O SACI FORENSE
O episódio
aqui
narrado ilustra bem a diversidade de situações nas quais
o Saci se faz presente, sempre aprontando peripécias,
mas frequentemente para auxiliar os desvalidos e, como
aqui se conta, em defesa dos injustiçados.
Talvez, este seja um dos mais antigos
registros de aparição do Saci, pois que passado nos idos
de 1955, no Município e Comarca de São Luis do
Paraitinga, cidade nacionalmente famosa porque ali
nasceram Oswaldo Cruz, e meu irmão Inácio.
No Fórum, um juiz recém chegado, mandado
pelo Tribunal em substituição do antigo titular, saído
às pressas da Comarca em virtude do acirramento dos
ânimos na disputa eleitoral. Se o magistrado era novo de
idade, mais ainda o era o promotor, embora já indo para
o quinto filho de uma notável prole que se fechou em
dez. O terceiro personagem, o oficial de justiça, gente
da cidade, de todos conhecido e querido, dono de um
imortal espírito carnavalesco.
Amante de uma branquinha e inveterado
pé-de-valsa, o nosso oficial, Juca, como era
carinhosamente chamado, não perdia momento de freqüentar
um festejo, dos muito comuns desde o centro da pequena
urbe, até os bairros mais distantes. Não raras vezes o
Juca se aproveitava de uma intimação para entregar, para
se ausentar do Fórum por dias a fio, principalmente se
fosse lá pelos lados de Catuçaba ou outros sertões mais
distantes. Fosse em dias de festa, como nos Reis, aí
então o Juca emendava uma semana todinha, não bastasse o
carnaval, ao qual se dedicava todo o mês de fevereiro,
numa espécie de prolongamento das férias forenses.
Ocorre que o Juca se meteu numa enrascada
processual danada. Havia de ter sido intimado nada mais
do que um defunto para figurar no rol de testemunhas num
caso até de pouca importância. E o dileto oficial de
justiça não escapou de se ver entranhado numa
sindicância administrativa. Mas, em nome da grande
amizade que nutria com o promotor, foi por este
agraciado com um pronunciamento inteiramente favorável,
que, dentre outros argumentos, afirmava que o depoimento
do falecido não poderia alterar o curso do processo,
mesmo porque o falecimento em causa havia ocorrido há
poucos anos, segundo constava no obituário local.
Passados alguns meses desse episódio, com o
Juca ainda comemorando o fato de ter se livrado daquele
constrangimento administrativo, aconteceu na cidade o
julgamento de um crime de morte. Um conhecido fanfarrão,
famoso por promover arruaças e badernas, não só em São
Luis, como nas cidades vizinhas. Parece que até em
Taubaté o sujeito carregava passagem pela polícia. Mas,
condenação nenhuma, com os castigos não passando de
algumas horas no xadrez, sendo isso em razão da família
abastada, dona de terras, sobrados, e rebanhos de corte
e de leite.
Mas, eis que numa das badernas, resultou
morto um pobre sitiante, rapaz pacato, recém casado,
deixando viúva e filho pequeno. Mas o dito cidadão não
era de levar desaforo para casa. E sendo bom de briga,
encarou o baderneiro já bem embriagado, o qual, prestes
a levar a pior, sacou de um revolver e desferiu um tiro
mortal no valente adversário.
Mesmo
com o crime tendo ocorrido há anos, o julgamento, a
custas de muitas protelações ditadas pelos muitos
recursos processuais, somente veio a ocorrer naquela
ocasião. Na cidade era boca corrente e dominante que o
criminoso sairia inocentado, pelas muitas das artimanhas
processuais do cabedal dos advogados, contratados de
famosa banca da capital.
Madrugada adentro, no Tribunal do Júri, era
chegado o momento da defesa encerrar a sua argumentação,
baseada na tese da legítima defesa. E, como prova
principal, um dos advogados, afirmando aos brados que
faria exibir a demonstração inequívoca de que o réu
lutou com todos os meios e recursos para se livrar do
agressor, somente vindo a matá-lo para salvar a própria
vida, pediu ao oficial de justiça que exibisse a camisa
com que se trajava o acusado por ocasião da luta, vestes
estas que estariam sujas e esfarrapadas. Diante dos
jurados pasmos e emudecidos, o Juca tirou de uma caixa e
exibiu aos presentes uma camisa branca, branquíssima,
novinha em folha, e ainda com etiqueta de venda na gola:
Casa Moisés, uma conhecida loja do comércio de Taubaté.
Resultado: condenação com pena máxima, e
acrescida de medida de segurança, com o réu saindo do
tribunal direto para a Casa de Custódia e Tratamento de
Taubaté.
Meses depois do julgamento, o jovem promotor
foi transferido para o Município de Cunha, sua primeira
Comarca como titular.
De todas as possíveis autorias sobre a troca
das camisas, incluindo a de que teria se confirmado o
ditado de que uma mão lava a outra, a versão que mais
prosperou e findou sendo aceita por unanimidade, mesmo
porque foi propalada em todos os cantos da cidade pelo
Juca, foi a de que aquilo havia de ter sido obra do
Saci. Então, do Saci Forense!
São
Paulo, 14 de fevereiro de 2009
João
Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br |