História 35

                                            O Saci em Porto Feliz

                 Há alguns anos venho coletando histórias de Saci na cidade de Porto Feliz. Não são histórias muito distintas das que se contam em outras localidades. Em resumo, trata-se de um ser fantástico, negrinho de uma perna só, com cachimbo na boca e gorro vermelho na cabeça e que adora fazer travessuras. Dentre elas, espantar os cavalos, queimar a comida que está cozinhando na panela, acordar as pessoas com terríveis gargalhadas, jogar mosca na sopa, azedar o leite fervido, dar nós nas roupas estendidas nos varais, quebrar ovos nos galinheiros ou mesmo fazer o ovo gorar, colocar mais sal na comida, dar nó no rabo e na crina dos cavalos e burros... Cavalos vitimados pelo Saci levam dias para se refazerem do susto!

                Porém, nem todas as histórias são repetitivas. Uma das que coletei, diz que há vários anos uma senhora cortou um feixe de lenhas, amarrou-os bem firmes e pôs em cima da cabeça para melhor levá-los para casa. Ocorre que, no meio do caminho, o feixe começou a pesar muito a tal ponto que, desanimada, resolveu descansar na beira da estrada. Ao deixar o feixe no chão pulou de dentro um Saci, fazendo gracejos, rindo e batendo palmas. A mulher deixou o feixe no chão e saiu correndo de medo.

                Outra história dá conta da aparição de um Saci no momento em que uma mulher recolhia as roupas no varal. Esse Saci não fez nada, a não ser observá-la, de cima do muro do quintal. Não precisou mais nada para assustar a pobre mulher, que ficou uma semana sem dormir na própria casa, ficando em casa de sua mãe. Já outro relato diz sobre uma menina que, passeando pelo mato, viu num bambuzal alguns pequenos seres que se mexiam muito. Assustada, correu e não voltou ao local por algum tempo. No entanto, em sua casa começaram a ocorrer estranhos fenômenos como a aparição constante de redemoinhos de vento próximo da residência e o fato do leite fervido frequentemente azedar. Por fim, acabou por testemunhar que tais eventos eram causados por um bando de sacis.

                Em outro caso, o menino saiu de casa com a incumbência de comprar leite. Entretanto, passado algum tempo, o menino perceberam a ausência do menino. Dois dias foram necessários para que o encontrassem no meio do mato, conversando com um Saci. Depois de encontrado, o menino revelou que se perdeu pelo caminho e foi capturado pelo Saci.

                Também foram atribuídos a Sacis alguns estranhos barulhos noturnos, como de galhos de árvores se mexendo e correntes se arrastando em volta da casa enquanto os cachorros, do lado de fora, ganiam como se chorassem e arranhavam as portas desesperados na esperança de escaparem dos Sacis.

                Na antiga rua da Laje, em Porto Feliz, um Saci costumava entrar pela janela do quarto de uma casa. Isso de madrugada. Uma vez lá dentro da casa, assobiava com tamanha intensidade que deixavam os moradores atordoados. Depois, revirava tudo, achando graça em fazer tanta bagunça.

                Com relação aos Sacis que perseguiam os cavalos durante a noite, dando-lhes nós nos rabos e crinas, isso ocorria, segundo relatos, nas noites de lua cheia. Dizem, ainda, que se o Saci perder o seu cachimbo, ele procura outro para roubar.

                A primeira coisa que se deve fazer para capturar um Saci é buscar um redemoinho de vento, sobre o qual se joga uma peneira – que aprisiona o Saci – e, com cuidado, levanta-se um pouco a peneira e introduz o bocal de uma garrafa escurecida com a fumaça de uma vela branca. Quando o Saci estiver dentro da garrafa, tampa-se a mesma com uma rolha marcada com um X (artimanha necessária para evitar a sua fuga). Se não tiver a peneira, serve um rosário de mato bento. Há quem acredite que se jogando sal em cima do redemoinho, o vento cessa e logo aparece o Saci.

