História 13
Saci or not saci

A amplitude das fronteiras culturais e os malefícios da estreiteza da burocracia supostamente geográfica

(Lido na reunião da Academia Sorocabana de Letras de 7 de outubro de 2006)

Geraldo Bonadio

Em carinhoso prefácio, escrito em 1972 para a 3ª edição de Gaúchos e beduínos, de Manoelito de Ornelas , Érico Veríssimo afirma que, com aquele ensaio, o autor “agitou as de ordinário tranqüilas águas do lagoão da História do Rio Grande do Sul, provocando polêmicas e recebendo aplausos e contestações.”
Guardadas as devidas proporções, o mesmo se pode dizer do projeto de lei da minha querida amiga Tânia Baccelli, que visava instituir em Sorocaba o Dia do Saci, a ser comemorado no dia 31 de outubro. Provocou ele uma discussão, saudável e necessária, sobre os mitos que, supostamente, habitam o Vale Médio do Rio Tietê, no qual se acha inserida a nossa Sorocaba.
Professora e diretora de escola pública, cargos a que teve acesso pela democrática e insuspeita porta do concurso público, a legisladora pretendia contrapor aquela comemoração à festa americana do Dia das Bruxas (Haloween), que vai se incluindo, de forma cada vez mais ostensiva, no calendário de festas locais, numa demonstração deplorável de nossa vulnerabilidade à colonização cultural.
Até por isso, a iniciativa mereceu o aplauso da procuradora da República Ana Cristina Bandeira Lins, que nela divisou uma oportunidade para o município dar cumprimento efetivo ao seu dever constitucional de proteger as manifestações culturais populares e o patrimônio cultural brasileiro. Previamente, constatara a combativa integrante do MPF que tais deveres, por vezes não têm sido cumpridos pelo poder público, “inclusive através de suas escolas”.
A despeito dessa e de outras manifestações de simpatia, a instituição do Dia do Saci não se concretizou. Aprovado pelo Legislativo, o projeto esbarrou no veto do prefeito.
Para fundamentar sua recusa de converter em lei a proposta da Câmara, alegou o chefe do governo local que o mito do Saci não é originário de nossa cidade ou região. Faltar-lhe-iam as credenciais necessárias para que viesse a ter dia especial em nosso calendário oficial de datas e eventos.
Os camaristas, destoando da generosa postura que os levou a, de forma muito acertada, incluir no referido calendário datas como o Dia do Gaúcho e o Dia do Paranaense, se dobraram à rasa argumentação do Paço e engoliram o veto.
Não é este o local nem o momento para se decidir se devemos ou não incluir, no rol das celebrações oficiais, o Dia do Saci. Mas é este, sim, o cenário adequado para se tecer algumas considerações a propósito dos prejuízos que uma visão, subordinada à estreiteza burocrática, invocando de modo indevido fundamentos de ordem geográfica, pode trazer à formulação das políticas culturais do município.
Ainda hoje discutem os especialistas se Sorocaba teria sido ou não um dos municípios originários do atual Estado de São Paulo. Os que apóiam este ponto de vista lembram que a povoação criada por Baltasar Fernandes foi elevada a vila pela transferência – ainda que simbólica – do pelourinho da Vila de São Felipe, erguido no Itavuvu. A nova Vila seria, pois, uma continuidade da anterior e não fruto do desmembramento de Santana do Parnaíba.
De um modo ou de outro, Sorocaba foi, em dado momento, o marco situado mais a oeste no processo de ocupação e povoamento do atual território paulista e concorreu para a gerar e consolidar núcleos populacionais – e, por conseqüência, novos focos de cultura -em diferentes pontos do Brasil.
Nada menos ajustado aos nossos antecedentes históricos, marcados por uma diáspora de proporções incomuns e, inversamente, pela acolhida de migrantes patrícios ou estrangeiros vindos de todos os quadrantes, que a estreiteza cultural.
Não é uma contradição, e sim uma reafirmação – de nosso destino, que aponta para o universal, o fato de havermos aprendido nosso folclore principalmente com três mestres nascidos além de nossas fronteiras: o apiaiense Aluísio de Almeida, o itapetiningano Benedito Cleto e o piracicabano Waldemar Iglesias.
Câmara Cascudo, em sua Geografia dos mitos brasileiros, pergunta a si mesmo, no prefácio: “como vou colocar simetricamente a bicharia fantástica que campeei e reuni neste livro?” Informa, mais à frente, haver escolhido, com modificações pessoais, “a mais velha e clássica, a mais simples, primitiva e lógica das classificações”
