História de Sacis
Lembro-me de uma fase da minha vida em que eu vivia
tropeçando e batendo a cabeça nos postes. A testa,
melhor dizendo. Meu pai interrogava, desentendido:
Onde é que esse menino anda com a cabeça? E a mãe
respondia: Pra perder o tino desse jeito, não será
em bom lugar, não!
Na consequência desses eventuais acidentes, me
preocupava sobremaneira a vigília que os dois
estabeleciam. Era só baixar aquela ensimesmação que
logo me deparava com os olhos vigilantes de um e ou
de outro. E eu mais ainda baixava a vista porque
temia que meus pensamentos mais entranhados fossem
descobertos.
- Estava pensando no quê? - interrogava a mãe.
- Na morte da bezerra! – respondia conforme o hábito
dela. E ria uma risadinha amarela sem jeito, que era
pra ela não levar a mal a resposta.
- Quem não conhece que te compre!
Demorei até entender o que ela queria com aquele
palavreado. Tanto demorei que ao descobrir, já não
tinha nenhum sentido.O que me tirava do sério eram
criaturas cuja natureza não dominava. Coisas de
assombração.
Tinha a Mula Sem Cabeça, que corria toda
sexta-feira, de Vila Santos em direção à Vila Bela,
após o que subia o morro da Usina, indo resfolegar
na porta do cemitério.
Defunto Morto Atrás da Porta. E onde é que já se viu
Defunto Vivo? Segundo os entendidos, se tratava de
gente morrida cuja alma se negava a partir. Tinham
predileção por esconderijos atrás das portas ou
dentro dos armários.
Todos conheciam a história do Homem da Bola de Prata
e mais um monte de criaturas que negra Alzira dizia
ter parte com o Coisa Ruim. Eram assombrações desse
naipe que me acabrunhavam naquele tempo, já que não
conseguia discernir se eram invenções da negra velha
ou se criaturas reais.
Menos mal que, além dessas criaturas sombrias, havia
os sacis. Três tipos, que passavam a vida a pular e
a pitar. Negrinhos de uma perna só com barrete
vermelho na cabeça e cachimbo aceso na boca.
Pererê eram os sacis na plenitude; difícil imaginar
o que não fariam pra desassossegar os fazendeiros.
Piriri eram os mais novinhos; estavam sempre atrás
dos mais velhos, aprendendo que surpresas inventar.
E Pororo eram os mais velhos, que aprontavam menos
por falta de preparo físico.
Alzira conhecia tudo de sacis. Meu pai jurava que
saci não existia. E eu ficava nem lá nem cá. Uma
noite, ela me chamou pra olhar no olho da fechadura
da janela que dava para o quintal. E eu fui, muito
assanhado, querendo ver.
- Olhe na direção da mamona e me diga o que tá
vendo.
Eu olhei, examinei sem pressa, e vi a luzinha
tremeluzente sobre os brotos das mamonas.
- Estou vendo uma luzinha, acendendo e apagando nas
folhas das manoneiras.
- Luzinha coisa nenhuma! Você tá vendo é o Saci!
- Eu não sei. Acho que...
- Tavico! Se a noite é preta e o Saci é preto, como
é que você ia enxergar? O que dá pra ver são as
brasas do cachimbo. Mas a gente pode ir ver de
pertinho; é só você querer, que a gente vai.
- Não precisa, não, Alzira.
Fiquei impressionado ; aquilo, afinal, era uma prova
da existência dos sacis. Entretanto, o que era prova
suficiente para mim não era para os meus pais.
- Você estava piscando de sono e achou que viu Saci.
Vai dormir, vai – propôs minha mãe.
E com meu pai não foi diferente:
- Ah, luzinha acendendo e apagando no meio do mato,
nas folhas das mamoneiras... Tavico, você nunca viu
vagalume nem pirilampo, não?
Enquanto eu pensava que aquela explicação parecia
bem encontrada, ele acrescentou:
- Saci só existe na cabeça da Alzira!
Alzira ficava doida com os desmentidos de meu pai:
- O que é que o seu pai entende de saci?
E, antes que eu pudesse dizer algo, ela encerrava:
- Bolhufas! Nada de nada!
Depois, continuava, um pouco mais calma:
- Quer saber de um coisa... Não tô nem aí se o seu
pai acredita ou não acredita em saci. Só quero é que
você saiba, que é pra não ficar abobado se um dia
topar com algum deles por aí.
- Eu sei, Alzira. O problema do meu pai é que ele
não acredita em nada.
- Agora, você disse tudo, menino!
A negra esguia de canela fina abria um intervalo
para ir roubar uma colherada de goiabada, enquanto a
Emília se afastava um tantinho dos tachos, e
voltava, oferecendo a colher e falando depressa:
- Você ouviu o tropel dos cavalos esta noite?
- Nossa! Parece até que tinha coisa aí no terreiro!
- Parece nada! Tinha mesmo!
- Tinha o quê Alzira?
- O Saci, ora! Devia ter uma meia-dúzia aí no
terreiro, espantando os cavalos.
- Meia dúzia?
Ela colocou o dedo indicador sobre os lábios pedindo
silêncio, e, a seguir, sinalizou pedindo que ele a
seguisse. Foram até o curral, onde ela mostrou:
- Olha! Tá vendo?
- Vendo o que... O cavalo?
- Ô menino sonso! O rabo do cavalo!
- O que tem o rabo do cavalo?
- Não tem nada de estranho, não?
