao visitar uma escola não gostara do que vira, o articulista chama a atenção para o fato de que, naquele dia, a escola fora maquiada para bem impressionar o visitante.

O Sr. Pedro II, apesar de pouco caso que costuma fazer d’essas pequeninas cousas, quando se dignou visitar-nos, quiz vêr as escólas d’esta cidade, e foi sem duvida grande a impressão que causou-lhe o estado em que se achou, que deu mostra de desagrado.

       Cumpre, porém, notar que n’esse dia, para a boa recepcção do real visitante, tudo era galas.

  Os inmundos bancos foram burnidos á casca de coco, o assoalho lavado, e na mesa professoral ostentavam-se lindos vasos com bellas flores, talvez que para encobrir o máu cheiro que necessariamente devia exhalar das elegantes cuspideiras (as paredes), claras como o mais claro mármore...preto.

 

                        Declinando a culpa ao professor, o jornal debita toda a responsabilidade pelo estado deplorável em que se encontrava o ensino ao poder público, acusando-o de usurpador e descuidado, no trato com a educação escolarizada:

Não se pense que em nossas palavras vae uma censura ao professorado d’esta cidade. Não. Á elle não compete o fornecimento de moveis para a escola, e sim ao governo a quem pagamos muitos e muitos impostos. Para elle todas as garantias são insufficientes.

     Si não pagamos no devido tempo espera-nos um executivo em 24 horas.

E para o pobre professor?

     Oh! a esse cabe a falta de pagamento de seu pingue ordenado.

     Não ha dinheiro, diz o governo.

     Sim, não ha, é verdade, para a instrucção do povo porque é necessario que elle ignore seus direitos: não ha para aquelle que sacrificasse em bem o servir; porém, si se tractar de afilhados, então correm rios de dinheiro. Então torna-se o thesouro inexgotavel. Sob qualquer pretexto suas enormes gargantas são saciadas, e, para isso as commissões estão hoje na ordem do dia.

  Já seguiu, ou deve seguir brevemente para os Estados Unidos, um professor do collegio de Pedro II, com o fim official de ahi estudar a instrucção publica.

  O que não trará esse novo sangue suga?

  Grande papelório narrando suas impressões de viagem, e sobre o assumpto principal, sobre aquillo que o thesouro abriu-lhe talvez credito illimitado, sobre esse ponto...nada!

  E com isso dá o governo por cumprida a sua missão e para contrapeso far-lhe-á mercê de uma commenda, pelo minimo que fez a benefício da instrucção publica do paiz, passeando á causa dos cofre publicos.[539]

 

Esse jornal, transformado em diário, passou a “chamar-se Diario de Sorocaba desde 1880”.[540]

João José da Silva, em 1891, editava o jornal  O Alfinete, transformado, em 15 de novembro, em O 15 de Novembro. Dizia em sua apresentação que de seu programa constava lutar com os seus “meios e recursos pelas ideias democraticas, censurando aquillo que nos parece digno de censura, não regateando encomios aos que julgamos merecedores de nosso applausos”. Procurava “acclarar os espiritos em meio a confusão, que ora reina, empregando todas as forças possiveis para destruir as accusações que se fazem sem fundamento ao governo actual”, acusações responsabilizando-o como o “grande culpado da crise penosa que atravessamos”. Daí “o nosso fim” e, “por isso o titulo d’O 15 de Novembro”, que “ja define claramente seu programma”.[541] O jornal não perdia uma oportunidade de criticar os elementos componentes do grupo da oposição. Um de seus alvos prediletos era o professor Joaquim Izidoro Marins, aqui denunciado por exercício comercial em prédio escolar:

 

preferimos sempre os termos brandos. Eis aí o motivo por que epigrafamos esta noticia de – irregularidade. O caso verdadeiramente reclamava expressão mais enérgica.

Senão, atentem os leitores no que vão ler. Existe no Grupo Escolar desta cidade, um professor que prevarica, que feri um  preceito salutar do magistério; um professor que nas horas vagas ou antes nas horas que não está ocupado nos seus afazeres profissionais, se dá a alta recreação de negociar (seria mais justo talvez o verbo atravessar). O referido cidaddão vende aos seus alunos papel e muitos objetos escolares.

Podiamos dizer que o fato constitue um abuso condenável, um esquecimento e até um desprezo de profissão; averbamo-lo, porém, simplesmente como uma irregularidade. De fato não é regular que o Sr. Joaquim Izidoro Marins, professor do 2º ano de nosso Grupo, introduza entre nós a péssima prática do mercantilismo no magistério.

Resta agora que concordando com os nossos conceitos, ache o digno diretor do Grupo que não estamos a mofinar, que temos razão e que é do seu dever cortar a anomalia.[542]

Nesse ano, existiam na cidade apenas dois estabelecimentos comerciais que vendiam material escolar: o de José Basílio de Oliveira, localizado à Rua Floriano Peixoto, que comercializava também “ferragens, vidros, drogas e açucar” e a “Livraria, Papelaria e Tipographia de M. Silva & Comp., localizada a rua de São Bento”.[543] É possível que, ao vender material escolar, o professor tenha se colocado como uma opção a mais, além de ter encontrado um meio para suplementar o seu irrisório salário.

A aparição do jornal Cruzeiro do Sul está ligada às lutas ocorridas em 1903, em função da dissidência do PRP no Estado e por extensão, em Sorocaba. Joaquim Firmino de Camargo Pires, liderando um grupo de amigos, resolveu enfrentar politicamente o grupo liderado pelo intendente José de Barros e pelo presidente da Câmara, Luiz Nogueira Martins. Para consolidar essa ruptura, fundou um jornal para dar apoio estratégico na disseminação ideológica do novo grupo. Nele, abria amplos espaços para criticar a falta de escolas. Chegou a fazer campanha para a implantação de um Ginásio na cidade. Mas a campanha onde mais se empenhou foi realizada em 1912, para trazer a Escola Normal para a cidade, quando mobilizou parcelas importantes da sociedade.

