História 10

 

História de Sacis

Lembro-me de uma fase da minha vida em que eu vivia tropeçando e batendo a cabeça nos postes. A testa, melhor dizendo. Meu pai interrogava, desentendido: Onde é que esse menino anda com a cabeça? E a mãe respondia: Pra perder o tino desse jeito, não será em bom lugar, não!
Na consequência desses eventuais acidentes, me preocupava sobremaneira a vigília que os dois estabeleciam. Era só baixar aquela ensimesmação que logo me deparava com os olhos vigilantes de um e ou de outro. E eu mais ainda baixava a vista porque temia que meus pensamentos mais entranhados fossem descobertos.
- Estava pensando no quê? - interrogava a mãe.
- Na morte da bezerra! – respondia conforme o hábito dela. E ria uma risadinha amarela sem jeito, que era pra ela não levar a mal a resposta.
- Quem não conhece que te compre!
Demorei até entender o que ela queria com aquele palavreado. Tanto demorei que ao descobrir, já não tinha nenhum sentido.O que me tirava do sério eram criaturas cuja natureza não dominava. Coisas de assombração.
Tinha a Mula Sem Cabeça, que corria toda sexta-feira, de Vila Santos em direção à Vila Bela, após o que subia o morro da Usina, indo resfolegar na porta do cemitério.
Defunto Morto Atrás da Porta. E onde é que já se viu Defunto Vivo? Segundo os entendidos, se tratava de gente morrida cuja alma se negava a partir. Tinham predileção por esconderijos atrás das portas ou dentro dos armários.
Todos conheciam a história do Homem da Bola de Prata e mais um monte de criaturas que negra Alzira dizia ter parte com o Coisa Ruim. Eram assombrações desse naipe que me acabrunhavam naquele tempo, já que não conseguia discernir se eram invenções da negra velha ou se criaturas reais.
Menos mal que, além dessas criaturas sombrias, havia os sacis. Três tipos, que passavam a vida a pular e a pitar. Negrinhos de uma perna só com barrete vermelho na cabeça e cachimbo aceso na boca.
Pererê eram os sacis na plenitude; difícil imaginar o que não fariam pra desassossegar os fazendeiros. Piriri eram os mais novinhos; estavam sempre atrás dos mais velhos, aprendendo que surpresas inventar. E Pororo eram os mais velhos, que aprontavam menos por falta de preparo físico.
Alzira conhecia tudo de sacis. Meu pai jurava que saci não existia. E eu ficava nem lá nem cá. Uma noite, ela me chamou pra olhar no olho da fechadura da janela que dava para o quintal. E eu fui, muito assanhado, querendo ver.
- Olhe na direção da mamona e me diga o que tá vendo.
Eu olhei, examinei sem pressa, e vi a luzinha tremeluzente sobre os brotos das mamonas.
- Estou vendo uma luzinha, acendendo e apagando nas folhas das manoneiras.
- Luzinha coisa nenhuma! Você tá vendo é o Saci!
- Eu não sei. Acho que...
- Tavico! Se a noite é preta e o Saci é preto, como é que você ia enxergar? O que dá pra ver são as brasas do cachimbo. Mas a gente pode ir ver de pertinho; é só você querer, que a gente vai.
- Não precisa, não, Alzira.
Fiquei impressionado ; aquilo, afinal, era uma prova da existência dos sacis. Entretanto, o que era prova suficiente para mim não era para os meus pais.
- Você estava piscando de sono e achou que viu Saci. Vai dormir, vai – propôs minha mãe.
E com meu pai não foi diferente:
- Ah, luzinha acendendo e apagando no meio do mato,
nas folhas das mamoneiras... Tavico, você nunca viu vagalume nem pirilampo, não?
Enquanto eu pensava que aquela explicação parecia bem encontrada, ele acrescentou:
- Saci só existe na cabeça da Alzira!
Alzira ficava doida com os desmentidos de meu pai:
- O que é que o seu pai entende de saci?
E, antes que eu pudesse dizer algo, ela encerrava:
- Bolhufas! Nada de nada!
Depois, continuava, um pouco mais calma:
- Quer saber de um coisa... Não tô nem aí se o seu pai acredita ou não acredita em saci. Só quero é que você saiba, que é pra não ficar abobado se um dia topar com algum deles por aí.
- Eu sei, Alzira. O problema do meu pai é que ele não acredita em nada.
- Agora, você disse tudo, menino!
A negra esguia de canela fina abria um intervalo para ir roubar uma colherada de goiabada, enquanto a Emília se afastava um tantinho dos tachos, e voltava, oferecendo a colher e falando depressa:
- Você ouviu o tropel dos cavalos esta noite?
- Nossa! Parece até que tinha coisa aí no terreiro!
- Parece nada! Tinha mesmo!
- Tinha o quê Alzira?
- O Saci, ora! Devia ter uma meia-dúzia aí no terreiro, espantando os cavalos.
- Meia dúzia?
Ela colocou o dedo indicador sobre os lábios pedindo silêncio, e, a seguir, sinalizou pedindo que ele a seguisse. Foram até o curral, onde ela mostrou:
- Olha! Tá vendo?
- Vendo o que... O cavalo?
- Ô menino sonso! O rabo do cavalo!
- O que tem o rabo do cavalo?
- Não tem nada de estranho, não?
Examinei demoradamente e falei:
- Tá com um nó no rabo. É disso que você tá falando?
- Quem deu aquele nó no rabo do cavalo? Me diga!
- Eu não fui! Também não sei quem foi, não.
- Não sabe porque você é um pamonha igual ao seu pai. Qualquer um sabe que é o Saci que dá nó no rabo.
- Será mesmo?
A negra perdeu a paciência e seguiu por outro caminho.
- Quem mais havia de ser?
- Alzira, olha só o meu braço... ficou todo arrepiado!
- Isso não é nada. Você vai ver é quando topar com um deles pela frente.
Saci era bicho enxerido. Difícil imaginar alguma arte em que não fosse suspeito de autoria ou realização. Entretanto, jamais ouvi dizer que fizesse mal a alguém; ele se comprazia em pregar peças e assustar os já assustados por natureza. Daí que, até dentro de casa, o danado aprontava das suas.
Era justamente dentro de casa que se manifestavam algumas de suas mandracarias preferidas. Se achava linha, não encontrava agulha. A mãe ia pegar sal, trazia açucar. Podia guardar uma coisa que não achava. E quando já não precisava, encontrava o objeto no justo lugar guardado.
E o Saci se divertia com toda essa confusão.
Anos depois, estudando em São Paulo, meu pai e minha mãe telefonavam, sempre às sextas-feiras. E, numa dessas tantas sextas de saudade da Mantiqueira, disseram que Alzira queria me falar. E como permitiram que ela me falasse, imaginei logo que devia ser coisa grave.
- Alzira? Passe depressa!
Ela demorou a falar. Entendi depois que ela não queria falar na frente deles. Finalmente, ouvi a voz chorosa.
- Tavico, os sacis foram embora do Quilombo.
- Foram embora da fazenda? Por que Alzira? O que aconteceu com eles?
- Derrubaram o tabocal.
- Os sacis derrubaram o tabocal? A troco de quê?
- Tavico, será possível que você vai pra São Paulo e continua sonso? Quem derrubou o tabocal foi o pessoal da prefeitura e eu tô me sentindo como se arrancassem um pedaço de mim.
O meu pai revelou, então, o que pretendia me esconder. O tabocal, onde moravam os sacis da minha infância, fora destruido; no lugar deles passaria uma estrada . Ele esticou o intervalo e eu fiz igual, imaginando a cena com os buldozers derrubando tudo, enquanto as tabocas gemiam.
Um dia, coisa de um ano depois, quando já quase não me lembrava dos sacis e das tabocas, o telefone chamou.
- Oi, pai... Oi, mãe... Cadê Alzira?
- Ela não quis vir falar... Ela anda meio triste.
- Está velha – resmungou meu pai.
Alguma coisa me doía no peito, eu perguntei:
- Ela... Ela não morreu...
- Imagine! Uma negra forte como a Alzira!
Antes de desligar, quis falar com minha mãe.
- Mãe, estou sentindo uma coisa tão esquisita... Acho que vocês não estão me dizendo a verdade. Por acaso, a Alzira está doente?
- Doente, não. Ela... Ela anda meio triste.
- E por que anda triste? A senhora já disse isso!
A mãe esperou que se desfizesse o nó na garganta para responder:
- Bem... Mais cedo ou mais tarde, você vai ter de saber mesmo.
- O que é que eu vou ter de saber... Fala, mãe!
- Sei pai botou a fazenda à venda.



