A TOADA DE IVAN VILELA
Paulo de
Tarso Riccordi
Com essas histórias de saci é bom tomar cuidado, porque tem muita mentira
misturada à verdade. Como tem mais gente que acredita do
que quem de fato viu saci, acaba que há quem termine
inventando causos pra não se sentir deslocado no grupo.
O que eu vou
te contar, de tanto tempo que conto e reconto, já perdi
a certeza de que foi como ouvi ou se já acrescentei não
mentiras mas o tempero de minha imaginação. E tu ficarás
(é uma pena) sem saber se é outra mentira ou o fato foi
como eu conto.
O causo esse aconteceu com o Ivan Vilela, mestre da viola, que é malvisto
pelos sacis porque cometeu o deslize de contar que
conseguia vê-los, ao invés de se beneficiar e comer
tranca.
Pois o Ivan tava lá tentando compor uma toada, sentado à porta da cozinha.
A música atraiu aquele povo. Devia haver muito bicho
deles ali, porque redemoinhava uma poeira baixa no
pátio nessa tarde. E tocava, o Ivan, até o ponto em que
julgava que a melodia estava já bem resolvida; então
parava para anotá-la na partitura. Nesses momento o
polvaréu levantava, não sei se a sacizada contente com o
andar da música ou desagradada com a parada. Mas era só
o Ivan arrastar de novo a toada, que o ventinho calmava
e a poeira baixava, a sacizada toda sentada debaixo da
paineira, encantada com a música.
Mas tinha um determinado trecho do qual o maestro não conseguia avançar. O
acorde saía redondo, acertado demais; faltava alguma
coisa torcida, que soasse na viola como ferro de
bigorna, porque a melodia deveria contar a história de
um carreteiro que parava numa ferraria de beira de
estrada pra consertar uma roda quebrada. E sempre a
composição emperrava era ali, onde o diacho do som não
brotava.
Eu te disse lá no início da narrativa que já não sei se a história, que
fiquei sabendo pela boca dum saci, era exatamente assim,
ou se já sou eu quem está botando na cabeça do maestro
dificuldades com a viola que ele nunca terá. Mas como a
história é sobre saci e tem muita gente sem acesso a
eles pra saber como foi que o caso realmente aconteceu,
eu continuo contando - e talvez acrescentando - o que os
sacis me relataram.
Eu dizia que mestre Ivan havia empacado num acorde que não lhe caía bem ao
ouvido e nem ele sabia bem o que buscava; só sabia que
aquilo não ficava bem como resto da toada. Foi quando
resolveu dar uma parada prum café e pro xixi, que ele é
de natureza humana. Como seria previsível, levantou a
maior ventania no terreiro, com redemoinho e roupa
dançando no varal, as galinhas agachadas no poleiro
porque o tempo fechou. Quando Ivan retornou, ainda antes
de abandonar o esforço de vez, tentou uma vez mais o tal
acorde com o som de ferro malhado na bigorna. E não é
que o som saiu dessa vez?! Saiu o som limpo de batida de
ferro contra ferro e a toada avançou até o final, com os
bichinhos pretos todos calmados no pátio, assistindo sem
reboliço. Acabada a função, noite já chegada e dando-se
por satisfeito, mestre Ivan recolheu o instrumento e o
banquinho pra dentro da casa, que era hora do jantar.
Foi só
quando preparava-se pra deitar que ele notou que alguma
coisa acontecera com sua viola: havia uma corda torcida,
como nozeada fica cola de cavalo quando passa saci pelo
potreiro. E a corda assim trançada produziu o tal som
que o Ivan buscava e não obtinha por artes próprias.
No dia seguinte ele tentou com outro instrumento repetir o tal acorde, mas
a coisa não saía, a melodia não andava. A conclusão foi
óbvia - foi coisa de saci a enredada das cordas da viola
que fizeram possível ter nascido a bela toada que hoje
todo mundo conhece.
Agora, se o Ivan te contar essa história de outra maneira, não acredita,
não, porque esse causo eu ouvi diretamente de um saci
que estava lá naquela tarde. E o mestre bem que pode
estar se fingindo de sonso, que é pra não ter de
confessar de onde vem essa beleza toda da música que ele
produz.
São Luiz do Paraitinga, SP, 1°/11/2003, primeiro Dia do
Saci. |