No primeiro artigo, para obter o apoio popular, dizia com otimismo que, ao iniciar o movimento pela criação da “Escola Primária Normal”, tinha “quase certeza” de que a idéia seria vencedora, devido, sobretudo, à nobreza e utilidade da mesma, já que a população se “batia ao lado e procurava todos os meios para que essa idéia fecunda, esse desejo enorme se tornasse realidade, nada mais justo de que a cidade fosse contemplada com essa escola”. A fim de justificar tal pretensão, utilizava-se de vários recursos, inclusive o da comparação, onde mostrava a arrecadação de várias cidades - Guaratinguetá, Botucatu e Pirassununga - que dispunham de suas Escolas e que, segundo o quadro comparativo, estavam aquém de Sorocaba.[544] Em outro artigo, salientava a importância da “criação e instalação de um desses estabelecimentos” e a “grande vantagem que traria para o Estado, em vista do crescente progresso que vai nossa localidade”[545] e que a distância, tanto de Itapetininga quanto de São Paulo, “jamais lhes faria concorrência”.[546] Apelando para a emoção, dizia que “os povos procuram o bem-estar, nem tanto próprio, mas como receptores de seus filhos. E, como uma soberana nesses preparativos contemporâneos está a instrução popular”. Nela encerra-se “o 'maximun' do porvir civilizador e por ela nós, que temos em poder a educação vinda dos nossos pais, devemos imitar o exemplo e fazer tudo pelos que daqui a pouco serão também os responsáveis pela sua cultura”.[547] Reconhecendo a nobreza e ao mesmo tempo a insensatez do ato praticado no passado, diz que “de fato, Sorocaba ainda não tem uma Escola Normal Primária, embora, porque em 1893, cedeu o seu direito a Itapetininga.[548] Nisso andou muito bem, beneficiando a um povo amigo, a uma cidade amiga, a uma zona importante que muito carecia de animação de progresso”; diz também que, naquela época, Sorocaba “estava no fastígio do seu progresso industrial, pois já funcionavam muitas fábricas e o comércio industrial particular convergia vistas argutas para o nosso centro privilegiado”. Revelando completa insensibilidade e uma reflexão desvirtuada sobre o significado da educação, prosseguia argüindo “que a escola naquele época não era elemento primordial, indispensável para o nosso progresso. Este se impunha pela indústria”. Reconhecendo o disparate da análise, admitia que “atualmente, apesar dos grandes e incomparáveis progressos da indústria, a vida urbana reclama e precisa de uma Escola Normal a fim de que esse mesmo progresso e essa mesma indústria possam progredir (permitam a expressão) possam proliferar os esforços dos nossos cidadãos”.[549] O engodo político não conhecia limites. O deputado estadual “dr. Campos Vergueiro”, durante a campanha encetada pelo jornal, assumia, perante a Câmara Municipal, o compromisso de “continuar a trabalhar junto aos poderes constituintes do Estado, cada vez com mais empenho, para que a justa ambição do povo sorocabano de possuir um estabelecimento em que a sua juventude e a dos municípios vizinhos possam se ilustrar, torne-se dentro em pouco uma realidade”.[550] Entretanto, em 18 de outubro de 1912, na seção da Câmara dos Deputados, o mesmo deputado, durante as discussões, apresentava o projeto de Lei nº 29, em que pedia a criação de quatro escolas 'preliminares', e somente elas, para a cidade. O desprezo pela expansão do ensino fazia-se sentir com toda a sua força. E, se não bastasse, o jornal fazia a defesa do deputado, enaltecendo-o como o mais lídimo representante do povo:

não é de hoje que o nosso incansável representante da Câmara dos Deputados vem trabalhando infatigavelmente pela instrução pública e fazendo criar escolas primárias no município e distritos que representa. Vê-se que o jovem parlamentar está decidido a trazer o progresso e o adiantamento para esta opulenta zona do Estado e cada vez mais o distinto deputado e político sorocabano atrai sobre si a admiração e a simpatia da população sorocabana que já o tem mesmo na conta de um de seus mais ilustre e dedicado filho.[551]

A campanha do jornal termina nesse dia. Somente em 1929, já no governo de Júlio Prestes de Albuquerque, é que a cidade será contemplada com uma Escola Normal, que hoje leva o seu nome. Até então, os alunos interessados no curso de Magistério tinham, necessariamente, que se deslocar ou para Itapetininga ou para São Paulo, as duas cidades mais próximas.[552]

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 Nosso propósito com esta pesquisa foi o de contribuir para o estudo da realidade educacional brasileira, enfocando particularmente, a situação da escola em Sorocaba, num momento importante da educação pública no Estado de São Paulo quando se passava do período imperial para o republicano.

Em Sorocaba no último quartel do século XIX é possível notar diversos movimentos políticos, econômicos e sociais em ebulição: a expansão do comércio, o crescimento da urbanização, o desenvolvimento industrial, a diversificação da produção do campo, o aumento da complexidade nas relações políticas, a migração da elite rural para a cidade, o aparecimento da elite urbana-industrial, a reestruturação da malha urbana, a organização dos atores sociais reivindicando um elenco de aspirações, são todos elementos que pressionam o poder público. Diante deles, a cidade passa por um processo transformatório, no qual a escolarização ocupava proeminente lugar.

Em tal contexto, dois momentos demarcaram a educação escolarizada em Sorocaba: a escola isolada e o grupo escolar. A escola isolada, criação do governo imperial, perdurou na cidade até 1890, subdividida em duas vertentes metodológicas: uma minoria de professores, insistentemente adotava o antigo e desgastado método lancasteriano, enquanto que outros trabalhavam com o método intuitivo. Com a República, subsidiada pela discussão que se fazia em nível nacional e estadual sobre a adoção do método intuitivo, que por sua vez era adotado nos Estados Unidos e nos países mais adiantados da Europa, a política educacional sorocabana inicia um processo de discussão sobre a renovação do ensino. Entendia-se que tal renovação dependia essencialmente da aplicação de alguns princípios da chamada pedagogia moderna, intimamente relacionada ao método intuitivo e às lições de coisas. Este método era totalmente inovador, abrangendo diversos aspectos da escola primária, especialmente sua organização administrativo-pedagógica e também a estrutura arquitetônica do prédio.

A normatização desse tipo de escola se processou através da prática de uma cultura escolar produzida tanto pelos profissionais, quanto pelos agentes da escola, a partir da apropriação das tradições. Nesse processo, os relatórios dos inspetores, diretores, professores e políticos, compõem-se de indicadores de extraordinário valor, pois permitem-nos perceber as representações escolares produzidas naquele espaço de mediação existente entre a sala de aula e as políticas praticadas.

Para entender a produção desse espaço e das representações elaboradas pelos sujeitos específicos, foi de fundamental importância tematizar não só as questões de gênero, mas outras, a partir da relação entre homens e mulheres, isto é, entre professores e professoras, alunos e alunas, que configuram as relações socioculturais de poder.

Na construção das representações escolares, os profissionais da educação e os agentes produzem os mesmos discursos, tanto em um período quanto em outro, o que nos permite identificar a superioridade ou não de um sobre o outro, através da exaltação de suas realizações, ao mesmo tempo em que silenciam sobre as desigualdades que separam o ensino público primário e a população sorocabana.

Com a institucionalização do grupo escolar, que representa uma das faces do projeto republicano de modernização da sociedade, destaca-se a construção das representações escolares, que pretendia estreitar relações dos grupos escolares com a eficiente organização do trabalho capitalista e a modernização pela qual passava a cidade.

Ao tentar reconstruir os caminhos percorridos pela escola, nos espaços intersticiais da cidade, observamos que não apenas refletem as desigualdades da mesma, mas também as formas discriminatórias com que a elite sorocabana administrava o município. Se de um lado os processos de urbanização e industrialização decorrentes do desenvolvimento capitalista subverteram o crescimento do centro para a periferia, de acordo com seus interesses, o mesmo não aconteceu com os serviços públicos, especialmente com a educação escolarizada, sobre a qual tinha total controle.

Em se tratando da radicalização do tempo escolar enquanto elemento pontual para se entender as ações escolares, é possível observar a existência de inúmeros momentos em que as dinâmicas interiores agiam mutuamente com os processos socioculturais mais amplos. Aqui se entrecruzam as políticas de controle com a eficiência do ensino, nos mais variados momentos da prática escolar.