“Assim, divido em dois quadros gerais o mundo em que vivi. Mitos primitivos e mitos secundários e locais.” Entre os primeiros arrola o Saci Pererê.
Seria desnecessário e enfadonho repetir o relato das mudanças e incorporações de características pelas quais passou o mito, em seu ajustamento às condições regionais, coisa que Câmara Cascudo documenta, magistralmente, nas nove substanciosas páginas que a ele dedica.
Permito-me apenas, para confrontar os que fazem, da condição de mito primitivo e geral do Pererê, argumento para negar-lhe a condição de figura regionalmente customizada – como diriam os gestores da produção – e ajustada às condições e circunstâncias do Vale Médio do Rio Tietê, copiar o procedimento do mestre potiguar.
Ao relacionar “o montão de assombros que domina o espírito do caipira paulista mineiro”, ele se apóia em ninguém menos que Cornélio Pires, o “bandeirante do folclore paulista” e lembra que, nas páginas de Quem conta um conto , “em citação rápida passam todos os monstros espantosos”. E conclui: “Na geografia paulistana vive essa fauna fantástica:
-Eu juro! Quando fui busca remédio na vila, tive de corta vorta... Eu vi úa porca deste tamanho, sortando fogo p’ros óio e p’ro nari e do mesmo jeito sete leitãozinho...
- Nas noite de vento, do arto do Samambaiá, a gente óve uns grito à meia noite... É o Caipora... Deus te livre!
- O majó Lucio tamém jura que viu lubisome pr’aquelas banda...
- Na sexta-fêra maió, um tropero vortô; disque tava ansim de saci dançano cúa perna só in roda de u’a veia dos óio vermeio e do nari arcado. Disque é a Veia-de-má-qualidade...
- Num sei quem foi que viu um cavalo sem cabeça pinoteano c’o Demônio in riba no meio dos bitata e sortano fogo p’ras ventas...
- Defunto Nhô Tomé, que era home de sangue-de-pexe, poco antes de morrê, conto que u’a feita viu o Cusa-ruim tocano viola, num catira, dançado infrente à cruis, por u’a Mãe d’Água, a Mãe-de-Oro, a Pisadera, o Currupira, o Canhimbora, o Caipora, o Lubisome, o Loco-do-Mato, a Arma-do-Padre Aranha, a Mãozinha Preta e um bandão de sacizinho assanhado.”
Não sei se a cidade precisa ou não de um Dia do Saci que pode, afinal, tornar-se, dentro de nosso calendário oficial de celebrações e eventos, apenas uma data festiva a mais em que nada acontece. A data, afinal, já existe em lei estadual sancionada pelo ex-governador Geraldo Alckmin. Não sei se o estudo do mito ajuda ou não as crianças a superarem o medo que eles incutem. Nem se vale a pena trocar o temor da bruxa pelo do saci. Honestamente, prefiro crianças menos temerosas e mais confiantes.
Estou convicto, porém, de que o projeto serviu para agitar o lagoão das celebrações do folclore sorocabano, gerando algumas ondas concêntricas em suas águas doentiamente estagnadas.
A razão invocada pelo Executivo para embasar o veto – a existência da Semana do Folclore “Benedito Cleto” – seria muito boa, se fosse verdadeira.
Tantos anos passados da morte do patrono do que deveria ser um ciclo de eventos, a Prefeitura não dispõe, sequer, de um projeto, com metas definidas e verbas alocadas, para reunir, ordenar e disponibilizar para consulta pública a vasta produção, esparsamente publicada, reunida em livros ou inédita, do nosso querido Benecleto.
E bem verdade que grande parte dela se acha preservada na Biblioteca Infantil Municipal, graças à iniciativa – generosa, mas carente de respaldo institucional – do acadêmico José Rubens Incao.
Ao mencionar o nome do acadêmico Incao, nesta manifestação ácida, que faço exclusivamente em meu nome, sem a pretensão de traduzir o entendimento da Academia, faço-o para, de forma publica e antecipada, exonera-lo de qualquer responsabilidade pelas minhas palavras.
Permito-me encerrar esta fala, ecoando as palavras de Érico Veríssimo que, no prefácio antes mencionado, recorda que Manoelito de Ornelas, no terceiro e último capítulo de seu alentado estudo, “traça o discutido paralelo entre beduínos e gaúchos, valendo-se de lendas e superstições, semelhanças de hábitos, indumentárias, tradições e costumes.”
Em resumo, todo o material que o notável ensaísta utilizou para construir o núcleo de sua tese é composto de saberes gerados no universo das ciências do folclore.
Saberes que desde 1999 deveríamos estar estudando mais atentamente na Semana Benedito Cleto, os quais a educadora Tânia Bacelli pretendia que fossem festivamente evocados e traduzidos no Dia do Saci.
A primeira coisa até agora não ocorreu. A segunda acaba de ser obstada pelo veto que a Câmara acolheu.

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