Nesse relato se condensa tudo que conheço sobre a tradição dos Sacis. É resultado de vivência no Vale do Paraiba, da banda da Mantiqueira, onde nasceu meu pai,
seu Berto Galdino, na Fazenda do Iriguaçu, mais conhecida por Fazenda do Quilombo. E a fonte pura e cristalina pela qual me chegou a tradição foi a voz de
trovão de Alzira, negra retinta, que chegava a azular.
Esguia e alta, do tamanho de meu pai, descendente de antigos escravos trazidos ao Vale para trabalhar na lavoura e criar a riqueza dos barões do café,
ela encheu a nossa casa de criaturas e fatos incríveis.
Foi a grande companheira de infância me levando
pra onde ia. Na hora de pegar água e buscar lenha para o fogão era a melhor hora de ouvir as histórias de sacis
e outras criaturas. E na volta me ensinava a cantar
as músicas que só ela conhecia numa língua
que ninguém falava jamais. Nunca levantou a voz para meu pai mas bastava que ele se virasse e ela me acenava
pedindo que não o levasse a sério. Meu pai, segundo ela, era muito do contra. “Juro que nunca vi esse homem rir de nada nesse mundo de Jesus Cristinho”. E, para comprovar que tinha razão no que dizia, percebi muito
depois, que ela ajudava no sumiço e recolocação das coisas nos seus lugares, criando de certa forma a fama dos sacis. Quem sabe, não dava nó também nos rabos dos cavalos? E as fagulhas do cachimbo do Saci na mamoneira? O Saci existia, sim, não havia dúvida. E, de certa forma, a vida começou a perder a graça quando deixei aquilo tudo para trás, a começar pelos sacis.
Ficaram os sacis, os tabocais, o rio, a Mantiqueira e sobrou tão somente essa saudade imensa e descabida.

Luiz Galdino
Escritor e Professor

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