Um outro elemento marcante é a produção de identidades pessoais e profissionais das pessoas diretamente ligadas à escola: trata-se dos inspetores, diretores e professores. Movimentando-se entre eles está o caráter essencialmente organizador da escola e do ensino. Cabia-lhes atualizar, pela sua competência técnica, e definir claramente a função do profissional docente, situado no interior de uma instituição que tinha o aluno como categoria histórico-social central nas práticas pedagógicas.

Na formação dessa identidade, e se tornando presente no cotidiano escolar, está uma escola, que busca produzir seu próprio saber, a partir dos requisitos preestabelecidos pela legislação escolar, através de seus profissionais.

Um dos elementos mais importantes desse processo foi o estabelecimento, a partir e com os grupos escolares, do ensino graduado, criando as condições para uma crescente homogeneização dos alunos, para um maior controle do trabalho docente, num ensino que tinha como pressuposto a disseminação da escola de massa.

Igualmente importante é o processo de reflexão das práticas pedagógicas escolares, que são objetos de detalhamento cada vez maior pelo legislador, mas tendo, como parâmetro, a metodologia representada pelo ensino intuitivo, que representava uma nova forma de abordar e entender o processo de ensino-aprendizagem. Concomitantemente, afirmava-se ser preciso ter mais sensibilidade, em presença dos alunos, aos seus ritmos e necessidades, visto ser o princípio indutor da escola e do ensino moderno.

Esse ensino pressupunha um bom professor. E foi motivo de preocupação dos profissionais da educação escolarizada, que buscava muni-lo de conhecimento para melhor atender às supostas expectativas e necessidades da clientela escolar. Aqui percebe-se que, nas disputas em torno do conhecimento pedagógico e metodológico, havia não apenas um alargamento e uma complexidade das finalidades debitadas à educação escolarizada, mas também que esta busca ocorreu através de um lento, mas progressivo detalhamento e controle dos conhecimentos oficializados, propostos para serem colocados em prática em sala de aula.

A educação escolarizada em Sorocaba, seja no período imperial, seja no republicano, não atendeu em nenhum momento às necessidades da população. Ambiciosa e prepotente, com o objetivo de redimir uma população amorfa, indolente, que necessitava ser civilizada pela ação moralizadora e disciplinadora da educação, segundo os preceitos republicanos, essa escola constituiu-se em enorme fracasso.

O único grupo escolar implantado na cidade, no período estudado, não conseguiu acompanhar a demanda pela educação elementar. Tornou-se, contraditoriamente, por tal motivo, uma escola de prestígio. Atendendo a uma população heterogênea, deixou de fora, no entanto, negros, pobres e miseráveis. Essa situação requer um olhar atento para os aspectos propagandeados de uma escola democrática, mas que, na realidade, foi tão segregacionista quanto a imperial.

O conluio envolvendo os profissionais do ensino e a  política hegemônica contribuíram para que tal situação se consolidasse.

 

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A Voz do Povo – (1875 – 1876)

A Voz do Povo – (1892 – 1898)

A Voz do Padilha – (1949 – 1954)

Colombo – (1876 – 1878)

Cruzeiro do Sul – (1903 -    )

Diário de Sorocaba - (1880 - 1892)

Diário de Sorocaba – (1900 – 1910)

Diário de Sorocaba – (1914 – 1916)

Diário de Sorocaba - (1957 -     )

O Alfinete – (1891 – 1892)

O Defensor – (1852 – 1854)

O Monitor – (1856 – 1857)

O Operário – (1909 – 1913)

O 15 de Novembro – (1892 – 1906)

Ypanema – (1872 – 1892)

 

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RELATÓRIOS:

-          dos Presidentes da Província de São Paulo – 1811, 1878.

-          do Conselho de Instrucção Publica da Provincia de São Paulo – 1875.

-          dos Professores e Directores das Escolas de Sorocaba – 1846, 1870, 1871, 1872, 1876, 1877, 1881, 1884,  1897, 1899, 1901.

-          dos Inspectores do Districto da Instrucção Pública de Sorocaba – 1853, 1870, 1871, 1880, 1882, 1883, 1893, 1895.

- do Inspector Geral da Instrucção Publica de São Paulo – 1854, 1856, 1857, 1871, 1876.

- do Inspector Geral Interino da Instrucção Publica de São Paulo – 1856.

-          dos Inspectores Escolar da Instrucção Publica – 1856, 1900, 1901.

-          do Intendente Municipal – 1895.

-          do Amanuense da 1ª Secção da Secretaria Geral da Instrucção Pública do Estado de São Paulo - 1896

-          do Diretor da Escola Normal – 1890.

 

ENTREVISTAS:

-          com a Prioresa do Colégio Santa Escolástica – 1997.

-          com Afonso Celso de Oliveira, ex-aluno do Colégio Santa Escolástica - 1998.

 

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NOTAS


[1]Em 1896 a cidade possuía quatro fábricas têxteis: Indústria Têxtil Nossa Senhora da Ponte, fundada em 1882; Indústria Têxtil Votorantim, fundada em 1890; Indústria Têxtil Santa Rosália, fundada em 1890 e Indústria Têxtil Santa Maria, fundada em 1896. Fontes, Jornais: Ypanema, O 15 de Novembro, Diário de Sorocaba e Cruzeiro do Sul. Livros: Almeida, Aluísio de. História de Sorocaba. Sorocaba,SP:Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, 1969. Do mesmo autor: Estudos Regionais Paulista. Piracicaba,SP:Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, 1989.

[2]Sorocaba, em 1872, apresenta-se como um pequeno núcleo interiorano de 12.999 habitantes e, em 1920, a cidade já adquire feições de um importante centro urbano com 40.600 habitantes. In Recenseamentos do Brasil de 1872 e 1920. RJ:Typ. do Estado.

[3]GASPAR, Antonio Francisco. Sorocaba de Ontem. s.ed. 1954, p. 207-208, e ALMEIDA, Aluísio de. Op. cit., p. 279 e segs.

[4]CARVALHO,  Marta Maria Chagas de.  A Escola e a República. SP:Brasiliense, 1989.

[5]NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. SP:EPU;RJ:MEC, 1976.

[6]TANURI, Leonor Maria.  O Ensino Normal no Estado de São Paulo. 1890-1930.  SP:FEUSP, 1979.

[7]SOUZA, Rosa Fátima de. Templos de Civilização: a Implantação da Escola Primária Graduada no Estado de São Paulo: 1890-1910. SP:UNESP, 1998.

[8]AZEVEDO, Fernando de. A Cultura Brasileira. 6.ed. RJ:UFRJ; Brasília:UnB, 1996.

[9]MANOEL, Ivan Aparecido.  Igreja e Educação Feminina (1859-1919). Uma Face do Conservadorismo. SP:UNESP, 1996.

[10]FARIA FILHO, Luciano Mendes de.  “Dos Pardieiros aos Palácios”: Forma e Cultura Escolares em Belo Horizonte (1906-1918) Tese de Doutorado. Faculdade de Educação:USP, 1996.

[11]MORAES, Carmen Sylvia Vidigal.  O Ideário Republicano e a Educação: o Colégio “Culto à Ciência” de Campinas (1869 a 1892). Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação:USP, 1981.

[12]BARBANTI,  Maria Lucia Spedo Hilsdorf.  Escolas Americanas de Confissão Protestante na Província de São Paulo: um Estudo de suas Origens.  Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação:USP, 1977.