Examinei demoradamente e falei:
- Tá com um nó no rabo. É disso que você tá falando?
- Quem deu aquele nó no rabo do cavalo? Me diga!
- Eu não fui! Também não sei quem foi, não.
- Não sabe porque você é um pamonha igual ao seu
pai. Qualquer um sabe que é o Saci que dá nó no
rabo.
- Será mesmo?
A negra perdeu a paciência e seguiu por outro
caminho.
- Quem mais havia de ser?
- Alzira, olha só o meu braço... ficou todo
arrepiado!
- Isso não é nada. Você vai ver é quando topar com
um deles pela frente.
Saci era bicho enxerido. Difícil imaginar alguma
arte em que não fosse suspeito de autoria ou
realização. Entretanto, jamais ouvi dizer que
fizesse mal a alguém; ele se comprazia em pregar
peças e assustar os já assustados por natureza. Daí
que, até dentro de casa, o danado aprontava das
suas.
Era justamente dentro de casa que se manifestavam
algumas de suas mandracarias preferidas. Se achava
linha, não encontrava agulha. A mãe ia pegar sal,
trazia açucar. Podia guardar uma coisa que não
achava. E quando já não precisava, encontrava o
objeto no justo lugar guardado.
E o Saci se divertia com toda essa confusão.
Anos depois, estudando em São Paulo, meu pai e minha
mãe telefonavam, sempre às sextas-feiras. E, numa
dessas tantas sextas de saudade da Mantiqueira,
disseram que Alzira queria me falar. E como
permitiram que ela me falasse, imaginei logo que
devia ser coisa grave.
- Alzira? Passe depressa!
Ela demorou a falar. Entendi depois que ela não
queria falar na frente deles. Finalmente, ouvi a voz
chorosa.
- Tavico, os sacis foram embora do Quilombo.
- Foram embora da fazenda? Por que Alzira? O que
aconteceu com eles?
- Derrubaram o tabocal.
- Os sacis derrubaram o tabocal? A troco de quê?
- Tavico, será possível que você vai pra São Paulo e
continua sonso? Quem derrubou o tabocal foi o
pessoal da prefeitura e eu tô me sentindo como se
arrancassem um pedaço de mim.
O meu pai revelou, então, o que pretendia me
esconder. O tabocal, onde moravam os sacis da minha
infância, fora destruido; no lugar deles passaria
uma estrada . Ele esticou o intervalo e eu fiz
igual, imaginando a cena com os buldozers derrubando
tudo, enquanto as tabocas gemiam.
Um dia, coisa de um ano depois, quando já quase não
me lembrava dos sacis e das tabocas, o telefone
chamou.
- Oi, pai... Oi, mãe... Cadê Alzira?
- Ela não quis vir falar... Ela anda meio triste.
- Está velha – resmungou meu pai.
Alguma coisa me doía no peito, eu perguntei:
- Ela... Ela não morreu...
- Imagine! Uma negra forte como a Alzira!
Antes de desligar, quis falar com minha mãe.
- Mãe, estou sentindo uma coisa tão esquisita...
Acho que vocês não estão me dizendo a verdade. Por
acaso, a Alzira está doente?
- Doente, não. Ela... Ela anda meio triste.
- E por que anda triste? A senhora já disse isso!
A mãe esperou que se desfizesse o nó na garganta
para responder:
- Bem... Mais cedo ou mais tarde, você vai ter de
saber mesmo.
- O que é que eu vou ter de saber... Fala, mãe!
- Sei pai botou a fazenda à venda.
Nesse relato se condensa tudo que conheço sobre a
tradição dos Sacis. É resultado de vivência no Vale
do Paraiba, da banda da Mantiqueira, onde nasceu meu
pai,
seu Berto Galdino, na Fazenda do Iriguaçu, mais
conhecida por Fazenda do Quilombo. E a fonte pura e
cristalina pela qual me chegou a tradição foi a voz
de
trovão de Alzira, negra retinta, que chegava a
azular.
Esguia e alta, do tamanho de meu pai, descendente de
antigos escravos trazidos ao Vale para trabalhar na
lavoura e criar a riqueza dos barões do café,
ela encheu a nossa casa de criaturas e fatos
incríveis.
Foi a grande companheira de infância me levando
pra onde ia. Na hora de pegar água e buscar lenha
para o fogão era a melhor hora de ouvir as histórias
de sacis
e outras criaturas. E na volta me ensinava a cantar
as músicas que só ela conhecia numa língua
que ninguém falava jamais. Nunca levantou a voz para
meu pai mas bastava que ele se virasse e ela me
acenava
pedindo que não o levasse a sério. Meu pai, segundo
ela, era muito do contra. “Juro que nunca vi esse
homem rir de nada nesse mundo de Jesus Cristinho”.
E, para comprovar que tinha razão no que dizia,
percebi muito
depois, que ela ajudava no sumiço e recolocação das
coisas nos seus lugares, criando de certa forma a
fama dos sacis. Quem sabe, não dava nó também nos
rabos dos cavalos? E as fagulhas do cachimbo do Saci
na mamoneira? O Saci existia, sim, não havia dúvida.
E, de certa forma, a vida começou a perder a graça
quando deixei aquilo tudo para trás, a começar pelos
sacis.
Ficaram os sacis, os tabocais, o rio, a Mantiqueira
e sobrou tão somente essa saudade imensa e
descabida.
Luiz Galdino
Escritor e Professor