                Dois pescadores tardaram-se à beira do rio num dia em que estava ruim para pescaria. Por volta das 23 horas, resolveram voltar para o sítio, que distava uns oito quilômetros do local. Ao passar por uma porteira, viram o Saci que assobiou tão intensamente que ficaram atordoados e perderam a noção do caminho. Depois de muito rezarem, conseguiram voltar a si e encontraram a direção correta de sua casa. Hoje, os dois pescadores, quando não está para peixe, não esperam a situação melhorar: desistem logo da pescaria, antes que seja tarde. Outra de pescador: Na sexta-feira santa, o pescador jogou a tarrafa no rio. Ao puxar a rede, viu que a mesma estava enroscada. Teve de entrar no rio para desenroscar a tarrafa. Do outro lado do rio um Saci, de cima do barranco, ria-se à larga. Em outra oportunidade, o Saci ficou assobiando até que quatro pescadores perceberam a sua presença. O Saci se revirou num redemoinho que girava intensamente. Os pescadores saíram dali correndo.

                Alguns eventos são atribuídos ao Saci, mas não há provas para tanto. Uma mulher deixou a sua carteira em cima da mesa. Quando retornou, a carteira não estava mais lá. De repente, houve uma queda na energia e a casa ficou às escuras. Quando a energia retornou, a carteira estava na mesa, onde originalmente a deixara aquela mulher. O fato foi atribuído a um Saci, embora não houvesse aparição ou qualquer outro detalhe característico (o assobio, por exemplo) que o identificasse. Da mesma forma, o barulho de bambus se batendo uns nos outros, e a presença do redemoinho próximo ao bambuzal, foram associados a presença de sacis. Se alguém entrar num redemoinho, nunca mais será visto.

                Uma informação curiosa: O Saci era um menino como outro qualquer até que lhe sobreveio algo terrível. Sua mãe costumava fazer carne para seu marido, mas o Saci, escondido, comia a carne e o pai esbravejava com a esposa. Depois de muito sondar, a mãe viu que era o Saci quem comia a carne preparada para o pai. A mãe, então, ameaçou o Saci com uma praga, caso ele não parasse de comer a carne destinada a seu pai. Como ele desobedeceu, a mãe rogou-lhe a praga e ele virou o Saci, ou seja, esse duende de uma perna só. Outra versão diz que o menino levava marmita ao seu pai no trabalho, mas comia a carne quando descansava durante o trajeto. A mãe, desconfiada da travessura do filho, rogou-lhe uma praga e este se tornou uma criança amaldiçoada, conhecida como Saci. Talvez seja por isso que o Saci castiga as crianças malcriadas, que falam palavrões e fazem travessuras, jogando-as em cima de um espinheiro, do qual somente com a ajuda dos adultos, podem sair. Seria uma forma de se redimir de suas próprias travessuras?

                Uma criança de sete anos foi atraída para o meio da mata por uma bola grande e colorida que apareceu inopinadamente da mata e para lá retornou. O menino, que esperava a sua vez para entrar no jogo de futebol, foi atrás da bola colorida e quando se deu conta, estava perdido. Demorou mais de uma hora para encontrarem-no. Seu pai não tinha dúvidas de que se tratava de um estratagema do Saci para atrair seu filho para a mata.

                Há a história da mulher que trabalhava de carpir a plantação, mas desistiu do emprego porque não suportava ouvir o assobio do Saci o dia inteiro, eis que o negrinho matreiro ficava em cima de uma árvore atazanando a vida da pobre moça. O patrão nem questionou: sabia que ali havia mesmo Saci. As lavadeiras também são vítimas do Saci: um deles chutava-lhe a bacia de roupas lavadas, escondia o sabão e assobiava fortemente.

                Um dos relatos de Porto Feliz dá conta de que o Saci não é negro, mas tem a pele com tonalidade de vermelho “queimado” e, em vez de barrete, traz um topete de cabelo vermelho. Anda nu e tem uma perna só. No quesito travessuras, porém, continuava o mesmo: montava nos cavalos, fazendo-os correr até se cansarem; dava nós nas crinas e nos rabos dos cavalos; interceptava pessoas no meio de caminhos; assobiava pelas janelas dos quartos e jogava pedras nos telhados... A menina, que tivera o encontro com o Saci, rezava assustada a oração da Ave Maria. O Saci ria-se, dizendo: Essa reza eu já conheço. A menina, então, rezava o Pai Nosso. Da mesma forma o Saci ria e dizia já conhecer aquela oração. Foi daí que a menina rezou o Creio em Deus Pai. Foi água na fervura: o Saci saiu para não mais voltar. O Saci se espanta com essa reza, pois não a sabe de cor. De outra feita, o Saci ordenhou a vaca durante a madrugada. Quando o dia amanheceu, o bezerro não tinha leite para beber.