[13]RODRIGUES, João Lourenço. Um Retrospecto. Subsídios para a História Pragmática do Ensino Público no Estado de São Paulo. SP:Instituto D. Anna Rosa, 1930.

[14]RODRIGUES,  C.R., Leda Maria Pereira. A Instrução Feminina em São Paulo. Subsídios para sua História até a Proclamação da República. SP:Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae”, 1962.

[15]Alguns jornais encontram-se em péssimo estado devido a precariedade para a sua conservação.

[16]Latas de ordem 4.980, 5.110, 5.111 e 6.798. Instrucção Publica. Arquivo do Estado.

[17]Editorial do jornal O Sorocabano. Anno I, nº 01, 13/02/1870, p. 01.

[18]Editorial do jornal Ypanema. Anno I, nº 01, 25/04/1872, p. 01.

[19]Almanaque de Sorocaba. s.ed., 1950. p. 37.

[20]ALMEIDA, Aluísio de. História de ... Op. cit., p. 218.

[21]Editorial do jornal O 15 de Novembro. Anno I, nº 01, 15/11/1892, p. 01.

[22]Editorial do jornal O Operário. Anno I, nº 01, 18/07/1909, p. 01.

[23]Idem, ibidem.

[24]Brasil. Constituição de 1824. Artigo 179.

[25]SUCUPIRA,  Newton. O Ato Adicional de 1834 e a Descentralização da Educação. In FAVERO, Osmar (org.). A Educação nas Constituintes Brasileiras 1823-1988. SP:Autores Associados, 1996. p. 66.

[26]Idem, ibidem.

[27]CURY, Carlos Roberto Jamil. A Educação e a Primeira Constituinte Republicana. In FAVERO, Osmar (org.). Op. cit., p. 75.

[28]Idem, ibidem.

[29]São Paulo. Decreto nº144-B de 30 de dezembro de 1892. Artigo 42. Coleção das Leis e Decretos do Estado de São Paulo. Tomo II. 3.ed. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1940.

[30]Idem. Artigo 44, parágrafos 2º e 7º.

[31]São Paulo. Lei nº 1750 de 8 de dezembro de 1920, que reforma a Instrução Pública do Estado. Coleção das Leis e Decretos do Estado de São Paulo. Tomo XXX. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1940.

[32]São Paulo. Decreto nº 3.356 de 31 de maio de 1921, que regulamenta a Lei nº 1750, de 8 de dezembro de 1920, que reforma a Instrução Pública. Artigo 33. Coleção de Leis e Decretos do Estado de São Paulo. Tomo XXXI. 3.ed. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1939.

[33]Idem. Artigo 44, item 15.

[34]São Paulo. Lei nº 88 de 08 de setembro de 1892. Coleção das Leis e Decretos do Estado de São Paulo. Tomo II. 3.ed. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1940.

[35]São Paulo. Decreto nº 248 de 26 de junho de 1894.  Regimento Interno das Escolas Públicas do Estado de São Paulo. Collecção das Leis e Decretos do Estado de São Paulo. Tomo IV. Imprensa Official do Estado de São Paulo, 1918.

[36]As creanças e as escolas. Jornal O 15 de Novembro. Anno VI, nº 485, 19/12/1897, p. 01.

[37]São Paulo. Decreto nº 248 de 26 de julho de 1894. Regimento Interno das Escolas Públicas do Estado de São Paulo. Artigo 82, parágrafo 2º. Collecção das Leis e Decretos do Estado de São Paulo. Tomo IV. Imprensa Official do Estado de São Paulo, 1918.

[38]Brasil. O Recenseamento de 1890 registrou em Sorocaba 17.068 habitantes. Deste total, 13.976 eram analfabetos.

[39]SOUZA, Rosa Fátima de. Op. cit., p. 91.

[40]São Paulo. Decreto nº 248 de 26 junho de 1894.  Regimento Interno das Escolas Públicas do Estado de São Paulo. Collecção das Leis e Decretos do Estado de São Paulo. Tomo IV. Imprensa Official do Estado de São Paulo, 1918. 

[41]SOUZA,  Rosa Fátima de. Op. cit., p. 31.

[42]Idem. p.30-31.

[43]Somente em 1929 é que seria inaugurada a primeira Escola Profissional em Sorocaba. In OLIVEIRA, Afonso Celso de.  Tudo começou na escola profissional. Sorocaba,SP:Conselho Municipal de Cultura, 1995.

[44] Estes imigrantes vieram, incialmente para trabalhar na Fábrica de Ferro de São João do Ipanema. A este respeito ver MENON, Og Natal. A Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema e seu Mundo. 1811-1835. Dissertação de Mestrado. PUC/SP, 1992.

 

[45]FERNANDES, Florestan.  Educação e Sociedade.  SP:Dominus, 1966. Capítulo 2. A Escola e a Sociedade. p. 69-83.

[46]ALMEIDA, Aluísio de. História de ... p. 45. Ver também Antiguidade Sorocaba. Jornal O Sorocabano. Anno I, nº 31, 26/09/1870, p. 01.

[47]ALMEIDA, Aluísio de. Op. cit.,  p. 6l.

[48]Idem, p. 166.

[49] Brasil. Recenseamento do Brasil de 1872.

[50]Brasil. Recenseamento do Brasil de 1890. V. 656.

[51]Há uma pequena divergência entre este número e o levantado pelo Recenseamento de 1920 que registrou 43.329 habitantes.

[52]Relatório Anual da Prefeitura Municipal de Sorocaba. Instrucção Publica. Jornal Cruzeiro do Sul. Anno XVI, nº 3.787, 15/01/1919, p. 02-03.

[53]Brasil. Alvará de 29 de junho de 1759.

[54]ALMEIDA, José Ricardo Pires de. Op. cit., p. 37.

[55]Relatório do professor da 2ª Cadeira de Sorocaba, Venancio Jose Fontoura ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 15 de agosto de 1870. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[56]Relatório do Inspector do Districto Messias Jose Correa ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 26 de outubro de 1870. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[57]ALMEIDA, Aluísio. História de ... Op. cit., p. 282.

[58]“Lousas – 24, sendo 12 quanto maiores; lages de pedras ( q. é o q. mais se gastão) 6 massos; canetas pequenas para as pontas dos lapis – 16; alguns translados de cursino maior e menor; exemplares das boas maximas para leitura”. Relatório do professor de 1ª Aulas de 1ª Letras, Jacinto Heliodoro de Vasconcellos aos Membros da Commissão Inspectora. Sorocaba, 12 de dezembro de 1846. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[59]Relatório do professor de 1ª Aulas de 1ª Letras, Jacinto Heliodoro de Vasconcellos aos Membros da Commissão Inspectora. Sorocaba, 12 de dezembro de 1846. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[60]Relatório do Inspector Geral Interino da Instrucção Publica, Dr. Ildefonso Xavier Ferreira ao Governador da Provincia, Dr. Francisco Diogo de Vasconcellos. Sorocaba, 24 de novembro de 1856. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[61]Relatório do Inspector do Districto, Messias José Correa ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 26 de outubro de 1870. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[62]Relatório da professora da 2ª Cadeira, Januaria de Oliveira Simas ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 26 de outubro de 1870. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[63]Relatório do professor José Ribeiro d’Escobar ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 02 de novembro de 1884. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[64]Relatório do professor Padre Antonio Augusto Lessa ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Antonio de Campos Toledo. Sorocaba, 16 de novembro de 1882. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[65]Relatório do Inspector do Districto, Antonio Gonzaga Seneca de Sá Fleury ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 08 de maio de 1883. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[66]Relatório do Inspector de Districto, Antonio Gonzaga Seneca de Sá Fleury ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Antonio de Campos Toledo. Sorocaba, 14 de novembro de 1882. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[67]Relatório do Inspetor Geral da Instrucção Pública da Província de São Paulo, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. In ESCOBAR, José Ribeiro. Op. cit., p. 166.

