História 15

1982 – Escola Viva – Petrópolis – RJ

Amanhã será a Festa do Saci!

 

É assim que nomeamos, aqui, a Festa do Folclore. Resolvemos usar uma identidade forte para marcar o dia em que festejamos as Culturas Brasileiras e, para mim, o Saci foi foi sempre um moleque levado, muito simpático e animado, um símbolo que combina, portanto, com nossa Escola e nossos alunos cheios de vida.

É sábado. Chego na Escola no fim da manhã, envolvida que estive, até agora, com compras e outras providências,  porque essa será uma grande festa!

As famílias dos alunos estarão presentes durante todo o dia e haverá um almoço especial: Feijoada e Feijão de Tropeiro são as opções de prato principal, com acompanhamento distintíssimo da couve à mineira, da laranja seleta picadinha e das sobremesas mais deliciosas: doces de abóbora, de leite, de coco, de mamão, goiabada e queijo fresco.

Os alunos (de maternal à 8ª série) farão apresentações de números de canto, dança e teatro, mostrando o trabalho sobre nossa cultura, intenso e delicadamente preparado nas classes, durante muito tempo antes da festa.

Esse ano convidamos e aguardamos, ansiosos, a visita do Prof. Fernando Lébeis, cantador  e contador de histórias, conhecedor profundo de folclore, que virá participar da festa e se apresentar para os educadores (pais e professores) e para os alunos (crianças e adolescentes), em momentos distintos. Enfim, pretendemos dar a todos a oportunidade de reviver a tradição de ouvir histórias e de aceitar o comprometimento de recontá-las.

Vou chegando à Escola e me envolvendo no corre-corre.

Os panelões, no fogo, já fazem borbulhar os doces, já estão sendo cortadas as carnes para o feijão, esse, que, catado à moda tradicional, grão por grão, vai caindo aos pouquinhos na bacia onde ficará de molho por muitas horas. O cheiro bom no ar começa a se formar alquimicamente, reforçando o estado de alegria e animação.

Tudo já tem a excitação que é própria da véspera! Muita falação em torno das muitas mãos que trabalham. Quase um contingente!  Aí estão a Rose, a Carolina, a dona Zina, a dona Creuza, o seu Delfim, até os motoristas se envolvem na produção, descarregando pacotes e engradados de bebida, indo e vindo para trazer mais produtos, que vão sendo solicitados. Afinal esperamos cerca de 400 pessoas para o almoço e isso não é tarefa pouca!

Pois eu estou assim, como boa dirigente que tento ser, me inteirando do andamento de cada coisa, quando ouvimos palmas sendo batidas lá fora, no jardim da casa.

A Rose vai ver, volta em seguida e diz, me estendendo um pedaço de papel meio amassado:

- Dona Inez, tem um moço aí fora pedindo para copiar esses números para ele.

Olho o papel e vejo alguns números mal escritos e não entendo bem o que é que estão me pedindo. 

Vou até a porta, olho lá fora e vejo um jovem negro, com uma bolsa de compras (dessas de papel) numa mão, aguardando, parado num canto do pátio. Cada uma que me aparece!

Estou tão apressada, que desisto de entender. Pego o papel e “passo a limpo” num papel limpo, escrevendo com clareza os números que ele trouxe. Não levo mais de cinco minutos para fazer isso.

- Pronto, Rose, dá lá pra ele e volta logo, por favor! – vou despachando.

Ela vai e volta surpresa:

- Ih, dona Inez! O moço sumiu!

Aí é que não entendo mesmo nada.

- Olha, olha! – continua ela – Ele deixou a bolsa!

Páro tudo e vou ver. Outros vêm atrás de nós. Olhamos em redor, imaginando que ele possa estar por ali, chamamos e, como não aparece ninguém, olhamos a bolsa.

Dentro dela, vemos muitos sapatos, todos usados. Vamos examinando e, assustados, descobrimos que são calçados de homem, mulher, criança, de diferentes cores e tamanhos, só que apenas um pé de cada par!

- Meu Deus! Que é isso?

- Que coisa mais estranha! Cruzes!

Nessas alturas, com nosso alarido, o pessoal da cozinha já largou tudo lá dentro e está a nossa volta. Todos examinam a bolsa e os pés de sapatos.

- Isso é coisa de Saci! – diz alguém.

- Vamos atrás desse cara! – propõe outro.

Corremos ladeira abaixo ( que a Escola fica longe da rua, no alto de uma alameda, cercada por belíssimo jardim) e, para nosso assombro, encontramos no portão de entrada os dois chinelos que o homem estava calçando, minutos atrás. Estão ali, abandonados. De ambos os lados da rua nenhum vestígio do visitante. Ele desapareceu!

Todo mundo fala ao mesmo tempo, cada um tem uma observação a fazer, mas ninguém tem dúvidas:

- É ele não precisava mais de seus chinelos.

- Era o Saci! – é opinião unânime.

Rose pega o papel com os números, joga no bicho e chega a ganhar uns trocados.

Eu volto depressa pra dentro da Escola e vou  olhar o convite da Festa, no qual desenhei o Saci, para confirmar, porque de repente reconheço nele, como que reproduzido, o rosto de nosso estranho visitante.

Fico aturdida e passo o resto do dia contando a história “louca” que vivemos.

No dia seguinte, logo que Fernando Lébeis chega para a festa, conto a ele o fantástico acontecimento.

Ele ouve, atento e pergunta apenas:

- A que horas isso aconteceu?

Fazendo rápido retrospecto mental, respondo:

- Era perto do meio-dia, porque eu me lembro de ter olhado a hora pouco antes, quando cheguei, para programar as tarefas que ainda seriam desenvolvidas.

E Fernando, apontando para uma enorme moita de bambus gigantes que há no jardim, me lembra:

- Inez, o Saci nasce ao meio-dia, dos nós dos bambus. Acho que ele gostou de ser homenageado e veio ver de perto o que estavam preparando.

Olhos cada vez mais arregalados, sorriso maroto, sentindo-me homenageada pelo Saci, concordo satisfeita.

 

Nem é preciso dizer que a Festa do Saci foi maravilhosa!

O clima de integração era tão perfeito que, no final do dia, quando Fernando se despediu do público cantando:

- “O bolinho mais gostoso

é o bolinho de fubá,

bem fritinho na gordura, sá dona,

melhor não há.

café quentinho, junto ao fogão,

chuva miúda caindo,

peneirando, peneirando

e molhando o chão.

Ah, como é gostoso!

Melhor não há!

A chuva caindo, o café quentinho

a o bolinho de fubá!”

Então, lá da cozinha, já vinham chegando as canequinhas de café bem quente e os bolinhos de fubá cheirando gostoso.

Quando, extasiados, olhamos pela janela, vimos que, sem ser esperada, a garoa vinha junto, bem de mansinho, salpicando no ar a magia que, agora sabíamos, existe de verdade!!!!

 

Maria Inez do Espírito Santo

ceiuci@ig.com.br

 

 

PS Esta história tem dezenas de testemunhas e vem sendo contada, por mim, em muitas ocasiões, sempre que se fala dos seres mitológicos de nossa cultura. É sempre um sucesso e, por causa dela,  o Saci ganha sempre novos admiradores.

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