                Outro relato curioso: O Saci tinha duas pernas. Perdeu uma delas lutando capoeira! Como conseguiu esse feito, não se sabe. O que se sabe, por recomendação dos mais velhos, é que não se deve assobiar durante à noite. Isso atrai Sacis. Uma menina não aceitou o conselho e assobiou durante a noite. O Saci apareceu e trocou o sal pelo açúcar, trançou o rabo dos cavalos e assustou a todos da casa.

                É comum ouvir a história de que o Saci foi pego numa armadilha: a senhora, cansada de ver seus cachimbos fumados pelo Saci, resolveu encher um com pólvora. Horas depois, foi aquele estouro e o Saci saiu correndo pela janela da cozinha. Outra senhora, cansada de ter a sua cozinha invadida pelo Saci – que roubava-lhe as comidas e derrubava as panelas ao chão – fez uma armadilha. O Saci foi pego na terceira tentativa, mas quando a mulher apareceu na cozinha, o Curupira estava lá, ajudando o Saci a sair da armadilha.

                Na Fazenda Capoava, aconteceu que umas meninas brincavam de bonecas na rua, quando escureceu e longos assobios foram ouvidos. Desesperadas, correram para casa e deixaram as bonecas na rua. Quando os assobios cessaram, as meninas saíram em busca de suas bonecas. Algumas haviam sumido. As que restaram, estavam quebradas. Na rua de terra, pegadas de um só pé... Ainda na Fazenda Capoava, um cavaleiro percebeu que sua égua Boemia estava com a crina toda cheia de trancinhas. Momentos depois, cavalgando a Boemia, foi cercado por um redemoinho, assustando a égua que começou a pular e a dar coices no ar. Na Fazenda Vila Nova, um Saci perseguiu uma pessoa que passeava pelos eucaliptais. Correu até o momento em que a pessoa se viu protegida, dentro de casa, exaurida pelo cansaço da corrida. Outro sitiante, sempre que retornava para sua casa à cavalo, depois de visitar a sua namorada, era atacado em determinado local da estrada, por um Saci que, de cima de uma árvore, atirava-lhe pedras. Cansado disso, resolveu armar-se de um punhal e enfrentar o Saci. Ocorre que, naquele dia, o Saci acertou a pedrada justamente no local onde o sitiante carregava seu punhal. Diante disso, saiu em disparada com seu cavalo, retornando àquele local somente no outro dia, pela manhã, em busca de seu punhal que descansava no chão. Num sítio localizado na estrada de Porto Feliz a Sorocaba, o Saci se meteu numa brincadeira de pique-esconde, fingindo ser uma das crianças. Quando descoberto, causou o maior alvoroço.

Muitos outros viram pegadas de um só pé (em geral, o direito) próximo a rios, nas matas, nas ruas de terra... Ao retornar de um baile, alguns jovens viram estranhas pegadas na estrada. Quando chegaram a casa foram informados de que o Saci passara por ali há pouco. Caçador, por exemplo, não só vê pegadas de Saci nas matas, como vêem vultos e ouve barulhos estranhos a quem atribuem ser obra do Saci.

                Quem desafiar o Saci estará sujeitos às suas traquinagens. Um homem que não acreditava em Saci, ao ver um redemoinho, desafiou dizendo que Saci não existia. O redemoinho foi em direção ao homem, arremessando-o para o alto. O homem estatelou-se no chão, ficando todo machucado. A partir daquele dia acreditou em Saci.

                O motivo pelo qual o Saci aparece em locais próximos às matas é para facilitar a sua fuga, caso seja necessária. Leve-se em consideração que a mata é o local de seu habitat. Quando Porto Feliz tinha sua mancha urbana muito menor do que é hoje, no exato local onde hoje é a Escola Municipal Coronel Esmédio, diziam haver um bambuzal em que morava um Saci, que certa vez roubou uma panela de polenta de uma casa próxima, polenta essa que esfriava no quintal. A mulher encontrou a sua panela no meio do bambuzal, toda amassada e sem a polenta. O Saci, ao que parece, fartou-se da guloseima.

                Essas histórias foram colhidas entre meus alunos, os quais entrevistaram seus pais, avós, vizinhos entre outras pessoas, para saberem algo mais sobre o Saci. São resultado de trabalhos escolares realizados entre os anos de 2006 a 2009, com alunos da EMEF. Coronel Esmédio, na cidade de Porto Feliz.

 

                                                               Carlos Carvalho Cavalheiro – 12/04/2010.
 

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