[68]Jornal O Defensor de 03/12/1852 e 17/12/1852.

[69]Relatório do Presidente da Província de São Paulo, Dr. João Baptista Pereira. In RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 104-105.

[70]Relatório do Inspector de Districto da Instrucção Publica, Antonio Gonzaga Seneca de Sá Fleury ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Antonio de Campos Toledo. Sorocaba, 14 de novembro de 1882. Arquivo do Estado. Ordem 5.110. A denominação cadeira tem o mesmo significado que ano.

[71]Fontes: Jornal Diário de Sorocaba de 21/03/1878, 12/04/1878, 22/05/1878, 09/11/1878, 21/12/1878, 18/06/1882, 20/07/1882 e 31/08/1882.

[72]Relatório do Inspector Geral Interino da Instrucção Publica, Ildefonso Xavier ao Presidente da Provincia, Francisco Diogo de Vasconcellos. Sorocaba, 24 de novembro de 1856. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[73]Idem, ibidem.

[74]Relatório do Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto ao Presidente da Provincia, Dr. Josino do Nascimento Silva. São Paulo, 19 de novembro de 1854. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[75]Relatório do Inspector Geral Interino da Instrucção Publica, Ildefonso Xavier ao Presidente da Provincia, Francisco Diogo de Vasconcellos. Sorocaba, 24 de novembro de 1856. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[76]Relatório do Inspector Escolar (não há identificação do mesmo) ao Presidente da Provincia, Dr. Francisco Diogo de Vasconcellos. Sorocaba, 24 de Novembro de 1856. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[77]Relatório da Professora Januaria de Oliveira Simas ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. s.d. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[78]Relatório do Inspector do Districto de Sorocaba, Messias José Correa ao Inspector Geral de Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba 29 de outubro de 1871. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[79]Relatório do Professor Venancio José Fontoura ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 20 de abril de 1871. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[80]Carta do professor Venancio José Fontoura ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 04 de novembro de 1875. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[81]Relatório do professor Venancio José Fontoura ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 20 de abril de 1871. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[82]Preços correntes na praça. Jornal Ypanema. Anno I, nº 03, 07/05/1872, p. 03.

[83]Relatório do Inspector do Districto, José Francisco Uchoa Carvalho ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 23 de outubro de 1875. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[84]Mercado de Sorocaba. Jornal Ypanema. Anno IV, nº 244, 22/12/1875, p. 03.

[85]Relatório do Inspector do Districto, José Francisco Uchoa Cavalcanti ao Inspector Geral da Intrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 26 de janeiro de 1875. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[86]Relatório do Conselho da Instrucção ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 17 de fevereiro de 1875. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[87]Relatório do Presidente da Província de São Paulo, Dr. João Baptista Pereira, 1878. In RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 102-105.

[88]Idem. p. 105.

[89]RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 105-106.

[90]Idem. p. 106.

[91]Relatório do Inspetor Geral do Ensino Público da Província de São Paulo, Dr. Francisco Aurélio de Souza Carvalho. In RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 71-72.

[92]Idem, ibidem.

[93]Relatório da professora particular,  Gertrudes do Amaral ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, s.d. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[94]Relatório da diretora do Collegio de Sorocaba, professora Annita Guilhermina Wilke ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 14 de novembro de 1876. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[95]Relatório do professor da 3º Cadeira, Fidelis de Oliveira ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 01 de junho de 1877. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[96]Relatório do Inspector de Districto, Antonio Gonzaga Seneca de Sá Fleury ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Antonio de Campos Toledo. Sorocaba, 11 de novembro de 1882. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[97]Relatório do professor da 1ª Cadeira, Manoel Joaquim de Souza Guesca ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 03 de maio de 1884. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[98]Relatório do professor da 2ª Cadeira, Venancio José Fontoura ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 20 de abril de 1871. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[99]Relatório do Inspector do Districto, Antonio Gonzaga Seneca de Sá Fleury ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 30 de outubro de 1880. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[100]Relatório ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sem nome do professor e sem data. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[101]Relatório do Inspector do Districto, Messias José Correa ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 29 de outrubro de 1871. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[102]Relatório do professor particular, J. P. Chagas ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 30 de junho de 1876. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[103]Relatório do Inspector do Districto, Messias José Correa ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 26 de outubro de 1870. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[104]Relatório do professor da 2ª Cadeira, Venancio José Fontoura ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 15 de outubro de 1870. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[105]Relatório do professor João Dias Vieira ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Francisco Aurelio de Souza Carvalho. Sorocaba, 28 de maio de 1881. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[106]Brasil. Coleções de Leis da República do Brasil (Império e República), RJ: Imprensa Nacional. s/d.

[107]Brasil. Constituição de 11 de dezembro de 1823.

[108]Brasil. Primeira Fala do Trono de D. Pedro I, realizada na abertura dos trabalhos da Assembléia Constituinte, em 03 de maio de 1823.

[109]Brasil. Decreto Imperial de 1º de março de 1823.

[110]Brasil. Decreto Imperial de 22 de agosto de 1825. Segundo Foucault, o ensino mútuo ou lancasteriano originara-se nos colégios jesuítas, no século XVIII, onde as classes tinham "uma organização ao mesmo tempo binária e maciça: as classes, que podiam ter até duzentos ou trezentos alunos, eram divididas em grupos de dez; cada um desses grupos, com seu decurião, era colocado em um campo, o romano ou o cartaginês; a cada decúria correspondia uma decúria adversa. A forma geral era a da guerra e da rivalidade; o trabalho, o aprendizado, a classificação eram feitos sob a forma de justas, pela defrontação dos dois exércitos; a participação de cada aluno entrava nesse duelo geral; ele assegurava, por seu lado, a vitória ou as derrotas de um campo; e os alunos determinavam um lugar que correspondia à função de cada um e a seu valor de combatente no grupo unitário de sua decúria. Podemos notar, aliás, que essa comédia romana permitia associar aos exercícios binários da rivalidade uma disposição espacial inspirada na legião, com fileiras, hierarquia e vigilância piramidal...Pouco a pouco - mas principalmente depois de 1762 - o espaço escolar se desdobra; a classe torna-se homogênea, ela agora só se compõe de elementos individuais que vêm se colocar uns ao lado dos outros sob os olhares do mestre. A ordenação por fileiras, no século XVIII, começa a definir a grande forma de repartição dos indivíduos na ordem escolar: filas de alunos nas salas, nos corredores, nos pátios; colocação atribuída a cada um em relação a cada tarefa e cada prova; colocação que ele obtém de semana em semana, de mês em mês, de ano em ano; alinhamento das classes de idade uma depois das outras; sucessão dos assuntos ensinados, das questões tratadas segundo uma ordem de dificuldades crescentes. E nesse conjunto de alinhamentos obrigatórios, cada aluno  segundo sua idade, seu desempenho, seu comportamento, ocupa ora uma fila, ora outra; ele se desloca o tempo todo numa série de casas; umas idéias, que marcam uma hierarquia do saber ou das capacidades, outras devendo traduzir materialmente no espaço da classe ou do colégio essa repartição de valores ou dos méritos. Movimento perpétuo onde os indivíduos substituem uns aos outros, num espaço escondido por intervalos alinhados”. In FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. História da Violência nas Prisões. 7.ed. Petrópoles,RJ:Vozes, 1989. p. 133-134.

[111]Brasil. Lei Imperial de 15 de outubro de 1827.

[112]Idem, ibidem.

[113]Brasil. Anais do Parlamento Brasileiro, sessão de 1834. Tomo primeiro. RJ: Tipografia de H.J.Pinto, 1879. p. 200.

[114]ESCOBAR, José Ribeiro. Op. cit., p. 164.

[115]Idem. p. 167.

[116]ALMEIDA, Aluísio de. Prof. Jacinto Helesdoro de Vasconcelos. Jornal Diário de Sorocaba. Ano VIII, nº 2.136, 04/11/l965, p. 03.

[117]RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 53-54.

[118]Idem. p. 56-57.

[119]Nomes que se dava ao processo de argüição.

[120]ESCOBAR, José Ribeiro. Op. cit., p. 167.

[121]RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 47-48.

[122]O professor João L. Rodrigues iniciou-se na escola primária em 1875, aos 06 anos de idade. Idem. Op. cit., p. 46.

[123]Idem. p. 64-65.

[124]Foucault considera a disciplina como uma anatomia política do detalhe. É atraves do detalhe que se estabelecem os métodos do trabalho educacional, da pedagogia escolar, do treinamento. Ele está nos pormenores dos regulamentos, no olhar perscrutador do inspetor, no controle pelo professor dos mínimos movimentos do aluno, na observação pelo diretor do procedimento de vida do aluno. In FOUCAULT,  Michel. Op. cit., p. 128.

[125]Idem. p. 140.

[126]Carta do Inspector, José Arouche de Toledo Rondon e do Juiz Ouvidor, Miguel Antonio de Azevedo Veiga, ao Governador da Província de São Paulo, Antonio José de Franca e Horta. Ipanema, 06 de julho de 1811. In MENON,  Og Natal. Op. cit., p. 122.

[127]Idem, ibidem.

[128]Idem, ibidem.

[129]Sobre este assunto ver do mesmo autor e mesmo estudo, Capítulo III. p. 55.

[130]Idem. p. 68.

[131]RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 54.

[132]LA SALLE, J.B de. Conduite des écoles chrétiennes. In FOUCAULT, Michel. Op. cit., p. 150. 

[133]RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 57, e ESCOBAR, José Ribeiro. Op. cit., p. 187.

[134]Idem, ibidem.

[135]Idem, ibidem.

[136]ESCOBAR, José Ribeiro. Op. cit., p. 187.

[137]ALMEIDA, Aluísio de. Prof. Manoel de Souza Guerra Jr. Jornal Diário de Sorocaba. Ano VIII, nº 2.115, 08/10/1965, p. 02.

[138]OLIVEIRA, José Feliciano. O Ensino em São Paulo. Algumas Reminiscências. SP:Typografia Siqueira, 1937. p. 09.

[139]Brasil. Lei nº 54 de 18 de março de 1836.

[140]São Paulo. Comunicado de 28 de maio de 1836.

[141]Relatório da professora Januaria de Oliveira Simas, ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 24 de maio de 1871. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[142]Relatório do professor da 2ª cadeira, Venancio José Fontoura ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 25 de maio de 1872. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[143]Idem. Sorocaba, 15 de outubro de 1870. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[144]RODRIGUES, João L., op. cit., p. 58. Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, dá-nos um panorama da escola: "Unamos agora os pés e demos um salto por cima  da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos. Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatória, e ainda assim...Ó palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho  mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que a vida, que é das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho, - ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita. Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta página: Ludgero Barata, - um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calças, - umas largas calças de enfiar -, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados, moleques. - Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar". In ASSIS, Machado de. Memória Póstumas de Bras Cubas. SP:Globo, 1997. p. 28-29.                               

[145]ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba. s.ed., 1951. p. 21.  V.1.

[146]Idem. História de Sorocaba. Sorocaba:Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, 1969. p. 29.

[147]Idem, ibidem.

[148]NÓBREGA, Manoel da. Cartas do Brasil. p. 133. In RODRIGUES, C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 30.

[149]CALMON, Pedro. História Social do Brasil. RJ:Nacional, 1937. p. 94. V.1. In RODRIGUES C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 31.

[150]MACHADO, Alcântara. Vida e Morte do Bandeirante. 2.ed. SP:Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1930. p. 155.

[151]RODRIGUES, C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit.,  p. 32.

[152]SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem a Província de São Paulo. 2.ed. SP:Livraria Martins Editora, 1945. p. 255-256. Para Fernando de Azevedo, “a mulher, essa, tratada geralmente com superioridade pelo homem, quase um senhor em relação à sua própria esposa (e ela mesma freqüentemente assim lhe chamava); enclausurada e sufocada na sua personalidade, consagrava-se aos misteres da casa e aos cuidados dos filhos. Não tendo em geral mais que uma educação doméstica, cercada de escravas para todos os serviços e ocupada com o lar e a agulha contentou-se com a sorte medíocre que lhe estava reservada, não procurando alargar seu horizonte nem melhorar a sua condição’”. In AZEVEDO, Fernando de. Op. cit., p. 560.

[153]RODRIGUES,C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 32.

[154]Idem. p. 33-34.

[155]Idem. p. 34.

[156]Idem. p. 36.

[157]HOLANDA, Sergio Buarque. Raízes do Brasil. 26.ed., 3. reimpressão. SP: Companhia das Letras, 1995. p. 122-123.

[158]Idem. p. 123-124.

[159]Idem. p. 124.

[160]Idem, ibidem.

[161]Idem, ibidem.

[162]ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba... Op. cit., p. 108.

[163]Idem. História de Sorocaba. p. 21.  V.1.

[164]DIAS, Maria Odila Leite da Silva.  Quotidiano e Poder em São Paulo no Século XIX. SP:Brasiliense, 1984. p. 24.

[165]Idem. p. 30.

[166]Idem. p. 180.

[167]Idem, ibidem.

[168]RODRIGUES, C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 59.

[169]DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. SP:Livraria Martins Editora, 1940. 3. V. v.3. MAWE, John. Viagens ao Interior do Brasil. RJ:Editor Zelio Valverde, 1944. BEYER, Gustavo. Impressões da Viagem de Gustavo Beyer. In TAUNAY, Afonso de E. História Colonial da Cidade de São Paulo no Século XIX. s.l. s.ed. s.d. VON SPIX, J.B., e VON MARTIUS,C.F.P. Viagem pelo Brasil. RJ:Imprensa Nacional, 1938. V. 2.

[170]RODRIGUES, C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 41.

[171]Idem, ibidem.

[172]Idem. p. 72.

[173]Idem. p. 55-56.

[174]Idem. p. 59.

[175]Idem, ibidem.

[176]Idem, ibidem.

[177]Idem. p. 165.

[178]Idem, ibidem.

[179]Idem. p. 73.

[180]Idem. p. 76.

[181]Idem. p. 77.

[182]Idem, ibidem.

[183]Relatório da professora Maria Flora de Souza ao Inspector Geral da Instrucção Publica, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 03 de outubro de 1860. Arquivo do Estado. Ordem 5110.

[184]Idem. p. 79.

[185]Idem. p. 74-75.

[186]RODRIGUES, João L. Op. cit., p. 33.

[187]Idem, ibidem.

[188]Idem. p. 34.

[189]Idem. p. 34-35.

[190]RODRIGUES,  C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 154.

[191]Idem. p. 109.

[192]Artigos 5º e 9º da Lei de 16 de março de 1846. Leis da Província.In RODRIGUES, C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 170.

[193]Brasil. Lei nº 24, de 02 de junho de 1850. Idem, ibidem.

[194]Relatório de 1853 do Inspetor Geral de Instrução Pública. Idem, ibidem.

[195]Relatório de 1862 do Inspetor Geral de Instrução Pública. Idem, p. 171.

[196]RODRIGUES, C.R. Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 171-172.

[197]Relatório do Inspector de Districto, Joaquim José Loureiro de Almeida. In RODRIGUES,C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 172.

[198]RODRIGUES,C.R., Leda Maria Pereira. Op. cit., p. 172.

[199]ALMEIDA, Aluísio de. Professores e seus Colégios. Jornal Diário de Sorocaba. Ano VIII, nº 2.127, 22/10/1965, p. 06.

[200]Idem. Profa. Januária de Oliveira Simas e outras. Jornal Diário de Sorocaba. Ano VIII, nº 2.144, 13/11/1965, p. 06.

[201]Idem. Professores e seus Colégios. Jornal Diário de Sorocaba. Ano VIII,  nº 2.127, 22/10/1965, p. 06.

[202]Brasil. Alvará de 11 de janeiro de 1760.

[203]ALMEIDA, José Ricardo Pires de. Op. cit., p. 80.

[204]Idem. p. 83.

[205]Idem, ibidem.

[206]Idem. p. 92.

[207]Brasil. Constituição do Império de 1827.

[208]ALMEIDA, José Ricardo Pires de. Op.cit, p. 93.

[209]Idem, ibidem.

[210]Idem. p. 94.

[211]TANURI, Leonor Maria. Op. cit., p. 22.

[212]Idem. p. 42.

[213]ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba. Op. cit., p. 215.

[214]Há uma divergência quanto a esta data. Alguns documentos trazem como de 1844.

[215]Segundo ainda, José Aleixo Irmão, “o professor Francisco de Paula Xavier de Toledo, nasceu na cidade de São Paulo em 31 de agosto de 1824. Seu pai, Joaquim Floriano de Toledo teve papel relevante na Revolução de 7 de abril; foi colaborador do jornal Aurora Fluminense, ao lado de Evaristo da Veiga; foi eleito por 4 legislatura, deputado da Província; foi cel. da Legião da Guarda Nacional, e em 1848 nomeado Vice-Presidente da Província; recebeu o título de Conselheiro; condecorado com o Oficialato da Ordem da Rosa; com o grau de Cavalheiro das de Cristo, Cruzeiro e Aziz; foi correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

         O Professor Toledo, em Sorocaba, instalou e fundou em 1847, juntamente com o ten. cel. João Teixeira de Miranda, a Loja Maçônica Constância. Foi presidente da Câmara de Vereadores de Campo Largo. Casou-se com Delfina de Mascarenhas Martins, filha do major Bernardo de Mascarenhas Martins, pertencente a elite sorocabana. Aos 19 anos de idade foi nomeado pelo Governador da Província, professor das cadeiras de Latim e Francês de Sorocaba. Aqui permaneceu até 1858, quando aposentou-se. Fundou no ano seguinte o Colégio São João do Lageado, na vizinha cidade de Campo Largo, hoje Araçoiaba da Serra. Este colégio teve duas fases: a primeira até 1865, onde eram seus professores Augusto Bassame, pe. Francisco Assunção Albuquerque, Marcolino Ribas e outros. Em 1871 reabre o colégio que vai durar até a sua morte em 1903. São seus professores desta época: Joaquim Caiubí de Toledo e Frederico Guanabara de Toledo (seus filhos), Bento Jequetinhonha, Joaquim Belquior Martins, Pedro de Toledo. Entre seus alunos destacam-se Júlio Prestes de Albuquerque, Américo Brasiliense de Almeida Melo, José Rubino de Oliveira, gal. Pinheiro Machado, pe. Terri O. de Albuquerque, Francisco Baillot, João Lúcio, cel. José Dias, Venâncio Fontoura, Cristiano Exel, Joaquim Firmino de Toledo, Benedito Cardoso, Ubaldino do Amaral, Monsenhor João Soares, cel. Emídio Piedade. In IRMÃO, José Aleixo. A Perseverança III e Sorocaba – 1889-1930.  V. 2. Sorocaba,SP:FUA, 1994. p. 205-206. Segundo Aluísio de Almeida, o professor Toledo era “um lutador que passou pela vida distribuindo a ciência e o bem, e morreu pobre! Sob a fisionomia bondosa do velho professor, se ocultava a contrariedade de viver em deficit com uma família de fina educação e tradição a manter. Era a sua casa um hotel de pobres e ricos. Parentes e amigos de São Paulo e Rio de Janeiro, inventavam tomar ares ou fazer caçadas de perdizes no Lageado e o professor os hospeda com aquela finura e gosto como os antigos. Havia sempre convivas naquela grande mesa, a cuja cabeceira o professor, de gorro na cabeça, mantinha a direção das mais gratas conversas que imaginar se possa”. ALMEIDA,  Aluísio de. Professor Toledo. Jornal Cruzeiro do Sul. Ano LXVII, nº 18.705, 28/11/1969, p. 07.

[216]Relatório do Inspector Geral da Instrucção Publica  de São Paulo ao Presidente da Província, Dr. Francisco Diogo de Vasconcellos. Sorocaba, 24 de novembro de 1856. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[217]Relatório do Inspector Geral da Instrucção Publica da Província ao Vice-Presidente da Provincia de São Paulo, Dr. Antonio Roberto d’Almeida. Sorocaba, 20 de maio de 1857. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[218]Informação do Inspetor Geral, 1855. In ALMEIDA, José Ricardo Pires de. Op. cit., p. 88-89.

[219]ALMEIDA, José Roberto Pires de. Op. cit., p. 89.

[220]Relatório do Inspector de Districto de Sorocaba, Messias José Correa ao Inspector Geral da Instrucção Publica da Provincia de São Paulo, Dr. Diogo de Mendonça Pinto. Sorocaba, 26 de outubro de 1870. Arquivo do Estado. Ordem 5.110.

[221]Instrucção Secundaria. Jornal O Sorocabano. Anno I, nº 06, 20/03/1870, p. 01.

[222]TANURI, Leonor Maria. Op. cit. p. 25-26.

[223]Idem.  p. 26.

[224]ALMEIDA,  Aluísio de. Professores e seus Colégios. Jornal Diário de Sorocaba. Ano VIII, nº 2.127, 22/10/1965, p. 06. Em relação a esta escola não conseguimos obter qualquer outra informação.

[225]Idem, ibidem.

[226]Escola particular dirigida pelo sr. Antonio Justiniano de Souza. Jornal O Monitor. Serie III, nº 34, 13/12/1856, p. 01.

[227]São Paulo. Lei nº8 de 19 de maio de 1862. Artigo 32. Leis da Província.

[228]São Paulo. Lei nº 54 de 15 de abril de 1868. Leis da Província.

[229]Júlio Ribeiro, foi tipógrafo e jornalista. Como jornalista atuou no jornal O Sorocabano até 1871, transferindo-se para o jornal O Sorocaba onde permaneceu até 1873, quando mudou-se para São Paulo. Em 1874, retorna ao ser convidado por Matheus Maylasky para dirigir o jornal Gazeta Comercial, o que faz até 1875, quando do seu fechamento. Muda-se da cidade, só retornando esporadicamente. In IRMÃO, José Aleixo. Júlio Ribeiro. SP:Cupelo. s.d. p. 18 e segs.

[230]Júlio Ribeiro cria em 1872 um sistema métrico decimal, que faz publicar no Jornal O Sorocaba. In IRMÃO,  José Aleixo. Op. cit., idem.

[231]IRMÃO, José Aleixo. Op. cit., idem.

[232]Escolas Particulars - Jornal Ypanema. Anno I, nº 02, 04/05/1872, p. 02.

[233]Idem, ibidem.

[234]ALMEIDA, Aluísio de. Professores e seus Colégios. Jornal Diário de Sorocaba. Anno VIII, nº 2.127, 22/10/1965, p. 06.

[235]Idem, ibidem.

[236]Escola. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VI, nº 1.252, 22/11/1886, p. 02.

[237]MANOEL, Ivan Aparecido. Op. cit, p. 27.

[238]ALMEIDA, Aluísio de. História da Instrução em Sorocaba (1660-1956). In Estudos Regionais Paulista. Piracicaba,SP:Shekinah, 1989. p. 33.

[239]Escóla Allemã. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VII, nº 1.257, 31/12/1886, p. 03. Os primeiros imigrantes alemães que vieram para Sorocaba, destinavam-se ao trabalho na Real Fábrica de Ferro de São João Ipanema - sobre este assunto ver MENON, Og Natal. Capítulo III. Op. cit. Com a desativação progressiva da fábrica, mudam-se para o centro urbano, onde vão desenvolver várias atividades econômicas ligadas ao comércio e a indústria.

[240]Escóla Allemã. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VI, nº 1.114, 09/07/1886, p. 04.

[241]Escóla Allemã. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VII, nº 1.334, 19/04/1887. p. 04.

[242]Escóla Allemã. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VII, nº 1.382, 26/06/1887, p. 02.

[243]Collegio Montbé. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VII, nº 1.417, 06/08/1887, p. 03.

[244]Externato Montbé. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VII, nº 1.455, 23/09/1887, p. 03.

[245]Collegio Montbé. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VIII, nº 1.516, 17/12/1887, p. 02.

[246]Collegio Montbé - Externato Sorocaba. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VIII, nº 1.540, 17/01/1888, p. 04.

[247]Collegio Teuto-Brazileiro. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VII, nº 1.302, 27/02/1887, p. 04.

[248]Collegio Neuberth. Jornal Diario de Sorocaba. Anno VIII, nº 1.699, 18/07/1888, p. 03.

[249]AZEVEDO, Fernando de. Op. cit., p. 274-275.

[250]Idem. p. 276.

[251]Idem, ibidem.

[252]Idem. A Educação Pública em São Paulo. Problemas e Discussões. SP:Nacional, 1937. p. 21.

[253]Idem, ibidem.

[254]São Paulo. Lei nº 54 de 15 de abril de 1868. Lei da Província.  

[255]São Paulo. Decreto nº 144-B, de 30 de dezembro de 1892 que aprova o regulamento da Instrução Pública. Coleção das Leis e Decretos do Estado de São Paulo, 1892. SP:Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1940.

[256]Dados constantes do Mapa da Escola, em 1895.

[257]Declaração Pública da professora Carlota de Padua Ferreira. Jornal A Voz do Povo. Anno III, nº 312, 19/11/1895, p. 01.

[258]Inspector de Districto. Idem.

[259]Relatório do Inspetor de Distrito, José Monteiro Boanova ao Diretor Geral da Instrucção Publica, Dr. Arthur Cesar Guimarães. Sorocaba, 20 de novembro de 1895. Arquivo do Estado. Ordem 5.111.

[260]Primeiro Relatório do Inspector do 25º Districto Litterario, José Monteiro Boanova ao Diretor Geral da Instrucção Publica, Dr. Arthur Cesar Guimarães. Sorocaba, 16 de novembro de 1895. Arquivo do Estado. Ordem 5.111.

[261]Segundo Relatório. Idem, ibidem.

[262]O Professor Joaquim Izidoro Marins nasceu no dia 4 de abril de 1861, na cidade de Sorocaba, tendo sido seus pais, o Alferes Vicente Zeferino de Santanna e d. Maria Tereza de Gusmão. Herdou de seu avô o sobrenome. Fez seus estudos preliminares no Colégio do Lageado, cujo diretor era o professor Toledo. Desejando ser professor submeteu-se aos exames no Palácio do Governo, sendo classificado e nomeado aos 19 anos de idade, para a Escola Isolada do Salto de Pirapora, em 1883. Assumiu e exerceu por pouco tempo esse cargo. Mais tarde, solicitou afastamento mudando-se para São Paulo, onde ingressou nos Correios e Telégrafos e ao mesmo tempo na Escola Normal. Formou-se professor em 23 de novembro de 1887. No dia seguinte contraiu núpcias com Ovidia de Almeida Lima, filha de tradicional família sorocabana, de cujo consórcio provieram 9 filhos dos quais sobreviveram três: Judith, Diógenes e Luiz. Foi o primeiro professor diplomado em Sorocaba, onde lecionou por 42 anos ininterruptamente. Depois de aposentado não saia muito. Católico fervoroso, residia ao lado da Catedral a qual freqüentava assiduamente. Era também músico. Como maestro, ainda por volta de 1940 vestia o fraque ou casaca de abas para acompanhar as procissões. Sua reputação de honestidade era imensa. Foi o professor Marins que recebeu a confissão do criminoso João Pinto, assassino de Julieta em 1898. Entre seus amigos sobressaiam os sacerdotes: Monsenhor Domingos Magaldi, da Catedral e Monsenhor Vicente Hypmarvsroki, de Araçoiaba da Serra. Faleceu o professor Marins, em 21 de setembro de 1947. Dados biográficos retirados de: PREVITALI, Arlindo. Professor Izidoro Marins. Jornal Diário de Sorocaba, 12/05/1968 e ALMEIDA,  Aluísio de. Prof. Joaquim Izidoro Marins. Jornal Diário de Sorocaba, 12/03/1969. 

[263]Relatório do Intendente(Vereador) Municipal José Vaz Guimarães